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Reis de Portugal

D.Afonso Henriques - O Conquistador -1º Rei de Portugal- Reinou 57 anos


As campanhas em que Afonso VI, rei do reino de Leão (Espanha), se empenhava contra os mouros, atraíram à Península Ibérica diversos cavaleiros cristãos de outras nacionalidades, que vinham alistar-se na guerra santa contra os inimigos da Cruz. Entre esses nobres cavaleiros, distinguiram-se os fidalgos franceses D. Raimundo e D. Henrique de Borgonha, descendentes dos reis de França. Tão bons serviços prestaram, que D. Afonso Vl, como recompensa, nomeou D. Raimundo governador do condado da Galiza e ofereceu-lhe em casamento a filha D. Urraca. A D. Henrique deu o governo do Condado Portacalense, que ficava sujeito ao da Galiza, e a mão da outra filha, D. Teresa, no ano de 1094. Deste casamento nasceram quatro filhos, dos quais apenas um era varão, de seu nome Afonso Henriques, que havia de ser o fundador e o primeiro rei de Portugal. O Conde D. Henrique governou o Reino com muito tino e acerto, e a sua maior ambição era tornar o seu Condado um reino independente, o que nunca pode conseguir. Exaltado por uma ardente fé religiosa, algumas vezes esteve ausente das suas terras, que tinham como capital Guimarães, em viagens e peregrinações a Santiago de Compostela e à Terra Santa (Palestina). Morreu em 1114, em Astorga (Espanha). “Filho, toma esforço no meu coração. Toda a terra que eu deixo, que é de Astorga até Leão e até Coimbra, não percas dela coisa nenhuma, que eu tomei com muito trabalho. Filho, toma esforço no meu coração !” e morreu. (D. Henrique ao filho, D. Afonso Henriques, segundo documento do século Xlll). Como o príncipe D. Afonso Henriques tinha apenas três anos quando morreu seu pai, assumiu o governo do Condado sua mãe, D. Teresa. Seguindo a política de seu marido, também nunca abandonou a ideia de ser rainha, esforçando-se o mais que pode por se tornar independente do reino de Leão e aumentar os seus domínios, chegando mesmo a invadir a Galiza e a lutar contra sua irmã D. Urraca. Corria o ano de 1127. Por esse tempo governava a monarquia de Leão D. Afonso Vll, filho do sucessor de D. Urraca, o qual, para inutilizar os propósitos de D. Teresa, exigiu que esta lhe prestasse obediência, ao que ela se negou. Então, aquele rei, invadindo o Condado, foi pôr cerco a Guimarães, onde se encontrava o infante D. Afonso Henriques, que teria sido prisioneiro se, um honrado fidalgo, chamado Egas Moniz, não houvesse ficado por fiador pela vassalagem que D. Afonso Henriques, sem tropas suficientes para resistir, fora obrigado a prometer a D. Afonso Vll. Com o seu ardor guerreiro, D. Afonso Henriques, depressa esqueceu os compromissos que havia assumido. Não só deixou de prestar a tal vassalagem, como até invadiu a Galiza. Em face disso, Egas Moniz partiu, com risco da própria vida, para Toledo (Espanha), na companhia da mulher e filhos, a apresentar-se ao rei de Leão, para remissão da sua palavra não cumprida. D. Afonso Vll, maravilhado com este gesto de honra, perdoou-lhe e mandou-o em paz. Entretanto, D. Afonso Henriques, já contava 17 anos de idade, tinha-se armado a si próprio cavaleiro, três nos antes, portanto em 1125, na catedral de Samora. Por esse tempo, já muitos fidalgos, seus partidários, ansiavam vê-lo tomar as rédeas do governo, descontentes pelas mercês que D. Teresa dispensava a um galego – o conde Fernão Peres de Trava. Assim, foi D. Afonso Henriques obrigado a intervir, exigindo que a mãe lhe entregasse a governação do Condado, mas esta recusou. Então, o ainda Infante, revoltou-se e marchou contra ela à frente das suas hostes, com os seus fieis guerreiros : Soeiro Mendes de Sousa «O Grosso»; Gonçalo Mendes de Sousa «Sousão»; Egas Moniz de Ribadouro «O Aio»; Ermígio Moniz de Ribadouro; Gonçalo Mendes da Maia «O Lidador»; D. Paio Soares da Maia «Arcebispo de Braga»; Sancho Nunes de Barbosa; Afonso Nunes de Barbosa; Fernão Captivo «Alféres-Mor»; Egas Moniz de Cresconhe; Paio Mendes; Paio Ramires Ramirão; Nuno Soares Velho; Godinho Fafes de Lanhoso; Garcia Soares; entre muitos outros, derrotando-a na batalha de São Mamede, próximo de Guimarães, em 1128. D. Afonso Henriques, a partir desta data, tomou conta dos negócios do Condado. D. Teresa, segundo a tradição, recolheu, como cativa, ao castelo de Lanhoso, e os seus principais partidários foram expulsos de Portugal. A Praga de D. Teresa: Depois da Batalha de São Mamede, em que D. Afonso Henriques derrota sua mãe, esta é presa e acorrentada com ferros nos pés. É nessa altura que D. Teresa lhe roga a seguinte praga: “D. Afonso Henriques, meu filho, prendeste-me e puseste-me a ferros. Tiraste-me a terra que me deixou o meu pai e separaste-me do meu marido. Rogo a Deus que venhas a ser preso assim como eu fui. E porque puseste ferros nos meus pés, quebradas sejam as tuas pernas com ferros. Manda Deus que isto seja !”. Assim se justificaria o acidente que o primeiro rei sofreu em Badajoz, no qual partiu uma pena, já na parte final do seu reinado. http://www.castelodafeira.com/Castelo.asp (...) Após a morte do conde D. Henrique, senhor do Condado Portucalense, a viúva, D. Teresa, deixou-se envolver com um fidalgo galego, Fernão Peres de Trava, ao serviço do Arcebispo de Compostela D. Diogo Galmirez, que tinha a intenção de submeter ao controle da Galiza o Condado Portucalense. Como guarda avançada, tinham vindo para o Condado, especialmente para o Porto – onde Fernão de Trava governava já – grandes migrações galegas. Com o tempo, a pequena burguesia portucalense começou a ser substituída por gentes da Galiza. Mais tarde, o ataque económico e administrativo estendeu-se aos grandes senhores de terras e de poder, quer a norte, quer a sul do Douro. Assim sucedeu às famílias Moniz, de Riba Douro (Ermígio, Mendo e Egas), Sousas (da Maia), Nuno Soares (de Grijó) e à família de Pero Gonçalves (de Marnel). Estas famílias, que tinham vastas propriedades quer no Alto Minho, Lamego, quer na Terra de Santa Maria, foram sendo confrontadas com a ameaça de perderem tudo- cargos, prestígio, e bens – por intervenção de uma campanha orquestrada do exterior, primeiramente subtil e, depois frontal. Dentro destas famílias notáveis, é justo destacar dois nomes: Ermígio Moniz e Pero Gonçalves do Marnel. O primeiro, ao tempo de revolta dos barões portucalenses, era alcaide do Castelo de Neiva. Antes tinha sido afastado do governo da Terra de Santa Maria e da alcaidaria do Castelo. Figura muito próxima do Infante D. Afonso, era irmão do célebre Egas Moniz, que também tinha sido afastado da Terra de Lamego. O segundo, Pero Gonçalves de Marnel, tinha sido substituído no governo de Coimbra pelo próprio Fernão Peres de Trava. Ao tempo da revolta (1127/1128) era governador da Terra de Santa Maria e alcaide do Castelo do mesmo nome. O galego Fernão Peres de Trava ocupava assim o governo dos dois pólos fundamentais do Condado Portucalense – o de Portucale e de Coimbra. Uma hora houve em que estas famílias resolveram juntar-se e revoltar-se. A este movimento de revolta esteve ligado o Infante D. Afonso que, também, não via com bons olhos a situação da mãe e que começava a temer pelo futuro que lhe estava a ser reservado. Ele, que, ao tomar a iniciativa de se armar cavaleiro, por si próprio, em Zamora, estava a usar de uma prerrogativa reservada somente aos filhos de reis... Com o poderio da sua força militar organizada, com o apoio da pujança da sua vida económica e com o estímulo do sentimento de independência de que já desfrutavam, os homens de Santa Maria avançaram para Guimarães – então capital do poder político – e onde o Infante D. Afonso se encontrava já a mobilizar as gentes daqueles sítios. Ermígio Moniz, a norte do Douro e a partir do Castelo de Neiva, para lá se dirigiu também com as suas forças. Para a mesma cidade de Guimarães convergira Fernão Peres de Trava com as tropas de Coimbra, apoiado com o reforço das forças galegas que a ele se juntaram no Castelo de Lanhoso. Em 13 de Junho de 1128 as tropas galegas foram vencidas. Esta batalha - indiscutível marco da história pátria - não foi, pois, a causa da nossa independência, mas a consequência de um movimento independentista de carácter colectivo e abrangendo uma grande área do Condado quer a norte quer a sul do Douro. A tentativa, por parte da Galiza de extinguir rapidamente o movimento independentista latente acabou por precipitar a mesma independência. Neste movimento militar intervieram, pois, com indiscutível influência dois personagens fortemente ligados à Terra e ao Castelo de Santa Maria: Pero Gonçalves de Marnel e Ermígio Moniz. Conde de Borgonha, o Bom, fundador da monarquia portuguesa, por ter sido pai de D. Afonso Henriques, 1.º rei de Portugal. Nasceu em Dijon (França) em 1057, data que se considera mais provável, e faleceu em Astorga em 1114. Era o 4.º filho do duque Henrique de Borgonha e de sua mulher, Sibila, neto de Roberto I, duque de Borgonha-Baixa, e bisneto de Roberto, rei de França. Quando em 1086 as notícias da guerra contra os muçulmanos chamaram a alistar-se debaixo das bandeiras de D. Afonso VI, rei de Leão e de Castela, os príncipes dalém dos Pirinéus, o príncipe Henrique veio para Espanha na companhia de seu primo Raimundo de Borgonha, filho do conde Guilherme de Borgonha, irmão de sua mãe. Os dois príncipes granjearam grande reputação pelo seu valor nas guerras em que entraram, e em prémio dos serviços prestados, D. Afonso VI casou sua filha D. Urraca com Raimundo, e D. Teresa ou Tareja, filha bastarda, com D. Henrique. Em 1093 D. Afonso atravessou o rio Mondego, tomou Santarém, Lisboa e Sintra, dilatando assim o domínio cristão até ao rio Tejo. Como o ocidente da península hispânica formava um domínio já bastante extenso para que os seus chefes pudessem lembrar-se em se tornarem independentes, pensou em delegar o seu poder para esses lados num homem de confiança. Fez pois de Raimundo conde soberano de Galiza, e de Henrique governador do condado de Portucale, sob a suserania de Raimundo. O território entre o Minho e o Tejo compreendia então três territórios o condado de Portucale, que ia do Minho ao Douro; o de Coimbra, do Douro ao Mondego; e o novamente conquistado aos sarracenos, do Mondego ao Tejo, de que D. Afonso fizera governador Soeiro Mendes, com a sede do governo em Santarém. Este território foi retomado pelos moiros logo em 1095. e parece que este desastre contribuiu para que D. Afonso VI libertasse o conde D. Henrique da suserania de seu primo Raimundo, porque em 1097 já governava independentemente o seu condado, e em 1101 encontrava-se na corte do rei de Leão e de Castela. Estavam, portanto, sossegadas as fronteiras de Portugal, e os muçulmanos, concentrando todos os seus esforços no oriente da península e nas fronteiras de Castela, contentavam-se no ocidente só com a posse de Lisboa e de Sintra, que por esse lado limitavam o seu império já tão disseminado. Vendo a Espanha quase tranquila, procurou o conde D. Henrique outro campo em que pudesse empregar a sua irrequieta actividade. Seduziu-o, como a tantos outros príncipes, o movimento das cruzadas. Entre os anos de 1102 e 1104 continuas expedições demandavam a Terra Santa, e D. Henrique, nos primeiros meses de 1103 partiu para o Oriente, donde voltou em 1105, sem que a historia faça menção dos feitos que praticou, o que se explica por ele ter partido mais como simples voluntário, do que como chefe dalgum poderoso contingente. Desde essa época envolveu-se nas intrigas que tinham por fim ampliar o território que dominava. e conseguir tornar-se independente. Continuando a guerrear os moiros, conquistou-lhe mais terras, vencendo o régulo Hecha e o poderoso rei de Marrocos Hali Aben Joseph. Excelente guerreiro, sábio e prudente administrador, aumentou consideravelmente as terras do seu condado, merecendo o cognome de Bom, que a historia lhe deu. D. Afonso VI não tinha filho varão legítimo, por conseguinte Raimundo, marido de D. Urraca, esperava receber a herança, mas o monarca mostrava-se tão afeiçoado a seu filho natural D. Sancho que se receava que lhe deixasse a coroa em testamento. Prevendo este caso, e dispondo-se a anular o testamento pela força, pediu a aliança de seu primo, e fez com ele um pacto em 1107, pelo qual o conde D. Henrique se comprometia a auxiliá-lo nas suas pretensões à, coroa, recebendo em troca ou o distrito de Galiza ou o de Toledo, e a terça parte do tesouro. Raimundo, porém. morreu em Outubro desse mesmo ano, D. Sancho pouco tempo depois, e D. Afonso em 1109, ficando D. Urraca legitima herdeira. Diz-se que D. Henrique, vendo o sogro já moribundo, procurou persuadi-lo a que lhe legasse o ceptro, porque não convinha que passasse para as mãos de D. Urraca, apesar da legitimidade da herança, ou para as de D. Afonso, filho do conde Raimundo, criança de três anos. Nada conseguiu, mas os barões castelhanos obrigaram D. Urraca a um segundo casamento, com D. Afonso, rei de Aragão e Navarra, casamento que o papa anulou alegando serem os noivos parentes em grau proibitivo. D. Afonso não se importou com a deliberação do papa, porém D. Urraca, que casara contra vontade, tomou o partido contrário ao do marido, que pretendia despojá-la dos seus estados. Estabeleceu-se a guerra civil, e D. Henrique tomou a defesa da cunhada. Indo depois a Astorga, ali adoeceu e morreu. O seu corpo foi trasladado para Braga, e sepultado numa capela da sé. Em 1512 o arcebispo. D. Diogo de Sousa o transportou para a capela-mor da mesma igreja, onde se tem conservado. Por morte de seu marido, ficou D. Teresa governando o condado de Portucale na menoridade de seu filho D. Afonso Henriques, que apenas contava três anos de idade. Em 1137, já senhor do poder, após a vitória na Batalha de São Mamede, D. Afonso Henriques, como resposta ao cerco de Guimarães e, no desejo sempre crescente de alcançar a independência para o Condado, invadiu a Galiza e derrotou os leoneses na Batalha de Cerneja. Notando, porém, que os mouros atacavam os seus domínios pelo sul, viu-se obrigado no mesmo ano a pedir a paz a Afonso Vll, em condições desvantajosas. Em seguida, organizou as suas tropas e correu ao Alentejo a defender as suas fronteiras ameaçadas pelo árabes. A 25 de Julho de 1139, D. Afonso Henriques (na altura ainda Conde) enfrenta os exércitos combinados de cinco reis mouros. Segundo uma lenda, tem uma visão: Cristo apareceu-lhe incitando-o à batalha. Saindo vencedor, D. Afonso Henriques intitula-se Rei de Portugal e mandou pintar sobre a cruz, do seu estandarte, cinco pequenos escudos azuis (quinas), simbolizando os cinco reis mouros vencidos, adornados cada um por cinco pontos brancos, representando as cinco chagas de Cristo. (As referências ao número de pontos em cada quina vai de 5 a 12 em que o seu significado varia desde serem chagas de Cristo, às traiçoeiras moedas de Judas ou a castelos conquistados aos mouros). Como D. Afonso Henriques já se intitulava rei de Portugal, marchando sobre o norte, invadiu novamente a Galiza, em 1140, para anular a paz de Tui. Afonso Vll, respondendo a esta afronta, invadiu por sua vez os territórios do condado, avançando até junto de Arcos de Valdevez. Travou-se logo um torneio em que os portugueses saíram vencedores. Seguidamente, foi o próprio rei de Leão que propôs a paz, tendo-se combinado um armistício, de que resultou o Tratado de Samora, em 1143. Com a protecção do cardeal Guido de Viço, representante do Papa, Afonso Vll reconhecia por esse tratado o título de rei a D. Afonso Henriques, e o Condado era, por fim, declarado Reino Independente com o nome de Portugal. Para melhor garantir a independência e firmar a Coroa, D. Afonso Henriques ofereceu ao Papa Inocêncio ll, uma pensão anual de quatro onças em ouro. Liberto das lutas contra o rei de Leão, D. Afonso Henriques voltou-se novamente contra os mouros, conquistando-lhes Santarém e Lisboa, no ano de 1147, sendo nesta última auxiliado pelos Cruzados. No ano seguinte, conquistou Sintra, Almada e Palmela; Alcácer do Sal em 1158, Beja em 1162 e Évora em 1165; em 1166, conquistou Moura, Serpa e Juromenha. Depois … em 1169, quebrou as pazes com seu genro Fernando ll, rei de Leão e tentou conquistar Badajoz. Mas foi infeliz nesta empresa, tendo partido uma perna de encontro a uma das portas da cidade, pelo que ficou prisioneiro. Fernando ll, porém, querendo ser generoso com o sogro, soltou-o pouco tempo depois, mediante o compromisso de restituição de todas as terras que ele tinha conquistado na Galiza. Neste reinado foram fundados os Mosteiro de Alcobaça, o de Santa Cruz, em Coimbra, e as igrejas de São João Baptista, em Tarouca, e de São Vicente de Fora, em Lisboa. D. Afonso Henriques morreu em 1185, tendo governado 12 anos como Príncipe e 45 como rei. O cognome histórico “o Conquistador”, teve origens nas muitas conquistas por ele alcançadas. Foi o fundador do Reino de Portugal. Aquando da sua morte, os mouros dominavam apenas o território que hoje é o Algarve. (Seus restos mortais encontram-se num monumental mausoléu manuelino, no Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, ao lado de sua mulher e de seus filhos D. Sancho l e D. Afonso ll. Os antigos livros de linhagens do século XlV são as principais fontes de descrição dos factos ocorridos nos Primórdios da Nacionalidade, em que se relatam episódios bastante pitorescos. Um deles acontece nos tempos de Afonso Vll de Leão, em que o conde Mem Soares andava desavindo com um cunhado pela posse da vila de Novelas. O rei nomeou Mem Soares adiantado-mor à do mesmo na região de Portugal. Aproveitando-se desta autoridade foi a Novelas e, enquanto o cunhado dormia na companhia de mais sete fidalgos, arrancou-lhe os olhos. Mais tarde, um cavaleiro vassalo dos um dos condes cegos acabaria por matar Mem Soares. Muitos anos depois, sendo D. Afonso Henriques já rei de Portugal, foi visitar o conde D. Gonçalo de Sousa à sua quinta de Ulhão. Enquanto o anfitrião preparava o jantar, o rei Conquistador, fazia amor com a condessa. O marido voltou com cara de poucos amigos mas limitou-se a dizer: “Levantai-vos que a comida já está pronta”. Enquanto comiam o conde mandou tosquiar a mulher e devolveu-a aos pais montada numa azémola (burra). D. Afonso Henriques não escondeu a sua reprovação e dirigindo-se para o conde, afirmou: “D. Gonçalo por menos que isto, um adiantado de meu avô cegou sete condes !”. Retorquiu o conde: “Cegou-os a torto e morreu por isso”. D. Afonso Henriques Teria nascido no ano de 1111 e faleceu a 6 de Dezembro de 1185. Fundador da monarquia portuguesa e um dos vultos mais notáveis da nossa. História e da História da Idade Média; era mais conhecido pelo nome patronímico de D. Afonso Henriques. Seu pai, o conde de Borgonha D. Henrique, viera a Espanha auxiliar el-rei D. Afonso VI, de Leão, na guerra contra os infiéis, e D. Afonso, ficando vitorioso, concedeu-lhe em recompensa a mão de sua filha ilegítima, D. Teresa, e o governo das terras de Portugal. D. Henrique era ambicioso, e não tardou a conseguir o ficar independente da espécie de suserania, que pesava sobre ele. D. Afonso Henriques nasceu. em Guimarães, em 1111 onde tem um monumento, e até aos 12 anos esteve entregue aos cuidados de seu aio, Egas Moniz, honrado e lealíssimo carácter que tantas provas lhe deu de dedicação e amor. Aos 14 anos foi armado cavaleiro na catedral de Samora. Por morte de seu pai tendo D. Afonso apenas 3 anos, D. Teresa ficara governando Portucale durante a sua menoridade. Sendo ambiciosa, esforçava-se por subtrair os seus estados à suserania de Leão; daqui resultaram grandes lutas, em que o espírito da independência, que sempre tinham manifestado os barões do sul do Minho, auxiliou poderosamente as suas vistas ambiciosas. D. Teresa, porém, deixou-se cativar pelo prestígio dum fidalgo galego, D. Fernão Peres, conde de Trava, e os projectos de ambição tomaram um carácter mais pessoal. 0 conde de Trava insinuou-se no espírito de D. Teresa, pretendendo desposá-la para assim desapossar o jovem Afonso Henriques dos estados que de direito lhe pertenciam. D. Afonso, apesar dos seus verdes anos, e que não vira nunca com bons olhos os amores de sua mãe, tornou-se chefe do movimento revolucionário, preparado pelos fidalgos, verdadeiros e leais portugueses, que exigiam a conservação da sua Independência. D. Afonso VII, rei de Leão, que sucedera a seu pai D. Afonso VI, não desistindo do intento de conservar a suserania sobre os estados de Portucale, aproveitou o ensejo, para o invadir em som de guerra, cercando exactamente Guimarães. Esta invasão veio perturbar dalguma forma os dois partidos, o de D. Teresa e o de seu filho, e acirrar ainda mais os ânimos; o jovem príncipe português, vendo-se a braços com a guerra interna, não desejava envolver-se em conflitos externos, e por isso, querendo ver-se livre o mais breve possível do seu adversário, prometeu tudo quanto ele exigia, empenhando Egas Moniz a sua palavra em como a promessa seria cumprida. D. Teresa também acedeu às suas exigências, D. Afonso retirou-se tranquilamente para os seus estados. Então, tornou-se ainda mais encarniçada a guerra entre os dois partidos; e estando D. Teresa em Guimarães com o conde de Trava, D. Afonso Henriques marchou contra eles seguido pela maior parte dos fidalgos portugueses. 0 conde do Trava saiu-lhe ao caminho com o seu exército nos campos de S. Mamede, onde se deu renhida batalha, em que ficou vitorioso o jovem principie, sendo expulsos do reino D. Teresa e o conde de Trava. Esta batalha deu se em 1128. O entusiasmo levou então D. Afonso Henriques a esquecer a promessa feita pelo seu aio, mostrando-se resolvido a não a cumprir. Egas Moniz entendeu que era preciso uma vítima expiatória, para não manchar a aurora do novo reino, e foi apresentar-se ao rei de Leão, acompanhado de sua mulher e filhos, oferecendo-lhe a sua vida e a de todos os seus, para resgate da sua fé. D. Afonso VII impressionou-se muito com a grandeza desta dedicação e honradez, e despediu o cavaleiro, incólume e livre, dando-lhe provas do grande apreço que lhe merecia. Nas guerras com Leão e as lutas, tanto internas como externas, que teve de sustentar, dominado pelo pensamento de consolidar a independência de Portugal, adquiriu D. Afonso Henriques a firmeza e o heroísmo, que depois tão brilhantemente se haviam de afirmar e que tantos respeitos lhe conquistaram. Enquanto se entretinha em combates contra os leoneses, ficando quase sempre vencedor, soube que os muçulmanos haviam invadido os seus estados. Pela primeira vez se via obrigado a ocupar-se desses dominadores da península; os mouros haviam tomado Leiria, derrotado os cristãos em Tomar, e tinham chegado quase às portas de Coimbra. Esta circunstância obrigou o jovem príncipe a pedir pazes a seu primo, D. Afonso VII. Então fortificou a parte do sul do reino, e partindo para o: Alentejo deu a célebre batalha de Ourique, em 1139, em que o seu valor e a sua extraordinária valentia se armaram dum modo heróico. Os nossos historiadores quiseram, que nesta batalha fosse D. Afonso aclamado rei, pelos soldados entusiasmados. Mas as datas opõem-se, porque o combate de Ourique deu-se em Julho de 1139, e há um documento de 1 de Outubro desse ano, em que D. Afonso Henriques recebe ainda o tratamento de infante. 0 facto é que, desde o princípio do seu governo, os súbditos foram pouco a pouco habituando-se a tratá-lo como rei, mas em 1140 é que principiaram a aparecer documentos repetidos, tratando-o como rei de Portugal. A ambição de D. Afonso era a realeza, mas o seu primo, D. Afonso VII, não queria de forma alguma reconhece-lo como rei. Em 1143, dirigiu-se então ao papa Inocêncio II, declarou Portugal tributário da Santa Sé, com o censo anual de 4 onças de ouro, e reclamou para a nova monarquia, em troca, a protecção pontifícia. 0 papa acedeu. Ainda assim D. Afonso VII, assinando depois em Samora a paz com seu primo, não lhe reconheceu a realeza, mas não protestou contra o título de rei, que ele tomava na escritura, a que assistiu o legado do papa, sancionando com a sua presença a aurora da nova monarquia. A coroa estava finalmente consolidada na fronte de D. Afonso Henriques. Tinham-lha oferecido nas pontas das espadas os seus valentes cavaleiros, colocara-a ele audaciosamente sobre a cabeça com as mãos vitoriosas, e inclinando-a levemente diante da tiara, assegurara-lhe a inviolabilidade, garantida pelos raios protectores do Vaticano. D. Afonso, vendo conquistada definitivamente a independência de Portugal, ambicionou aumentar o território, apertado em limites estreitíssimos. Cingido ao norte e a leste pelo reino de Leão, ao ocidente pelo oceano, Portugal só podia ampliar-se para o sul à custa de renhidas batalhas e porfiada luta. Começou então uma série de conquistas, qual delas mais valentemente disputada aos mouros. Em 1147 é Santarém tomada por surpresa; durante 22 anos de 1147 a 1163, houve continuas invasões na província de Alcácer do Sal; a cidade é que sempre resistia, caindo afinal nas mãos dos portugueses em 1158. Desde essa data até 1169, a vida de D. Afonso Henriques foi uma série de combates em que sempre saia vencedor; à conquista de Lisboa, seguira-se a de Santarém; as vilas de Palmela, Almada e Sintra, caíram em poder do novo rei, que em breve se tornou também senhor de todas as terras entre o Mondego e o Tejo; Beja foi tomada em 1162, Évora, Moura, Serpa e Sesimbra, em 1166; continuou sempre combatendo, apesar de já muito adiantado em anos, tendo por companheiros esforçados homens destemidos como Martim Moniz, Geraldo sem pavor, Gonçalo Mendes da Maia, Fernando Gonçalves, etc. O período das gloriosas façanhas militares do fundador da monarquia encerra-se epicamente com a heróica resistência de Santarém e Lisboa. em 1184, contra a invasão do emir Iussuf Abu Jacub, morto com uma lançada, quando atravessava o Tejo, por D. Sancho, filho de D. Afonso Henriques. 0 grande conquistador casara em 1146 com D. Mafalda, filha de Amadeu II, conde de Mariana e Sabóia; f. com 74 anos a 6 de Dezembro de 1185. Dizem os historiadores que era de estatura atlética e porte majestoso. Fundou o convento de Santa Cruz de Coimbra, onde jaz sepultado, Santa Maria de Alcobaça, S. João Baptista de Tarouca, e S. Vicente de Fora em Lisboa. Fundou duas ordens militares. a da Ala, que já, não existe; e a de S. Bento de Avir; introduziu em Portugal os cavaleiros de Rodes, e começou a ponte de Coimbra.



D.Sancho I - O Povoador - 2º Rei de Portugal - Reinou 26 anos


Embora D. Sancho l se preocupasse mais com o povoamento e pacificação do País, ainda assim tomou aos árabes os castelo de Alvor e Albufeira, a cidade de Silves e outras terras em 1189. Mas com o exército enfraquecido e cansado por um longo período de guerras, D. Sancho l perdeu não só as terras que havia conquistado mas também as que lhe tinham ficado de seu pai, situadas para o sul do rio Tejo, com excepção de Évora. Perante tal cenário, mandou vir D. Sancho l colonos de França e da Alemanha, que os fez distribuírem por bastantes terras e a quem entregou o cultivo dos campos. Com esses colonos e com muitos cruzados que, passando pelos nossos portos, por cá iam ficando, conseguiu aumentar e fomentar a população e a riqueza do Reino. No seu tempo, foram concedidos forais a muitas terras e construídos alguns castelos e fortalezas, tais como: Covilhã, Belmonte, Azambuja, Guarda, etc. D. Sancho morreu em Coimbra e seus restos mortais encontram-se no mosteiro de Santa Cruz, junto a seu pais e sua mãe. . D. Sancho I – O Povoador http://observador.weblog.com.pt/ D. Sancho I nasceu em 11 de Novembro de 1154 pelo que, quando ascendeu ao trono, em 1185, com 29 anos de idade, já tinha uma razoável experiência de governo. Por volta de 1189, aproveitando a passagem dos cruzados por Portugal, lança-se em direcção ao Sul e conquista a cidade de Silves, passando a intitular-se rei de Portugal e dos Algarves. Durante o reinado de D. Sancho I ocorreram uma série de catástrofes naturais, surtos de fome e peste que provocaram muitas mortes e tumultos sociais. Estes acontecimentos, acrescidos da vontade do monarca em incentivar as populações a deslocarem-se para as cidades recém conquistadas justificam que o seu cognome seja ‘O Povoador’. São de realçar a atribuição dos forais de Gouveia e da Covilhã (1186), de Viseu e Bragança no ano seguinte. D. Sancho, sempre com o intuito de chamar colonos para as regiões mais desabitadas, fez importantes doações de terras às Ordens Militares que eram, lembremo-nos os Hospitalários, Calatrava, Templários e Santiago de Espada. Estas Ordens Militares tiveram um papel decisivo na defesa das incursões mouras. Mantendo a tradição do pai, este rei entrou, entre 1202 e 1207, em litígio com os bispos de Coimbra e do Porto, devido à indefinição dos poderes temporais da Igreja. Em virtude da sua tomada de posição, D. Sancho foi excomungado pelo Papa Inocêncio III. Esta luta com Igreja vem, como se vê, desde os primórdios da nacionalidade e só vai terminar com a Concordata de 1940. Com a sua morte em 1211, sucedeu-lhe o filho mais velho D. Afonso. De realçar que esta sucessão foi mais determinada pela vontade do rei do que pelo facto de D. Afonso ser o mais velho. Na época ainda não estava estabelecido ser o mais velho o herdeiro. Só com algum custo, D. Pedro e D. Fernando, os outros dois filhos de D. Sancho, se convenceram que não herdariam o trono. D. SANCHO I - O POVOADOR - (reinou de 1185 a 1211) http://www.cunhasimoes.net/cp/Textos/Historia/LivHistoria03.htm D. Sancho I foi chamado de "Povoador" em virtude de ter colocado habitantes em lugares onde não havia ninguém para os trabalhar e defender, e os árabes (mouros, muçulmanos, sarracenos) podiam ocupar. Convidou muitos colonos estrangeiros para aqui se fixarem. Utilizou, tal como seu pai, os serviços da gente ligada à Igreja, para convencer as pessoas a viver em Portugal. Guilherme, Deão de Silves ( O Deão é um dignitário eclesiástico que preside ao cabido. O cabido é o conjunto de cónegos de uma catedral) foi por essa Europa fora arregimentar gente da França e da Flandres (zona da Bélgica e da Holanda) para povoar o país. Embora pequeno, Portugal não tinha gente suficiente, nem para o defender, nem para o desenvolver. Aqui se misturaram povos de todas as raças, de todos os credos e de todos os sangues. Ele soube concretizar o pensamento do pai e dos avós ao consolidar um país onde os povos se sentissem livres e seguros. Entregou parte das terras a colonos franceses e flamengos e às Ordens Militares (as Ordens Religiosas Militares: Templários, Santiago, Hospitalários, Calatrava, nunca combatiam contra os reis cristãos) que se tinham formado por causa das Cruzadas. Alguns dos monges guerreiros acabaram por se fixar no território devido às benesses concedidas pelo rei. Em 1195 dá ao Castelo de Leiria, e ao seu termo, a categoria de município (a cidade tinha leis próprias). No início do reinado, D. Sancho, tenta fixar as fronteiras até ao Algarve: conquista Alvor, Silves, Albufeira, mas os árabes contra atacaram, fazendo-lhe perder estas terras e ainda Alcácer, Palmela e Almada. A partir deste momento o rei compreendeu que valia mais um pássaro na mão do que dois a voar. Dedicou todo o cuidado a tornar estável o pequeno território e a deixá-lo crescer naturalmente. D. Sancho I, apesar de utilizar os serviços da Igreja, teve contudo alguns conflitos com os bispos do Porto, de Coimbra e ainda com a Santa Sé devido ao pagamento do censo. Em 1210, D. Sancho, isenta o clero do serviço militar, salvo em caso de invasão árabe. D. Sancho I lutou com dificuldades de toda a espécie, desde a peste, tremores de terra, fome e guerras; mesmo assim deixou consolidado e rico o pedaço de terra que pouco ia além de Lisboa. Foi no reinado de D. Sancho I que nasceu o taumaturgo Santo António de Lisboa (1195-1231). A poesia dá os seus primeiros passos. D. Sancho I é um dos nossos primeiros trovadores

D .Afonso II - O Gordo 3º Rei de Portugal - Reinou 12 anos

Logo que subiu ao trono, convocou em 1211, as Cortes de Coimbra, as mais antigas de que há memória, onde se tomaram providências tendentes à protecção da Coroa e das classes populares, e a regularizar as relações com o clero. Com o fim de auxiliar o sogro, Afonso Vlll de Castela, que andava em guerra com os mouros, mandou D. Afonso ll àquele país um corpo de tropas para combater os árabes. Estes, sofreram uma grande derrota na batalha de Navas de Tolosa, em 1212. Em 1217, auxiliado pelos cruzados, D. Afonso ll reconquistou aos mouros a praça de Alcácer do Sal. Este monarca teve importantes desavenças com os irmãos, por se negar a ceder os senhorios e bens que seu pai, D. Sancho l, lhes havia deixado em testamento. Seus restos mortais encontram-se no mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra Os Lusíadas - CANTO III (...) 90 - Morte de Sancho I. Sucede-lhe Afonso II. Alcácer-do-Sal "Mas entre tantas palmas salteado Da temerosa morte, fica herdeiro Um filho seu, de todos estimado, Que foi segundo Afonso, e Rei terceiro. No tempo deste, aos Mouros foi tomado Alcácer-do-Sal por derradeiro; Porque dantes os Mouros o tomaram, Mas agora destruídos o pagaram. Terceiro rei de Portugal, nasceu em Coimbra a 23 de Abril 1185 e morreu na mesma cidade a 25 de Março 1223. Afonso II era filho do rei Sancho I de Portugal e da sua mulher, Dulce de Barcelona, infanta de Aragão. Afonso sucedeu ao seu pai em 1211. Os primeiros anos do seu reinado foram marcados por violentos conflitos internos entre Afonso II e as suas irmãs Mafalda, Teresa e Sancha (a quem seu pai legara em testamento, sob o título de rainhas, a posse de alguns castelos no centro do país - Montemor-o-Velho, Seia e Alenquer -, com as respectivas vilas, termos, alcaidarias e rendimentos), numa tentativa de centralizar o poder régio, o que foi resolvido apenas com o confisco dos bens e exílio para Castela ou recolhimento a mosteiros das infantas. O reinado de Afonso II caracterizou um novo estilo de governação, contrário à tendência belicista dos seus antecessores. Afonso II não contestou as suas fronteiras com Leão e Castela, nem procurou a expansão para Sul (não obstante no seu reinado ter sido tomada aos Mouros a cidade de Alcácer do Sal, em 1217, mas por iniciativa de um grupo de nobres liderados pelo bispo de Lisboa), preferindo sim consolidar a estrutura económica e social do país. O primeiro conjunto de leis portuguesas é de sua autoria e visam principalmente temas como a propriedade privada, direito civil e cunhagem de moeda. Foram ainda enviadas embaixadas a diversos países europeus, com o objectivo de estabelecer tratados comerciais. Apesar de, como já dissemos, não ter tido preocupações militares, enviou tropas portuguesas que, ao lado de castelhanas, aragonesas e francesas, combateram bravamente na célebre batalha de Navas de Tolosa na defesa da Península Ibérica contra os muçulmanos. Outras reformas de Afonso II tocaram na relação da coroa Portuguesa com o Papa. Com vista à obtenção do reconhecimento da independência de Portugal, Afonso Henriques, seu avô, foi obrigado a legislar vários privilégios para a Igreja. Anos depois, estas medidas começaram a ser um peso para Portugal, que via a Igreja desenvolver-se como um estado dentro do estado. Com a existência de Portugal firmemente estabelecida, Afonso II procurou minar o poder clerical dentro do país e aplicar parte das receitas das igrejas em propósitos de utilidade nacional. Esta atitude deu origem a um conflito diplomático entre o Papado e Portugal. Depois de ter sido excomungado pelo Papa Honório III, Afonso II prometeu rectificar os seus erros contra a Igreja, mas morreu em 1223 excomungado, sem fazer nenhum esforço sério para mudar a sua política. Só após a resolução do conflito com a Igreja, logo nos primeiros meses de reinado do seu sucessor Sancho II, pôde finalmente Afonso II descansar em paz no Mosteiro de Alcobaça (foi o primeiro monarca a fazer da abadia cisterciense o panteão real).

D.Sancho II - O Capelo - 4º Rei de Portugal - Reinou 25 anos

Neste reinado continuaram as reconquistas às terras perdidas para os mouros. D. Sancho ll, empenhando-se vigorosamente na guerra contra os árabes, apoderou-se em 1229 de Elvas e Juromenha; em 1232, de Moura e Serpa; em 1234 de Aljustrel; Mértola, Cacela, Tavira e outras terras em 1238. As violências praticadas por uma parte da nobreza contra o clero e o povo, envolveram o Reino em desordens constantes. O rei, apesar de enérgico na luta contra os mouros, mostrava-se irresoluto e incapaz de reprimir, como era preciso, semelhantes abusos, que vinham enfraquecendo a disciplina e o poder real. Os prelados portugueses, aproveitando o descontentamento que, por isso, lavrava em quase todo o Reino, queixaram-se ao Papa Inocêncio lV, que, por bula firmada em Julho de 1245, depôs o monarca, entregando o governo de Portugal a D. Afonso, irmão de D. Sancho ll. O rei deposto tentou ainda opor-se às determinações do Papa e aos partidários de seu irmão Afonso, mas, por fim, teve de desistir, retirando-se para Toledo (Espanha), onde em 1248 veio a falecer e em cuja catedral se encontram seus restos mortais. Todavia, possuía o rei amigos verdadeiros, entre estes, contam-se Fernão Rodrigues Pacheco e Martim de Freitas, que só entregou ao regente D. Afonso as chaves do Castelo de Coimbra, de que era alcaide, depois de ir a Toledo certificar-se da morte do rei. Fernão Rodrigues Pacheco, alcaide-mor do castelo de Celorico nesta data, não quis entregar a praça a D. Afonso III . (Após a deposição de D. Sancho II (1209-1248) em 1245, sendo o governo do reino confiado ao seu irmão, o infante D. Afonso, refugiou-se o primeiro em Toledo, no reino de Castela. Reza a lenda que Martim de Freitas, alcaide do Castelo de Coimbra, fiel a D. Sancho II, a quem prestara menagem, recusou-se a entregar o castelo ao regente, mesmo suportando um longo cerco, iniciado em 1246. Informado do falecimento do soberano naquela cidade castelhana (Janeiro de 1248), pediu e obteve um salvo conduto e foi, por seus próprios meios, certificar-se da notícia. Lá chegando, aberto o caixão, depositou as chaves do castelo sobre o cadáver do seu senhor, retirando-as em seguida para então as entregar ao novo soberano, como seu legítimo senhor. (in: Rui de Pina.) CANTO III (...) 91 - Sancho II. Sua Deposição "Morto depois Afonso, lhe sucede Sancho segundo, manso e descuidado, Que tanto em seus descuidos se desmede, Que de outrem, quem mandava, era mandado. De governar o Reino, que outro pede, Por causa dos privados foi privado, Porque, como por eles se regia, Em todos os seus vícios consentia. 92 "Não era Sancho, não, tão desonesto Como Nero, que um moço recebia Por mulher, e depois horrendo incesto Com a mãe Agripina cometia; Nem tão cruel às gentes e molesto, Que a cidade queimasse onde vivia, Nem tão mau como foi Heliogabalo, Nem como o mole Rei Sardanapalo. 93 "Nem era o povo seu tiranizado, Como Sicília foi de seus tiranos; Nem tinha como Fálaris achado Género de tormentos inumanos; Mas o Reino, de altivo e costumado A senhores em tudo soberanos, A Rei não obedece, nem consente, Que não for mais que todos excelente (...) D. Sancho II ( (cognominado O Capelo) http://topazio1950.blogs.sapo.pt/211523.html Por haver usado um (capelo: capuz de frades) enquanto criança; alternativamente, é também conhecido como O Pio ou O Piedoso), quarto rei de Portugal, nasceu em Coimbra a 8 de Setembro 1209, faz hoje 797 anos, filho do rei Afonso II de Portugal e de sua rainha Urraca de Castela. Sancho subiu ao trono em 1233 e foi sucedido pelo irmão Afonso III em 1248 (embora tenha abdicado em 1247, só após a sua morte Afonso se declarou rei). Por altura da sua coroação, Portugal encontrava-se envolvido num sério conflito diplomático com a Igreja Católica. O seu pai, o rei Afonso II, havia sido excomungado pelo Papa Honório III, pelas suas tentativas de reduzir o poder da Igreja dentro do país. Sancho II assinou um tratado de 10 pontos com o Papa, mas não fez muita questão em passá-lo à prática, dando mais atenção à Reconquista da Península Ibérica. Sancho II conquistou várias cidades no Algarve e no Alentejo tendo, para tal, muito contribuído a acção da Ordem de Santiago. Esta Ordem Militar recebeu como pagamento dos serviços prestados diversas povoações, tais como Aljustrel, Sesimbra, Aljafar de Pena, Mértola, Aiamonte e Tavira. Sancho II provou ser um general capaz e eficiente, mas no campo administrativo mostrou-se menos dotado. O rei manteve-se sobretudo interessado pelo lado militar do seu reinado e assim abriu o flanco para disputas internas e intrigas da nobreza. Com a situação da Igreja bastante comprometida, o bispo do Porto Martinho Rodrigues fez uma queixa formal ao Papa, que no século XIII detinha poder de colocar e retirar coroas conforme os seus interesses. No concílio de Lyon (1245), o Papa Inocêncio IV, através da bula Inter alia desiderabilia e Grandi non emmerito' excomungou e depôs Sancho II, considerando-o um «rex innutilis» (ou seja, que não sabia administrar a justiça no seu reino), tendo ordenado aos Portugueses que escolhessem um novo rei para substituir o herege. Em 1246, o irmão mais novo de Sancho Afonso, então a viver em França como Conde de Bolonha, foi convidado a ocupar o trono real. Numa assembleia de prelados e nobres portugueses, reunida em Paris, D. Afonso jurou que guardaria e faria guardar todos os privilégios, foros e costumes dos municípios, cavaleiros, peões, religiosos e clérigos seculares do reino. Afonso abdicou imediatamente das suas terras Francesas e marchou sobre Portugal. Apesar de não ter perdido nenhuma das batalhas contra o seu irmão, a pressão da Santa Sé levou Sancho II a abdicar em 1247 e a exilar-se em Toledo onde morreu a 4 de Janeiro de 1248. Julga-se que os seus restos mortais repousem na catedral de Toledo. Descendência Sancho parece ter sido consorciado (segundo a historiografia tradicional, nunca casado, dado não ter havido dispensa papal da consanguinidade, pelo que o casamento seria sempre nulo) com uma nobre biscainha, Mécia Lopes de Haro, da qual não gerou filho algum (de resto, a historiografia esforçou-se por afirmar que o rei era inapto não apenas para o exercício do governo, como também do ponto de vista físico, dizendo ser impotente). Por não haver gerado filho legítimo algum que lhe sucedesse, a coroa acabou necessariamente por recair num colateral - neste caso seu irmão mais novo Afonso III.


D.Afonso III - O Bolonhês - 5º Rei de Portugal - Reinou 31 anos.

Em 1245, D. Afonso foi nomeado, primeiro, Defensor e Procurador do Reino. Só em 1245, por morte de seu irmão D. Sancho, é que foi aclamado rei de Portugal. Durante este reinado, os portugueses conquistaram todas as terras que estavam ainda na posse dos mouros, tais como: Faro, Albufeira, Perches e demais localidades algarvias. Com tal sucesso, o Reino de Portugal, ficou mais ou menos com a delimitação de fronteiras que actualmente possui, terminando assim as lutas e conquistas ao mouros, em território nacional. Portugal entrou assim numa nova fase de organização política e administrativa, que muitas prosperidades lhe trouxe. D. Afonso lll e seus sucessores, a partir desta data, começaram a usar o título de Rei de Portugal e dos Algarves. D. Afonso lll, teve lutas com o rei de Castela (ainda não existia Espanha) em 1250, que alegava direitos sobre a posse do Algarve. Mas o Tratado de Badajoz, em 1267, entre os dois monarcas, pôs termo àquelas lutas, dando-lhes a posse definitiva desta província. No desejo de conquistar as simpatias das classes populares, D. Afonso Henriques convocou em 1254, as chamadas Cortes de Leiria, em que, pela primeira vez, tomaram lugar representantes do povo, por intermédio de procuradores dos concelhos. D. Afonso lll deu uma primorosa e cuidada educação a seu filho D. Dinis, futuro herdeiro do trono, para quem contratou mestres sábios e eminentes, como o português Domingo Jardo e o francês Américo de Ebrard. Seus restos mortais encontram-se no mosteiro de Alcobaça. OS LUSIADAS - CANTO III (...) 94 - Afonso III, o Conde Bolonhês "Por esta causa o Reino governou O Conde Bolonhês, depois alçado Por Rei, quando da vida se apartou Seu irmão Sancho, sempre ao ócio dado. Este, que Afonso o bravo, se chamou, Depois de ter o Reino segurado, Em dilatá-lo cuida, que em terreno Não cabe o altivo peito, tão pequeno. 95 - Conquista do Algarve "Da terra dos Algarves, que lhe fora Em casamento dada, grande parte Recupera co'o braço, e deita fora O Mouro, mal querido já de Marte. Este de todo fez livre e senhora Lusitânia, com força e bélica arte; E acabou de oprimir a nação forte, Na terra que aos de Luso coube em sorte D. Afonso III (Coimbra, 5 de Maio de 1210 – id., 16 de Fevereiro de 1279) http://pt.wikipedia.org/wiki/Afonso_III_de_Portugal cognominado O Bolonhês por haver sido casado com a Condessa de Bolonha, foi o quinto Rei de Portugal. Afonso III era o segundo filho do rei Afonso II e de sua mulher Urraca de Castela, e sucedeu a seu irmão Sancho II em 1248. Guerra Civil - Deposição de D. Sancho II Como segundo filho, Afonso não era suposto herdar o trono destinado a Sancho e por isso fez a vida em França, onde casou com a herdeira Matilde de Bolonha em 1238, tornando-se assim conde de Bolonha. Todavia, em 1246, os conflitos entre Sancho II e a Igreja tornaram-se insustentáveis e o Papa Inocêncio IV ordenou a substituição do rei pelo conde de Bolonha. Afonso não ignorou a ordem papal e dirigiu-se a Portugal, onde se fez coroar rei em 1248 após o exílio e morte de Sancho II em Toledo. Até à morte de D. Sancho e a sua consequente coroação, D. Afonso apenas usou os títulos de Visitador, Curador e Defensor do Reino. Para aceder ao trono, Afonso abdicou de Bolonha e divorciou-se de Matilda para casar com Beatriz de Castela. Decidido a não cometer os mesmos erros do irmão, o novo rei prestou especial atenção à classe média de mercadores e pequenos proprietários, ouvindo suas queixas. Em 1254, na cidade de Leiria convocou a primeira reunião das Cortes, a assembleia geral do reino, com representantes de todos os espectros da sociedade. Afonso preparou legislação que restringia a possibilidade das classes altas cometerem abusos sobre a população menos favorecida e concedeu inúmeros privilégios à Igreja. Recordado como excelente administrador, Afonso III organizou a administração pública, fundou várias vilas e concedeu o privilégio de cidade através do edito de várias cartas de foral. A Reconquista Com o trono seguro e a situação interna pacificada, Afonso virou a sua atenção para os propósitos da Reconquista do Sul da Península Ibérica às comunidades muçulmanas. Durante o seu reinado, Faro foi tomada com sucesso em 1249 e o Algarve incorporado no reino de Portugal. Após esta campanha de sucesso, Afonso teve de enfrentar um conflito diplomático com Castela, que considerava que o Algarve lhe pertencia. Seguiu-se um período de guerra entre os dois países, até que, em 1267, foi assinado um tratado em Badajoz que determina a fronteira no Guadiana desde a confluência do Caia até à foz, a fronteira luso-castelhana. Segundas Núpcias Em 1253, o rei desposa D. Beatriz, conhecida por D. Brites por distorção do povo, filha de D. Afonso X de Castela, O Sábio. Desde logo isto constituiu polémica pois D. Afonso era já casado com D. Matilde, Condessa de Bolonha. O Papa Alexandre IV responde a uma queixa de D. Matilde ordenando ao rei D. Afonso que abandone D. Beatriz em respeito ao seu matrimónio com D. Matilde. O rei, muito astuto em questões diplomáticas, não obedeceu, mas procurou ganhar tempo neste assunto delicado. O problema ficou resolvido com a morte de D. Matilde em 1258 e o Infante D. Dinis, nascido durante a situação irregular dos pais, foi então legitimado em 1263. O casamento funcionou como uma aliança que pôs termo à luta entre Portugal e Castela pelo Reino do Algarve. Também resultou em mais riqueza para Portugal quando D. Beatriz, já após a morte do rei, recebe do seu pai, Afonso X, uma bela região a Este do Rio Guadiana, onde se incluíam as vilas de Moura, Serpa, Noudar, Mourão e Niebla. Tamanha dádiva deveu-se ao apoio que D. Brites lhe prestou durante o seu exílio na cidade de Sevilha. Excomunhão do Rei e do Reino No final da sua vida, viu-se envolvido em conflitos com a Igreja, tendo sido excomungado em 1268 pelo arcebispo de Braga e pelos bispos de Coimbra e Porto, à semelhança dos reis que o precederam. O clero havia aprovado um libelo contendo quarenta e três queixas contra o monarca, entre as quais se achavam o impedimento aos bispos de cobrarem os dízimos, utilização dos fundos destinados à construção dos templos, obrigação dos clérigos a trabalhar nas obras das muralhas das vilas, prisão e execução de clérigos sem autorização dos bispos, ameaças de morte ao arcebispo e aos bispos e, ainda, a nomeação de judeus para cargos de grande importância. O rei, que era muito querido pelos portugueses por decisões como a da abolição da anúduva (imposto do trabalho braçal gratuito, que obrigava as gentes a trabalhar na construção e reparação de castelos e palácios, muros, fossos e outras obras militares), recebeu apoio das cortes de Santarém em Janeiro de 1274, onde foi nomeada uma comissão para fazer um inquérito às acusações que os bispos faziam ao rei. A comissão, composta maioritariamente por adeptos do rei, absolveu-o. O Papa Gregório X, porém, não aceitou a resolução tomada nas cortes de Santarém e mandou que se excomungasse o rei e fosse lançado interdito sobre o reino em 1277. À sua morte, em 1279, D. Afonso III jurou obediência à Igreja e a restituição de tudo o que lhe tinha tirado. Face a esta atitude do rei, o abade de Alcobaça levantou-lhe a excomunhão e o rei foi sepultado no Mosteiro de Alcobaça.

D. Dinis - O Lavrador - 6º Rei de Portugal- Reinou 46 anos

Sucedendo a D. Afonso lll, seu pai, o seu maior cuidado consistiu e promover o engrandecimento e riqueza de Portugal. Para isso, concedeu vários forais e fundou e reconstruiu muitos castelos e povoações. Neste reinado, deu-se protecção a: Agricultura, mandando cultivar muitas terras incultas, enxugar terrenos pantanosos, plantar vinhas e semear o Pinhal de Leiria e o da Azambuja; Indústria, auxiliando a exploração de minhas de ouro, prata e cobre, favorecendo as indústrias da pesca e de tecidos de linho; Comércio, criando mercados e feiras francas em muitas localidades; Marinha, promovendo a construção de navios, a fim de serem transportadas para o estrangeiro as nossas mercadorias; instituindo a Bolsa do Comércio do Porto e mandando vir do estrangeiro marinheiros experimentados, entre os quais se conta o genovês Manuel Pezagno, que desempenhou as funções de Almirante; Intrução, fundando a Universidade de Lisboa, primitivamente conhecida pelo nome de Estudo Geral, que mais tarde transferiu para Coimbra; ordenando que se usasse, nos documentos escritos, a língua portuguesa, em substituição da latina até então empregada (1290); protegendo os trovadores (poetas). O próprio rei era o melhor trovador do seu tempo. Neste reinado, foi extinta pelo Papa a antiga Ordem dos Templários. Porém, D. Dinis conseguiu que, em sua substituição, fosse criada a Ordem de Cristo, para a qual passaram todos os bens dos Templários em Portugal, em 1319. Em 1295, por motivos referentes à demarcação de fronteiras, D. Dinis invadiu o reino de Castela, governado por Fernando lV, tendo-se apoderado de algumas terras situadas entre o rio Côa e o Douro. O Tratado de Alcanises, em 1267, pelo qual o rei de Castela reconheceu a Portugal a posse das recentes conquistas, pôs termo ao conflito. Era santa a esposa de D. Dinis. Dotada das mais raras e sublimes virtudes, foi anjo de concórdia e de caridade; pôs termo às lutas que D. Dinis teve com o filho e com um irmão, e consolou muitos infelizes. Canonizada em 1625, ficou inscrita, ente o número das santas mais veneradas, como o nome de Rainha Santa Isabel. Seus restos mortais encontram-se no mosteiro de Santa Clara Nova, em Coimbra. Os restos mortais de D. Dinis, encontram-se no convento de Odivelas, por ele mandado construir. OS LUSIADAS - CANTO III (...) 96 - Dom Dinis "Eis depois vem Dinis, que bem parece Do bravo Afonso estirpe nobre e dina, Com quem a fama grande se escurece Da liberalidade Alexandrina. Com este o Reino próspero florece (Alcançada já a paz áurea divina) Em constituições, leis e costumes, Na terra já tranquila claros lumes. 97 - Fundação da Universidade de Coimbra "Fez primeiro em Coimbra exercitar-se O valeroso ofício de Minerva; E de Helicona as Musas fez passar-se A pisar do Monde-o a fértil erva. Quanto pode de Atenas desejar-se, Tudo o soberbo Apolo aqui reserva. Aqui as capelas dá tecidas de ouro, Do bácaro e do sempre verde louro. (...) MONTE REAL Primitivamente chamada de Póvoa de Monte Real, recebeu privilégios e foi elevada à categoria de vila por D. Dinis, em 1292. ORIGEM DO NOME: “A dois passos da cidade de Leiria e próximo da estrada da Figueira da Foz, existe, empoleirada num alto e rodeada de pinheirais frondosos, uma povoaçãozinha curiosa a que não falta o perfume das lendas e tradições. O seu nome não pode ser mais belo; a paisagem que a emoldura não pode ser mais suave; o céu (o céu de Portugal !) não pode ser mais azul; e, como o mar lhe fica perto e os campos que a rodeiam são dos mais lindos da terra lusa, a vila antiga, com todos os seus encantos, foi escolhida em tempos distantes para a residência da Corte Real. “...como mansa pomba alvíssima, nevada, /inda hoje entre vegetais ao longe se levanta / ufana de ter sido o templo duma santa / e o alcácer dum rei !...”. E a vila de Monte Real, alegre e graciosa, onde paira o espírito de Isabel de Aragão, que, das janelas dos seus Paços, tantas vezes contemplou os prados verdejantes do rio Lis, e tantas vezes, também, esperou até altas horas D. Dinis, enamorado das lindas camponesas da região, robustas, elegantes, alegres e formosas. A vilazinha antiga passa os dias na contemplação daquele pinhal imenso, que o Rei Lavrador (também Trovador – D. Dinis) mandou plantar, parecendo olhar, do alto, o rumo das caravelas construídas na foz do poético Lis. A terra, pequenina, pobrezinha, tem uma história tão bela e uma paisagem tão rica, que o povo, sempre poeta, ainda hoje a canta nos seus versos: “Vila de Monte Real / Tem figueiras ao redol / tem rapazes como a Lua / Raparigas como o Sol. Vila de Monte Real / É um perfeito jardim, / Tem um craveiro ao princípio / E uma roseira ao fim. Vila de Monte Real / Tem ladeiras a subir, / Quem lá vai tomar amores / Vai ao Sol e torna a vir” A povoação de Monte Real é muito antiga, correndo que já existia nos tempos pré-históricos, como o demonstra o aparecimento de numerosas ossadas, moedas e inscrições. D. Dinis fez de Monte Real a sua estância favorita, para gozar a amenidade do clima e as relações galantes que teve por aquelas terras encantadoras, onde os amores do Rei Trovador ainda não estão esquecidos”. (Dr. António Montês – 1943). “A sua origem perde-se na bruma dos tempos. Pela situação privilegiada e riqueza do solo, sempre esta terra foi cobiçada desde os tempos pré-históricos. Conforme vários peritos na historiografia desta terra, a povoação de Monte Real teria sido fundada em Outubro de 1292, por D. Dinis, no Reguengo de Ulmar que começava onde hoje é a Barosa (localidade a noroeste de Leiria) e se estendia até ao mar, na foz do rio Lis. Posteriormente chamou-se também “Póbra” de Mõ Real e Vila da Póvoa de mon Real; também foi chamada de o Reguengo da Camarinha. À Póbra de Mô Real, D. Dinis concedeu em 1310, com numerosos privilégios, a 1ª carta de foro do “Regaêgo” que chamaram Camarinha. Em 1312 D. Dinis concedeu a 2ª carta de foro do Regaêgo de Ulmar. O termo “ulmar” vem de uma espécie de árvore chamada ulmeiro que abunda na região. Monte Real foi, então, elevada à categoria de vila com juiz ordinário ecâmara de três vereadores. D. Dinis aforou todos os terrenos pertencentes a Ulmar; cedeu aos povoadores, através do pagamento de um quarto de todas as colheitas de pão e outros frutos, o Reguengo da Camarinha, isto é, a região que vai do mar ao que ainda hoje se chama Caminho e Monte da Bóca, que fica a cerca de um quilómetro a montante dos Paços de Monte Real; concedeu, através do pagamento de um terço de todas as colheitas de pão e outros frutos, a parte do fundo do Ulmar que vai do lugar do Freixo até ao Camarinho, isto é, desde o Campo do Freixo, a montante de Riba ‘ Aves, ao Tacanho (perto da localidade de Amor), até ao citado Monte da Bóca”. (Padre Isidro da Piedade Alberto – 1955). Monte Real é uma estância termal de grande nomeada, e foi elevada a vila no final do século Xlll. Na parte da vila velha, na zona mais alta da actual povoação, restam alguns vestígios da sua importância quando ainda era Póvoa de Monte Real, tais como o antigo Paço Real, reduzido a uma modesta construção restaurada, que recorda os tempos em que D. Dinis e a Rainha Santa Isabel o terão habitado. Não muito longe, mas quase perdido na borda do caminho, encontra-se o pelourinho, quinhentista, atestando jurisdição municipal, e uma ermida de onde se alcança uma ampla e agradável vista sobre os campos do Lis. Na zona baixa, junto à frondosa mata que aconchega os edifícios termais, as vivendas multiplicam-se por trás de bonitos jardins, bem perto dos vastos campos aproveitados pela agricultura desde que o citado rei os mandou enxugar, transformando assim em terra fértil e arável o antigo paul de Ulmar, que os ocupava. Essa obra foi realizada por Frei Martinho, do Mosteiro de Alcobaça, na altura especialista em tais trabalhos. A Monte Real, em consequência da presença assídua do rei D. Dinis, está inteiramente ligado o seu nome, além de lendas a que as suas aventuras de monteiro e galenteador deram origem. Subordinada à presença do rio Lis e do seu afluente o Lena, toda esta região se caracteriza não só pela fertilidade dos campos que a marginam, facilmente irrigados, como também pela aptidão para a cultura florestal, representada pelas extensas áreas ocupadas pelo pinhal. Tudo ali verdeja quando esses campos estão ocupados pelas culturas que lhes são próprias, só os tons são diferentes. A sensação que se colhe percorrendo-a é de uma amenidade pouco vulgar, traduzida por um ambiente saudável e calmante; nada é brusco, nada é agreste, nada fere, magoa ou assusta. Apenas o morro onde se ergue o Castelo de Leiria e, em frente dele, um outro dominado pela Igreja da Nossa Senhora da Encarnação quebram a suavidade da paisagem, que se estende das serranias calcárias que a limitam a nascente até ao Atlântico, a poente. Paira em tão vasta área, por um lado, a influência da assídua presença de D. Dinis, que a preferia, e, por outro, a de D. João l e D. Nuno Álvares Pereira – O Condestável do Reino. O primeiro deixou-a assinalada pelas obras que ali realizou, desde o castelo ao enxugo do paul do Ulmar e aos Paços de Monte Real, pelo desenvolvimento dado à mata de Leiria e ainda pelas lendas e toponímia ligada aos seus desvarios sentimentais. D. João l e o seu condestável deixaram a recordação dos actos heróicos com que os portugueses conseguiram fazer vingar a sua independência. Entre a cidade de Leiria e Monte Real, fica a localidade de AMOR, tão conhecida e cantada pelos amores ilícitos do galante rei D. Dinis – o Lavrador mas também conhecido pelo Trovador: “Certa noite em que D. Dinis regressava ao Paço de Monte Real, perguntou-lhe a Rainha Santa: - “Donde vides?”. – “De AMOR”, respondeu o rei. E talvez por causa da namorada, a mor de todas ao que se diz a lenda, ficou o nome à povoaçãozinha graciosa: Com tal beleza / Tal camponesa / Dos campos em flor / Soprou a chama ... / Que inda se chama / A aldeia – AMOR” (Dr. António Montês – 1949) “Trovador meu rei, a nossa província é bela: tem o mar, a espessura verde, o campo em flor, e a alta serra. E Coimbra é perto e nossa. Tem castelos de orgulho, mosteiros de glória com capelas de heróis, e os túmulos onde sonham Tristan e Iseu, que nós cantamos. E estas terras inda são cheias de ti, oh Lavrador ! Que imensa barcarola o nosso jardim marinho, onde aprendi certos ritmos que ora são de toda a gente. E que linda lembrança tua é uma terrinha humilde que eu jamais quis ver, perto de outra que te recorda também: Monte Real. Jamais quis ver essa aldeia vizinha, e, que passeei a cavalo esta província toda, porque ela tem o nome mais belo do mundo: AMOR. Quero guardar preciosa a mentira de minha fantasia, quando imagino o local onde amavas não sei qual das tuas donas. O povo conta o romance da terra amorosa, daquela eu jamais quis ver para guardar preciosa a mentira do meu sonho: - Ai flores do verde pinho ! Seria Aldonsa ? Grácia ? Marinha ? ou Branca ? Que importa, se todas elas eram rimas de um só cantar. De Monte Real foras vê-la e nos beijos da sua boca esqueceras que o dia passara e ao lusco – fusco te soltaras deles. Os beijos de Aldonsa ? De Branca ?. Os beijos de Grácia ou Marinha ? Que importa, se o beijo era um só, em outras bocas beijado ! E pela noite adiante cavalgavas, oh com saudades já daqueles beijos, daqueles beijos que quando mais se davam, mais sede faziam !. E vinhas compondo uma trova em louvor da amiga fremosa, de bem talhada, da louçana e da valida. Em louvor de Aldonsa ? De Branca ? De Grácia ou Marinha ? Que importa se as suas trovas cantavam mas era o amor ! Mas eis que ao longe enxergas uma fila de luzes, e as luzes desciam do castelo e entornavam-se tremeluzindo pelo vale ... Era a Rainha Santa que te esperava com uma multidão de pagens que erguiam no ar as pinhas que ardiam brilhando: - Senhor (sorriu gravemente a Rainha) cego vindes de amor e eu vos alumio por que vós não percais ... Desde então chama-se AMOR a terra que eu jamais quis ver, para guardar preciosa a mentira do meu sonho. E no sítio onde a Rainha Santa falou, fez-se a aldeia de Cégodim, (hoje Segodim) que recorda as palavras da Rainha. Com o tempo, o povo as trocou ...”. (Lenda contada por Afonso Lopes Vieira – 1954). “Das lendas, a que mais se conserva na memória do povo, apesar de alguns ilustres escritores a terem reivindicado para outros lugares de Portugal, é a de Cegovindes. Vivia a Rainha Santa – diz a lenda – amargurada em seus Paços de Monte Real pelas frequentes ausências do Rei, seu esposo, distraído como andava em digressões amorosas. Certamente, inquieta e cansada de esperar, resolveu a Rainha ir com alguns pagens, munidos de tochas acesas, postar-se no caminho onde sabia que o rei devia passar. Quando este chegou cavalgando, ao deparar com o que via, apeou-se e, disse agastado, dirigindo-se à esposa: - Que fazeis aqui, Senhora Minha, com gente tanta ?!. Vim alumiar-vos o caminho, Senhor – respondeu a Rainha – pois cego vindes de amor... Verdade ou lenda, o certo é que ainda hoje existe à beira do caminho que leva ao lugar de AMOR (agora sede importante freguesia do concelho de Leiria, o lugar de Segodim, que pertence à freguesia de Monte Real, de que dista cerca de um quilómetro”. (Olímpio Duarte Alves – 1955). “A mesma lenda contada pelo Dr. António Montês (1943): No Inverno inundavam-se os campos formosos, e D. Dinis mandou abrir uma vala real no reguengo. Para ir de Monte Real a AMOR, se não pudesse ir de barco, teria de fazer grande desvio, e passar ao lugarejo que hoje tem o nome de Segodim. Conta-se que a Rainha Santa, sabendo das relações do rei com a zagala, mandara um dia esperar o monarca à serra, indo os criados de brandões acesos, para que não se perdessem nessa noite escura de inverno. D. Dinis não gostou da surpresa, mas a Rainha, aparecendo, repreendeu-o docemente, dizendo: - “Vindes tão cego, Senhor, que julguei melhor mandar alumiar-vos o caminho”. El – Rei, humilhado, confessou a culpa, e respondeu: - “Cego vim, Senhora”. E daí chamar-se Cegovim ao lugarejo, que hoje, tem o nome de Segodim”. “AMOR: / Minha vizinha aldeia de Amor, / jamais em ti os pés hei-de pôr. Jamais em ti hei –de pôr os pés / para te julgar como tu não és. Donde vem teu nome, teu nome de Amor? / Da Aldonsa? De Grácia ? De que boca em flor ? Elas eram tantas, tantas eram elas / Tal o céu à noite cheinho de estrelas ! Que belo destino entre os doutros bardos ! / - Semear navios e criar bastardos !...”. Nem sempre a grafia de um nome de lugar revela completamente a pronúncia do mesmo, e podemos por isso ser levados a interpretá-lo de modo errado. Também da grafia incorrecta se origina em muitas pessoas, não raramente, uma pronúncia que não corresponde à usada na circunscrição a que o lugar pertence ... Quem conhece a freguesia de Amor, no concelho de Leiria, só pela escrita, entenderá que temos aí o substantivo comum amor: e isso não é assim, porque os naturais dizem “Àmor”, com o “a” aberto, embora átono. “Àmor” faz suspeitar que a forma anterior seria AAMOR, havendo-se “aa” desenvolvido (sic) em à, como em aalém e aaquém ... De facto, assim como no latim amore corresponde àmor assim adamor, pode Ter-se feito corresponder adamor (cfr. Adamátor citado pelos lexicógrafos como de Tertuliano). O acusativo adamorem dava perfeitamente aamor ou Aamor, depois Àmor.” (Dr. Leite de Vasconcelos – 1946). D. Dinis - “o Lavrador” Nasceu em Lisboa em 09-10-1261. Filho de D. Afonso lll e de D. Beatriz de Castela. Subiu ao Trono, por morte de seu pai, em 16-02-1279. Faleceu em Santarém em 07-01-1225, com 64 anos de idade. Reinou cerca de 46 anos. Casou com D. Isabel, filha mais velha do rei de Aragão, Pedro lll, celebrado em Barcelona, por procuração, em 11-02-1282. Do seu casamento com a Rainha Santa Isabel teve apenas dois filhos: D. Constança e D. Afonso que lhe sucedeu no Trono. Fora do matrimónio, teve mais 4 filhos e duas filhas. D. Dinis herdou do pai um conflito grave com o alto clero e com a Santa Fé. Tal conflito só ficou apaziguado com a virtuosa intervenção de sua esposa, a Rainha Santa Isabel, em 1289, após longas e morosas negociações, com uma concordata e um acordo. A colonização interna e a protecção à agricultura contam-se entre os mais desvelados cuidados do rei D. Dinis. Facilitou a distribuição da propriedade, atraiu as classes elevadas aos trabalhos agrícolas, mandou proceder a importantes trabalhos de enxugo, como foi o caso dos campos do Ulmar, de Monte Real. Alargou a plantação do Pinhal de Leiria (hoje também conhecido pelo Pinhal do Rei), que mais tarde deu a madeira para as primeiras naus portuguesas, protegeu a instituição de feiras francas, privilegiou a exploração de minas, desenvolveu a marinha. Teve graves conflitos com o irmão Afonso e também com o filho do mesmo nome. D. Isabel de Aragão foi a grande pacificadora nestes conflitos. D. Dinis criou ainda em 01-03-1290, em Lisboa, o Estudo Geral, que depois foi transferido para Coimbra em 1308, onde mais tarde nasceu a Universidade de Coimbra. D. Dinis foi um rei poeta e trovador: Ai Flores “Ai flores, ai flores de verde pino / Se saberes novas do meu amigo ! / Ai Deus, e hu é ?. Ai flores, ai flores do verde ramo, / Se saberdes novas do meu amado / Ai Deus, e hu é? Se sabedes novas do meu amigo, / aquei que mentiu do que pós comigo ! / Ai Deus, e hu é? Se sabedes novas do meu amado, / Ai Deus, e hu é ? Vos me perguntades polo voss’ amigo, / E eu bem digo que é sano e vivo; / Ai Deus, e hu é ? Vos me perguntades polo voss’ amado, / e eu bem vos digo que é viv’ e sano. / Ai Deus, e hu é ? E eu bem vos digo que é san’ e vivo, / E será vosc’ ant’ prazo saído; / Ai Deus, e hu é ? E eu bem vos digo que é viv’ e sano, / e será vosc’ ant’ o prazo passado ! Ai Deus, e hu é ?”. QUER’EU “Quer’ eu en maneyra de proençal / fazer agora hun cantar d’ amor / e querrey muyt’ loar mha senhor / o o que prez nem fremusura non fal, / nen bondade, e mays uos direy en: / tanto a fez Deus comprida de bem / que mays que todas las do mundo ual: Ca mha senhor quiso Deus fazer tal / quando a fez sabedor / de todo bê de mui grã valor / e cõ tod´est (o) é mui comunal / aly hu deve: er dei-lhi bsem / e des y lhi fez pouco de bem / quando nõ quis que lh’ foss’ igual. Ca em mha senhor n~uca Deus pos mal, / mays pos hi prez e beldad’ e loor / e falar mui b~e e rijr melhor / que outra molher; des y é leal / muyt´, e por esto n~sey oi eu quê / possa compridam~ete no seu bê / falar, ca nõ á, tra lo seu bem, al” Duas poesias do Rei D. Dinis, em português da época (medieval) D. Isabel de Aragão ( a Rainha Santa Isabel) “Nasceu em Saragoça, então cidade do reino de Aragão (Espanha), em 1271. Recebeu a benção matrimonial do seu casamento com o rei D. Dinis, por procuração, feito, simultaneamente em Barcelona e na Igreja de Trancoso, em 24-06-1282. Rainha de Portugal, foi o Anjo da Paz. Com a morte do Rei D. Dinis, seu marido, em 1325, entrou para o Convento de Santa Cruz, em Coimbra. Faleceu no Castelo de Estremoz, em 04-06-1336, sendo o cadáver transportado para a Igreja do Convento de Santa Clara de Coimbra, onde mandara construir o seu túmulo. Em 1612, foi o túmulo aberto achando-se incorrupto o seu corpo, como ainda está hoje no novo túmulo em prata, da Igreja do actual Convento de Santa Clara, para onde foi transladado em 1696. Foi beatificada em 1516 e canonizada em 1625, pelo então Papa Urbano Vlll. Era filha do rei D. Pedro lll, de Aragão, e da rainha D. Constança. A Rainha Santa viveu temporadas no seu Palácio de Monte Real, parte do qual é hoje ocupado pela Capela, onde se venera a sua imagem que é contemporânea da capela, isto é, do século XVll. A capela foi edificada pelo bispo de Leiria, D. Martim Mexia, entre 1605 e 1615. A Rainha Santa era uma mulher cheia de doçura, bondade, equilibrada, discreta, muito inteligente e bem educada. Gostava da vida interior e do trabalho silencioso. Jejuava muito, comovia-se com os que erravam, rezava muito, distribuía esmolas aos necessitados e governava a sua casa. Neta de Jaime l e bisneta de Frederico ll da Alemanha, deles herdou a energia e a força de alma. Muito mulher, mas cristã atè à medula da alma, criou até os filhos ilegítimos do seu marido, o Rei D. Dinis. Mandou construir igrejas, mosteiros e hospitais. Nas suas viagens, ao ver os pobres sentados às portas das vilas e aldeias, distribuía-lhes roupa e alimento, visitava os doentes e cuidava deles. Beijava até os pés das mulheres leprosas. À Rainha Santa se atribuem milagres lendários, entre os quais, o famoso milagre das rosas: Indo ela levar pão aos seus pobres, no seu regaço, apareceu-lhe, de repente, o seu marido, D. Dinis, que, ciumento, não gostava de tais atitudes, que ele considerava baixas, da sua santa esposa. O marido pergunta-lhe: “ o que levas aí no teu regaço ?”. E ela responde-lhe: “São rosas, meu Senhor”. Entretanto, abre o regaço e em vez do pão que realmente levava, surgem verdadeiras rosas. O rei ao vê-las acalma-se e a rainha admira-se do prodígio, ao ver o pão transformado em verdadeiras rosas “. D. Dinis . O Lavrador http://observador.weblog.com.pt D. Dinis, que se tornou Rei muito jovem, logo com 18 anos, cedo procurou evitar, através das Inquirições, as usurpações do património real, levadas a cabo tanto pela nobreza como pelo clero. É preciso ter em conta que Portugal era um país fronteiriço e que necessitava seriamente de um poder central minimamente forte para fazer frente às dificuldades que obviamente lhe surgiam. Este Rei tomou várias medidas para incentivar a agricultura, atribuindo terras a quem as quisesse trabalhar, fragmentando as grandes propriedades não cultivadas, fomentando a drenagem de várias terras alagadas tornando-as boas terras agrícolas. A nível agrícola a sua iniciativa mais conhecida acabou por ser a plantação do pinhal de Leiria. Foi com D. Dinis que se começou a incrementar, com a contratação do genovês Manuel Pessanha, a força naval portuguesa. Começaram também as explorações das minas de estanho, prata e enxofre. D. Dinis fomentou também a actividade comercial, com as conhecidas feiras francas nas quais os comerciantes estavam isentos de pagamento de vários impostos. Este reinado foi ainda marcado pela normalização das relações com a Santa Sé concluída com a assinatura da Concordata em 1289. Nacionalizaram-se as ordens religiosas militares de Santiago e dos Templários tendo sido criada, em seu lugar, a Ordem de Cristo. O reinado de D. Dinis teve duas nódoas, ironicamente, no início e no fim do seu reinado e ambas foram as guerras civis, primeiro com o seu irmão que queria tomar-lhe o trono e depois, com o seu filho, futuro D. Afonso IV, que exigiu lhe fosse entregue a condução do reino por suspeitar que D. Dinis queria conduzir, como seu herdeiro, o seu filho ilegítimo, Afonso Sanches. D. Isabel de Aragão, teve um papel, como se sabe, fundamental no apaziguamento das relações entre pai e filho. D. Dinis morreu em 7 de Janeiro de 1325, com 64 anos de idade, tendo reinado durante 46 anos. Publicado por André Abrantes Amaral em Março 19, 2004 09:51 AM D. Dinis (também existe a grafia arcaizante Diniz) - (o Lavrador) http://pt.wikipedia.org/wiki/Dinis_de_Portugal (9 de Outubro 1261 – 7 de Janeiro 1325, Santarém), rei de Portugal, filho de D. Afonso III e da infanta Beatriz de Castela, neto de Afonso X de Castela. Foi aclamado em Lisboa em 1279. Cognominado O Lavrador ou O Rei-Agricultor (pelo impulso que deu no reino àquela actividade) e ainda, O Rei-Poeta ou O Rei-Trovador (pelas Cantigas de Amigo e de Amor que compôs e pelo desenvolvimento da poesia trovadoresca a que se assistiu no seu reinado), foi o sexto Rei de Portugal. Foi o primeiro rei português a assinar os seus documentos com o nome completo. Presume-se que tenha sido o primeiro rei português não analfabeto [1]. Como herdeiro da coroa, D. Dinis desde cedo foi envolvido nos aspectos de governação pelo seu pai. À data da sua subida ao trono, Portugal encontrava-se em conflito com a Igreja Católica. D. Dinis procurou normalizar a situação assinando um tratado com o Papa Nicolau III, onde jurava proteger os interesses de Roma em Portugal. Salvou a Ordem dos Templários em Portugal através da criação da Ordem de Cristo, que lhe herdou os bens em Portugal depois da sua extinção e apoiou os cavaleiros da Ordem de Santiago ao separarem-se do seu mestre castelhano. D. Dinis foi essencialmente um rei administrador e não guerreiro: envolvendo-se em guerra com Castela em 1295, desistiu dela em troca das vilas de Serpa e Moura. Pelo Tratado de Alcanises (1297) firmou a Paz com Castela, definindo-se nesse tratado as fronteiras actuais entre os dois países ibéricos. Por este tratado previa-se também uma paz de 40 anos, amizade e defesa mútuas. A sua prioridade governativa foi essencialmente a organização do reino: continuando a vertente legisladora de seu pai D. Afonso III, a profusa acção legislativa está contida, hoje, no Livro da Leis e Posturas e nas Ordenações Afonsinas. Não são "códigos" legislativos tal como os entendemos hoje, mas sim compilações de leis e do direito consuetudinário municipal, alteradas e reformuladas pela Coroa. Com efeito, a incidência de questões de carácter processual com igual peso ao carácter de direito positivo das suas leis, denuncia a crescente preocupação do rei em enquadrar o direito consuetudinário (ou costumeiro) no âmbito da Coroa, e em efectivar o seu poder no terreno. As determinações sobre a actuação de alvazis (oficiais concelhios), juízes, procuratores e advocati demonstram isto, já que um poder meramente nominal sobre todos os habitantes do Reino, como era típico na Idade Média, não se compatibiliza com este esforço em esmiuçar os trâmites jurídicos, ou em moralizar o exercício da justiça. A criação de corregedores denuncia claramente o início do processo de territorialização da jurisdição da Coroa, extravasando os domínio régios, a par da crescente importância da capitalidade de Lisboa. O reinado de D. Dinis acentuou a predilecção por Lisboa como local de permanência da corte régia. Não existe uma capital, mas a localização de Lisboa, o seu desenvolvimento urbano, económico e mercantil vão fazendo da cidade o local mais viável para se afirmar como centro administrativo por excelência. A articulação entre o Norte e o Sul do país - este Sul que se torna alvo da maior atenção e permanência dos reis - fazem de Lisboa centro giratório para tornar Portugal viável. Entre o Norte, onde a malha senhorial é mais densa e apertada, e o sul, onde o espaço vasto conquistado aos mouros implanta sobretudo os domínios régios e as ordens militares, assim como vastos espaços de "res nullius", torna Portugal um reino onde duas realidades diferentes se complementam. Preocupado com as infra-estruturas do País (ver discussão), D. Dinis ordenou a exploração de minas de cobre, prata, estanho e ferro e fomentou as trocas com outros reinos, assinou o primeiro tratado comercial com o rei de Inglaterra em 1308 e criou o almirantado, atribuído como privilégio ao genovês Manuel Pessagno, e fundando as bases para uma verdadeira marinha portuguesa ao serviço da Coroa. D. Dinis redistribuiu terras, promoveu a agricultura e fundou várias comunidades rurais, assim como mercados e feiras criando as chamadas feiras francas ao conceder a várias povoações diversos privilégios e isenções. Um dos seus maiores legados foi a ordem de plantar o Pinhal de Leiria, que ainda se mantém, de forma a proteger as terras agrícolas do avanço das areias costeiras. A cultura foi um dos seus interesses pessoais. D. Dinis não só apreciava literatura, como foi ele-próprio um poeta notabilíssimo e um dos maiores e mais fecundos trovadores do seu tempo. Aos nossos dias chegaram 137 cantigas da sua autoria, distribuídas por todos os géneros (73 cantigas de amor, 51 Cantigas de Amigo e 10 Cantigas de escárnio e maldizer), bem como a música original de 7 dessas cantigas (descobertas casualmente em 1990 pelo Prof. Harvey L. Sharrer, no Arquivo da Torre do Tombo, num pergaminho que servia de capa a um livro de registos notariais do século XVI, e que ficou conhecido como "Pergaminho de Sharrer"). Durante o seu reinado, Lisboa foi, pois, um dos centros Europeus de cultura. A Universidade de Coimbra foi fundada pelo seu decreto Magna Charta Priveligiorum no qual foram desde logo ensinadas as Artes, o Direito Civil, o Direito Canónico e a Medicina. Mandou traduzir importantes obras, tendo sido a sua Corte um dos maiores centros literários da Península Ibérica. Os últimos anos do seu reinado foram, marcados por conflitos internos. O herdeiro, futuro D. Afonso IV, receoso que o favorecimento de D. Dinis ao seu filho bastardo, D. Afonso Sanches o espoliasse do trono, exigiu o Poder e combateu o pai. Nesta luta teve intervenção apaziguadora a Rainha Santa Isabel que, em Alvalade se interpôs entre as hostes inimigas já postas em ordem de batalha. Tem como Descendente também o Papa Bento XIII, que foi Papa de 1724 a 1730. D. Dinis está sepultado no Convento de São Dinis, em Odivelas


Continuou com as reformas encetadas por seu pai, o rei D. Dinis. Publicou leis acertadas, com as quais o comércio, a agricultura e a marinha foram muito beneficiadas. Pouco tempo de subir ao trono, D. Afonso lV moveu guerra contra seu irmão D. Afonso Sanches, com o fundamento de que este o queria envenenar para em seguida se apossar da Coroa. . Porém, essas lutas terminaram ainda pela intervenção da Rainha Santa Isabel, em 1325. Pelo facto de o rei de Castela, D. Afonso Xl, tentar impedir a passagem de D. Constança Manuel, que vinha realizar o seu casamento com D. Pedro, herdeiro da Coroa Portuguesa, D. Afonso lV entrou em guerra com Castela. Atribui-se também a causa a maus tratos dados pelo rei de Castela a sua esposa, a rainha D. Maria, filha do nosso rei (1336). Porém, em 1339, o Papa Bento Xll, servindo de medianeiro, conseguiu estabelecer a paz. A justiça vinha sendo até então administrada por Juízes da terra, ou seja, da mesma região. Por isso, nem sempre era aplicada como devia de ser: imparcialmente. Para remediar este mal, o rei instituiu os chamados Juízes de Fora. O rei de Castela, Afonso Xl, vendo os seus domínios gravemente ameaçados por fortes contingentes mouriscos, pediu auxílio a D. Afonso lV, que correu a prestar-lho. Deu-se então uma grande batalha junto às margens do rio Salado, em Outubro de 1340, em que os mouros foram derrotados (*). O rei de Portugal, além de um chefe mouro aprisionado, algumas espadas e bandeiras, nada mais aceitou dos ricos despojos da luta, e as acções de audácia praticadas durante a batalha, motivaram-lhe o cognome de “Bravo”. (*) “(...) D. Afonso IV, à frente dos seus intrépidos cavaleiros, conseguiu romper a formidável barreira inimiga e espalhar a desordem, precursora do pânico e da derrota entre os mouros granadinos. E não tardou muito que numa fuga desordenada, africanos e granadinos abandonassem a batalha, largando tudo para salvar a vida. O campo estava juncado de corpos de mouros vítimas da espantosa mortandade. E o arraial enorme dos reis de Fez e de Granada, com todos os seus despojos valiosíssimos em armas e bagagens, caiu finalmente em poder dos cristãos, que ali encontraram ouro e prata em abundância, constituindo tesouros de valor incalculável. Ao fazer-se a partilha destes despojos, assim como dos prisioneiros, quis Afonso XI agradecer ao sogro, pedindo-lhe que escolhesse quanto lhe agradasse tanto em quantidade como em qualidade. Afonso IV, porém num dos raros gestos de desinteresse que praticou em toda a sua vida, só depois de muito instado pelo genro escolheu, como recordação, uma cimitarra cravejada de pedras preciosas e, entre os prisioneiros, um sobrinho do rei Abul-Hassan. A 1 de Novembro ao princípio da tarde, os exércitos vencedores abandonaram finalmente o campo de batalha, dirigindo-se para Sevilha onde o rei de Portugal pouco tempo se demorou, regressando logo ao seu país. Pode-se imaginar sem custo a impressão desmoralizadora que a vitória dos cristãos, na Batalha do Salado, causou em todo o mundo muçulmano, e o entusiasmo que se espalhou entre o cristianismo europeu. Era ao cabo de seis séculos, uma renovação da vitória de Carlos Martel em Poitiers”. A parte negra deste reinado: D. Inês de Castro, era uma senhora de origem castelhana e de rara beleza, por quem o Príncipe herdeiro, D, Pedro, se apaixonara e com quem passou a viver depois de falecer sua esposa, D. Constança. D. Afonso lV, porém, movido por intrigas, ou, antes, impulsionado por razões de Estado que buliam com a tranquilidade e independência do Reino, tendo hesitado primeiro, terminou por consentir no assassínio de D. Inês, em 1355, fazendo assim a vontade a alguns cortesãos, entre os quais se evidenciaram Álvaro Gonçalves, Pêro Coelho e Diogo Lopes Pacheco. Este facto, deu azo a uma guerra civil, que só terminou pela intervenção conciliadora da rainha D. Beatriz, esposa de D. Afonso lV e mãe de D. Pedro. Os restos mortais deste monarca encontram-se na Sé de Lisboa. Nasceu em 1290, tendo iniciado o seu reinado em 1325, ou seja, com 35 anos de idade. É este rei quem proíbe, sob pena de morte, os fidalgos de fazerem justiça com as próprias mãos, passando tal direito a ser um privilégio do monarca. Entre 1348/49, Portugal é assolado pela Peste Negra que provoca o abandono de terras. D. Afonso IV, embora encetando todos os esforços nesse sentido, nunca conseguiu fazer frente a esta situação, nem obter resultados positivos de reocupação de terras. É um problema que se vai manter até D. João I. D. Afonso IV envolve-se em lutas com o seu genro, o rei de Castela, D. Afonso XI, por suspeitar que este maltratava a sua filha. A paz só surge perante a ameaça moura que é devidamente afastada na Batalha do Salado travada em 30 de Outubro de 1340. Este Rei continua a política de desenvolvimento da armada portuguesa e ordena o envio das primeiras expedições portuguesas que descobriram as Canárias ainda antes de 1337. Mau grado todos os seus esforços, D. Afonso IV nunca foi muito feliz na sua actividade governativa. A peste que assolou o país durante grande parte do seu reinado, as guerra civis com o seu meio irmão, Afonso Sanches e mais tarde com o seu próprio filho, D. Pedro, marcam, definitivamente, esta época. D.Afonso IV, morre em 1357, com 67 anos de idade, sucedendo-lhe D. Pedro I. Publicado por André Abrantes Amaral em Março 26, 2004 10:23 AM D. AFONSO IV - O BRAVO - (reinou de 1325 a 1357) http://www.cunhasimoes.net/cp/Textos/ Afonso IV, apesar de turbulento em termos de contendas internas, conseguiu, mesmo assim, que o reino se organizasse e fosse bem administrado. Fez entrega de forais a novas terras, implementou a justiça. Apoiado na Ordem de Cristo, incrementou a marinha. Fez repetidas viagens às Canárias e a zonas do mundo desconhecido, das quais só a Ordem detinha o segredo. Em 1331 instituiu, definitivamente, os juizes de fora, ou seja, aqueles que não eram da própria localidade para não haver a tentação a favorecimento ou a vinganças pessoais. O feitio belicoso e temperamental do rei, mal tomou conta do poder, fá-lo atacar o irmão bastardo, Afonso Sanches, confisca-lhe as propriedades e desterra-o. A seguir, envolve-se em lutas com o rei de Castela, Afonso XI, não só por divergências políticas, mas porque este, tendo casado com D. Maria, filha dele, a tratava mal. D. Afonso IV invade a Galiza e cerca Badajoz. Só o Papa e o rei Carlos VII de França o conseguem acalmar. Acaba por ajudar o genro, a pedido da filha. O reino de Castela ia ser atacado por um poderosíssimo exército mouro. A batalha vai-se dar a 30 de Outubro de 1340 nas margens do rio Salado. O rei português corre em auxílio do genro. A sua bravura é tal que os exércitos mouros do rei de Marrocos e de Granada são totalmente desbaratados. As riquezas aí deixadas são imensas. Ao rei português pertenciam metade dos despojos. Não aceitou nada. Aqui tens o protótipo do português: valente, ingénuo e desinteressado. Hoje em dia os serviços pagam-se. As qualidades do rei eram muitas, mas as suas fúrias tinham, por vezes, consequências trágicas. Basta-nos recordar o episódio de Inês de Castro: O filho de Afonso IV, o futuro rei D. Pedro I, casou com uma infanta de Aragão, Dona Constança Manuel. Com ela veio Inês de Castro que era muito bonita e de famílias ricas e nobres da Galiza e de Castela. D. Pedro, depois da morte da mulher, passou a viver com ela, de quem teve quatro filhos. A amizade do príncipe D. Pedro, aos irmãos e amigos de Inês era grande. Os fidalgos portugueses, temendo que isso pusesse em perigo a independência do reino, convenceram Afonso IV que Inês era perigosa. Os conselheiros do rei, Álvaro Gonçalves, Pêro Coelho e Diogo Lopes Pacheco, não encontraram melhor solução, para afastar os amantes, do que matá-la. O príncipe ficou louco de dor. Voltou-se contra o pai. As pazes assinadas em Canaveses terminaram com o conflito mas não fizeram esquecer ao jovem príncipe a infâmia cometida contra uma mulher. No reinado de Afonso IV, o reino viu-se devastado por uma epidemia de peste negra que desertificou o País, mas que o rei soube corrigir promulgando leis a reprimir a mendicidade e a ociosidade, e mandando vir colonos de França para ocuparem as terras livres. Ainda infante lançou o reino na guerra civil devido a favores que D. Dinis concedia ao filho bastardo Afonso Sanches. Proclamado rei (1325), reúne cortes em Évora, condena o seu irmão ao desterro e à perda total dos seus haveres. Afonso Sanches invade Portugal, tendo a paz sido alcançada devido, em parte, à mediação de D. Isabel. Os maus tratos infligidos pelo rei de Castela, Afonso XI, a sua esposa D. Maria, filha de Afonso IV, e o facto de D. Constança, esposa de D. Pedro ter sido retida em Castela, levaram o monarca português a sustentar uma guerra contra o seu genro. A guerra durou quatro anos tendo terminado com a paz de Sevilha (10 de Julho de 1339 ou 1340) graças à mediação da «fermosíssima Maria», enviada a Portugal por Afonso XI, quando os Mouros retomavam a ofensiva. Os dois monarcas combateram então na batalha do Salado (30 de Outubro de 1340), assinalando-se a valentia do rei português. No final do reinado deu-se o assassinato de Inês de Castro (1355) e a subsequente rebelião de D. Pedro. Afonso IV impulsionou a marinha datando possivelmente do seu reinado as primeiras viagens às Canárias (ca. 1345). Batalha do Salado http://www.geocities.com/ No começo do Outono de 1340, Afonso IV de Portugal dirigiu-se a Sevilha, em auxílio de Afonso XI de Castela, donde seguiram os dois monarcas cristãos para Tarifa, cercada então pelos fortes exércitos sarracenos. A batalha travou-se junto ao rio Salado, cabendo às tropas portuguesas a tarefa de defrontar as do rei de Granada, que se encontravam do outro lado do rio. É salientada a coragem de D. Afonso IV, que a esta batalha ficou a dever o cognome de o Bravo, e também o seu desinteresse pela riqueza, bem como a dos combatentes portugueses que o acompanharam, que não quiseram aceitar a oferta de Afonso XI para que colhessem, do opulento espólio deixado no campo de batalha pelos Sarracenos vencidos, tudo o que lhes aprouvesse. A Batalha do Salado foi o remate da última tentativa de vulto realizada pelos Muçulmanos e pelo remanescente reino de Granada para restabelecer ou, pelo menos, alargar o seu domínio na Península. História da Batalha Ao romper da alva de 28 de Agosto de 1340, as longas cristãs e os tambores mouriscos acordaram os acampamentos, chamando ao combate. Os Mouros foram muitos postos ao longo do rio Salado para defenderem o passo aos cristãos. Estes, depois de confessados e comungados, foram ocupar as suas posições - os castelhanos em frente das tropas africanas de Abdul-Hassan, e os Portugueses defronte do exército granadino do rei Yussuf. Iniciou a peleja Afonso XI à testa da cavalaria castelhana, forçando a passagem do rio e arremessando-se contra a flor da cavalaria moura que ao seu encontro viera. Logo ali se feriu entre as duas lustrosas cavalarias a mais feroz refrega. Entretanto, na ala esquerda, a hoste portuguesa, com Afonso IV à frente, entoando o psalmo Exurgat Deus e tocando as caixas e trombetas, investia pela planura contra os esquadrões granadinos, que, em disciplina, táctica e resistência, se avantajavam às tropas africanas. Transposto o rio, sob um chuveiro de flechas, com tal fúria Afonso IV acometeu os de Granada que em breve os forçou a recuar lentamente. Já na ala direita, castelhana, a cavalaria de Afonso XI levava de vencida a cavalaria moura, e, pondo-a em fuga, ia levar a confusão às tropas de reserva mouriscas. Neste mesmo momento, Afonso XI, ao tomar uma colina que dominava o campo de batalha, teria perdido a vida se o pronto e denodado socorro dos seus melhores cavaleiros lhe não tivesse então valido. Quando já em toda a linha os sarracenos recuavam, a guarnição de Tarifa, reforçada durante a noite com 1000 lanças e 4000 peões, fez uma audaciosa sortida que, surpreendendo pela retaguarda os corpos mouros de reserva, acabou de os pôr em desordenada fuga e decidiu da vitória. Começou então a perseguição «seguindo os reys catolicos o alcance com muyta parte de cavalaria e aquela infantaria que os poude acompanhar por distancia de duas leguas sem levantar as lanças nem abater as espadas». Os acampamentos do emir de Marrocos e do rei de Granada, com todas as suas riquezas - tendas de seda e ouro, alfanges com pedras preciosas, vasos lavrados, etc.-, caíram em poder dos cristãos e «então os soldados a sangue frio cortaram por hum e outro sexo, por huma e outra idade...». A mortandade foi, com efeito, enorme. Tal terror se apoderou dos mouros, que Abdul-Hassan, tendo-se acolhido a Gibraltar, passou logo à África, e o rei Yussuf, receando-se da viagem por terra, recolheu aos seus estados por mar. Drama de D. Inês de Castro http://www.resumosdelivros.com.br Dama da corte portuguesa nascida em Castela, cujo drama que a levou à morte, assassinada por motivos políticos, foi imortalizado por Camões em Os lusíadas. Filha ilegítima de um nobre da Galícia, foi para Portugal (1340) como dama de honra de D. Constança, filha do infante espanhol D. Juan Manuel, quando esta se casou com o príncipe herdeiro D. Pedro, filho do rei de Portugal, D. Afonso IV. Na corte tornou-se amante do príncipe herdeiro, que após a morte de Constança (1345), apesar da oposição do rei, casaram-se secretamente. O casal teve quatro filhos e essas crianças e mais a presença em Portugal de seus irmãos Alfonso e Fernando, provocaram intrigas na corte e alimentaram a suspeição do rei D. Afonso, que temia pelos direitos sucessórios de seu neto Fernando, filho de Constança. Numa das ausências de Pedro, conspiradores prenderam-na em Coimbra e o rei ordenou a execução, morte lamentada por Camões e que demonstrou sua indignação em versos imortais. Quando Pedro subiu ao trono (1357) desencadeou sua vingança e mandou executar todos os matadores de sua amada, além de ordenar que os restos mortais dela fossem transportados do mosteiro de Santa Clara para Alcobaça, com pompas reais. O seu drama tornou-se tema de inúmeras peças de teatro, e de outras artes, como a pintura, imortalizando-a como personagem de uma história real de amor.

D. Pedro I - O Justiceiro -8º Rei de Portugal - Reinou 10anos

Logo que D. Pedro assumiu o poder, foi sua principal ideia vingar-se dos assassinos de D. Inês de Castro, Conseguiu só apanhar apenas dois – pois Diogo Lopes Pacheco pode escapar-se a tempo – mandou-os conduzir a Santarém, onde em 1358, lhes fez dar morte cruel. Diz o cronista Fernão Peres que a um foi arrancado o coração pelas costas e a outro pelo peito. "A vingança foi consumada nos Paços de Santarém. D. Pedro mandou amarrar as vítimas, cada uma a seu poste de suplício, enquanto os cozinheiros de sua Corte preparavam um lauto banquete de cerimónia. O rei não poupou requintes de horror no castigo implacável. Mandou o carrasco tirar a um o coração pelas costas e a outro o coração pelo peito. Por fim, como sentisse que não bastava a tortura tremenda, ainda teve coragem para trincar aqueles corações que, para ele, seriam malditos para sempre". D. Pedro l resolveu fazer a homenagem merecida a D. Inês, rainha de Portugal. Ordenou então, a transladação dos restos mortais de Coimbra para o túmulo de Alcobaça. Foi um cortejo fúnebre de imponência nunca vista; pela estrada fora, por entre povo do campo que vinha chorar à berma do caminho, seguia a multidão de gente, com círios acesos, a melhor fidalguia do Reino, senhores e senhoras, a cavalgar corcéis, a passo solene, membros do clero e burgueses, todos em traje de pesar doloroso. Ao longo da viagem, a perda da rainha foi pranteada por grupos de carpideiras que soltavam gritos lancinantes e entoavam melodias plangentes; viam-se homens com cinza na cabeça, de cabelos rapados e sem barba, na expressão pública do luto. Escudeiros vestidos de estamenha crua transportavam a urna com o ataúde de Inês, carregando aos ombros os varais escuros, precedidos de alferes com pendões abatidos. Na frente do préstimo, um franciscano segurava uma enorme cruz de pinho. No transepto da igreja de Alcobaça, D. Pedro disse o último adeus à esposa. Nunca houvera paixão assim! Até nasceu a lenda de que o rei se desvairou a ponto de fazer coroar Inês, depois de morta, e obrigar a nobreza a beijar-lhe a mão de rainha. Nas Cortes de Elvas, em 1361, o rei tomou providências para atender a certas reclamações populares, também ficou resolvido instituir o Beneplácito régio, pelo qual, a partir dessa data, nenhuma determinação do Papa poderia ter efeito legal no Reino sem o visto e sanção do rei. Em resposta a várias reclamações do povo, o rei prometeu ainda que seriam respeitadas as regalias dos concelhos, e que os nobres seriam intimados a obedecer aos funcionários municipais. Regularizou também questões de administração e de justiça. Nestas Cortes de Elvas, foi tomada pela primeira vez, a decisão de uniformizar os Pesos e Medidas O governo de D. Pedro l, foi proveitoso e excelente para a paz e economia da Nação. O Reino de Portugal continuou a prosperar no seu reinado. Quando o rei faleceu, deixou os cofres públicos cheios de dinheiro. A justiça que aplicava, rigorosa e severa, era igual para todos. Por isso mereceu da História o cognome de Justiceiro. Embora arrebatado de génio, tinha um coração bondoso. O povo adorava-o. Os seus restos mortais, assim como os de D. Inês de Castro, encontram-se em dois riquíssimos túmulos, próximos um do outro, no mosteiro de Alcobaça. D. Pedro l 0 Justiceiro - (reinou de 1357 a 1367) http://www.cunhasimoes.net/cp/Textos/Historia/ Foi curto o reinado deste rei sensato e magoado. Foi dele que os presidentes dos nossos dias beberam a ideia das presidências abertas. Percorreu o país de lés-a-lés. Fixava-se nas diferentes terras, às vezes, por mais de um mês. Aí despachava, aplicava a justiça, morigerava os costumes e governava. Numa das suas estadias em Elvas, em 1361, fez reunir as Cortes; nelas, o povo insurge-se contra a intromissão da Santa Sé nos assuntos internos do país. D. Pedro ouviu as razões e instituiu o Beneplácito Régio, pelo qual o rei decretava que nenhum documento da Cúria Romana tivesse qualquer validade sem a aprovação do rei. Os prelados protestaram. D. Pedro I não os atendeu. Por esta determinação, e sabendo como a Santa Sé era poderosa e a quem todos os reis e príncipes obedeciam, se pode ver até que ponto Portugal estava consciente da sua força. Os dez anos do rei D. Pedro foram dez anos de paz e desenvolvimento. Apesar de se ver confrontado com o flagelo da peste negra (derivada da falta de higiene) conseguiu fomentar a economia e aumentar a riqueza do país. De onde se conclui que os exércitos e as guerras são os inúteis sorvedouros dos dinheiros públicos e a causa da miséria e da desgraça dos povos. Durante toda a vida, D. Pedro nunca esqueceu a bela Inês nem os seus "brutos matadores". Conseguiu deitar a mão a Pêro Coelho e fez-lhe arrancar o coração pelo peito, apanhou Álvaro Gonçalves e arrancou-lhe o coração pelas costas. Escapou Diogo Lopes Pacheco. O rei devia-o ter esquecido depois de ter saciado o desprezo e o ódio pelos infames matadores de mulheres indefesas. A Inês de Castro fê-la coroar rainha. A sua trasladação de Coimbra para Alcobaça, onde se encontram os belíssimos túmulos do rei e de Inês, são a prova evidente de "como é diferente o amor em Portugal". A lenda e a vida de um rei que não teve rainha http://dn.sapo.pt/2005/04/24/artes/ "Determinado, mas de uma debilidade extrema na relação com o passado." Assim é D. Pedro I segundo a sua biógrafa. Cristina Pimenta, historiadora especializada nas Ordens Militares em Portugal na Baixa Idade Média, "encantou-se" ao conhecer a personagem que lhe coube biografar. Um encantamento que não se limita à poética dos amores entre Pedro e Inês, mas à personalidade de um homem que compara ao imperador Frederico II, numa descrição da época "Era um homem astucioso, bellaco, codicioso, lujurioso, malicioso, irritable. Y era al mismo tiempo un hombre lleno de valor; cuando queria demonstrar sus mercedes o amabilidades, era benevolente, encantador, delicioso, activo […] En cuanto lo vi, me agradó." E se, como Frederico II, "D. Pedro não espantou o mundo, espantou, pelo menos Inês de Castro", acrescentou ao DN a historiadora, que lamenta a escassez de fontes sobre a vida do monarca. Filho de D. Afonso IV e de Beatriz de Castela, o infante D. Pedro ficou eternizado através do seu romance com Inês de Castro. É o estudo da evolução deste tema que inaugura o primeiro livro da colecção, Reis de Portugal, iniciativa do Círculo de Leitores e do Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa, da Universidade Católica, com coordenação científica de Teodoro de Matos e João Paulo Oliveira e Costa. Começando pela crónica de Fernão Lopes (séc. XIV) e terminando na poesia de Nuno Júdice (séc. XX), a relação entre Pedro e Inês é a melhor documentada do livro, pelo menos do ponto de vista literário, com a lenda a ganhar aos factos. Como refere a autora, "é impossível tratar o tema do ponto de vista histórico, strictu sensu, sem ter o mito presente. Desde Fernão Lopes que o discurso à volta se vai alterando, o que tem que ver com as épocas, com a conjuntura política e com o que se quer fazer passar". Numa linguagem que quer afastar-se do academismo, mas sem pretender ser literária - "não de trata de um romance", justifica a autora -, a biografia demora-se no enquadramento internacional e nacional de um tempo de crise económica, instabilidade política e de peste como aquele em que viveu e reinou D. Pedro; fixa-se nos pontos fortes do governo e, por fim, olha o homem, cujo retrato físico e psicológico é feito de traços pouco definidos quanto à infância, no relacionamento com os filhos e nos amores. Pedro, homem "grande de corpo, de real presença, frente espaçosa, olhos negros e formosos, cabelo ruivo, um pouco escuro, comprido, boca não pequena e rosto largo", casou com Constança, mãe do futuro D. Fernando, de quem ficou viúvo; amou Inês, com a qual teve três filhos e a lenda diz que casou; teve um filho (D. João I) com Teresa, mas foi um rei que não teve rainha. Apesar das paixões, não se livrou da suspeita lançada por Fernão Lopes de que teria amado um tal Afonso Madeira "mais do que se deve aqui de se dizer".

D.Fernando - O Formoso - 9º Rei de Portugal - Reinou 16 anos


Portugal começava a sentir a necessidade de se expandir pelo mundo. D. Fernando, acarinhando essa ideia, voltou-se contra Castela, com a qual sustentou três guerras. A primeira, entre 1369 e 1371, teve origem nos pretensos direitos de D. Fernando à coroa daquele reino. A segunda, entre 1372 e 1373, proveio da sua aliança com o duque de Lencastre, filho do rei de Inglaterra, que, por sua vez, alegava idênticos direitos à mesma coroa de Castela. Os castelhanos invadiram então Portugal e vieram cercar Lisboa. A terceira, entre 1381 e 1382, resultou de nova aliança que D. Fernando l fizera, secretamente, com o duque de Lencastre. Portugal, à semelhança do que já sucedera a quando da 2ª guerra, voltou a ser invadido por tropas castelhanas, sofrendo os nossos soldados, a princípio, sérios reveses, e a esquadra portuguesa é derrotada na batalha naval de Saltes. D. Fernando l havia-se comprometido a casar com D. Leonor, filha do rei de Aragão, o que não cumpriu. Seguidamente, prometeu desposar a filha do rei de Castela, também chamada D. Leonor. Tendo, porém, igualmente faltado a este novo compromisso, tratava o rei de casar com D. Leonor Teles, senhora que não reunia os requisitos de linhagem, nem os predicados morais indispensáveis para o alto cargo de rainha. Tal propósito desgostou o povo de Lisboa que, amotinando-se e levando à frente o alfaiate Fernão Vasques, foi em 1371, protestar junto ao monarca. Mas nada obstou ao infeliz casamento, que, no mesmo ano, veio a celebrar-se, em segredo, no mosteiro de Leça de Balio (Matosinhos). Fernão Vasques e todos os instigadores do motim foram depois executados por mandado de D. Leonor Teles. As lutas que D. Fernando l sustentou contra Castela, o seu casamento com D. Leonor Teles e algumas suas inconstantes atitudes governativas foram, é certo, muito prejudiciais para o Reino. Apesar de tudo, também decretou e pôs em execução algumas acertadas medidas de fomento, que muito contribuíram para o bem público e riqueza do tesouro, tais como: Lei das sesmarias (1375) que tornou obrigatória a cultura pelos seus donos e sujeitou os vadios a trabalharem nos campos das herdades; Lei da marinha, que fomentou a construção de muitos navios, alguns à custa do próprio rei, facilitou a exportação das mercadorias e favoreceu, com a criação das Bolsas de Porto e Lisboa, os armadores (donos) desses navios; Construção de novas muralhas em volta de Lisboa, que muito contribuiu para proteger e defender Lisboa. Este cinto de parede, conhecida pela Cerca Nova, era servido por 46 portas, tinha 77 torreões e media de perímetro, 5.775 metros; Aliança Inglesa (1373), estabeleceu o início da secular amizade anglo-lusa. D. Fernando l faleceu sem deixar filhos varões. Do seu casamento com D. Leonor Teles, nasceu uma única filha, que se achava casada com João, rei de Castela. Seus restos mortais encontram-se em Santarém. Fernando I, O Formoso , n. 31 de Outubro de 1315 , f. 22 de Outubro de 1383 (9.º rei de Portugal) Nasceu em Lisboa a 31 de Outubro de 1315, onde também faleceu a 22 de igual mês de 1383. Teve o cognome de formoso pela gentileza do seu porte. Era filho de D. Pedro I e de sua mulher, a rainha D. Constança, que faleceu ao dá-lo à luz, deixando-o assim orfão dos carinhos maternais desde o nascimento. Por morte de seu pai, sucedida em 18 de Janeiro de 1367, subiu ao trono, contando 21 anos de idade. A natureza concedera-lhe liberalmente todos os dons para se fazer amar do seu povo, mas a sua politica ruinosa, os escândalos que provocou, o seu carácter volúvel, louca prodigalidade e a imoralidade do seu viver, não tardaram a excitar a geral indignação, e causaram a Portugal irreparáveis danos. D. Fernando era ambicioso, apesar da sua indolência, grande predilecção pelos prazeres amorosos, e do seu pouco gosto pelas batalhas. Quando D. Pedro, o cruel, foi morto por seu irmão bastardo, D. Henrique de Trastamara, também pretendente ao trono de Castela, refugiaram-se em Portugal muitos fidalgos partidários do vencido. e que tinham lutado em sua defesa. Estes fidalgos despertaram a ambição de D. Fernando, aconselhando-o a que fizesse valer os seus direitos à coroa, por sua mãe, D. Constança, prometendo-lhe que muitas cidades castelhanas seguiriam o seu partido, facto que efectivamente se deu; o povo português reprovava a guerra, que só poderia ser favorável a esses estrangeiros que D. Fernando tanto estiorava, mas o rei só atendia à sua ambição e, para realizar os seus intentos, não duvidou em se aliar com o rei moiro de Granada, deixando-o apoderar-se das terras que fossem ao seu partido, e permitindo-lhe que chamasse para o socorrerem os correligionários africanos. O neto de D. Afonso IV, vencedor do Salado, sacrificava assim à sua ambição pessoal uma grande parte da península cristã, que seu avô tão briosamente havia defendido. Ao mesmo tempo solicitava a aliança do rei de Aragão, dando-lhe as cidades que conquistasse, e comprometendo-se a pagar-lhe desde logo um subsídio. Aos fidalgos castelhanos que se diziam seus partidários, concedia todas as mercês, distribuindo por eles as terras de Portugal. D. Fernando, depois de tomar estas precauções, que julgava propicias para alcançar o que desejava, invadiu a Galiza que se declarara a seu favor, mas provou logo a sua incapacidade militar e falta de gosto pelos exercícios bélicos. Na verdade, D. Henrique, apenas soube desta invasão, marchou para Galiza com um forte exército, e D. Fernando, não só se retirou precipitadamente, mas confiando a D. Álvaro Pires de Castro o cuidado de dirigir a retirada, meteu-se numa galé e fugiu para o Porto. D. Henrique atravessou o Minho, entrou em Portugal, tomou Braga, e não podendo render Guimarães, passou a Trás-os-Montes, que devastou, tomando Bragança, Vinhais e Miranda, e não prosseguiu nas suas conquistas, porque o rei moiro de Granada atacando a Andaluzia, o obrigou a partir em socorro da sua fronteira meridional. D. Fernando fora para Coimbra presenciando indiferente e de longe a devastação do seu reino. Depois, ao passo que pedia em casamento a filha do rei de Aragão, e lhe enviava importantes quantias para lhe subsidiar a aliança e animá-lo a fazer a guerra a Castela, negociava a paz com o rei D. Henrique, tratando igualmente o casamento com uma sua filha. As pazes afinal assinaram-se em Alcoutim em condições. não muito desfavoráveis para Portugal, e com a cláusula de se realizar o casamento de D. Fernando com D. Leonor de Castela. O rei de Aragão ficou furioso, e para se vingar prendeu o tesoureiro português Afonso Baraceiro, que lhe levara o subsídio de D. Fernando, e confiscou-lhe todo o dinheiro que ainda tinha em seu poder. As enormes despesas da guerra, a perda de tanto dinheiro com o rei de Aragão, as largas mercês concedidas aos fidalgos castelhanos haviam reduzido o fisco português a tais dificuldades que D. Fernando viu-se obrigado a recorrer à medida da alteração das moedas. Era um recurso fictício, de que resultou a carestia de tudo, tendo o rei de fixar taxas ao preço dos géneros, vexame que fez desaparecer os géneros do mercado, e produziu a fome. Como se não bastassem tantas desgraças, o futuro ainda preparava um quadro mais tenebroso; a paixão louca de que D. Fernando se possuiu por D. Leonor Teles de Menezes, mulher dissoluta, perigosa e perversa, que tanto influiu no seu ânimo, veio completar a obra da ruína e perdição do reino. D. Leonor Telles era formosa, casada com um fidalgo chamado João Lourenço da Cunha, e irmã de D. Maria Telles, dama de D. Beatriz, filha de D. Inês de Castro e irmã de D. Fernando, que vivia no mesmo paço real, passando por entreter criminosa intimidade com o próprio irmão. D. Leonor Telles costumava visitar sua irmã; numa dessas visitas viu D. Fernando nos aposentos de D. Beatriz, e sentiu por ele uma paixão violenta e impetuosa. D. Fernando falou a D. Maria Telles, manifestando o amor que os encantos da irmã lhe despertara na alma, porém D. Maria Teles, muito diferente de D. Leonor, era uma senhora honestíssima, e repeliu as confidências do soberano, dizendo que não concorreria nunca para que sua irmã fosse amante do rei. D. Fernando alegou que a queria para sua mulher, contando obter o divórcio de D. Leonor, a pretexto dum parentesco longínquo entre ela e seu marido. Era o que D. Leonor Teles desejava, iria ser rainha, o que muito satisfazia à sua ambição. O divórcio obteve-se, a dispensa de Roma não se fez esperar; João Lourenço da Cunha, sabendo o que se passava, abandonou sua mulher, preferindo o divorcio aos perigos que poderia correr, sujeitando-se à cólera D'el-rei, e refugiou-se em Castela. (V. D. Leonor Teles, e Cunha, João Lourenço da). Vencidos assim os obstáculos, o casamento realizou-se em segredo, em 1371, na igreja do convento de Leça do Balio. Pela segunda vez teve D. Fernando de desmanchar um casamento ajustado por tratados. O rei de Castela, assim como o de Aragão, aceitou as desculpas, mas vingou-se modificando o tratado de Alcoutim com cláusulas novas, todas em sua própria vantagem. Quando se tornou público o casamento de D. Fernando, a oposição foi enérgica e veemente; em Lisboa rebentou uma revolução, que obrigou o monarca a fugir para Santarém, mas que foi cruelmente castigada, sendo os chefes presos e condenados à morte. Em 1372 achavam-se no Porto os dois cônjuges, sendo então D. Leonor Teles reconhecida como rainha de Portugal por toda a corte; houve, porém, um fidalgo que se recusou a beijar-lhe a mão, foi D. Diniz, filho de D. Pedro I e de D. Inês de Castro, e por isso teve de fugir para Castela (V. Diniz, D.). Veio depois a guerra com Castela, que foi bem desastrosa. D. Henrique atravessou, Portugal quase sem encontrar resistência, e veio pôr cerco a Lisboa, terminando a guerra com uma paz humilhante assinada em 19 de Março de 1373. 0 reino conservou-se durante 5 anos em completa paz, e esses 5 anos foram empregados em tomar providências úteis e em administrar sensatamente, e foi essa a parte brilhante deste reinado. D. Fernando tomou então medidas muito sensatas sobre o desenvolvimento da agricultura e da marinha, construíram-se navios, Lisboa foi circundada de muralhas, fizeram-se leis repressivas da mendicidade; leis animadoras do comércio; tomaram-se medidas enérgicas contra os abusos da nobreza. No que respeita à conveniência dos estudos mereceu um certo louvor. Fez manter e guardar os privilégios da Universidade de Coimbra, dando provas de que tomava muito a peito auxiliar os estudos do reino. Em 1376 impetrou do papa Gregório IX uma bula, para que se dessem graus de bacharel em qualquer lícita faculdade, e se usassem as insígnias destes graus. A provisão de 3 de Junho de 1377, pela qual transferiu a Universidade para Lisboa, faz ver que mandara vir de reinos estrangeiros alguns homens de instrução para regerem cadeiras no Studo. É muito curiosa a cláusula dessa provisão, na parte em que dá a razão da transferência: «E vendo e considerando, que se o nosso Studo que ora staa na Cidade de Coimbra, fosse mudado na cidade de Lisboa, que na nossa terra poderia aver mais letrados, que averia, se o dito Studo na dita Cidade de Coimbra estevesse, por alguns lentes, que de otros regnos mandamos vir, nom queriam leer se nom na cidade de Lisboa... mandamos que o dito Studo, que ora staa na dita cidade de Coimbra, seja em a dita cidade de Lisboa pela guiza que ante soya estar.» Provisões em grande número abonam o interesse que lhe merecia à, Universidade, e o quanto se empenhou em promover os cómodos dos lentes e dos estudantes, e em fazer guardar os foros, regalias e privilégios da mesma Universidade. Nos princípios do ano de 1378 isentou-a de pagar dízimas e portagens de todas as coisas que fossem trazidas para mantimentos das pessoas da mesma Universidade, assim por terra como por mar; mandou a todos os oficiais destes direitos que os não percebessem, sem embargo de qualquer defesa ou mandado em contrário, e que os respectivos escrivães registassem em seus livros esta provisão. Pouco tempo, porém, durou este movimento moralizador; infelizmente a sensualidade e a ambição. os dois vícios predominantes de D. Fernando prejudicaram, sempre o bom efeito da sua administração. A devassidão propagara-se de tal forma, que a impudência era completa. Os amores escandalosos da rainha com o conde de Andeiro, fidalgo espanhol (V. Andeiro) não tardaram a tornar-se públicos, e o desejo incessante de cingir a coroa de Castela, lançava de novo o monarca em deploráveis lutas. Foi o próprio conde Andeiro quem preparou a guerra, servindo como negociador secreto entre Portugal e Inglaterra para uma nova aliança contra Castela, aproveitando duplamente o mistério em que essas negociações se envolviam para estar a sós com el-rei tratando de enganar Castela, e com a rainha tratando de enganar a el-rei. Em resultado destas negociações veio a Portugal o príncipe conde de Cambridge com um pequeno exército. Então todas as desgraças caíram a um tempo sobre o reino; a guerra assolava as fronteiras sem resultado de espécie alguma; no mar a nossa esquadra sofreu uma terrível derrota; os nossos aliados, os ingleses, praticavam as maiores atrocidades nas províncias; D. Leonor Teles enganava descaradamente o marido, exercendo grande império no seu espírito, chegando a arrancar-lhe uma ordem para se mandar matar D. João, o mestre de Avis, que ela detestava, o qual foi salvo milagrosamente por um servidor fiel. A Igreja cristã estava dividida pelo grande cisma do Ocidente, e D. Fernando, que em religião tinha tão absoluta falta de princípios como em moralidade, e com o seu carácter volúvel, ora reconhecia um papa ora reconhecia outro, com grave perturbação da consciência dos seus súbditos. No fim de tantos desastres, fez se a paz, dando D. Fernando sua filha D. Beatriz em casamento ao novo rei D. João I de Castela. Era uma perfídia, porque D. Beatriz, apesar de muito criança ainda, já fora desposada com um filho do conde de Cambridge, por isso o fidalgo inglês saiu furioso de Portugal. A paz assinou-se em 1383. D. Fernando sentia-se muito doente, e conhecendo que a morte se aproximava, pediu os sacramentos da Igreja, e lamentou e chorou amargamente as faltas que em toda a sua vida cometera. Teve três filhos do seu matrimónio: D. Afonso e D. Pedro, que morreram logo depois de nascerem e D. Beatriz que foi rainha de Castela, mulher de D. João I, filho de D. Henrique de Trastamara. Teve também uma filha bastarda, que casou com o conde de Gijon, filho bastardo do referido monarca castelhano D. Henrique. Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico, Volume III, págs. 377-379. D. Leonor Teles ARRAS POR FORO DE ESPANHA (1371-1372) - de Alexandre Herculano (...) CAPÍTULO II O BEGUINO Quem hoje passa pela cadeia da cidade de Lisboa, edifício imundo, miserável, insalubre, que por si só bastara a servir de castigo a grandes crimes, ainda vê na extremidade dele umas ruínas, uns entulhos amontoados, que separa da rua uma parede de pouca altura, onde se abre uma janela gótica. Esta parede e esta janela são tudo o que resta dos antigos Paços de a par S. Martinho, igreja que também já desapareceu, sem deixar, sequer, por memória um pano de muro, uma fresta de outro tempo. O Limoneiro é um dos monumentos de Lisboa sobre que revoam mais tradições de remotas eras. Nenhuns paços dos nossos reis da primeira e da segunda dinastia foram mais vezes habitados por eles. Conhecidos sucessivamente pelos nomes de "Paços de El-Rei", "Paços dos Infantes", "Paços da Moeda", "Paços do Limoeiro", a sua história vai sumir-se nas trevas dos tempos. São da era mourisca? Fundaram-nos os primeiros reis portugueses? Ignoramo-lo. E que muito, se a origem de Santa Maria Maior, da venerando catedral de Lisboa, é um mistério! Se, transfigurada pelos terramotos, pelos incêndios e pelos cónegos, nem no seu arquivo queimado, nem nas suas rugas caiadas e douradas pode achar a certidão do seu nascimento e dos anos da sua vida! Como as da igreja, as ruínas da monarquia dormem em silencio à roda de nós, e, envolto nos seus eternos farrapos, o povo vive eterno em cima ou ao lado delas, e nem sequer indaga porque jazem aí! Na memorável noite em que se passaram os sucessos narrados no capítulo antecedente, essa janela dos Paços de El-Rei era a única aberta em todo o vasto edifício, mas calada e escura, como todas as outras. Só, de quando em quando, quem para lá olhasse atento do meio do terreiro enxergaria o que quer que fosse, alvacento, que ora se chegava à janela, ora se retraía. Mas o silêncio que reinava naqueles sítios não era interrompido pelo menor ruído. De repente, um vulto chegou debaixo da janela e bateu devagarinho as palmas: a figura alvacenta chegou à janela, debruçou-se, disse algumas palavras em voz baixa, retirou-se, tornou a voltar e pendurou uma escada de corda que segurou por dentro. O vulto que chegara subiu rapidamente, e ambos desapareceram através dos corredores e aposentos do paço. Em um destes últimos, alumiado por tochas seguras por longos braços de ferro chumbados nas paredes, passeava um homem de meia idade e gentil presença. Os seus passos eram rápidos e incertos, e o seu aspecto carregado. De quando em quando, parava e escutava a uma porta, cujo reposteiro se meneava levemente; depois continuava a passear, parando, às vezes, com os braços cruzados e como entregue a cogitações dolorosas. Por fim, o reposteiro ondeou de alto a baixo e franziu-se no meio; mão alva de mulher o segurava. Esta entrou, e após ela um homem alto e robusto, vestido de burel e cingido de cinto de esparto, de onde pendiam umas grossas camândulas. A dama atravessou vagarosamente a sala e foi sentar-se em um estrado de altura de palmo, que corria ao longo de uma das paredes do aposento. O homem que passeava sentou-se também, no único escabelo que ali havia. Frei Roy, que o leitor já terá conhecido, ficou ao pé da porta por onde entrara, com a cabeça baixa e em postura abeatada. - Aproxima-te, beguino! - disse com voz trémula el-rei; porque era el-rei D. Fernando o homem que se sentara. Frei Roy deu uns poucos passos para diante. - Que há de novo? - perguntou el-rei. - O povo cada vez está mais alvorotado e jura falar rijamente amanhã a vossa senhoria. Mas essa não é a pior nova que eu trago! - Fala, fala, beguino! - acudiu el-rei, estendendo a mão convulsa para o echacorvos. - É que amanhã, enquanto vossa senhoria estiver em São Domingos, o áco será acometido. Pretendem matar... - Mentes, beguino! - gritou a dama, erguendo-se do estrado de um salto, semelhante a tigre descoberto pelos caçadores nos matagais da Ásia. - Mentes! Podem não me querer rainha: mas assassinar-me! Isso é impossível. Amo muito o povo de Lisboa; tenho-lhe feito as mercês que posso, não me há-de odiar assim de morte. Os fidalgos podem persuadi-lo a opor-se ao nosso casamento; mas nunca a pôr mãos violentas na pobre Leonor Teles. - Prouvera a Deus que eu mentisse hoje. Seria a primeira vez na minha vida - replicou o echacorvos, com ar contrito. - Mas ouvi com meus ouvidos a ordem para o feito e a promessa da execução, haverá três credos, na taberna de Folco Taca. - Miseráveis! - bradou, erguendo-se também, el-rei, a quem o risco da sua amante restituíra por um momento a energia. - Miseráveis! Querem sobre a cerviz o jugo de ferro de meu pai? Tê-lo-ão. Quem ousa ordenar tal coisa? - Diogo Lopes Pacheco, do vosso conselho, o disse ao alfaiate Fernão Vasques, o coudel dos revoltossos, e vosso irmão D. Dinis estava, também, com eles - respondeu Frei Roy. O beguino era o espia mais sincero e imperturbável de todo o mundo. - Velho assassino! - exclamou D. Fernando -, cobriste de luto eterno o coração do pai: queres cobrir o do filho. E tu, Dinis, que eu amei tanto, também entre os meus inimigos! Leonor, que faremos para te salvar?! Aconselha-me tu, que quase que enlouqueci! O pobre e irresoluto monarca cobriu o rosto com as mãos, arquejando violentamente. Dª Leonor, cujos olhos centelhantes, cujos lábios esbranquiçados revelavam mais ódio que terror, lançou-lhe um olhar de desprezo e, em tom de mofa, respondeu: - Sim, senhor rei, na falta de vossos leais conselheiros, posso eu, triste mulher, dar-vos um bom conselho. Acordai vossos pajens, que vão pregar um poste à porta destes paços, e mandai-me amarrar a ele, para que o vosso bom povo de Lisboa possa despedaçar-me tranquilamente amanhã, sem profanar os vossos aposentos reais. Será mais uma grande mercê que lhe fareis em recompensa do seu amor à vossa pessoa, da sua obediência aos vossos mandados. - Leonor, Leonor, não me fales assim, que me matas! - gritou D. Fernando deitando-se aos pés de Dª Leonor e abraçando-a pelos joelhos com um choro convulso. - Que te fiz eu para me tratares tão cruelmente? - Dom Fernando, lembra-te bem do que te vou dizer! O povo ou se rege com a espada do cavaleiro, ou ele vem colocar a ascuma do peão sobre o trono real. Quem não sabe brandir o ferro cede; deixa-o reinar. - Tens razão, Leonor! - disse D. Fernando, enxugando as lágrimas e alçando a fronte nobre e formosa, onde se pintava a indignação. - Serei filho de Dom Pedro, o Cruel; serei sucessor de meu pai. Eu mesmo vou ao alcáçar examinar os engenhos mais valentes que cubram o terreiro de São Martinho de pedras, de virotões e de cadáveres: os montantes e as bestas dos homens de armas e besteiros do meu alcaide-mor de Lisboa farão o resto. João Lourenço Bubal será fiel a seu rei. Se necessário for, com minhas próprias mãos ajudarei a pôr fogo à cidade, para que nem um revoltoso escape. Adeus, Leonor: conta que serás vingada. D. Fernando voltou-se rápido para a porte do aposento. Frei Roy estava imóvel diante dele. - João Lourenço Bubal - disse o espia, sem mudarde tom nem de gesto - é dos revoltosos. Ouvi-o da boca do próprio Diogo Lopes, que o certificou a Fernão Vasques. Os trons do alcácer estão desaparelhados, e a maior parte dos homens de armas e besteiros do alcaide-mor eram na taberna de Folco Taca os mais furiosos contra a que eles chamam... - Cala-te, beguino - gritou el-rei, empurrando-o com força e procurando tapar-lhe a boca. O echacorvos parou onde o impulso recebido o deixou parar e ficou outra fez imóvel diante de D. Fernando, a quem este último golpe lançava de novo na sua habitual perplexidade. - ... a adúltera - prosseguiu Frei Roy acabando a frase, porque ainda a devia, e era escrupuloso e pontual no desempenho do seu ministério. - Beguino! - atalhou Dª Leonor, com voz trémula de raiva -, melhor fora que nunca essa palavra te houvesse passado pela boca; porque, talvez, um dia ela seja fatal para os que a tiverem proferido. - Mas que faremos?! - murmurou el-rei com gesto de indizível agonia. - Havia ainda há pouco três expedientes - respondeu Dª Leonor, recobrando aparente serenidade -, combater, ceder, fugir. O primeiro é já impossível; o segundo! ... Porque não o aceitas, Fernando? Prestes estou para tudo. Não me verás mais, ainda que, longe de ti, por certo estalarei de dor. Cede à força: os teus vassalos o querem; qué-lo o teu povo. Esquece-te para sempre de mim! - Esquecer-me de ti? Não te ver mais? Nunca! Obedecer à força? Quem há aí que ouse dizer ao rei de Portugal: "Rei de Portugal, obedece à força"? Os peões de Lisboa?! Porque sou manso na paz, não crêem que a minha espada no campo da batalha corte arneses, como a do melhor cavaleiro? Bons escudeiros e homens de armas da minha hoste, por onde andais derramados? Dormis por vossas honras e solares? O povo vos acordará, como me acordou a mim; bramirá, como os lobos da serra, ao redor de vossas moradas; saltar-vos-á no meio de vossos banquetes, por entre o ruído de vossos folgares. No ardor de vossos amores, dir-vos-á: "Desamai!" Ele ousa já dizê-lo a seu rei e senhor... Oh, desgraçado de mim, desgraçado de mim! - Não queres, pois, deixar-me entregue à minha estrela? - disse Dª Leonor, com voz entre de choro e de ternura, abraçando pelo pescoço o pobre monarca e chegando a sua fronte suave e pálida às faces afogueadas de D. Fernando, que, numa espécie de delírio, olhava espantado para ela. - Não, não! Viver contigo ou morrer contigo. Cairei do trono ou tu subirás a ele. Um sorriso quase imperceptível se espraiou pelo rosto de Leonor Teles, que, recuando e tomando uma postura resoluta e ao mesmo tempo de resignação, prosseguiu com voz lenta, mas firme: - Então resta o fugir. - Fugir! - exclamou el-rei. E só esta palavra era mais expressiva que narração bem extensa dos atrozes martírios que o mal-aventurado curtia no coração irresoluto, mas generoso, com a ideia de um feito, vil e covarde em qualquer escudeiro, vilíssimo num rei de Portugal, em um neto de Afonso IV. El-rei olhou para ela um momento. Era sereno o seu rosto angélico, semelhante ao de uma dessas virgens que se encontram nas iluminuras de antigos códices, o segredo de cujos toques, perdido no fim do século décimo quinto, a arte moderna a muito custo pôde fazer ressurgir. O mais esperto fisionomista dificultosamente adivinharia a negrura de alma que se escondia debaixo das puras e cândidas feições de Dª Leonor, se não uniam entre os sobrolhos, contraindo-se e deslizando-se rapidamente como as vesículas peçonhentas das fauces de uma víbora. - Seja, pois, assim! Fujamos - murmurou D. Fernando com o tom e gesto com que o supliciado daria do alto do patíbulo o perdão ao algoz. Dª Leonor tirou do largo cinto com que apertava a airosa cintura uma bolsa de ouropel e atirou com ela aos pés do beguino, que, de mãos cruzadas sobre o peito e os olhos semiabertos cravados na abóbada do aposento, parecia extático e engolfado nos pensamentos sublimes do céu. - Vinte dobras de Dom Pedro por teu soldo, beguino: vinte pelo teu silêncio. O resto da recompensa tê-lo-ás um dia, se a adúltera atravessar triunfadora o portal por onde vai sair fugitiva. O rir afável de que estas palavras foram acompanhadas dizeram correr um calafrio pela medula espinal do echacorvos, cujas pernas vacilaram. Mas o contacto das quarenta dobras que uniu imediatamente ao peito debaixo do escapulário lhe restituiu o vigor natural. El-rei havia-se sentado, quase desfalecido, no escabelo único do aposento, e o seu aspecto demudado infundia ao mesmo tempo terror e compaixão. Quando o beguino levantou a bolsa, D. Fernando fitou nele os olhos e estendeu a mão para o reposteiro, sem dizer palavra. Frei Roy curvou a cabeça, cruzou de novo as mãos sobre o peito e, recuando até à porta, desapareceu no corredor escuro por onde entrara. Apenas os passos lentos e pesados do echacorvos deixaram de soar, Dª Leonor encaminhou-se para uma janela que dava para um vasto terrado e afastou a cortina que servia durante o dia de mitigar a acessível luz do sol. A noite ia em meio do seu curso, como o indicava o mortiço das tochas, que mal alumiavam o aposento, e a Lua, já no minguante, começava a subir na abóbada do firmamento, mergulhando no seu clarão sereno o brilho esplêndido das estrelas. A janela estava aberta, e o escabelo de el-rei ficava próximo e fronteiro: o luar batia de chapa no rosto belo e triste de D. Fernando, que, embebido no seu amargurado cismar, parecia alheio ao que se passava à roda dele e esquecido de que lhe restavam poucas horas para poder levar a cabo a resolução que tomara. Leonor Teles, encostada ao mainel da janela, pôs-se a olhar atentamente. A cidade dormia, e apenas o ladro de algum cão cortava aquela espécie de zumbido que é como o respirar nocturno de uma grande povoação que repousa. Lá em baixo, uma faixa trémula, semelhante a uma ponta de luz, cortava oblìquamente o Tejo, de onde mais largo se curvava pela margem esquerda. Os mastros de milhares de navios, emparelhados com a cidade, desde Sacavém até o promontório onde campeava, fora dos arrabaldes, o Mosteiro de S. Francisco, formavam uma espécie de floresta lançada entre a cidade e a sua imensa baía. Desde o terrado para o qual dava a janela até o rio, o bairro dos judeus, pendurado pela encosta íngreme e fechado com traveses e cadeias nos topos das ruas, desenhava uma espécie de triângulo, cuja base assentava sobre o lanço oriental da muralha mourisca, e cujo vértice, voltado para ocidente, se coroava com a sinagoga, abrigada à sombra do vulto disforme da catedral. Pouco distante do terrado, entre o palácio e a judiaria, a claridade da Lua batia de chapa em um terreiro irregular, rodeado de mesquinhas e meio arruinadas casas, que pela maior parte pareciam desabitadas. No meio dele, o que quer que era se erguia semelhante ao arco de um portal romano. Parecia ser uma ruína, um fragmento de edifício da antiga Olisipo, que esquecera ali aos terremotos, às guerras e aos incêndios, e ao qual finalmente chegara a sua hora de desabafar, porque uma alta escada de mão estava encostada à verga que assentava sobre os dois pilares laterais e os unia, como se ali a tivessem porto para, em amanhecendo, os obreiros poderem subir acima e derribarem-no em terra. Era para esse vulto que Dª Leonor se pusera a olhar atentamente. Depois voltou o rosto para el-rei, que, com a cabeça baixa, os braços estendidos e as mãos encurvadas sobre os joelhos, parecia vergar sobre o peso da sua amargura: contemplou-o com um gesto de compaixão por alguns momentos e, estendendo para ele os braços, exclamou: - Fernando! Havia no tom com que foi proferida esta única palavra um mundo de amor e voluptuosidade; mas, no meio da brandura da voz de Leonor Teles, havia também uma corda áspera; alguma cousa do rugir do tigre. El-rei deu um estremeção, como se pelos membros lhe houvera coado uma faísca eléctrica; ergueu-se, e atirou-se a chorar aos braços de Leonor Teles. - Amanhã - disse ele com voz afogada - o rei mais desonrado da cristande serei eu: o cavaleiro mais vil das Espanhas será Dom Fernando de Portugal. Que me resta? Só o teu amor; mais nada. Porque não me pedem antes a coroa real, que para mim tem sido coroa de espinhos? Dera-a de boa vontade. Oh, Leonor, Leonor!, serias a mulher mais perversa, se um dia me atraiçoasses. Um beijo da adúltera cortou as lástimas de el-rei. A formosura desta mulher tinha um toque divino à claridade da lua. D. Fernando, embriagado de amor, esqueceu-se de que poucas horas lhe restavam para fugir do seu povo enganado e ludibriado por ele. - Fernando! - prosseguiu Dº Leonor -, jura-me ainda uma vez que serás sempre meu, como eu serei sempre tua. Dizendo isto, afastou-o brandamente de si. - Juro-to uma e mil vezes pela fé de leal cavaleiro que até hoje fui. Juro-to pelo céu que nos cobre. Juro-to pelos ossos de meu nobre e valente avô, que ali dorme junto do altar-mor da Sé, debaixo das bandeiras infiéis que conquistou no Salado. Juro-to por mais que tudo isso: juro-to pelo meu amor! - Bem está, rei de Portugal! - atalhou Dª Leonor. - Agora só uma cousa me resta para te pedir. Não é favor; é justiça. - Não me peças Lisboa, que essa sabe Deus se tornará a ser minha, rica, povoada e feliz como eu a tornei, ou se repousarei ainda a cabeça nestes paços de meus antepassados, passando por cima das ruínas dela! Não me peças Lisboa, que talvez amanhã deixe de um chamar seu rei: do resto de Portugal pede-me o que quiseres. - Quero que me dês as minhas arras: quero o preço do meu corpo, conforme foro de Espanha. - Vila Viçosa é alegre como um horto de flores, e Vila Viçosa dar-ta-ei eu. O Castela de Óbidos é forte e roqueiro, são numerosos e prestes para defesa os seus engenhos, e o Castelo de Óbidos será teu. Sintra pendura-se pela montanha entre lençóis de águas vivas, e respira o cheiro das ervas e flores que crescem à sombra das penedias: podes ter por tua a Sintra. Alenquer é rica no meio das suas vinhas e pomares, e Alenquer te chamará senhora. - Guarda as tuas vilas, Dom Fernando, que eu não tas peço em dote; quero, apenas, uma promessa de coisa de bem pouca valia. - De muita ou de pouca, não me importa! Dar-te-ei o que me pedires. Dª Leonor estendeu a mão para a espécie de portada romana que se erguia solitária no meio do terreiro deserto. - É ali que tu me darás o preço do meu copo, se um dia a cerviz da orgulhosa Lisboa se curvar debaixo do teu jogo real. El-rei lançou um rápido volver de olhos para onde Leonor Teles tinha o braço estendido, mas recuou horrorizado. O vulto que negrejava no meio do terreiro era o patíbulo popular e peão: era a forca, tétrica, temerosa, maldita! - Leonor, Leonor! - disse el-rei com som de voz cavo e débil -, porque vens misturar pensamentos de sangue com pensamentos de amor? Porque interpões um instrumento de morte e de afronta entre mim e ti? Porque preferes o fruto do cadafalso às vilas e castelos de que te faço senhora? Porque trocas a estola do clérigo que há-de unir-nos pelo baraço áspero do algoz? - Rei de Portugal! - respondeu a mulher de João Lourenço da Cunha, com um brado de furor -, ainda me perguntas porque o faço? Tu nunca serás digno do ceptro de teu pai! Queres saber porque junto pensamentos de sangue a pensamentos de amor? É porque esses de quem eu o peço pediram também o meu sangue. Queres saber porque interponho entre mim e ti um instrumento de morte e de afronta? É porque o teu bom povo de Lisboa quis também interpor entre nós a morte e saciar-me de afrontas. Queres que te diga porque prefiro o fruto do cadafalso às vilas e castelos que me ofereces? É porque para os ânimos generosos não há vender vinganças por ouro. Vingança, rei de Portugal, te pede em dote a tua noiva! Jura-me que um dia os teus vassalos que me perseguem serão também perseguidos, e que essa vil plebe que cobre de injúrias e pragas o meu nome, porque te amo, o amaldiçoem porque levo os seus caudilhos ao patíbulo. Este é o preço do meu corpo. Sem esse preço, a neta de Dom Ordonho de Leão nunca será mulher de Dom Fernando de Portugal. E com um braço estendido para o lugar sem nome do suplício e com o outro curvado, como quem afastava de si el-rei, esta mulher vingativa era sublime de atrocidade. - Tens razão, Leonor - disse por fim D. Fernando, depois de largo silêncio, em que se afectos inconstantes do seu carácter volúvel mudaram gradualmente. - Tens razão. A futura rainha de Portugal terá o seu desagravo: as línguas que te ofenderam calar-se-ão para sempre; os corações que te desejaram a morte deixarão de bater. No meu trono, até aqui de mansidão e bondade, assentar-se-á a crueza. Com Judas, o traidor, seja eu sepultado no Inferno, se faltar ao juramento que te faço de lavar em sangue a tua e a minha injúria. A estas palavras, o aspecto severo de Dª Leonor Teles mudou-se em um sorrir de inexplicável doçura. - Ah, como te hei-de amar sempre! - murmurou ela. E estas palavras caíam dos seus lábios meigos e suaves como o arrulhar de pomba amorosa. Um beijo ardente, que sussurrou levado nas asas da brisa fresca da noite, selou esse pacto de ódio e de extermínio.

D. João I - O de Boa Memoria- 10º Rei de Portugal - Reinou 48 anos

Assim que D. João l subiu ao trono, nomeou D. Nuno Álvares Pereira para o alto cargo de Condestável do Reino, que quer dizer chefe supremo de todos os exércitos, e preparou-se para continuar a guerra com Castela. Entretanto, um troço de castelhanos invadiu Portugal e, tendo passado por Almeida e Pinhel, chegou até Viseu. Um hoste disciplinada de Portugueses, comandada por Martim Vasques da Cunha e Gonçalo Coutinho, partiu do inimigo que foi completamente derrotado nas proximidades de Trancoso. Esta batalha ficou conhecida na história, por Trancoso. João 1 de Castela, não se dando como vencido, resolveu invadir novamente Portugal com um poderoso exército, formado por 32 mil combatentes. Entrando pela Beira, e depois de ter subjugado os patriotas de algumas terras por onde passou, seguiu em direcção a Leiria. D. João l e D. Nuno, reunindo as suas melhores tropas, num total de pouco mais de 6 mil homens, no meio dos quais sobressaía a Ala dos Namorados (*) resolveram impedir o avanço dos castelhanos, para o que tomaram posições de combate nos campos de Aljubarrota. (*) (a Ala dos Namorados, na qual seguiram Rui de Vasconcelos e Mem Rodrigues, era formada por estudantes da Universidade de Coimbra). Os dois exércitos encontram-se no dia 14 de Agosto de 1385. Em face da grande diferença de número entre os combatentes, D. Nuno Álvares Pereira anima sua gente com palavras de conforto e patriotismo. Trava-se depois uma grande batalha (Aljubarrota) que terminou com derrota completa dos invasores. O rei de Castela, abandonou o campo mesmo antes de a luta terminar, fugindo a toda a pressa para Santarém e dali para Lisboa, onde embarcou para Sevilha. Portugal assegurou nesse dia memorável a sua independência – estava livre do perigo castelhano. D. Filipa de Lencastre (Mulher de D. João l) Após a Batalha de Aljubarrota, era altura de D. Nuno passar à ofensiva. Saindo de Estremoz com um reduzido exército, invadiu o reino de Castela pela fronteira de Badajoz e derrotou mais uma vez os castelhanos na batalha de Valverde, em Outubro de 1385. As hostilidades com Castela, continuaram ainda durante alguns anos. O rei de Castela, porém, sentindo-se cada vez mais enfraquecido, propôs a paz, que só veio a assinar-se em 1411. Assim terminou a Guerra da Independência, que durara 27 anos. A nossa aliança com a Inglaterra, estabelecida em 1373, por D. Fernando l, foi confirmada e reforçada por D. João l, em 1386, pelo Tratado de Windson. Devido a este novo tratado de aliança e amizade, ficou combinado o casamento do rei de Portugal com D. Filipa de Lencastre, filha do duque de Lencastre, casamento que se efectuou em 1387. A rainha D. Filipa foi um perfeito modelo de raras virtudes, tendo contribuído muito para o brilho e felicidade da Corte Portuguesa e esmerada educação de seus filhos, que, por seus grandes feitos, vieram a tornar-se todos célebres: D. Duarte, que sucedeu a seu pai e foi um bom rei e distinto escritor; D. Pedro, que se revelou um grande estadista pelo seu bom governo durante a menoridade de seu sobrinho D. Afonso V; D. Henrique, que fundou a Escola Náutica de Sagres e foi o iniciador dos nossos descobrimentos marítimos; e D. Fernando, a quem chamam “santo”, pelos martírios que padeceu em Fez (Marrocos). D. João l casou um filho natural, D. Afonso, com D. Beatriz, filha única de D. Nuno Álvares Pereira, tendo então os cônjuges recebido o condado de Barcelos, em 1401. Ao mesmo D. Afonso, foi dado mais tarde o título de Duque de Bragança, Casa reinante na futura 4ª Dinastia. “De união anterior ao casamento, com uma Inês Pires teve dois filhos, D. Afonso (1380-1461), que foi 8º conde de Barcelos e 1º Duque de Bragança, e D. Beatriz (1382-1439). Inês Pires: Amante do Mestre de Avis e depois D. João I, era filha de Pêro Esteves e de Maria Anes e natural de Veiros, segundo uns, ou ou de Portel, segundo outros. Dos amores com o Mestre de Avis nasceu D. Afonso, que depois casou com D. Beatriz filha de D. Nuno Álvares Pereira . D. Afonso foi o 1º Duque de Bragança. Daqui procede a casa de Bragança. Inês Pires foi depois comendadeira de Santos. Dizem os cronistas que Pêro Esteves, sapateiro judeu, desgostoso com os amores da filha nunca mais cortou as barbas e daí o povo o alcunhou de "Barbadão". Diz ainda a tradição que Pêro Esteves concebeu um plano para matar o Mestre de Avis, desistindo do intento por saber que D. João I era o primeiro a respeitar o seu desgosto”. Portugal sentia necessidade de expandir-se. Os filhos mais velhos de D. João l, D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique, querendo mostrar o seu valor militar, resolveram continuar a luta com os mouros, em África. Por isso, lembraram ao pai a conquista de Ceuta, cidade muçulmana, rica e importante, ao norte daquele continente. Uma esquadra de cerca de 200 navios, levando a bordo a melhor gente de Portugal, e em que seguiram o próprio rei, aqueles seus três filhos e o valoroso Condestável D. Nuno, largou do Tejo no dia 25 de Julho de 1415. No dia 21 de Agosto do referido ano estava às portas de Ceuta. Nesse mesmo dia procedeu-se ao desembarque, e a praça foi tomada de assalto, muito se tendo distinguido na luta os infantes Duarte, Pedro e Henrique, que ali foram armados cavaleiros. “A conquista de Ceuta foi preparada com a antecedência necessária, durante alguns anos em que se recolheram várias informações sobre a cidade. Era rica e formosa. O Infante D. Henrique, natural do Porto, organiza nesta cidade, uma esquadra que se irá juntar à do pai, D. João I que em 1415, comandou uma expedição com 200 navios levando 19 000 combatentes e 1700 marinheiros que o levou à conquista de Ceuta”. O Infante D. Henrique, depois de voltar de Ceuta, sempre dominado pelo sentimento patriótico de descobrir e tomar novas terras, abandonou a Corte e retirou-se para Sagres, onde fundou uma escola náutica. Aí aprenderam os marinheiros portugueses a arte de navegar. Foi esta escola, mantida à custa dos próprios rendimentos do Infante, que originou a Epopeia Marítima dos nossos descobrimentos. “Como pôde um pequeno país, com menos de dois milhões de habitantes, realizar a Epopeia dos Descobrimentos por “Mares Nunca Dantes Navegados”? Portugal foi o pioneiro dos descobrimentos empreendidos pela Europa cristã nos séculos XV e XVI, seguido pela Espanha e depois por outras Nações. Até fins do século XIV, além da Europa cristã, o conhecimento máximo do Planeta correspondia a cerca de 1/4 de toda a Terra e encontrava-se grosso modo na posse da civilização islâmica. Ao longo do século XVI, o conhecimento do orbe terrestre aproxima-se da sua totalidade e passa a ser influenciado decisivamente pela Europa cristã. Essa Epopeia começa com a conquista de Ceuta, na África, em 1415. Depois vem a exploração das ilhas da Madeira e dos Açores, nas décadas de 20 e 30. Segue-se o reconhecimento da costa africana, em 1434, tendo sido ultrapassado o Cabo Bojador, atingindo-se o extremo sul do Continente pelo Cabo da Boa Esperança, em 1487. Logo depois foi aberta a rota das Índias, em 1497, por Vasco da Gama. O primeiro empreendimento espanhol data de 1492, com Cristóvão Colombo, a serviço dos Reis Católicos. A expansão efectuada por outros povos europeus é bastante posterior. As primeiras iniciativas relevantes de franceses e ingleses surgem apenas nos anos 30 do século XVI”. Sob a direcção do Infante D. Henrique, foram lançadas à água as primeiras caravelas que partiram a desfazer as lendas do Mar Tenebroso, em busca de terras desconhecidas. Assim, em 1418, João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira, cavaleiros da Casa do Infante, descobriram a Ilha do Porto Santo. No ano seguinte, os mesmos, acompanhados por Bartolomeu Perestrelo, voltaram a Porto Santo e depararam com outra ilha a que deram a nome de Madeira. Por volta de 1431, Gonçalo Velho Cabral chegou à Ilha de Santa Maria (Açores). Uma medida importante tomada por D. João l, foi a de determinar que a Era de César, pela qual na Península Ibérica se contavam os anos, fosse substituída pela Era de Cristo. Ao ano de 1460 da Era de César, em que tal medida foi outorgada, correspondia o ano de 1422 da Era Cristã, 38 anos mais moderna do que aquela. Neste reinado começou a ser construído o Mosteiro da Batalha em evocação à Batalha de Aljubarrota. Neste mosteiro encontram-se os restos mortais de D. João l, sua esposa e seus filhos, na Sala da Ínclita Geração. “A Ínclita Geração É o nome dado por historiadores portugueses aos filhos do rei João I de Portugal e de Filipa de Lencastre. O epíteto refere-se ao valor individual destes príncipes que, de várias formas, marcaram a História de Portugal e da Europa. Eles foram: Duarte, Rei de Portugal (1391-1438) Pedro, Duque de Coimbra (1392-1449, morto na Batalha de Alfarrobeira, foi regente de Afonso V, seu sobrinho; considerado o príncipe mais culto da sua época Henrique, Duque de Viseu (1394-1460), o grande impulsionador dos Descobrimentos portugueses Isabel de Portugal (1397-1471), casada com Filipe III, Duque da Borgonha, actuou em nome do marido em vários encontros diplomáticos e é considerada como a verdadeira governante da Borgonha no seu tempo João, Infante de Portugal (1400-1442), condestável de Portugal e avô da rainha Isabel de Castela e do rei Manuel I de Portugal Fernando, o Infante Santo (1402-1433), morre no cativeiro em Fez, depois de recusar entregar Ceuta em troca da sua própria liberdade.” D. Nuno Álvares Pereira http://pt.wikipedia.org/wiki/ Nuno Álvares Pereira nasceu na vila de Cernache do Bonjardim, concelho da Sertã. Foi filho de Álvaro Gonçalves Pereira e de Iria Gonçalves do Carvalhal. Casou com Leonor de Alvim em, em 1377 em Vila Nova da Rainha, freguesia do concelho de Azambuja. Quando o rei Fernando de Portugal morreu em 1383, sem herdeiros a não ser a princesa Beatriz casada com o rei João I de Castela, Nuno foi um dos primeiros nobres a apoiar as pretensões de João, o Mestre de Avis à coroa. Apesar de ser filho ilegítimo de Pedro I de Portugal, João afigurava-se como uma hipótese preferível à perda de independência para os castelhanos. Depois da primeira vitória de Álvares Pereira frente aos castelhanos na batalha dos Atoleiros em Abril de 1384, João de Avis nomeia-o Condestável de Portugal e Conde de Ourém. A 6 de Abril de 1385, João é reconhecido pelas cortes reunidas em Coimbra como Rei de Portugal. Esta posição de força portuguesa desencadeia uma resposta à altura em Castela. João de Castela invade Portugal com vista a proteger os interesses de sua mulher Beatriz. Álvares Pereira toma o controlo da situação no terreno e inicia uma série de cercos a cidades leais a Castela, localizadas principalmente no Norte do país. A 14 de Agosto, Álvares Pereira mostra o seu génio militar ao vencer a batalha de Aljubarrota à frente de um pequeno exército de 6,000 portugueses e aliados ingleses, contra as 30,000 tropas castelhanas. A batalha viria a ser decisiva no fim da instabilidade política de 1383-1385 e na consolidação da independência portuguesa. Finda a ameaça castelhana, Nuno Álvares Pereira permaneceu como condestável do reino e tornou-se Conde de Arraiolos e Barcelos. Entre 1385 e 1390, ano da morte de João de Castela, dedicou-se a realizar raides contra a fronteira de Castela, com o objectivo de manter a pressão e dissuadir o país vizinho de novos ataques. Do seu casamento com Leonor de Alvim, o Condestável teve apenas uma filha, Beatriz Pereira de Alvim, que se tornou mulher de Afonso, o primeiro Duque de Bragança, sendo assim um dos antepassados da actual casa real portuguesa. Lembrado como um dos melhores generais portugueses, abraça, nos últimos anos, a vida religiosa carmelita. NUN' ÁLVARES PEREIRA - Fernando Pessoa, Mensagem (1934) Que auréola te cerca? É a espada que, volteando, Faz que o ar alto perca Seu azul negro e brando. Mas que espada é que, erguida, Faz esse halo no céu? É Excalibur, a ungida, Que o Rei Artur te deu. 'Sperança consumada, S. Portugal em ser, Ergue a luz da tua espada Para a estrada se ver! Batalha de Aljubarrota - 14 de Agosto de 1385 Aljubarrota, talvez a mais importante batalha entre os exércitos português e o castelhano, foi travada no dia 14 de Agosto de 1385, no chamado planalto cumeira de Aljubarrota, que fica a cerca de 10 Km da localidade do mesmo nome. O exército português era comandado por D. João 1º de Portugal e o espanhol por João 1º de Castela (na altura, Espanha era formada por vários condados). Esta batalha marcou o fim de diversas tentativas feitas pelo rei de Castela para dominar Portugal, após a morte de D. Fernando 1º. As tropas invasoras tentaram manobrar de forma a evitar o confronto com as tropas portuguesas, o que não conseguiram, acabando por ter de bater-se. O local havia sido escolhido pelos portugueses devido à sua situação, que oferecia vantajosas condições defensivas, condições essas ainda aumentadas por outras defesas feitas pelos portugueses, como fossos e paliçadas. Tudo isso contribuiu para que o exército inimigo, muito superior em número, fosse completamente derrotado, no espaço de algumas horas. As invasões espanholas, começaram na Batalha de Trancoso, quando um troço de castelhanos invadiu Portugal e, tendo passado por Almeida e Pinhel, chegou até Viseu. Uma hoste disciplinada de portugueses, comandada por Martim Vasques da Cunha e Gonçalo Coutinho, partiu ao encontro do inimigo que foi completamente derrotado nas proximidades de Trancoso. Então, deu-se a Batalha de Aljubarrota, pois o rei de Castela, a quem a sorte de armas tinha corrido desfavorável, resolveu invadir novamente Portugal, com um poderoso exército, formado por cerca de 32 mil homens. Entrando pela Beira, foi conquistado algumas terras por onde passou, seguindo sempre na direcção de Leiria. Às dez horas da manhã do dia 14 de Agosto de 1385, encontraram-se frente a frente, os exércitos português e castelhano, formando em linha de batalha. O exército português era formado na vanguarda por 1.700 lanças, 800 besteiros e 4.000 infantes sob o comando do Condestável Nuno Alvares Pereira, e na retaguarda por 700 lanças e 300 besteiros sob o comando de D. João I. O exército castelhano era formado por 5.000 lanças francesas e doutras nações, 2.000 ginetes, 8.000 besteiros e 15.000 infantes com apoio de artilharia, sob o comando do Rei de Castela. Depois de três quartos de hora de renhido combate, onde de parte a parte se feriram sem dó, a vitória declarou-se a favor dos portugueses, tendo o Rei de Castela fugido. Ficou esta grande batalha, memorável pelo grande feito das forças portuguesas em desvantagem de homens e armamento. Em comemoração da Batalha de Aljubarrota, edificou D. João I o Convento de Santa Maria da Vitória na Batalha, e D. Nuno Alvares Pereira o Convento do Carmo em Lisboa. D. João 1º e D. Nuno Álvares Pereira, reunindo as suas melhores tropas, num total de um pouco mais de 6 mil homens, onde se encontra a famosa Ala dos Namorados, formada por estudantes da Universidade de Coimbra, comandados Rui de Vasconcelos e Mem Martins, resolveram impedir o avanço dos Castelhanos, para o que tomaram posições de combate nos campos de Aljubarrota. Os dois exércitos encontraram-se no dia 14 de Agosto de 1385. Em face da grande diferença de número entre os combatentes, o Condestável do Reino, D. Nuno Álvares Pereira anima a sua gente com palavras de conforto e patriotismo, repassadas de fé em Deus e na Virgem. Trava-se depois uma grande Batalha, que terminou pela derrota completa dos invasores. O rei de Castela, abandonando o campo mesmo antes de a luta terminar, fugiu a toda a pressa para Santarém e dali para Lisboa, onde embarcou para Sevilha (Andaluzia – Sul de Espanha). Após a Batalha de Aljubarrota, D. Nuno Álvares Pereira, passou à ofensiva. Saindo de Extremoz com um reduzido exército, invadiu o reino de Castela pela fronteira de Badajoz e derrotou mais uma vez os castelhanos, em Outubro de 1385, na Batalha de Valverde. Apesar de estar absolutamente garantida a independência do Reino de Portugal com as continuas derrotas infligidas aos castelhanos, as hostilidades continuaram ainda durante alguns anos. O rei de Castela, porém, sentindo-se cada vez mais enfraquecido, propôs a paz, que só veio a assinar-se em 1411. Assim, terminou a Guerra da Independência, que durara 27 anos. Durante este período, a forma de governo foi monarquia hereditária, sob o regime absoluto. As três classes ainda se mantiveram, ou seja: clero, nobreza e povo. Embora a Santa Fé, como Beneplácito régio, tivesse perdido parte da sua da sua preponderância, o clero continuou a gozar de muita consideração e influência. A nobreza perdeu grande parte do seu prestígio e poderios antigos. O povo, desde de D. João 1º até D. João 2º, cresceu na estima e importância, tendo defendido em cortes, muitas vezes convocadas, os seus direitos. No fim do século XIV, a Europa encontrava-se a braços com uma época de crise e revolução. A Guerra dos Cem Anos devastava a França, epidemias de peste negra levavam vidas em todo o continente, a instabilidade política dominava e Portugal não era excepção. Em 1383, el-rei D. Fernando 1º morreu sem um filho varão que herdasse a coroa. A sua única filha era a infanta D. Beatriz, casada com o rei D. João de Castela. A burguesia mostrava-se insatisfeita com a regência da Rainha D. Leonor Teles e do seu favorito, o conde Andeiro e com a ordem da sucessão, uma vez que isso significaria anexação de Portugal por Castela. As gentes alvoroçaram-se em Lisboa, o conde Andeiro foi morto e o povo pediu ao mestre de Avis, filho natural de D. Pedro 1º de Portugal, que ficasse por regedor e defensor do Reino. O período de interregno que se seguiu ficou conhecido como crise de 1383-1385. Finalmente a 6 de Abril de 1385, D. João, mestre da Ordem de Avis, é aclamado rei pelas cortes reunidas em Coimbra, mas o rei de Castela não desistiu do direito à coroa de Portugal, que entendia advir-lhe do casamento. Em Junho invade Portugal à frente da totalidade do seu exército e auxiliado por um contingente de cavalaria francesa. Quando as notícias da invasão chegaram, João 1º encontrava-se em Tomar na companhia de D. Nuno Álvares Pereira, o Condestável do reino, e do seu exército. A decisão tomada depois de alguma hesitação foi a de enfrentar os castelhanos antes que pudessem levantar novo cerco a Lisboa. Com os aliados ingleses, o exército português intersectou os invasores perto de Leiria. Dada a lentidão com que os castelhanos avançavam, D. Nuno Álvares Pereira teve tempo para escolher o terreno favorável para a batalha, assistido pelos experientes ingleses. A opção recaiu sobre uma pequena colina de topo plano rodeada por ribeiros, perto de Aljubarrota. Pelas dez horas da manhã do dia 14 de Agosto, o exército tomou a sua posição na vertente norte desta colina, de frente para a estrada por onde os castelhanos eram esperados. Seguindo o mesmo plano de outras batalhas do século XIV (Crécy e Poitiers são bons exemplos), as disposições portuguesas foram as seguintes: cavalaria desmontada e infantaria no centro da linha, rodeadas pelos flancos de archeiros ingleses, protegidos por obstáculos naturais (neste caso ribeiros). Na retaguarda, aguardavam os reforços comandados por D. João 1º de Portugal em pessoa. Desta posição altamente defensiva, os portugueses observaram a chegada do exército castelhano protegidos pela vertente da colina. A vanguarda do exército de Castela chegou ao teatro da batalha pela hora do almoço, sob o Sol escaldante de Agosto. Ao ver a posição defensiva ocupada por aquilo que considerava os rebeldes, o rei de Castela tomou a acertada decisão de evitar o combate nestes termos. Lentamente, devido aos 30 mil soldados que constituíam o seu efectivo, o exército castelhano começou a contornar a colina pela estrada a nascente. As patrulhas castelhanas tinham verificado que a vertente Sul da colina tinha um desnível mais suave e era por aí que pretendiam atacar. Em resposta a este movimento, o exército português inverteu a sua disposição e dirigiu-se à vertente Sul da colina. Uma vez que era muito menos numeroso e tinha um percurso mais pequeno pela frente, o contingente português atingiu a sua posição final ao início da tarde. Para evitar o nervosismo dos soldados e manter a moral elevada, D. Nuno Álvares Pereira ordenou a construção de um conjunto de trincheiras e covas de lobo em frente à linha de infantaria. Esta táctica defensiva, muito típica dos exércitos ingleses, foi talvez uma sugestão dos aliados britânicos presentes no terreno. Pelas seis da tarde, os castelhanos estão prontos para a batalha. De acordo com o registo escrito por el-rei de Castela depois da batalha, os seus soldados estavam bastante cansados do dia de marcha em condições de muito calor. Mas não havia tempo para voltar atrás e a batalha começou. A iniciativa de começar a batalha partiu de Castela, com uma típica carga da cavalaria francesa: a toda a brida e em força, de forma a romper a linha de infantaria adversária. Mas tal como sucedeu na batalha de Crécy, os archeiros colocados nos flancos e o sistema de trincheiras fizeram a maior parte do trabalho. Muito antes de sequer entrar em contacto com a infantaria portuguesa, já a cavalaria se encontrava desorganizada e confusa, dado o medo dos cavalos em progredir em terreno irregular e à eficácia da chuva de flechas que sobre eles caía. As baixas da cavalaria foram pesadas e o efeito do ataque nulo. A retaguarda castelhana demorou em prestar auxílio e em consequência, os cavaleiros que não morreram foram feitos prisioneiros pelos portugueses. Depois deste percalço, a restante e mais substancial parte do exército castelhano entrou na contenda. A sua linha era bastante extensa, pelo elevado número de soldados. Ao avançar em direcção aos portugueses, os castelhanos foram forçados a desorganizar as suas próprias fileiras, de modo a caber no espaço situado entre os ribeiros. Enquanto os castelhanos se desorganizavam, os portugueses redispuseram as suas forças dividindo a vanguarda de D. Nuno Álvares em dois sectores, de modo a enfrentar a nova ameaça. Vendo que o pior ainda estava para chegar, D. João 1º de Portugal ordenou a retirada dos archeiros ingleses e o avanço da retaguarda através do espaço aberto na linha da frente. Foi então que os portugueses necessitaram chamar todos os homens ao combate e tomaram a decisão de executar os prisioneiros franceses. Esmagados entre os flancos portugueses e a retaguarda avançada, os castelhanos lutaram desesperadamente por uma vitória. Nesta fase da batalha, as baixas foram pesadas para ambos os lados, principalmente no lado de Castela e no flanco esquerdo português, recordado com o nome Ala dos Namorados. Ao pôr-do-sol a posição castelhana era já indefensável e com o dia perdido, D. João de Castela ordenou a retirada. Os castelhanos debandaram desordenados do campo de batalha. Soldados e povo das redondezas seguiam no seu encalço e não hesitavam em matar os fugitivos. Da perseguição popular surgiu uma tradição portuguesa em torno da batalha: uma mulher, de seu nome Brites de Almeida (*), recordada como a Padeira de Aljubarrota, muito forte alta e com seis dedos em cada mão, emboscou e matou pelas próprias mãos muitos castelhanos em fuga. Esta história é apenas uma lenda popular, mas o massacre que se segui à batalha é histórico. Na manhã de 15 de Agosto, a catástrofe sofrida pelos castelhanos ficou bem à vista: os cadáveres eram tantos que chegaram para barrar o curso dos ribeiros que flanqueavam a colina. Para além de soldados, morreram também muitos fidalgos castelhanos, o que causou luto em Castela até 1387. A cavalaria francesa sofreu em Aljubarrota mais uma derrota contra tácticas defensivas de infantaria, depois de Crécy e Poitiers. A batalha de Azincourt, já no século XV, mostrou que Aljubarrota não foi o último exemplo. Com esta vitória, D. João 1º tornou-se no rei incontestado de Portugal, o primeiro da dinastia de Avis. Para celebrar a vitória e agradecer o auxílio divino que acreditava ter recebido, D. João I mandou erigir o Mosteiro de Santa Maria da Vitória e fundar a vila da Batalha. Fontes Consultadas: A. H. de Oliveira Marques, História de Portugal, vol. 1, Lisboa, Presença, 1997 Fernão Lopes, Crónica de D. João I, vol. 1, s.l., Civilização, imp. 1994. João Gouveia Monteiro, Aljubarrota: 1385: a batalha real, Lisboa, Tribuna da História. (*) - A Lenda de Brites de Almeida - a Padeira de Aljubarrota A Padeira de Aljubarrota é uma das personagens mais curiosas ligadas à famosa Batalha de Aljubarrota (século XIV), onde, mais uma vez, os portugueses venceram os castelhanos. Não se pode afirmar com certeza que esta pessoa tenha existido, nem sequer que a história que se conta acerca dela seja verdade, mas ela vai estar sempre ligada à Batalha! Uma coisa é certa: existiu alguém, de nome Brites de Almeida, que foi padeira naquela terra. E parece que era tão corajosa como a da lenda. Brites de Almeida nasceu em meados do século XIV em Santa Maria de Faaron (hoje conhecida como Faro) e os seus pais eram gente muito humilde. Conta-se que quando era pequena já era alta, muito forte e musculada. E como era meio «Maria rapaz», gostava de resolver tudo com a ajuda dos punhos. Parece que quando tinha 20 anos os pais morreram e ela usou o pouco dinheiro que eles lhe deixaram para aprender a usar uma espada (só os homens nobres é que o faziam!). Então, para ganhar dinheiro, começou a usar os seus conhecimentos em feiras, onde fazia combates contra homens. Ora esta história chamou a atenção de um soldado que a desafiou: se o soldado ganhasse, Brites casava com ele. Se perdesse, ela matava-o. O que acabou por acontecer... O problema é que matar (um soldado) é crime, mesmo nessa época. Por isso Brites fugiu. Roubou um bote com o objectivo de ir para Espanha, mas um grupo de piratas raptou-a e levou-a para Argel (na Argélia), onde a vendeu a um árabe rico. No entanto, a «nossa Brites» não era pessoa para ficar presa. Passado um ano convence outros dois escravos portugueses a fugir para Portugal. Disfarçou-se de homem e seguiu para Torres Vedras, onde comprou dois machos e se transformou em almocreve (quem aluga e conduz bestas de carga). Mesmo assim, os sarilhos não a largaram e, depois de se envolver em várias lutas e provocar algumas mortes na zona de Lisboa, Brites apanhou um barco para Valada, de onde, já vestida de mulher, acabou por ir parar a Aljubarrota. Para sobreviver, já cansada e sem maneira de ganhar dinheiro, começou a pedir esmola à porta de um forno, o que chamou a atenção da padeira, já idosa, que reparou que Brites era uma mulher forte e que a podia ajudar. Assim, começou a carreira de Brites como padeira. Um dia, já depois da velha padeira ter morrido e já sendo Brites a dona do negócio, deu-se uma grande batalha em Aljubarrota. Como a maioria do povo português, ela também estava do lado de D. João, Mestre de Avis, e não queria os espanhóis a governar Portugal. Conta a lenda que, depois de Nuno Álvares Pereira vencer os espanhóis nessa batalha, Brites chefiou um grupo de populares que perseguiram os espanhóis em fuga. Nessa noite de 14 de Agosto de 1385, ao regressar, a padeira chegou a casa e encontrou sete espanhóis escondidos no forno onde costumava cozer o pão. Sem hesitar, pegou na pá de levar o pão ao forno e bateu-lhes até os matar, um a um, à medida que saíam do forno. Várias versões desta lenda aumentam o número de castelhanos e também o número de crueldades que a padeira lhes fez... Nós preferimos a versão mais simples em que, mesmo assim, a Padeira de Aljubarrota faz parte da História de Portugal, nunca mais sendo esquecida. Claro que a sua história não acaba na época da Batalha. Parece que quando fez 40 anos se casou com um lavrador rico que a admirava muito e chegou a ter filhos.

D. Duarte - O Eloquente - 11º Rei de Portugal - Reinou 5 anos

Neste reinado e ainda sob a direcção do Infante D. Henrique, continuaram os Descobrimentos. Em 1434, Gil Eanes passou o Cabo Bojador e, em 1436, Afonso Gonçalves Baldaia, descobriu o Rio do Ouro. Algumas terras que faziam parte dos bens da Coroa, tinham sido doadas, o que fez empobrecer o tesouro que, em dado momentos, se encontrou sem os rendimentos necessários para fazer face às despesas públicas. Para remediar este mal, foi por D. Duarte promulgada uma disposição que veio regulamentar as heranças doados pelo rei. Chama-se-lhe Lei Mental, porque D. João l já a trazia na mente e a aplicava, mesmo sem a ter publicado. A conquista de todas as praças do norte de África continuava a ser a maior aspiração do Infante D. Henrique. Em 1437, por sua insistência e de seu irmão D. Fernando, concordou o rei D. Duarte em que se organizasse uma armada com o fim de conquistar Tânger. A expedição partiu, mas os portugueses foram mal sucedidos. Para lá não terem de ficar todos mortos ou prisioneiros, fizeram uma proposta ao inimigo, segundo a qual entregariam Ceuta, se lhes fosse facilitado o reembarque para Portugal. Os mouros aceitaram, mas exigiram como refém o Infante D. Fernando. Logo que os expedicionários regressaram ao Reino, foram convocadas Corte em Leiria para tratar da libertação de D. Fernando. Como tais cortes deliberassem rejeitar a entrega de Ceuta, os mouros fizeram então transportar o dito infante para Fez, onde morreu em 1443, com o epíteto de Infante Santo, pelos martírios o vexames sofridos durante o cativeiro. O reinado de D. Duarte foi muito curto, pois, durou apenas 5 anos e alguns dias. Este rei faleceu em Tomar em 1438, vitimado por uma peste terrível que, no seu reinado flagelou o País. Era muito ilustrado e bondoso. Entre outras obras de merecimento, escreveu três livros notáveis: Leal Conselheiro, Arte de Bem cavalgar todo a sela e Livro de Misericórdia. Seus restos mortais encontram-se no mosteiro da Batalha. Rainha D. Leonor de Aragão (mulher de D. Duarte) D. DUARTE - O ELOQUENTE - (reinou de 1433 a 1438) http://www.cunhasimoes.net/cp/ As navegações continuaram sob o impulso do Infante. Gil Eanes, em 1434, ultrapassa o Cabo Bojador (Sara Ocidental). O mesmo Gil Eanes e Afonso Baldaia atingem o Rio do Ouro e a Pedra da Gata (mais a sul do Cabo). Foi breve e pouco feliz o reinado deste homem culto. Preocupado com o estudo e o ensino do bem, escreveu o "Leal Conselheiro" e a "Ensinança de Cavalgar Toda a Sela" (foi o primeiro, que no mundo, escreveu sobre equitação). Teve o azar de, no seu reinado, a peste, de que havia de morrer, se espalhar por quase todo o território, daí resultou fome e miséria. D. Duarte quis obviar esta situação fazendo publicar "A Lei Mental". Deu-lhe este nome porque o pai já a trazia em mente e algumas vezes a aplicou. Destinava-se a corrigir a generosidade com que D. João I recompensara os serviços dos fidalgos, que auxiliaram a sua causa na guerra contra Castela. D. Duarte mandou regressar à coroa todos os bens doados na falta de herdeiro varão. D. João I tinha sido um mãos largas para aqueles que o ajudaram a conquistar o trono. A D. Nuno Álvares Pereira deu quase metade de Portugal. Quando viu que a sua liberalidade tinha sido um exagero e que assim não conseguiria governar o país, pensou como devia corrigir a situação. É daqui que vem o nome ao diploma. Com Nuno Álvares Pereira, o rei usou de um estratagema para fazer regressar as terras à coroa, sem melindrar o Condestável; fez casar o seu filho bastardo D. Afonso, 3º conde de Barcelos, com D. Beatriz, filha única de Nuno Álvares. Ficou criada a poderosa Casa de Bragança, mas com fortes ligações à coroa. D. Duarte, rei previdente e culto, teve a sensibilidade de convidar Fernão Lopes (1380-1459) para guarda das escrituras régias e cronista-mor do Reino. Fernão Lopes escreveu as crónicas (narrações históricas) de D. Pedro I, D. Fernando I e D. João I, que são verdadeiros monumentos históricos de verdade, objectividade e isenção. O final do curto e triste reinado de D. Duarte termina pouco tempo depois do desastre de Tânger. Os portugueses, além da Expansão marítima, começaram a pensar em se estender pelo Norte de África a fim de evitar os constantes ataques dos mouros daquelas paragens. Uma das praças que pensaram conquistar foi Tânger. A expedição não teve sucesso. Foram derrotados e a maioria feita prisioneira. Aqui ficou cativo D. Fernando, irmão do rei, que os mouros pretenderam trocar pela praça de Ceuta. As Cortes não o permitiram e D. Fernando morreu no cativeiro com o epíteto de santo, pelos martírios que aí passou. D. Duarte não resistiu à dor e a peste tomou conta dele.

D. Afonso V - O Africano - 12º Rei de Portugal - Reinou 43 anos

D. Afonso V tinha pouco mais de seis anos, quando faleceu D. Duarte. Por isso, ficou a governar como regente sua mãe, D. Leonor. Como a grande maioria dos portugueses não simpatizava com D. Leonor, resolveram as cortes entregar a regência do Reino ao Infante D. Pedro, duque de Coimbra e tio de D. Afonso V. A regência de D. Pedro foi proveitosa para Portugal, e nem outra coisa era de esperar, atendendo ao seu carácter, sua prudência e sua cultura. Logo que D. Afonso V chegou à maioridade, em 1448, D. Pedro entregou-lhe o comando do governo, retirando-se em seguida para Coimbra, onde tinha o seu castelo e as suas terras. Governava D. Afonso V há pouco mais de um ano, quando por intrigas do Paço, em que se distinguiu seu irmão bastardo D. Afonso, conde de Barcelos e depois duque de Bragança, se convenceu que seu tio e sogro, ambicionava apoderar-se do trono. Sabedor do facto, resolveu D. Pedro partir de Coimbra em direcção à Corte para esclarecer a verdade, e pedir ao mesmo tempo justiça contra os seus caluniadores. Como se fazia acompanhar de alguma gente armada, o rei, tomando este gesto por provocação e rebeldia, mandou tropas ao seu encontro. O embate das duas hostes deu-se em Alfarrobeira (próximo de Alverca), onde, a pelejar, perderam a vida o Infante D. Pedro e o seu íntimo amigo D. Álvaro Vaz de Almada, conde de Avranches, em 1449. Os Descobrimentos Marítimos continuavam metodicamente, ainda sob a orientação do Infante D. Henrique. Em 1441, Nuno Tristão chegou ao Cabo Branco; Em 1445, o mesmo e Álvaro Fernandes descobriram a foz do Senegal; No mesmo ano, Dinis Dias atingiu toda a costa da Guiné até ao Cabo Verde; Em 1460, Diogo Gomes e António de Nola descobriram o Arquipélago de Cabo Verde. Por esta época (1460) falecia em Sagres o Infante D. Henrique, legando a Portugal a empresa imorredoura dos Descobrimentos dos Portugueses, que tanto contribuiu para o bom nome de Portugal e progresso da civilização. Mas a sua formidável obra estava lançada e, por isso, os descobrimentos prosseguiram: Em 1469, Fernão Gomes aportou à Costa da Mina; E, 1470, João de Santarém e Pedro Escobar descobriram as Ilhas de São Tomé e Príncipe; Fernando Pó encontra a ilha do mesmo nome e a de Ano Novo; Em 1472, Álvares Esteves passava o Equador. Também, D. Afonso V, possuidor de um temperamento guerreiro, resolveu continuar em África as conquistas de terras aos muçulmanos, iniciadas por D. João l, seu avô. Em 1458, tomou-lhes Alcácer-Ceguer. Em 1471, caíram em seu poder Arzila e Tânger, pelo que recebeu o título de Africano. A partir desta época, e devido a tais conquistas, começaram os soberanos portugueses a denominar-se : “Reis de Portugal e dos Algarves, daquém e dalém mar em África”. D. Afonso V, por ter ajustado esponsais com D. Joana, única filha do rei de Castela, quis fazer valer os seus direitos ao trono de Castela. Invadiu então, o reino de Castela, tendo-se travado a Batalha de Toro, em 1476, que foi de resultados negativos para a causa do rei português, muito embora as nossas tropas tivessem dado mostras de muita intrepidez e de grande valor combativo. Nesta batalha tornou-se célebre o alferes Duarte de Almeida “o Decepado”, a quem fora confiada a gloriosa Bandeira de Portugal. Os castelhanos, para a poderem roubar, cortaram-lhe ambas as mãos. Por último, segurou-a ainda entre os dentes, só a largando quando, exausto de forças, cheio de golpes e cutiladas, caiu do cavalo. Duarte de Almeida ficou prisioneiro dos castelhanos, mas o estandarte nacional foi recuperado pelo escudeiro português Gonçalo Pires, que o arrancara das mãos do inimigo. Neste reinado foi introduzida a Imprensa, aperfeiçoada por Gutemberg, célebre inventor alemão. Ordenações Afonsinas: Com este nome foi publicada, durante a regência de D. Pedro, a primeira colecção de leis portuguesas, principiadas a compilar desde o tempo de D. João l. Os restos mortais de D. Afonso V, encontram-se no mosteiro da Batalha. Rainha D. Joana de Castela e D. Isabel de Coimbra (que casaram com D. Afonso V) Batalha de Alfarrobeira http://pt.wikipedia.org/wiki/ Foi o recontro travado entre D. Afonso V e o Infante D. Pedro seu tio, em 1449, junto do ribeiro de Alfarrobeira, perto de Alverca. No princípio do ano de 1448, aconselhado por Afonso, Duque de Bragança, pelo conde de Ourém e pelo arcebispo de Lisboa, decidiu D. Afonso V afastar do governo do reino, seu tio, que abandonou a corte, a pretexto da administração das suas terras e se instalou na casa ducal de Coimbra. A intriga surtiu efeito no espírito do monarca que não atendeu às tentativas de conciliação do próprio D. Pedro que lhe escreveu renovando a sua obediência e defendendo-se das calúnias, quer do Infante D. Henrique e do conde de Avranches, que pretenderam evitar o drama. O rei escreve no final deste ano ao duque de Bragança requisitando-o à corte mas acompanhado de escolta uma vez que teria de atravessar terras de Coimbra. D. Pedro, sabedor da vinda do seu inimigo, proíbe-lhe a passagem por suas terras e é considerado súbdito desleal ao rei. Logo se publicam éditos contra o Infante e seus aliados e o rei investe, com as suas tropas, na tentativa de submetê-los, instalando-se em Santarém; por sua vez D. Pedro desce de Coimbra em direcção a Lisboa e encontra as tropas reais em Alfarrobeira. Travada a batalha, as tropas do monarca saem vitoriosas e o Infante morre no combate. Foi geral a reprovação europeia, perante a conduta de D. Afonso V e D. Isabel de Portugal, recolhe na corte da Borgonha os sobrinhos órfãos D. Jaime, mais tarde arcebispo de Lisboa e cardeal; D. Pedro mais tarde conde Barcelona; D. João futuro príncipe de Antioquia e D. Isabel. Em resumo, Alfarrobeira representa o triunfo da corrente senhorial sobre os princípios de centralização régia que já anunciam a Idade Moderna. Duarte de Almeida - o Decepado Alferes-mor de D. Afonso V, conhecido na história pela alcunha do Decepado. Era filho de Pedro Lourenço de Almeida. Na batalha de Toro, em 1 de Março de 1476, entre tropas portuguesas e castelhanas, em que tanto se distinguiu o príncipe D. João, depois o rei D. João II, praticaram-se actos de valentia e heroísmo; entre os guerreiros que se tornaram notáveis, conta-se Gonçalo Pires e Duarte de Almeida, o alferes-mor do rei, a quem estava confiado o estandarte real português. A luta foi enorme; as quatro grandes divisões castelhanas, vendo os seus em perigo, acudiram a auxiliá-los, ao mesmo tempo que o arcebispo de Toledo, o conde de Monsanto, o duque de Guimarães e o conde de Vila Real avançavam em socorro dos portugueses. Subjugados pela superioridade do número, os portugueses caíram em desordem, abandonando o pavilhão real. Imediatamente, inúmeras lanças e espadas o cobrem, e todos à porfia pretendem apoderar-se de semelhante troféu. Duarte de Almeida, num supremo esforço, envolto num turbilhão de lanças, empunha de novo a bandeira, e defende-a com heróica bravura. Uma cutilada corta-lhe a mão direita; indiferente à dor, empunha com a esquerda o estandarte confiado à sua Honra e lealdade; decepam-lhe também a mão esquerda; Duarte de Almeida, desesperado, toma o estandarte nos dentes, e rasgado, despedaçado, os olhos em fogo, resiste ainda, resiste sempre. Então os castelhanos o rodearam, e caiem às lançadas sobre o heróico alferes mor, que afinal, cai moribundo. Os castelhanos apoderaram-se então da bandeira, mas Gonçalo Pires (V. este nome), conseguiu arrancá-la. Este acto de heroicidade foi admirado até pelos próprios inimigos. Duarte de Almeida foi conduzido semimorto para o acampamento castelhano, onde recebeu o primeiro curativo, sendo depois mandado para um Hospital de Castela. No fim de muitos meses, voltou à, pátria, e foi viver para o castelo de Vilarigas, que herdara de seu pai. Havia casado com D. Maria de Azevedo, filha do senhor da Lousã, Rodrigo Afonso Valente e de D. Leonor de Azevedo. Diz-se que Duarte de Almeida morreu na miséria e quase esquecido, apesar da sua valentia e bravura com que se houve na batalha de Toro, que lhe custou ficar inutilizado pela falta das suas mãos. Camilo Castelo Branco, porém, nas Noites de insónia, diz que o Decepado não acabara tão pobre como se dizia, porque além do castelo de Vilarigas, seu pai possuía outro na quinta da Cavalaria, e em quanto ele esteve na guerra, sua mulher havia herdado boa fortuna duma sua tia, chamada D. Inês Gomes de Avelar. D. Afonso V, um ano antes da batalha, estando em Samora, lhe fizera mercê, pelos seus grandes serviços, para ele e seus filhos, de um reguengo no concelho de Lafões.

D. João II - O Princepe Perfeito - 13º rei de Portugal - Reinou 14 anos

Quando D. João ll tomou conta do Reino, a nobreza gozava de grande influência e privilégios. Era necessário fortalecer o poder da Coroa. Assim, o rei atraiu a si as simpatias populares, tratando por outro lado de tirar à fidalguia e grandes do Reino certas regalias, e revogar muitas doações que por seu pai, D. Afonso V, lhes tinham sido concedidas. Perante esta acto de força, os membros da nobreza, irritados e despeitados, tentaram resistir, preparando duas conspirações contra o rei. D. João ll, figura austera e superior, cognominado, com justiça, de Príncipe Perfeito, não temeu a luta e foi terrível na repressão: O duque de Bragança, foi preso e degolado em Évora. O duque de Viseu, cunhado e primo de D. João ll, também instigador da segunda, foi pelo próprio rei apunhalado em Setúbal. Além destes, muitos fidalgos foram desterrados, outros morreram na prisão. Depois de garantido e assente em bases sólidas o poder real, D. João ll continuou a empresa feliz dos descobrimentos: Em 1481, Diogo de Azambuja fundou na costa da Guiné o castelo e povoação de São Jorge da Mina. Em 1482, Diogo Cão descobriu o rio Zaire e o reino do Congo, percorrendo no ano seguinte a costa de ex-colónia de Angola. Em 1488, João Afonso de Aveiro chegou às terras de Benim, e, Bartolomeu Dias dobrou o Cabo das Tormentas (que D. João ll mudou para Cabo da Boa Esperança), com que se desfez o fatal encanto do Gigante Adamastor e se abriu o caminho do mar a novos empreendimentos para a bandas do Oriente. No momento em que isto acontecera, já D. João ll tinha mandado por terra, para colherem notícias do caminho marítimo para a Índia, Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva. Nenhum destes viajantes conseguiu regressar a Portugal. Porém, o primeiro, tendo indo até à Índia, veio depois a Sofala, donde pode enviar ao rei as informações necessárias. Não coube a D. João ll a glória de ter levado a cabo o glorioso empreendimento, porque a morte o surpreendeu antes de se encontrar definitivamente concluída a expedição que para tal fim estava a organizar-se. D.João ll permitiu em 1492, que os judeus, expulsos de Espanha pelos reis católicos Fernando e Isabel, dessem entrada em Portugal, mediante o pagamento de certo imposto e ainda com a cláusula de não se poderem demorar no Reino mais de oito meses. Se desobedecessem, ficariam escravos. Desta medida foram, porém, excluídos aqueles que desempenhavam profissões de grande proveito e utilidade. Vivia em Portugal, onde aprendera a ciência da navegação, um genovês chamado Cristóvão Colombo. A este navegador parecia-lhe possível e mais fácil descobrir a Índia pelo Ocidente. Para tal, ofereceu-se a D. João ll para efectuar a viagem, proposta que foi recusada. Em 1492, então ao serviço do rei de Castela, descobriu Cristóvão Colombo o Novo Mundo ou América. Estando D. João ll convencido de que as terras descobertas por Colombo pertenciam a Portugal, mandou preparar uma expedição do comando de D. Francisco de Almeida para ocupar aquelas terras e garantir ali os nossos direitos. O rei de Castela, sabendo isto, entrou logo em negociações com o monarca português, as quais terminaram pelo Tratado de Tordesilhas, firmado em 7 de Julho de 1494. Nesse tratado se estipulou que pertenciam a Portugal todas as terras já descobertas ou a descobrir, situadas a oriente de uma linha imaginária, traçada de pólo a pólo do globo terrestre, 370 léguas a oeste do arquipélago de Cabo Verde, e as situadas a ocidente da mesma linha pertenciam a Castela. Em consequência de muitas terras conquistadas neste reinado, D. João ll juntou aos títulos que recebera de seus antecessores mais o seguinte: Senhor da Guiné. Seus restos mortais encontram-se no mosteiro de Batalha. D. Leonor de Beja (mulher de D. João II) D. João II Filho de D. Afonso V, subiu ao trono em 1481, sendo certo que exercia já há alguns anos o poder de facto. Com efeito, as frequentes ausências do reino, por parte de D. Afonso V, põem-lhe nas mãos o governo do país. Desde 1474 que dirigia a política atlântica, devendo-se à sua visão de governante, apesar de não ter ainda vinte anos, a instituição do mare clausum, princípio que estabelecia que o domínio dos mares estava ligado ao seu descobrimento. Na linha dessa política surge o tratado de Toledo de 1480, em que D. João II aceitando a partilha das terras do Atlântico pelo paralelo das Canárias, afasta a concorrência da Espanha em África e protege a mais tarde chamada rota do Cabo. Durante o seu reinado toda a costa ocidental da África foi navegada, dobrou-se o Cabo da Boa Esperança e preparou-se por terra com as viagens de Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva, a viagem de Vasco da Gama à índia, a que o monarca já não assistiria. Em 1494, assina-se o tratado de Tordesilhas, dividindo-se a terra em duas zonas de influência, a atribuir a Portugal e à Espanha. Dentro da zona de influência portuguesa ficava o Brasil, o que permite supor que o monarca tinha conhecimento da existência dessas terras. No plano interno, a acção de João II orientou-se no sentido da centralização e fortalecimento do poder real, tendo reprimido duramente as conjuras dos nobres e abatido o poder das grandes casas do reino. De 1481 a 1485, são mortos ou presos D. Fernando, duque de Bragança, D. Diogo, duque de Viseu, D. Gutierres Coutinho, D. Pedro de Ataíde, Isaac Abravanel, D. Afonso, conde de Faro, D. Fernão da Silveira, Diogo Lourenço, Afonso Vaz, D. Álvaro, filho do duque de Bragança, Aires Pinto, bacharel João Afonso e José Abravanel. Tinha em grande conta a opinião dos povos, mas o seu conceito da autoridade real leva-o a só reunir cortes quatro vezes, durante o seu reinado. Quanto às relações externas, a sua actividade foi no sentido de criar laços de concórdia com os vários reinos, talvez com o intuito de se libertar de problemas que pusessem em dificuldades a política de expansão ultramarina. Alimentou o sonho de uma futura «monarquia ibérica», tendo conseguido contratar o casamento de seu filho D. Afonso com a primogénita dos Reis Católicos. A morte do infante veio, no entanto, deitar por terra estes planos. Manteve uma actividade diplomática intensa com vários países europeus, sendo de destacar a embaixada de Vasco de Lucena, enviada a Roma em 1485. A última fase do reinado de D. João II está marcada pelo problema da sucessão do trono. Com a morte do infante D. Afonso, procura o rei habilitar ao trono o bastardo D. Jorge. No seu testamento, todavia, nomeia seu sucessor D. Manuel, irmão da rainha. Morre no Algarve em 1495, aceitando alguns historiadores a hipótese de ter sido envenenado. Ficha genealógica: D. João II nasceu em Lisboa, a 3 de Março de 1455 e faleceu em Alvor, a 25 de Outubro de 1495; enterrado na sé de Silves e transladado em 1499 para o Mosteiro da Batalha. Casou em Janeiro de 1471 com sua prima co irmã D. Leonor, que nasceu em Beja, a 2 de Maio de 1458, tendo morrido em Lisboa, a 17 de Novembro de 1525, sendo sepultada no Mosteiro da Madre de Deus, em Xabregas, filha do infante D. Fernando, duque de Viseu, e de sua mulher D. Beatriz. Deste consórcio nasceu: 1. D. Afonso (n. em Lisboa, a 18 de Maio de 1475; f. na Ribeira de Santarém, de um acidente de cavalo, a 13 de Julho de 1491). Casou em 3 de Novembro de 1490, em Estremoz, com D. Isabel (n. em Duenas, a 2 de Outubro de 1470; f. em Saragoça, a 28 de Agosto de 1498), filha dos Reis Católicos, e que viria mais tarde a ser rainha de Portugal pelo seu casamento com D. Manuel, celebrado em Valência de Alcântara, em 1497. D. João II teve um filho bastardo de D. Ana de Mendonça, filha de D. Nuno de Mendonça, aposentador mor de D. Afonso V, e que foi dama da princesa D. Joana, a Beltraneja 2. D. Jorge de Lencastre (n. em Abrantes, a 21 de Agosto de 1481; f. no castelo de Palmela, a 22 de Julho de 1550). Seu pai fez tudo para lhe alcançar o trono, entre 1491 e 1494, concedendo-lhe os mestrados de Santiago e de Avis e dando-lhe o ducado de Coimbra e o senhorio de Montemor-o-Velho. Casou em 1500 com D. Beatriz de Vilhena, filha de D. Álvaro, irmão do 3 ° duque de Bragança, e de sua mulher D. Filipa de Melo. Fontes: Joel Serrão - Pequeno Dicionário de História de Portugal, Lisboa, Iniciativas Editoriais, 1976 Joaquim Veríssimo Serrão História de Portugal, Volume II: Formação do Estado Moderno (1415-1495), 2.ª ed., Lisboa, Verbo, 1978 O Tratado de Tordesilhas "Dom Fernando e d. Isabel, por graça de Deus rei e rainha de Castela, de Leão, de Aragão, da Sicília, de Granada, de Toledo, de Valência, de Galiza, de Maiorca, de Sevilha, da Sardenha, de Córdova, da Córsega, de Múrcia, de Jaém, do Algarve, de Algeciras, de Gibraltar, das ilhas de Canária, conde e condessa de Barcelona, senhores de Biscaia e de Molina, duques de Atenas e de Neopatria, condes de Roussilhão e da Sardenha, marqueses de Oristán e de Gociano, juntamente com o príncipe d. João, nosso mui caro e mui amado filho primogénito, herdeiro dos nossos ditos reinos e senhorios. Em fé do qual, por d. Henrique Henriques, nosso mordomo-mor e d. Gutierre de Cárdenas, comissário-mor de Leão, nosso contador-mor e o doutor Rodrigo Maldonado, todos do nosso Conselho, foi tratado, assentado e aceito por nós e em nosso nome e em virtude do nosso poder, com o sereníssimo d. João, pela graça de Deus rei de Portugal e dos Algarves d'Aquém e d'Além-mar, em África, senhor da Guiné, nosso mui caro e mui amado irmão, e com Rui de Sousa, senhor de Sagres e Beringel e d. João de Sousa, seu filho, almotacel-mor do dito sereníssimo rei nosso irmão, e Arias de Almadana, corretor dos feitos civis de sua corte e de seu foro, todos do Conselho do dito sereníssimo rei nosso irmão, em seu e em virtude de seu poder, seus embaixadores que a nós vieram, sobre a demanda que nós e ao dito sereníssimo rei nosso irmão pertence, do que até sete dias deste mês de Junho, em que estamos, da assinatura desta escritura está por descobrir no mar Oceano, na qual dito acordo dos nossos ditos procuradores, entre outras coisas, prometeram que dentro de certo prazo nela estabelecido, nós outorgaríamos, confirmaríamos, juraríamos, ratificaríamos e aprovaríamos a dita aceitação por nossas pessoas; e nós, desejando cumprir e cumprindo tudo o que assim em nosso nome foi assentado, e aceito, e outorgado acerca do supradito, mandamos trazer diante de nós a dita escritura da dita convenção e assento para vê-la e examiná-la, e o teor dela de verbo ad verbum é este que se segue: D. Fernando e d. Isabel, por graça de Deus rei e rainha de Castela, de Leão, de Aragão, da Sicília, de Granada, de Toledo, de Valência, da Galiza, da Maiorca, de Sevilha, de Sardenha, de Córdova, da Córsega, de Múrcia, de Jaém, de Algarve, de Algeciras, de Gibraltar, das ilhas de Canária, conde e condessa de Barcelona, e senhores de Biscaia e de Molina, duques de Atenas e de Neopatria, condes de Roussilhão e da Sardenha, marqueses de Oristán e de Gociano etc. Em fé do que, o sereníssimo rei de Portugal, nosso mui caro mui amado irmão, nos enviou como seus embaixadores e procuradores a Rui de Sousa, do qual são as vilas de Sagres e Beringel, e a d. João de Sousa, seu almotacél-mor, e Arias de Almadana, seu corregedor dos feitos cíveis em sua corte, e de seu Desembargo, todos do seu Conselho, para entabular e tomar assento e concórdia connosco ou com nossos embaixadores e procuradores, em nosso nome, sobre a divergência que entre nós e o sereníssimo rei de Portugal, nosso irmão, há sobre o que a nós e a ele pertence do que até agora está por descobrir no mar Oceano; em razão do que, confiando de vós d. Henrique Henriques, nosso mordomo-mor e d. Gutierre de Cárdenas, comendador-mor de Leão, nosso contador-mor, e o doutor Rodrigo Maldonado, todos de nosso Conselho, que sois tais pessoas, que zelareis nosso serviço e que bem fielmente fareis o que por nós vos for mandado e encomendado; por esta presente carta vos damos todos nossos poderes completos naquela maneira e forma que podemos e em tal caso se requer, especialmente para que por nós e em nosso nome e de nossos herdeiros e sucessores, e de todos nossos reinos e senhorios, súbditos e naturais deles, possais tratar, ajustar e assentar e fazer contrato e concórdia com os ditos embaixadores do sereníssimo rei de Portugal, nosso irmão, em seu nome, qualquer concerto, assento, limitação, demarcação e concórdia sobre o que dito é, pelos ventos em graus de Norte e de Sul e por aquelas partes, divisões e lugares do céu, do mar e da terra, que a vós bem visto forem e assim vos damos o dito poder para que possais deixar ao dito rei de Portugal e a seus reinos e sucessores todos os mares, e ilhas, e terras que forem e estiverem dentro de qualquer limitação e demarcação que com ele assentarem e deixarem. E outrossim vos damos o dito poder, para que em nosso nome e no de nossos herdeiros e sucessores, e de nossos reinos e senhorios, e súbditos e naturais deles, possais concordar a assentar e receber, e acabar com o dito rei de Portugal, e com seus ditos embaixadores e procuradores em seu nome, que todos os mares, ilhas e terras que forem ou estiverem dentro da demarcação e limitação de costas, mares e ilhas e terras que ficarem por vós e por nossos sucessores, e de nosso senhorio e conquista, sejam de nossos reinos e sucessores deles, com aquelas limitações e isenções e com todas as outras divisões e declarações que a vós bem visto for, e para que sobre tudo que está dito, e para cada coisa e parte disso, e sobre o que a isso é tocante, ou disso dependente, ou a isso anexo ou conexo de qualquer maneira, possais fazer e outorgar, concordar, tratar e receber, e aceitar em nosso nome e dos ditos nossos herdeiros e sucessores de todos os nossos reinos e senhorios, súbditos e naturais deles, quaisquer tratados, contratos e escrituras, como quaisquer vínculos, actos, modos, condições e obrigações e estipulações, penas, sujeições e renúncias, que vós quiserdes, e bem outorgueis todas as coisas e cada uma delas, de qualquer natureza ou qualidade, gravidade ou importância que tenham ou possam ter, ainda que sejam tais que pela sua condição requeiram outro nosso especificado e especial mandado e que delas se devesse de fato e de direito fazer singular e expressa menção e, que nós, estando presentes poderíamos fazer e outorgar e receber. E outrossim vos damos poder suficiente para que possais jurar e jureis por nossas almas, que nós e nossos herdeiros e sucessores, súbditos, naturais e vassalos, adquiridos e por adquirir, teremos, guardaremos e cumpriremos, e terão, guardarão e cumprirão realmente e com efeito, tudo o que vós assim assentardes, capitulardes, jurardes, outorgardes e firmardes, livre de toda a cautela, fraude, engano, ficção e simulação e assim possais em nosso nome capitular, assegurar e prometer que nós em pessoa seguramente juraremos, prometeremos, outorgaremos e firmaremos tudo o que vós em nosso nome, acerca do que dito é assegurardes, prometerdes e acordardes, dentro daquele lapso de tempo que vos bem parecer, e que o guardaremos e cumpriremos realmente, e com efeito, sob as condições, penas e obrigações contidas no contrato das bases entre nós e o dito sereníssimo rei nosso irmão feito e concordado, e sobre todas as outras que vós prometerdes e assentardes, as quais desde agora prometemos pagar, se nelas incorrermos, para tudo o que e cada coisa ou parte disso, vos damos o dito poder com livre e geral administração, e prometemos e asseguramos por nossa fé e palavra real de ter, guardar e cumprir, nós e nossos herdeiros e sucessores, tudo o que por vós, acerca do que dito é, em qualquer forma e maneira for feito e capitulado, jurado e prometido, e prometemos de o ter por firme, bom e sancionado, grato, estável e válido, e verdadeiro agora e em todo tempo, e que não iremos nem viremos contra isso nem contra parte alguma disso, nem nós nem herdeiros e sucessores, por nós, nem por outras pessoas intermediárias, directa nem indirectamente, sob qualquer pretexto ou causa, em juízo, nem fora dele, sob obrigação expressa que para isso fazemos de todos os nossos bens patrimoniais e fiscais, e outros quaisquer de nossos vassalos e súbditos e naturais, móveis e de raiz, havidos e por haver. Em testemunho do que mandamos dar esta nossa carta de poder, a qual firmamos com os nossos nomes, mandamos selar com o nosso selo. Dada na vila de Tordesillas aos cinco dias do mês de Junho, ano de nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil quatrocentos e noventa e quatro. Eu, el-rei. Eu, a rainha. Eu, Fernando Álvarez de Toledo, secretário do Rei e da Rainha, nossos senhores, a fiz escrever a seu mandado. D. João, por graça de Deus rei de Portugal e dos Algarves, d'Aquém e d'Além-mar em África, e senhor de Guiné etc. A quantos esta nossa carta de poderes e procuração virem, fazemos saber que em virtude do mandado dos mui altos e mui excelentes e poderosos príncipes, o rei d. Fernando e a rainha d. Isabel, rei e a rainha de Castela, de Leão, de Aragão, de Sicília, de Granada etc., nossos mui amados e prezados irmãos, foram descobertas e achadas novamente algumas ilhas, e poderiam adiante descobrir e achar outras ilhas e terras sobre as quais tanto umas como outras, achadas e por achar, pelo direito e pela razão que nisso temos, poderiam sobrevir entre nós todos e nossos reinos e senhorios, súbditos e naturais deles, que Nosso Senhor não consinta; a nós apraz pelo grande amor e amizade que entre todos nós existe, e para se buscar, procurar e conservar maior paz e mais firme concórdia e sossego, que o mar em que as ditas ilhas estão e forem achadas, se parte e demarque entre nós todos de alguma boa, certa e limitada maneira; e porque nós no presente não podemos entender nisto pessoalmente, confiante a vós Rui de Sousa, senhor de Sagres e Beringel, e d. João de Sousa, nosso almotacél-mor, e Arias de Almadana, corregedor dos feitos cíveis em nossa corte e do nosso Desembargo, todos do nosso Conselho, pela presente carta vos damos todo nosso poder, completo, autoridade e especial mandado, e vos fazemos e constituímos a todos em conjunto, e a dois de vós e a cada um de vós (in solidum) se os outros por qualquer modo estiverem impedidos, nossos embaixadores e procuradores, na mais ampla forma que podemos e em tal podemos e em tal caso se requer e geral especialmente; e de tal modo que a generalidade não derrogue a especialidade, nem a especialidade, a generalidade, para que, por nós, e em nosso nome e de nossos herdeiros e sucessores, e de todos os nossos reinos e senhorios, súbditos e naturais deles possais tratar, concordar e concluir e fazer, trateis, concordeis e assenteis, e façais com os ditos rei e rainha de Castela, nossos irmãos, ou com quem para isso tenha os seus poderes, qualquer concerto e assento, limitação, demarcação e concórdia sobre o mar Oceano, ilhas e terra firme, que nele houver por aqueles rumos de ventos e graus de Norte e Sul, e por aquelas partes, divisões e lugares de seco e do mar e da terra, que bem vos parecer. E assim vos damos o dito poder para que possais deixar, e deixeis aos ditos rei e rainha e a seus reinos e sucessores todos os mares, ilhas e terras que estiverem dentro de qualquer limitação e demarcação que com os ditos rei e rainha ficarem: e assim vos damos os ditos poderes para em nosso nome e no dos nossos herdeiros e sucessores e de todos os nossos reinos e senhorios, súbditos e naturais deles, possais com os ditos rei e rainha, ou com seus procuradores, assentar e receber e acabar que todos os mares, ilhas e terras que forem situados e estiverem dentro da limitação e demarcação das costas, mares, ilhas e terras que por nós e nossos sucessores ficarem, sejam nossos e de nossos senhorios e conquista, e assim de nossos reinos e sucessores deles, com aquelas limitações e isenções de nossas ilhas e com todas as outras cláusulas e declarações que vos bem parecerem. Os quais ditos poderes damos a vós os ditos Rui de Sousa e d. João de Sousa e o licenciado Arias da Almadana, para que sobre tudo o que dito é, e sobre cada coisa e parte disso e sobre o que a isso é tocante, e disso dependente, e a isso anexo, e conexo de qualquer maneira, possais fazer, e outorgar, concordar, tratar e destratar, receber e aceitar em nosso nome e dos ditos nossos herdeiros e sucessores e todos nossos reinos e senhorios, súbditos e naturais deles em quaisquer capítulos, contratos e escrituras, com quaisquer vínculos, pactos, modos, condições, penas, sujeições e renúncias que vós quiserdes e a vós bem visto for e sobre isso possais fazer e outorgar e façais e outorgueis todas as coisas, e cada uma delas, de qualquer natureza e qualidade, gravidade e importância que sejam ou possam ser posto que sejam tais que por sua condição requeiram outro nosso especial e singular mandado, e se devesse de fato e de direito fazer singular e expressa menção e que nós presentes, poderíamos fazer e outorgar, e receber. E outrossim vos damos poderes completos para que possais jurar, e jureis por nossa alma, que nós e nossos herdeiros e sucessores, súbditos e naturais, e vassalos, adquiridos e por adquirir , teremos, guardaremos e cumpriremos, terão, guardarão e cumprirão realmente, e com efeito, tudo o que vós assim assentardes e capitulardes e jurardes, outorgardes e firmardes, livre de toda cautela, fraude e engano e fingimento, e assim possais em nosso nome capitular, assegurar e prometer que nós em pessoa asseguraremos, juraremos, prometeremos, e firmaremos tudo o que vós no sobredito nome, acerca do que dito é assegurardes, prometerdes e capitulardes, dentro daquele prazo e tempo que vos parecer bem, e que o guardaremos e cumpriremos realmente e com efeito sob as condições, penas e obrigações contidas no contrato das pazes entre nós feitas e concordadas, e sob todas as outras que vós prometerdes e assentardes no nosso sobredito nome, os quais desde agora prometemos pagar e pagaremos realmente e com efeito, se nelas incorrermos. Para tudo o que e cada uma coisa e parte disso, vos damos os ditos poderes com livre e geral administração, e prometemos e asseguramos com a nossa fé real, ter e guardar e cumprir, e assim os nossos herdeiros e sucessores, tudo o que por vós, acerca do que dito é em qualquer maneira e forma for feito, capitulado e jurado e prometido; e prometemos de o haver por firme, sancionado e grato, estável e valedouro, desde agora para todo tempo e que não iremos, nem viremos, nem irão contra isso, nem contra parte alguma disso, em tempo algum; nem por alguma maneira, por nós, nem por si, nem por intermediários, directa nem indirectamente, e sob pretexto algum ou causa em juízo nem fora dele, sob obrigação expressa que para isso fazemos dos ditos nossos reinos e senhorios e de todos os nossos bens patrimoniais, fiscais e outros quaisquer de nossos vassalos e súbditos e naturais, móveis e de raiz, havidos e por haver. Em testemunho e fé do que vos mandamos dar esta nossa carta por nós firmada e selada com o nosso selo, dada em nossa cidade de Lisboa aos oito dias de Março. Rui de Pina a fez no ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil quatrocentos e noventa e quatro El rei. E logo os ditos procuradores dos ditos senhores rei e rainha de Castela, de Leão, de Aragão, de Sicília, de Granada etc., e do dito senhor rei de Portugal e dos Algarves, etc., disseram: que visto como entre os ditos senhores seus constituintes há certa divergência sobre o que a cada uma das ditas partes pertence do que até hoje, dia da conclusão deste tratado, está por descobrir no mar Oceano; que eles, portanto, para o bem da paz e da concórdia e pela conservação da afinidade e amor que o dito senhor rei de Portugal tem pelos ditos senhores rei e rainha de Castela, de Aragão etc., praz a suas altezas, e os seus ditos procuradores em seu nome, e em virtude dos ditos seus poderes, outorgaram e consentiram que se trace e assinale pelo dito mar Oceano uma raia ou linha directa de pólo a pólo; convém a saber, do pólo Árctico ao pólo Antárctico, que é de norte a sul, a qual raia ou linha e sinal se tenha de dar e dê direita, como dito é, a trezentas e setenta léguas das ilhas de Cabo Verde em direcção à parte do poente, por graus ou por outra maneira, que melhor e mais rapidamente se possa efectuar contanto que não seja dado mais. E que tudo o que até aqui tenha achado e descoberto, e daqui em diante se achar e descobrir pelo dito senhor rei de Portugal e por seus navios, tanto ilhas como terra firme desde a dita raia e linha dada na forma supracitada indo pela dita parte do levante dentro da dita raia para a parte do levante ou do norte ou do sul dele, contanto que não seja atravessando a dita raia, que tudo seja, e fique e pertença ao dito senhor rei de Portugal e aos seus sucessores, para sempre. E que todo o mais, assim ilhas como terra firme, conhecidas e por conhecer, descobertas e por descobrir, que estão ou forem encontrados pelos ditos senhores rei e rainha de Castela, de Aragão etc., e por seus navios, desde a dita raia dada na forma supra indicada indo pela dita parte de poente, depois de passada a dita raia em direcção ao poente ou ao norte-sul dela, que tudo seja e fique, e pertença, aos ditos senhores rei e rainha de Castela, de Leão etc. e aos seus sucessores, para sempre. Item: os ditos procuradores prometem e asseguram, em virtude dos ditos poderes, que de hoje em diante não enviarão navios alguns, convém a saber, os ditos senhores rei e rainha de Castela, e de Leão, e de Aragão etc., por esta parte da raia para as partes de levante, aquém da dita raia, que fica para o dito senhor rei de Portugal e dos Algarves, etc., nem o dito senhor rei de Portugal à outra parte da dita raia, que fica para os ditos senhores rei e rainha de Castela, de Leão etc., a descobrir e achar terra nem ilhas algumas, nem a contratar, nem resgatar, nem conquistar de maneira alguma; porém que se acontecesse que caminhando assim aquém da dita raia os ditos navios dos ditos senhores rei e rainha de Castela, de Leão etc., achassem quaisquer ilhas ou terras dentro do que assim fica para o dito senhor rei de Portugal e dos Algarves, que assim seja e fique para o dito senhor rei de Portugal e para seus herdeiros para todo o sempre, que suas altezas o hajam de mandar logo dar e entregar. E se os navios do dito senhor de Portugal acharem quaisquer ilhas e terras na parte dos ditos senhores rei e rainha de Castela, e de Leão, e de Aragão etc., que tudo tal seja e fique para os ditos senhores rei e rainha de Castela, e de Leão etc., e para seus herdeiros para todo o sempre, e que o dito senhor rei de Portugal o haja logo de mandar, dar e entregar. Item: para que a dita linha ou raia da dita partilha se haja de traçar e trace direita e a mais certa que possa ser pelas ditas trezentas e setenta léguas das ditas ilhas de Cabo Verde em direcção à parte do poente, como dito é, fica assentado e concordado pelos ditos procuradores de ambas as ditas partes, que dentro dos dez primeiros meses seguintes, a contar do dia da conclusão deste tratado, hajam os ditos senhores seus constituintes de enviar duas ou quatro caravelas, isto é, uma ou duas de cada parte, mais ou menos, segundo acordarem as ditas partes serem necessárias, as quais para o dito tempo se achem juntas na ilha da grande Canária; e enviem nelas, cada uma das ditas partes, pessoas, tanto pilotos como astrólogos, e marinheiros e quaisquer outras pessoas que convenham, mas que sejam tantas de uma parte como de outra e que algumas pessoas dos ditos pilotos, e astrólogos, e marinheiros, e pessoas que sejam dos que enviarem os ditos senhores rei e rainha de Castela, e de Aragão etc., vão no navio ou navios que enviar o dito senhor rei de Portugal e dos Algarves, etc., e da mesma forma algumas das ditas pessoas que enviar o referido senhor rei de Portugal vão no navio ou navios que mandarem os ditos senhores rei e rainha de Castela, e de Aragão, tanto de uma parte como de outra, para que juntamente possam melhor ver e reconhecer o mar e os rumos e ventos e graus de sul e norte, e assinalar as léguas supraditas; tanto que para fazer a demarcação e limites concorrerão todos juntos os que forem nos ditos navios, que enviarem ambas as ditas partes, e levarem os seus poderes, que os ditos navios, todos juntamente, constituem seu caminho para as ditas ilhas de Cabo Verde e daí tomarão sua rota direita ao poente até às ditas trezentas e setenta léguas, medidas pelas ditas pessoas que assim forem, acordarem que devem ser medidas sem prejuízo das ditas partes e ali onde se acabarem se marque o ponto, e sinal que convenha por graus de sul e de norte, ou por singradura de léguas, ou como melhor puderem concordar: a qual dita raia assinalem desde o dito pólo Árctico ao dito pólo Antárctico, isto é, de norte a sul, como fica dito: e aquilo que demarcarem o escrevam e firmem como os próprios as ditas pessoas que assim forem enviadas por ambas as ditas partes, as quais hão de levar faculdades e poderes das respectivas partes, cada um da sua, para fazer o referido sinal e delimitação feita por eles, estando todos conformes, que seja tida por sinal e limitação perpetuamente para todo o sempre para que nem as ditas partes, nem algumas delas, nem seus sucessores jamais a possam contradizer, nem tirá-la, nem removê-la em tempo algum, por qualquer maneira que seja possível ou que possível possa ser. E se por acaso acontecer que a dita raia e limite de pólo a pólo, como está declarado, topar em alguma ilha ou terra firme, que no começo de tal ilha ou terra que assim for encontrada onde tocar a dita linha se faça alguma marca ou torre: e que a direito do dito sinal ou torre se sigam daí para diante outros sinais pela tal ilha ou terra na direcção da citada raia os quais partam o que a cada umas das partes pertencer dela e que os súbditos das ditas partes não ousem passar uns à porção dos outros, nem estes à daqueles, passando o dito sinal ou limite na tal ilha e terra. Item: porquanto para irem os ditos navios dos ditos senhores rei e rainha de Castela, de Leão, de Aragão etc., dos reinos e senhorios até sua dita porção além da dita raia, na maneira que ficou dito, é forçoso que tenham de passar pelos mares desta banda da raia que fica para o dito senhor rei de Portugal, fica por isso concordado e assentado que os ditos navios dos ditos senhores rei e rainha de Castela, de Leão, de Aragão etc., possam ir e vir e vão e venham livre, segura e pacificamente sem contratempo algum pelos ditos mares que ficam para o dito senhor rei de Portugal, dentro da dita raia em todo o tempo e cada vez e quando suas altezas e seus sucessores quiserem, e por bem tiverem, os quais vão por seus caminhos direitos e rotas, desde seus reinos para qualquer parte do que esteja dentro da raia e limite, onde quiserem enviar para descobrir, e conquistar e contratar, e que sigam seus caminhos direito por onde eles acordarem de ir para qualquer ponto da sua dita parte, e daqueles não se possam apartar, salvo se o tempo adverso os fizer afastar, contanto que não tomem nem ocupem, antes de passar a dita raia, coisa alguma do que for achado pelo dito senhor rei de Portugal na sua dita porção e que, se alguma coisa acharem os seus ditos navios antes de passarem a dita raia, conforme está dito, que isso seja para o dito senhor rei de Portugal, e suas altezas o hajam de mandar logo dar e entregar. E porque poderia suceder que os navios e gentes dos ditos senhores rei e rainha de Castela, de Leão etc., ou por sua parte, terão achado até aos vinte dias deste mês de Junho em que estamos da conclusão deste tratado, algumas ilhas e terra firme dentro da dita raia, que se há de traçar de pólo a pólo por linha recta ao final das ditas trezentas e setenta léguas contadas desde as ditas ilhas de Cabo Verde para o poente, como dito está, fica acordado e assentado, para desfazer qualquer dúvida, que todas as ilhas e terra firme, que forem achadas e descobertas de qualquer maneira até aos ditos vinte dias deste dito mês de Junho, ainda que sejam encontradas por navios e gentes dos ditos senhores rei e rainha de Castela, de Leão, de Aragão etc., contanto que estejam dentro das primeiras duzentas e cinquenta léguas das ditas trezentas e setenta léguas, contadas desde as ditas ilhas de Cabo Verde ao poente em direcção à dita raia, em qualquer parte delas para os ditos pólos, que forem achadas dentro das ditas duzentas e cinquenta léguas, traçando-se uma raia, ou linha recta de pólo a pólo, onde se acabarem as ditas duzentas e cinquenta léguas, seja e fique para o dito senhor rei de Portugal e dos Algarves, etc., e para os seus sucessores e reinos para sempre, e que todas as ilhas e terra firme, que até os ditos vinte dias deste mês de Junho em que estamos, forem encontradas e descobertas por navios dos ditos senhores rei e rainha de Castela, e de Aragão etc., e por suas gentes ou de outra qualquer maneira dentro das outras cento e vinte léguas que ficam para complemento das ditas trezentas e setenta léguas, em que há de acabar a dita raia, que se há de traçar de pólo a pólo, como ficou dito, em qualquer parte das ditas cento e vinte léguas para os ditos pólos, que sejam achadas até o dito dia, sejam e fiquem para os ditos senhores rei e rainha de Castela, de Leão, de Aragão etc., e para os seus sucessores e seus reinos para todo sempre, conforme é e há de ser seu tudo o que descobrirem além da dita raia das ditas trezentas e setenta léguas, que ficam para suas altezas, como ficou dito, ainda que as indicadas cento e vinte léguas estejam dentro da dita raia das ditas trezentas e setenta léguas, que ficam para o dito senhor rei de Portugal e dos Algarves, etc., como dito está. E se até os ditos vinte dias deste dito mês de Junho não for encontrada pelos ditos navios de suas altezas coisa alguma dentro das ditas cento e vinte léguas, e dali para diante o acharem, que seja para o dito senhor rei de Portugal, como no supra capítulo escrito está contido. E que tudo o que ficou dito e cada coisa e parte dele, os ditos d. Henrique Henriques, mordomo-mor, e d. Gutierre de Cárdenas, contador-mor, e do doutor Rodrigo Maldonado, procuradores dos ditos mui altos e mui poderosos príncipes senhores o rei e a rainha de Castela, de Leão, de Aragão, da Sicília, de Granada etc., e em virtude dos seus ditos poderes que vão incorporados, e os ditos Rui de Sousa, e d. João de Sousa, seu filho e Arias de Almadana, procuradores e embaixadores do dito mui alto e mui excelente príncipe o senhor rei de Portugal e dos Algarves,d'Aquém e d'Além em África e senhor de Guiné, e em virtude dos seus ditos poderes que vão supra-incorporados, prometerem e assegurarem em nome dos seus ditos constituintes, que eles e seus sucessores e reinos, e senhorios, para todo o sempre, terão, guardarão e cumprirão realmente, e com efeito, livre de toda fraude e penhor, engano, ficção e simulação, todo o contido nesta capitulação, e cada uma coisa, e parte dele, quiseram e outorgaram que todo o contido neste convénio e cada uma coisa, e parte disso será guardada e cumprida e executada como se há de guardar, cumprir e executar todo o contido na capitulação das pazes feitas e assentadas entre os ditos senhores rei e rainha de Castela, de Leão, de Aragão etc., e o senhor d. Afonso rei de Portugal, que em santa glória esteja, e o dito senhor rei que agora é de Portugal, seu filho, sendo príncipe o ano que passou de mil quatrocentos e setenta e nove anos, e sob aquelas mesmas penas, vínculos, seguranças e obrigações, segundo e de maneira que na dita capitulação das ditas pazes está contida. E se obrigaram a que nem as ditas pazes, nem algumas delas, nem seus sucessores para todo o sempre irão mais nem se voltarão contra o que acima está dito e especificado, nem contra coisa alguma nem parte disso directa nem indirectamente, nem por outra maneira alguma, em tempo algum, nem por maneira alguma pensada ou não pensada que seja ou possa ser, sob as penas contidas na dita capitulação das ditas pazes, e a pena cumprida ou não cumprida ou graciosamente remida; que esta obrigação, e capitulação, e assento, deixe e fique firme, estável e válida para todo o sempre, para assim terem, e guardarem, e cumprirem, e pagarem em tudo o supradito aos ditos procuradores em nome dos seus ditos constituintes, obrigaram os bens cada um de sua dita parte, móveis, e de raiz, patrimoniais e fiscais e de seus súbditos e vassalos havidos e por haver, e renunciar a quaisquer leis e direitos de que se possam valer as ditas partes e cada uma delas para ir e vir contra o supradito, e cada uma coisa, e parte disso realmente, e com efeito, livre toda a fraude, penhor, e engano, ficção e simulação, e não o contradirão em tempo algum, nem por alguma maneira sob a qual o dito juramento juraram não pedir absolvição nem relaxamento disso ao nosso santíssimo padre, nem a outro qualquer legado ou prelado que a possa dar, e ainda que de motu proprio a dêem não usarão dela, antes por esta presente capitulação suplicam no dito nome ao nosso santíssimo padre que haja sua santidade por bem confiar e aprovar esta dita capitulação, conforme nela se contém, e mandando expedir sobre isto suas bulas às partes, ou a quaisquer delas, que as pedir e mandam incorporar nelas o teor desta capitulação, pondo suas censuras aos que contra ela forem ou procederem em qualquer tempo que seja ou possa ser. E assim mesmo os ditos procuradores no dito nome se obrigaram sob a dita pena e juramento, dentro dos cem primeiros dias seguintes, contados desde o dia da conclusão deste tratado, darão uma parte a esta primeira aprovação, e ratificação desta dita capitulação, escritas em pergaminho, e firmadas nos nomes dos ditos senhores seus constituintes, e seladas, com os seus selos de cunho pendentes; e na escritura que tiverem de dar os ditos senhores rei e rainha de Castela, de Leão, de Aragão etc., tenha de firmar e consentir e autorizar o mui esclarecido e ilustríssimo senhor o príncipe d. João seu filho: de tudo o que dito é, outorgaram duas escrituras de um mesmo teor uma tal qual a outra, as quais firmaram com seus nomes e as outorgaram perante os secretários e testemunhas abaixo assinadas para cada uma das partes a sua e a qualquer que se apresentar, vale como se ambas as duas se apresentassem, as quais foram feitas e outorgadas na dita vila de Tordesillas no dita, mês e ano supraditos. D. Henrique, comendador-mor. Rui de Sousa. D. João de Sousa. Doutor Rodrigo Maldonado. Licenciado Arias. Testemunhas que foram presentes, que vieram aqui firmar seus nomes ante os ditos procuradores e embaixadores e outorgar o supradito, e fazer o dito juramento, o comendador Pedro de Leon, o comendador Fernando de Torres, vizinhos da vila de Valladolid, o comendador Fernando de Gamarra, comendador de Lagra e Cenate, contínuos da casa dos ditos rei e rainha nossos senhores, e João Soares de Siqueira e Rui Leme, e Duarte Pacheco, contínuos da casa do senhor rei de Portugal para isso chamados. E eu, Fernando Dalvares de Toledo, secretário do rei e da rainha nossos senhores e de seu Conselho, e seu escrivão de Câmara, e notário público em sua corte, e em todos os seus reinos e senhorios, estive presente a tudo que dito está declarado em um com as ditas testemunhas, e com Estevam Baez secretário do dito senhor rei de Portugal, que pela autoridade que os ditos rei e a rainha nossos senhores lhe deram para fazer dar sua fé neste auto em seus reinos, que esteve também presente ao que dito está, e a rogo e outorgamento de todos os procuradores e embaixadores que em minha presença e na sua aqui firmaram seus nomes, este instrumento público de capitulação fiz escrever, o qual vai escrito nestas seis folhas de papel de formato inteiro escritas de ambos os lados e mais esta em que vão os nomes dos supraditos e o meu sinal; e no fim de cada página vai rubricado o sinal do meu nome e o do dito Estevam Baez, e em fé disso pus aqui este meu sinal, que é tal. Em testemunho de verdade, Fernão Dalvares. E eu, dito Estevam Baez, que por autoridade que os ditos senhores rei e rainha de Castela, de Leão etc., me deram para fazer público em todos os seus reinos e senhorios, juntamente com o dito Fernão Dalvares, a rogo e requerimento dos ditos embaixadores e procuradores a tudo presente estive, e em fé a certificação disso aqui com o meu público sinal assinei, que é tal. A qual dita escritura de assento, e capitulação e concórdia supra incorporada, vista e entendida por nós e pelo dito príncipe d. João, nosso filho, nós a aprovamos, louvamos, e confirmamos, e outorgamos, ratificamos, e prometemos ter, guardar e cumprir todo o supradito nela contido, e cada uma coisa, e parte disso realmente e com efeito, livre de toda a fraude, cautela e simulação, e de não ir, nem vir contra isso, nem contra parte disso em tempo algum, nem por alguma maneira, que seja, ou possa ser; e para maior firmeza, nós, e o dito príncipe d. João nosso filho, juramos por Deus, pela Santa Maria e pelas palavras do Santo Evangelho, onde quer que mais amplamente estejam impressas, e pelo sinal da cruz, na qual corporalmente colocamos nossas mãos direitas em presença dos ditos Rui de Sousa e d. João de Sousa, e o licenciado Arias de Almadana, embaixadores e procuradores do dito e sereníssimo rei de Portugal, nosso irmão, de o assim ter e guardar e cumprir, e a cada uma coisa, e parte do que a nós incumbe realmente, e com efeito, como está dito, por nós e por nossos herdeiros e sucessores, e pelos nossos ditos reinos e senhorios, e súbditos e naturais deles, sob as penas e obrigações, vínculos e renúncias no dito contrato de capitulação e concórdia supra-escrito contidas: por certificação e corroboração do qual, firmamos nesta nossa carta nossos nomes e a mandamos selar com o nosso selo de cunho pendentes em fios de seda em cores. Dada na vila de Arévalo, aos dois dias do mês de Julho, ano do nascimento de nosso senhor Jesus Cristo de mil quatrocentos e noventa e quatro. Eu, el-rei. Eu, a rainha. Eu, o príncipe. E eu, Fernão Dalvares de Toledo, secretário d'el-rei e da rainha, nossos senhores, a fiz escrever por sua ordem. " A pesquisa de Pêro de Covilhã e Afonso de Paiva http://www.projetomemoria.art.br/ Enquanto Bartolomeu Dias tentava alcançar o Índico pelo extremo sul do continente africano, D. João II tratava de obter informações directas sobre aquele oceano, seu condicionalismo físico, seus portos e respectivos comércios. Assim, incumbiu Pêro de Covilhã e Afonso de Paiva, seus escudeiros e conhecedores da língua árabe, de uma pesquisa, através de uma viagem por terra e por mar. Assim, após conveniente preparação geográfico-náutica ministrada pelo bispo D. Diogo Ortiz e astrólogos de D. João II, partiram de Santarém em 7 de Maio de 1487, munidos de numerário e cartas de créditos. Disfarçados de mercadores, alcançaram Alexandria; dali, passaram ao Cairo e foram em caravana a Tor (no Sinai) e, por via marítima, a Suaquém e Adem, onde separaram-se. Afonso de Paiva dirigiu-se à Etiópia, para contatar Preste João. Covilhã navegou para a Índia, onde esteve em Cananor e Calecute. Alcançou outros entrepostos, com certeza Ormuz e Sofala. Afonso de Paiva e Pêro de Covilhã haviam combinado de se encontrar no Cairo. Covilhã deve ter chegado lá no início de 1491, quando teve notícia do falecimento do companheiro, que não conseguira efectuar a missão na Etiópia. Os judeus mestre José e rabino Abrãao trouxeram-lhes novas ordens do rei. O primeiro regressou ao reino com todas as informações colhidas; o segundo acompanharia Covilhã até Adem e substituiria Afonso de Paiva na tentativa de contactar Preste João. Tendo-se perdido o relatório trazido por mestre José, o que hoje se sabe da aventura dos dois emissários é graças ao relato que Covilhã fez ao padre Francisco Álvares, integrante da Embaixada de D. Rodrigo de Lima, que esteve na Etiópia no início da terceira década do Século XVI e ali encontrou-o vivo.

D.Manuel I - O Venturoso - 14º Rei de Portugal - Reinou 26 anos

D. João ll faleceu sem deixar descendentes directos. Morrera de desastre o único filho que tinha, por ter caído dum cavalo na Ribeira de Santarém, em 1491. Por esta razão, sucedeu-lhe no trono, como parente mais próximo, D. Manuel, duque de Beja, que era primo e cunhado de D. João ll. Em 1496, mandou D. Manuel l expulsar do Reino todos os judeus e mouros que se não quisessem converter ao cristianismo. Os que ficaram, por terem abraçado a cristianismo, chamavam-se cristãos-novos. Esta medida desagradou a uns e agradou a outros, contentando em especial sua esposa, a princesa D. Isabel, filha dos reis católicos de Espanha. Em 1505, deu-se na Igreja de São Domingos, em Lisboa, um tumulto popular contra os cristãos-novos (matança dos cristãos-novos), tendo morrido milhares deles. D. Manuel l protegeu então os perseguidos e dissolveu a Casa dos Vinte e Quatro, criada por D. João l, à qual atribuiu as responsabilidades desse motim sangrento. Os judeus e mouros habitavam bairros especiais, respectivamente, pelos nome de Judiarias e Mourarias. D. Manuel l prosseguiu na senda dos Descobrimentos. A frota, já preparada por D. João ll para a grande Viagem à Índia, Encontrava-se então reunida na praia do Restelo (Belém – Lisboa). Compunha-se de 3 naus (S. Gabriel, São Rafael e Bérrio) e uma barcaça de mantimentos, levando todas, aproximadamente, uma tripulação de 170 homens. Era seu almirante Vasco da Gama, e piloto, da nau da capitania, Pêro de Alenquer. Assim constituída, e depois de desfraldadas as velas, em que se via a Cruz de Cristo, a armada partiu de Belém com destino à Índia, no dia 8 de Julho de 1497. A 22 de Novembro, dobrava o Cabo da Boa Esperança, a 15 de Abril de 1498 aportava em Melinde, e a 20 de Maio do mesmo ano chegava finalmente a Calecute (Índia), depois de ter visitado toda a costa oriental da África. Estava descoberto, por mar, o Caminho do Oriente. No ano de 1500, larga do Restelo uma frota comandada por Pedro Álvares Cabral que, seguindo para o lado ocidental do Atlântico, descobriu Vera Cruz, mais tarde chamada Brasil. Em 1501, Gaspar Corte Real encontrou a ilha da Terra Nova; e em 1502, João da Nova descobriu as ilhas de Ascensão e de Santa Helena. Em 1519, um navegador português, chamado Fernão de Magalhães, empreendeu, ao serviço de Carlos V, rei de Espanha, a 1ª viagem à volta da Terra. Esta empresa foi depois concluída pelo seu companheiro Sebastião del Cano, em 1522, em virtude daquele célebre marinheiro ter morrido numa das ilhas Filipinas, em combate com os indígenas. A grandeza e fama de Portugal eram então celebradas por todo o Mundo. Nem tudo estava, porém, concluído. A cruzada começada pelo Infante D. Henrique ia entrar na sua fase decisiva, sob os auspícios de D. Manuel l: ÍNDIA. D. Francisco de Almeida, 1º vice-rei da Índia, conquistou, na costa oriental da África, Mombaça e Quiloa, em 1505; fundou, no oriente, as fortalezas de Cananor, Angediva e Cochim; e, perto de Dio, desbaratou uma poderosa armada egípcia. Afonso de Albuquerque, 2º vice-rei, guerreiro invencível e conquistador, tomou Ormuz, Goa e Malaca, de 1507 a 1511. Em África oriental, foram ainda conquistadas várias fortalezas, como: a de Safim, por Diogo de Azambuja, e as de Azamor, Tete e Almedina, por D. Jaime, duque de Bragança. Depois de descoberto o Caminho Marítimo para a Índia e de assegurado tão grande império, que se dilatava pelos confins de África, Ásia, América e Oceânia, D. Manuel l tomou o pomposo título de Rei de Portugal e dos Algarves, daquém e dalém Mar, em África, Senhor da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia. No reinado de D. Manuel l, foram construídos os seguintes monumentos: Mosteiro dos Jerônimos e Torre de Belém, em Lisboa; Capelas Incompletas, no Mosteiro da Batalha; Castelo da Pena, em Sintra; Convento de Cristo, em Tomar. O Mosteiro dos Jerónimos, erigido em comemoração da Descoberta do Caminho Marítimo para a Índia, é uma obra colossal e magnificente. Foi construído pelos arquitectos, Boitaca e João de Castilho. Neles se encontram os restos mortais, entre outros de D. Manuel l e de Camões. Rainha D. Maria Aragão e Castela e Rainha D. Leonor de Áustria (casadas do D. Manuel) D. Manuel lº Cognome histórico: o "VENTUROSO" Reinou de 1495 a 1521 O décimo quarto rei de Portugal nasceu em 1469 em Alcochete (província do Ribatejo). Era filho de D. Fernando, Duque de Viseu e de sua mulher, a infanta D. Beatriz, e irmão do Duque de Viseu, que o seu antecessor, D. João ll o "Príncipe Perfeito", matara. Tendo este falecido sem descendente directo, pois seu único filho, o príncipe D. Afonso morrera num desastre perto de Santarém, sucedeu-lhe D. Manuel, que casou em primeiras núpcias com D. Isabel, filha dos reis de Espanha (os católicos) e viúva do falecido príncipe D. Afonso. Esta princesa que recebera uma educação fanaticamente católica, impôs como condição de casamento, que fossem expulsos de Portugal os Judeus e os Mouros, o que obrigou muitos daqueles a converterem-se ao catolicismo, ficando a chamar-se "Cristãos Novos". Durante este reinado, foram muitos e gloriosos os feitos dos navegadores portugueses, e daí o cognome de o "Venturoso", atribuído a D. Manuel l. Em 1498, D. Vasco da Gama aporta Calicute (Índia), tendo descoberto o caminho marítimo para a Índia. Em 1500, D. Pedro Álvares Cabral descobre terras de Santa Cruz (Brasil) e Gaspar Corte Real, a Terra Nova (Canadá). Na Índia, D. Francisco de Almeida, Duarte Pacheco e sobretudo Afonso de Albuquerque, consolidam o território de denominação portuguesa. Todas as riquezas do Oriente afluem a Lisboa, cujo porto de mar, demandam navios de muitas nações. D. Manuel l deslumbrou a Europa com o esplendor da sua Corte, onde brilhavam Gil Vicente (o grande impulsionador do teatro em Portugal) e Bernardino Ribeiro. Começaram a ser construídos o Mosteiro dos Jerónimos, a Torre de Belém, o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, o Convento de Tomar. Mas esta prosperidade é mais aparente do que real, porque o povo continuava pobre e carregado de impostos. Da opulência seguiu-se rapidamente a decadência ... D. Manuel l jaz no Mosteiro dos Jerónimos (Belém - Lisboa). D. Manuel I Décimo quarto rei de Portugal, nono filho do infante D. Fernando e de D. Brites. Filho adoptivo do príncipe D. João II, a quem votava afeição filial, foi feito, à morte do seu irmão D. Diogo, duque de Beja, senhor de Viseu, Covilhã e Vila Viçosa, governador do mestrado de Cristo, condestável do reino, e fronteiro mor de Entre-Tejo e Guadiana. O acidente que vitimou o herdeiro do trono (D. Afonso) conduziu a que fosse aclamado rei em Alcácer do Sal (27 de Outubro de 1495). Realizou três casamentos, o primeiro em 1497 com D. Isabel (viúva de D. Afonso), o segundo em 1500 com a infanta D. Maria de Castela e o terceiro em 1518, com D. Leonor, irmã de Carlos V. Como político, teve sempre em conta o interesse nacional. Recebeu o governo exactamente no momento em que a Nação se preparava para alcançar a mais elevada projecção. Os vinte e seis anos do seu reinado conheceram grande actividade nos domínios da política interna, da política ultramarina e da política externa. 1) O poder que viera parar às suas mãos era forte, centralizado e o seu governo tendeu abertamente para o absolutismo. Com efeito reuniu cortes logo quando subiu ao trono, em Montemor-o-Novo e só mais três vezes, em 1498, 1499 e 1502, e sempre em Lisboa, o que é significativo. Nas cortes de Montemor-o-Novo, toma medidas no sentido duma centralização mais profunda de toda a administração pública: mandou confirmar todos os privilégios, liberdades e cartas de mercê, pelos principais letrados do reino que elegeu, reforma os tribunais superiores e toma uma política de tolerância em relação aos nobres emigrados por razões políticas e judeus castelhanos que D. João II reduzira à escravatura. Pelo decreto de 1496 obriga todos os judeus que não se quisessem baptizar a abandonar o país no prazo de dez meses, sob pena de confisco e morte. Pela lei de 4 de Maio de 1497, proibiu que se indagasse das crenças dos novos convertidos e, por alvará de 1499, dificulta a saída do reino aos conversos. O objectivo era agradar aos Reis Católicos e ao mesmo tempo, evitar que os judeus continuassem a ser um todo independente dentro do reino. Pelas Ordenações Afonsinas, deixa de reconhecer individualidade jurídica aos Judeus; faz a reforma dos forais, com o fito económico de actualizar os encargos tributários e para eliminar a vida local; em 1502 saiu o regimento dos oficiais das cidades, vilas e lugares (Livro dos Ofícios); em 1509 o das Casas da Índia e Mina e em 1512 saiu o novo regimento de sisas. Por outro lado com D. Manuel inaugura-se o Estado burocrático e mercantilista, mandando cunhar índios, o português ou escudo de prata. 2) D. Manuel herdou o impulso dos descobrimentos. Partiu para a índia (8 7 1497) a armada de Vasco da Gama, que chegou a Calecut em 20 5 1498. Em 1500 uma armada comandada por Pedro Álvares Cabral, com o objectivo da Índia, rumou intencionalmente (opinião actual) para sudoeste, atingindo a Terra de Santa Cruz. D. Francisco de Almeida é nomeado vice-rei da índia, com o plano de manter o monopólio da navegação e do comércio para Portugal, tendo em terra pontos de apoio, para a carga da pimenta e reparação dos barcos. Lançou as bases do futuro «Império», que será obra de Afonso de Albuquerque. Apesar do comércio da pimenta a administração vivia em pleno défice (dinheiro gasto superfluamente ou em compra de produtos manufacturados e alimentares). Afonso de Albuquerque cria novas fontes de receita, pela conquista de territórios da índia que pagavam impostos. 3) Soube D. Manuel em matéria de política externa, usar de grande habilidade e diplomacia. No aspecto cultural, reconheceu o atraso do ensino universitário, mandando promover a reforma da universidade, estabelecendo entre 1500 e 1504 novos planos de estudo e uma nova administração escolar. Fontes: Joel Serrão - Pequeno Dicionário de História de Portugal, Lisboa, Iniciativas Editoriais, 1976 Joaquim Veríssimo Serrão - História de Portugal, Volume III: O Século de Ouro (1495-1580), Lisboa, Verbo, 1978. Vasco da Gama http://www.corvobranco.com/Historia/ Vasco da Gama é uma das figuras mais relevantes da história de Portugal e um dos grandes vultos da história europeia no início dos tempos modernos. Nenhuma terra portuguesa ficou tão ligada a Vasco da Gama como Sines da mesma forma como Vasco da Gama não se ligou a nenhuma outra terra como a Sines. Ele tinha Sines na alma. Toda a vida, Vasco da Gama teve um sonho: ser conde de Sines. Acaba por não chegar a realizar esse sonho mas isso indica-nos que Sines era uma terra que deveria conhecer desde a infância. O alcaide do castelo de Sines era pai de Vasco da Gama e este terá nascido provavelmente no próprio castelo. Apesar de não haver nenhum documento que relate o seu nascimento (uma vez que na época não era dado qualquer relevo ao nascimento das pessoas) as probabilidades do nascimento se ter verificado no castelo são muito elevadas. Conhecem-se perfeitamente as circunstâncias da morte de Vasco da Gama mas quanto ao nascimento não há dados fiáveis. Mesmo quanto à sua data de nascimento não existe nenhum documento ou qualquer indício que possa dar uma forte evidência de uma data. Sabe-se apenas que nasceu entre 1465 e 1475 e que era filho de Estêvão da Gama, o alcaide do castelo de Sines, e era o segundo filho, tendo um irmão mais velho chamado Paulo da Gama. Um dos problemas curiosos que os historiadores tiveram que resolver era o porquê de ser o irmão mais novo a comandar a expedição que descobriu o caminho marítimo para a Índia, sendo que, naquela época, era norma que fosse o filho varão a assumir as maiores responsabilidades e continuar as tarefas e negócios familiares. A hipótese do Prof. José Hermano Saraiva é de que Vasco da Gama seria o irmão mais forte, mais vigoroso e com maior resistência física. Paulo da Gama, ao que tudo indica não seria uma pessoa particularmente resistente, tendo sido sempre de saúde frágil. Talvez por isso, D. Manuel tenha confiado o comando da armada ao irmão mais novo, ou, mais provavelmente, aos dois irmãos. No entanto, seria Vasco da Gama a impor-se como o mais enérgico e capaz de suportar fisicamente a empresa. Aliás, o irmão mais velho acabará mesmo por morrer na viagem de regresso da Índia. É assim, compreensível que Vasco da Gama tenha ficado conhecido como o único comandante da viagem à Índia. Em Sines, é já tradição há muito tempo que Vasco da Gama tenha de facto nascido no castelo da vila. O castelo foi construído no reinado de D. Pedro I por alturas da morte de Inês de Castro (v. Crónicas de Fernão Lopes), tendo uma arquitectura simples que indica funções quase exclusivamente militares. Sem dúvida que, sendo Vasco da Gama filho do alcaide do castelo terá andado no castelo e nas zonas circundantes. Foi também neste castelo que se fez uma exposição, em 1998, sobre Vasco da Gama: a exposição "Vasco da Gama e a sua época". A exposição tinha um núcleo no castelo e outro na igreja das Salvas, uma igreja mandada reconstruir pelo próprio Vasco da Gama quando já era vice-rei da Índia. Estêvão da Gama era um homem forte e corajoso e da confiança do rei D. João II. Apesar de se saber que a família Gama teria prestado grandes e muitos serviços à coroa apenas há registos de um pois era aquele que era mais contado e que chegou até aos nossos dias. Numa determinada altura D. João II teve necessidade de um agente seu numa cidade do Norte de África que desejava conquistar. Terá então enviado Estêvão da Gama que fez a viagem miseravelmente vestido de vendedor de figos secos. Como vendedor de figos secos foi fácil a Estêvão da Gama circular com a sua canasta de figos pelas ruas e praças da cidade em que o rei estava interessado e conseguir assim as informações geográficas - físicas e humanas - que tanto interessavam ao monarca português. Este episódio serve também para mostrar que a lenda de que Vasco da Gama seria descendente de uma família fidalga não passa de lenda popular. Nenhum monarca da altura encarregaria um monarca de fazer um serviço como este que vimos. Seria contra a mentalidade da época. Para mais, é sabido que el-rei D. João II tinha vários servidores talentosos recrutados entre pessoas de classes sociais ditas humildes e que não estaria apenas dependente dos seus conhecimentos junto do clero e nobreza. D. João II podia assim requisitar qualquer serviço, por muito estranho e invulgar que fosse sem que lhe fossem colocadas questões ou sem necessitar de fazer perigar a sua posição política. Este monarca, aliás, costumava dizer que os países são como o mar tendo muitas espécies de peixes diferentes: o salmonete que é muito bom mas muito caro, faz-se pagar e é difícil de apagar e a sardinha que existe em abundância, é saborosa e não custa quase nada. E D. João II usualmente concluía "eu sou pela sardinha" querendo significar com isto que procurava apoio nas classes populares sempre que o podia fazer. E, de facto, no seu reinado conseguiu todo o apoio político das classes populares. Era frequente servir-se de agentes como Estêvão da Gama, decididos, corajosos, capazes de correr quaisquer perigos necessários. Era por serviços como o descrito acima que Estêvão da Gama era alcaide do castelo. De notar também que o castelo não dependia do rei mas sim da Ordem de Santiago. A sede da Ordem de Santiago era no castelo de Palmela uma vez que era aí que estava o mestre da Ordem, D. Jorge (filho do rei D. João II). Assim, D. Manuel poderia gostar muito de Vasco da Gama, mas Sines não pertencia ao rei D. Manuel pertencia a D. Jorge filho do rei D. João II, o monarca da altura de Estêvão da Gama. D. Jorge era o homem que o rei D. João II quis que fosse rei. Acaba por não o ser pois em Roma estava o cardeal Alpedrinha e o cardeal D. Jorge da Costa inimigos do rei D. João II que conseguiram dispor as coisas de forma a que a Santa Sé nunca reconhecesse que D. Jorge era filho do rei D. João (mesmo apesar de D. João o ter criado como seu filho e como sucessor da coroa portuguesa). Como Roma não o legitimou D. Jorge não pôde herdar o trono e em vez de ser o filho de D. João II a herdar acabou por ser o primo D. Manuel. Estes factos não viriam a perturbar a condução dos assuntos de Estado nem sequer a causar qualquer perturbação familiar entre os dois primos (D. Jorge e D. Manuel) uma vez que D. Manuel sempre tratou dos assuntos de seu primo com todo o cuidado. Foi por isso que D. Manuel não se conseguiu impor enquanto monarca quando quis dar a vila de Sines a Vasco da Gama por serviços prestados: seu primo, que era a cabeça da Ordem detentora da vila não concordou. D. Manuel não teve a coragem e não quis passar por cima da autoridade do filho do anterior rei. Foi preciso que Vasco da Gama esperasse 20 anos até ser conde em 1518. A promessa de que seria feito conde ocorreu logo após a descoberta do caminho marítimo para a Índia em 1498. E, mesmo após esse tempo acaba não por ser conde de Sines mas antes da Vidigueira e Vila de Frades. É após a compra destas duas localidades por Vasco da Gama e após ter sido feito conde que Vasco da Gama se passa a auto-intitular Almirante-conde e passa a rodear-se de um fausto quase real. Vasco da Gama entrou na história por ter sido o comandante da expedição que descobriu o caminho marítimo directo desde Lisboa até à Índia. Na altura da descoberta já todos os países europeus conheciam a Índia e sabiam onde ficava. A Índia abastecia a Europa de especiarias que eram uma mercadoria preciosa devido ao seu uso na alimentação (conservação e uso culinário), medicina, farmácia, fabrico de colas, de tintas e perfumes. O mecanismo de conseguir as especiarias era algo complexo e passava por vários intermediários o que as tornava um produto particularmente caro e difícil de obter. Normalmente eram mercadores árabes que da Índia as traziam até à região do Médio Oriente e do Mediterrâneo Oriental. Quem fazia a distribuição para a Europa Ocidental eram normalmente as cidades italianas tradicionalmente ocupadas no comércio com o oriente. Daí que, desde há muito tempo que a generalidade dos países da Europa Ocidental procurassem encontrar uma forma de achar o caminho marítimo para o oriente. É isso que leva Cristóvão Colombo a propor ao rei de Portugal, D. João II, uma tentativa de descoberta da Índia mas através de uma circum-navegação (navegando sempre para Ocidente em linha recta até chegar ao oriente ao invés de tentar navegar para Oriente). D. João II tinha muitas dúvidas acerca da eficácia da tentativa de Cristóvão Colombo. Se bem que os argumentos de Colombo pudessem ter colhido simpatias junto do rei português, este estava interessado numa viagem que efectivamente lhe trouxesse o resultado seguro da descoberta do caminho para a Índia e não havia nenhuma certeza de que Colombo não fosse encontrar obstáculos demasiado grandes pelo caminho. Colombo haveria de encontrar um obstáculo que julgou ser a Índia de início: a América. De qualquer forma D. João II não cede e não ordena a expedição de Colombo acabando por ser os reis católicos mais tarde a fazê-lo. É sim, D. Manuel que ordena aos irmãos Gama que preparem a expedição. Vasco da Gama embarca então como comandante numa expedição cujo primeiro objectivo era descobrir se, navegando para Oriente, seria possível chegar à Índia. A expedição sai com duas naus feitas de propósito p aquela expedição (S. Gabriel e S. Rafael) uma caravela chamada Perreo e há alguns historiadores q defendem a inclusão de um quarto navio, um velho navio carregado de abastecimentos. A expedição sai de Lisboa em 8 de Julho de 1497 com cerca de 150 homens, do local onde hoje estão os Jerónimos. Daí que, ainda hoje, o dia 8 de Julho seja o dia da Marinha em Portugal. A viagem durou dois anos. Chegaram a Calecute em 28 de Maio de 1498 onde encontraram dificuldades em conseguir acordos comerciais com o Samorim de Calecute. Regressam depois a Portugal numa viagem dramática. A viagem de regresso enfrentou ventos contrários (só p atravessar o Índico levaram mais de três meses), todos os dias morriam marinheiros vítimas de escorbuto. Quando chegaram a Lisboa em finais de Agosto de 1499, já só eram 30 dos 150 que tinham partido. Apesar das dificuldades Portugal ficou, com aquela viagem, com uma importante posição no comércio das especiarias e com a descoberta mais decisiva da passagem da Idade Média para a Idade Moderna: a ligação marítima entre ocidente e oriente. Havia também uma questão mais pessoal. Colombo tinha sido nomeado pelos reis católicos almirante-mor do mar das Índias (apesar de não ter descoberto o caminho para a Índia) e existia alguma picardia entre os monarcas espanhóis e o português por esse facto. Quando a expedição portuguesa chega a Lisboa, D. Manuel nomeia imediatamente Vasco da Gama almirante-mor das Índias para mostrar que, afinal, o caminho para a Índia tinha sido descoberta por ele e não por Colombo. D. Manuel foi generoso com Vasco da Gama e, em pouco tempo, fez dele um homem rico. Mas depois desta expedição Vasco da Gama volta ainda a prestar grandes serviços ao rei. Para a armada seguinte, cerca de 1500, já é nomeado comandante um fidalgo. Na primeira viagem, o desconhecido e as hipóteses de se perder totalmente a armada levaram a que se nomeasse Vasco da Gama, na altura um mero escudeiro. Desta feita, o elemento desconhecido era mais reduzido, as hipóteses de sucesso eram maiores e então o monarca nomeia Pedro Álvares Cabral comandante da expedição. Como se sabe foi esta expedição que descobriu o Brasil. Mas esta expedição foi mal sucedida: os portugueses que foram deixados na Índia acabam chacinados devido a intrigas entre mercadores. Ao que parece a rivalidade com os mercadores muçulmanos teria acabado num banho de sangue tendo sido os portugueses todos mortos. Isto faz com que a coroa perceba que não poderá fazer concorrência comercial no oriente sem considerar o aspecto militar. Assim, D. Manuel volta a chamar Vasco da Gama e, desta feita, fornece-lhe uma armada com 20 navios com cerca de 3.000 homens, muita artilharia e encarrega-o de voltar à Índia vingar a chacina dos portugueses, tomar e defender a feitoria onde os portugueses se tinham instalado. Vasco da Gama regressa à Índia em 1502 tendo resolvido a questão com uma ferocidade que em pouco tempo o terror estava espalhado na região pois o rasto de sangue deixado pela expedição teria sido muito grande. Ao mesmo tempo que espalha o terror deixa afirmado o poder da coroa portuguesa do séc. XVI conseguido com isso obter benefícios económicos importantes. Durante muito tempo hindus e muçulmanos não molestam mais qualquer português. Após essa expedição volta para Sines. Estava a construir uma casa apalaçada quando o mestre da Ordem de Santiago, D. Jorge, protestou contra a construção da casa devido a não ter dado permissão para novas edificações num região controlada por si. O rei D. Manuel é obrigado a enviar uma carta a Vasco da Gama onde lhe dá 30 dias para abandonar a vila de Sines levando a família e proibindo-o de regressar à vila. Ao que se sabe isto terá desgostado bastante Vasco da Gama, ao ponto de o fazer desejar abandonar o país. Envia um pedido ao rei onde pede permissão para ir servir o país noutras terras. Mas o pedido é recusado. Mais tarde os serviços de Vasco da Gama voltam a ser necessários. Desta feita não se tratava de reforçar a posição portuguesa militarmente ou de criar as condições de segurança para a presença portuguesa na Índia. Acontece que a presença portuguesa na Índia se tinha desleixado permitindo um aumento da corrupção, preguiça, desrespeito pelas ordens e interesses da coroa... Nesta altura, 1524, Vasco da Gama não é já um homem novo tendo já passado dos cinquenta anos. Com a sua idade e o desgaste de uma vida ao serviço da coroa sempre em missões difíceis ao fim de três meses de chegar à Índia morre devido ao esforço, à violência de mais uma viagem e do trabalho que encontrou pela frente. Ele tenta, em três meses acabar com alguns anos de desorganização. Apesar de ser considerado um herói nacional, Vasco da Gama é uma figura não muito celebrada em Portugal. Em todo o país há pouquíssimas estátuas desta personagem. A localidade onde se sente mais a sua presença continua a ser Sines. Pedro Álvares Cabral Descobridor do Brasil, nasceu em Belmonte, entre 1460 e 1470, filho de Fernão Cabral e de D. Isabel Gouveia. Foi moço fidalgo de D. João II, que o agraciou com uma tençrque. Em 1500, após o retorno de Vasco da Gama, Cabral foi designado pelo Rei D. Manuel I para comandar 13 naus, tripuladas por cerca de 1500 homens, em missão diplomática ao Oriente, onde deveria estabelecer um pacto de amizade com o Samorim de Calecut. A partida deu-se a 8 de Março de 1500 e, a22 de Abril do mesmo ano, após uma breve escala nas Canárias, é avistada a costa brasileira, da qual já havia sinais desde a véspera: era a zona do Monte Pascoal, e a esquadra lança ferro junto da foz do actual Rio Cahy; haviam sido percorridos, desde a largada de Lisboa, cerca de 6500 km. Nos dias que se seguem a esquadra muda de ancoradouro, indo fundear mais a Norte, numa Baía que os portugueses denominaram Porto Seguro; aí se vão estabelecer boas relações com os índios locais, e ergue-se uma cruz de madeira, símbolo da Cristandade que os portugueses viriam a levar aos quatro cantos do Globo, junto do Rio Mutary. Entretanto, logo após a chegada da Armada à Terra de Santa Cruz, nome inicialmente dado ao Brasil, Pedro Álvares Cabral envia a nau comandada por Gaspar Lemos com as boas novas rumo a Portugal. A 2 de Abril, dez dias volvidos da sua chegada ao Brasil, a esquadra parte para Calecut; uma vez aí chegado, logo Pedro Álvares Cabral envida esforços no sentido de concluir os laços de amizade previstos. Mas, se de início tudo pareça correr bem, logo se levantaram intrigas entre os indígenas; estes, atacaram de surpresa a feitoria que Cabral havia já estabelecido, chacinando quase todos os portugueses que aí se encontravam; como represália Pedro Álvares Cabral ordena o bombardeamento da cidade e lança fogo aos navios muçulmanos. Após este incidente, a expedição segue para Cochim, onde é embarcada rica mercadoria exótica, com a qual Pedro Álvares Cabral retorna a Lisboa. Em 1502, o Rei faz menção de o enviar no comando de nova Armada ao Oriente, mas Pedro Álvares Cabral escusa-se a tal missão, preferindo retirar-se para a tranquilidade das suas propriedades de Santarém, onde vem falecer cerca de 1502, jazendo o seu corpo na Igreja da Graça, sita na referida cidade. Desempenho de D. Francisco de Almeida como Vice-Rei da Índia http://www2.crb.ucp.pt/historia/abced%C3%A1rio/Francisco%20Almeida.htm D. Francisco de Almeida, empossado do cargo de Vice-Rei da Índia, parte de Lisboa a 25 de Março de 1505. A sua frota ia munida de um forte dispositivo bélico, porque já estava interiorizado que, só pela guerra, poderiam assegurar a posição das feitorias já estabelecidas e a expansão a novos pontos nevrálgicos. Para melhor assegurar o sucesso da missão de que tinha sido incumbido, D. Francisco de Almeida começou a sua acção na costa oriental africana. D. Manuel, no regimento que entregara a Francisco de Almeida, determinava que capturasse e fortificasse Sofala e Quíloa e que construísse uma fortaleza na ilha de Anjediva. No ano seguinte, o monarca viria a acrescentar que os territórios de Ceilão e Malaca deveriam ser atacados e que o trânsito no mar Vermelho deveria ser bloqueado, a fim de impedir o avanço muçulmano. O monarca português colocava em primeiro plano o bom entendimento com os soberanos locais, mas em caso de necessidade, usar a força era imperioso. D. Manuel refere no regimento, que quer a “paz e amizade” e que aceita os costumes e religiões dos outros povos, só quebrando o bom entendimento quando não eram cumpridos os acordos. Este sentimento era bem claro como demonstra Russel-Wood, “Em Sofala o rei ordenou que tomasse a cidade de preferência sem luta, mas com esta dissimulação”. Cumprindo o estabelecido no regimento, D. Francisco começa por empreender o plano traçado para a costa oriental de África. Fazendo amizade com o rei de Sofala e edificando uma fortaleza, impedia assim o fornecimento de ouro que nesse porto abastecia os mercadores árabes. Em Quíloa o rei fugiu quando viu chegar a armada portuguesa. Este havia usurpado o trono do antigo soberano, que tinha aceite a vassalagem ao rei português. No seu lugar, o governador colocou um mouro que tinha ficado como refém, por demonstrar merecer a sua confiança. Esta política tinha por finalidade facilitar a comunicação, vencendo assim a barreira da língua. O rei de Mombaça recebeu a esquadra do vice-rei com guarda reforçada, pois tinha tomado conhecimento do que se passara em Quíloa. Tentou alvejar Almeida e a sua comitiva, empreendendo a fuga posteriormente. D. Francisco mandou um emissário dizer ao rei, que se aceitasse ser vassalo do rei de Portugal, poderiam entende-se facilmente, caso contrário lhe faria guerra. Como não aceitou a rendição, D. Francisco de Almeida mandou incendiar parte da cidade, para que os seus homens pudessem entrar mais facilmente e saqueá-la. Já na Índia mandou erguer a fortaleza de Anjediva aproveitando uns alicerces já ali existentes, junto ao mar. Esta fortaleza estava num ponto muito sensível e na ausência do governador, foi atacada pelos mouros por via terrestre. Saquearam toda a mercadoria e queimaram a frota que estava fundeada. Esta fortaleza viria mais tarde a ser destruída por ordem de D. Francisco, uma vez que as despesas eram superiores aos lucros, devido aos roubos. Em Cochim, Cananor e Ceilão, as negociações resolvem-se pela via diplomática, ficando tributários de Portugal. O comércio português no Índico estava em franco progresso, e para isso contribuiu em grande parte o bom entendimento com alguns soberanos do Malabar. Estes, descontentes com os mouros egípcios e turcos, que só negoceiam com Calecute, fazem-se amigos dos portugueses e prometem o seu apoio. O acesso ao mar Vermelho estava cada vez mais condicionado, passando só as embarcações que tinham o “livre trânsito” e para o obter, tinham de fazer o pagamento prévio do imposto. Esta situação não agradava aos mouros do Cairo, que utilizavam aquele mar para abastecer Veneza e toda a zona mediterrânica. Em Lisboa havia a preocupação de aumentar cada vez mais o poder militar no Oriente. Por essa razão, foi enviada um armada para apoiar o governador, composta por Afonso de Albuquerque e Tristão da Cunha. Estes levavam como missão bem definida a tomada da ilha de Socotorá, com a finalidade de lá construírem uma fortaleza, para impedir a passagem dos muçulmanos no mar Vermelho. Posteriormente verificou-se que não foi a opção mais acertada, o que provocou o seu abandono. D. Francisco de Almeida era uma pessoa de trato dócil, mas de rápidas e cruéis decisões, quando elas se impunham. Apesar das vitórias que iam garantindo a supremacia comercial e naval, nem sempre os resultados foram favoráveis aos portugueses. D. Lourenço de Almeida, filho do governador, foi surpreendido em Chaul pelas forças do samorim de Calecute, apoiados pelos egípcios, que não estavam satisfeitos com a quebra do seu negócio. Esta acção provocou a morte do seu capitão, e a tropa portuguesa retirou-se de combate. A notícia deste acontecimento chegou até D. Francisco que estava em Cochim, e logo começou a arquitectar a vingança. Como se aproximava a monção de Inverno, não pôde partir. Por essa altura chegam à Índia duas armadas, uma directamente de Lisboa outra que tinha ficado em Moçambique, devido ao mau tempo. O Governador junta as suas tropas a este duplo apoio, e pretende assim atacar Calecute. D. Afonso de Albuquerque quando foi na armada de apoio para o Oriente, levava consigo a nomeação de Vice-Rei passada por D. Manuel, para suceder a Francisco de Almeida. Esta nomeação deveria ser mantida em segredo, até ao final do mandato do Vice-Rei em exercício. Quando terminava o período de três anos do seu governo, Afonso de Albuquerque foi pedir a passagem de poderes a D. Francisco de Almeida, pondo-o a par da nomeação feita por D. Manuel. O governador não gostou da notícia, e disse-lhe que não tivesse pressa, pois ainda tinha uma missão a cumprir. D. Afonso de Albuquerque sabia que se referia à vingança da morte do filho e disse-lhe que ele próprio se encarregaria disso. D. Francisco considerou uma ingerência e argumentou, dizendo que não costumava deixar para os outros a vingança das ofensas a ele feitas. Perante esta atitude do governador, Albuquerque retirou-se para Cochim, esperando que ele lhe fosse fazer a entrega dos poderes. Com o apoio das armadas que haviam chegado de Lisboa e a sua própria, dirigiu-se a Dabul, destruiu a cidade e para completar o seu plano, fez um ataque violentíssimo a Diu. Daqui em diante, as desavenças entre o governador ainda em exercício e o novo governador, sucedem-se. D. Francisco de Almeida não gostou da forma como Albuquerque lhe pediu o poder e ia adiando a passagem das responsabilidades para as suas mãos. Com o impasse da situação, Afonso de Albuquerque decide começar a executar o plano, que lhe havia sido confiado pelo rei português. O conflito chegou ao conhecimento de D. Manuel, pelo que enviou D. Fernando Coutinho para repor a legalidade. Este agradece a Francisco de Almeida os seus esforços ao serviço da coroa e embora tivessem terminado, o seu conselho nos assuntos difíceis seria de primordial importância. Como nunca foi consultado, decidiu regressar a Portugal, abatido e triste. Perto do Cabo da Boa Esperança, quando se abastecia de água e mantimentos, foi morto pelos negros. A vice-realeza de D. Francisco de Almeida ficou marcada por grandes feitos na Índia. Conquistou cidades importantes na costa Oriental de África, construiu feitorias e fortalezas de apoio e defesa dos interesses da coroa portuguesa, fez alianças pacíficas com cidades-estados da costa do Malabar, na Índia, venceu pelas armas praças importantes no tráfego mercantil, controlou a entrada de mercadorias no mar Vermelho, contribui para o estabelecimento da rota do Cabo. O controlo do mar da Índia foi a sua prioridade, por isso conseguiu a hegemonia marítima. O trabalho de Francisco de Almeida consistiu no desbravar do terreno fértil, que proporcionou aos seus sucessores a concretização dos objectivos estipulados em 1505/ 1506. O nome do 1.º Vice-Rei na Índia, foi imortalizado por Camões em “Os Lusíadas”. Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que, nos Reinos lá da Aurora, Se fizeram por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora, Albuquerque terribil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. Luís de Camões, “Os Lusíadas”- Canto I, estrofe 14 Trabalho realizado por Albina Faria Afonso de Albuquerque http://www.brasilescola.com/biografia/ Militar, conquistador e político português nascido na Quinta do Paraíso, perto de Alhandra, considerado a figura mais emblemática da expansão portuguesa no Oriente e que como segundo vice-rei da Índia foi maior responsável pela expansão do poder das feitorias lusas nesse país. Descendente da nobreza lusitana, foi criado na corte de D. Afonso V, serviu em praças-fortes portuguesas de Marrocos e integrou a guarda pessoal de D. João II. Na sua primeira missão na Índia (1503-1505), confiada por D. Manuel I, fundou a fortaleza de Cochim, travou combate com os turcos e com tropas muçulmanas do reino de Calecut, e estudou profundamente a região. Com prestígio em alta, foi nomeado (1506) por D. Manuel I para substituir o governador D. Francisco de Almeida. Ao chegar a Índia (1508), Almeida negou-se a reconhecer a carta secreta do rei na qual o nomeava governador e, além de não lhe transferir seus poderes, o aprisionou na fortaleza de Cananor. Com a chegada da esquadra do marechal Fernando Coutinho (1509), o insatisfeito governante não pode resistir e entregou o cargo a seu sucessor. O novo vice-rei deu início a sua ofensiva regional para controlar todo o comércio da área e antes de assumir as suas funções de governador, assaltou e tomou os portos de Omã e de Ormuz. Conquistou sucessivamente Goa, Cambaia, Calicut, Narsinga, Malaca e Ormuz (1510-1515). Comandou a primeira esquadra europeia a entrar no mar Vermelho (1513), consolidando, assim, o domínio português no Oriente (1514). Seu plano estratégico era instalar uma linha de fortalezas que pudesse controlar a navegação no mar Vermelho, impondo o domínio português sobre uma vasta área territorial, expulsando as forças do Império Otomano. Porém, seus sucessivos sucessos de conquistas e sua visão de um amplo domínio português no Oriente, renderam-lhe muitos inimigos invejosos na corte, até que o rei foi convencido a substituí-lo por Lopo Soares de Albergaria, um desses fortes inimigos. Frustrado e doente, morreu durante a viagem de Ormuz para Goa, quando ia passar oficialmente o cargo de vice-rei ao seu substituto, consciente do boicote de que fora vítima. Lopo Soares de Albergaria Nasceu provavelmente, em 1460. Foi nomeado por D. Manuel I, em 1515, governador da Índia, sucedendo a Afonso de Albuquerque. Não conseguiu dar continuidade ao trabalho do "Terribil", tendo tido vários insucessos militares. Após três anos de governo na Índia, voltou a Portugal, deixando o cargo para Diogo Lopes de Sequeira, mas não sem antes fundar uma fortaleza em Colombo, Ceilão (actual Sri Lanka). Morreu em data desconhecida

D.João III - O Piedoso - 15º Rei de Portugal - Reinou 36 anos

Neste reinado continuaram os portugueses a percorrer os mares orientais e a descobrir novas terras. Foram à Nova Guiné e atingiram as costas do Japão, tendo conquistado as ilhas Molucas, as de Delebes e de Sonda (onde fica situado Timor). D. Nuno da Cunha, governador da Índia, fundou em 1535 a fortaleza de Dio, que mais tarde sustentou dois cercos, postos pelo rei do Cambaia. António da Silveira distinguiu-se no primeiro cerco, em 1538. No segundo, notabilizaram-se D. João de Mascarenhas e, principalmente, no auxílio que a este prestou, João de Castro, ao tempo vice-rei da Índia (1546). D. João de Castro marcou também pela nobreza do seu carácter: Precisando de dinheiro para reconstruir aquela praça, pediu-o à Câmara de Goa, “entregando como garantia as suas próprias barbas, cujo elevado penhor lhe fora logo devolvido, acompanhado de palavras honrosas e da quantia solicitada”. As terras da Índia tinham sido a constante preocupação dos portugueses, a quem as suas riquezas (especiarias, pimenta, chá, sedas, etc.) seduziam e deslumbravam. Do Brasil ninguém cuidava. D. João lll, porém, guiado por uma intuição feliz, pensou de maneira diferente. Reconhecendo que o Brasil era manancial de recursos apreciáveis, tratou logo de os aproveitar. Problema difícil … Começou por fazer dividir em 1530, as terras em fracções de 50 léguas (chamadas capitanias), medidas ao longo da costa, distribuindo-as em seguida por colonos portugueses que, pagando à Coroa certos direitos, ficavam com a obrigação de as cultivar, povoar, defender e evangelizar. Mais tarde, devido ao aumento da população e a muitos outros progressos, criou um Governo Geral e nomeou governador Tomé de Sousa, que, instalando-se na Bahia, fundou em 1549 a cidade de São Salvador, a primeira capital do Brasil. Neste reinado, foi estabelecido o Tribunal do Santo Ofício (ou Inquisição), com assentimento do Papa Paulo lll, por bula de 23 de Maio de 1536. Destinava-se a impedir os abusos e delitos dos hereges contra a religião católica, ou a crimes graves contra os bons costumes, e a castigar aqueles que os praticassem. D. João lll sempre evidenciou uma natural inclinação a favor das letras. A Universidade, que se encontrava em Lisboa desde o tempo de D. Fernando l, foi transferida para Coimbra em 1537 e ali se tem conservado até aos dias de hoje. O rei favoreceu este estabelecimento de ensino com importantes reformas: criou-lhe novos estatutos e faculdades, deu-lhe alojamento apropriado no Paço de Alcácer e contratou para ele distintos professores nacionais e estrangeiros. A Companhia de Jesus, criada por Santo Inácio de Loiola, foi introduzida em Portugal a pedido de D. João lll, em 1540. Esta instituição, que tinha por objectivo principal difundir a civilização cristã, prestou a Portugal relevantes serviços, missionando as terras que íamos descobrindo, protegendo e amparando os humildes, educando, instruindo e divulgando a Língua Portuguesa. Na Índia, tornou-se notável pela sua acção evangelizadora, São Francisco Xavier, chamado o “Apóstolo das Índias”. No Brasil, também se distinguiram alguns missionários, tais como: os padres Manuel da Nóbrega, Leonardo Nunes e José de Anchieta. As dificuldades com que lutava D. João lll para a administrar e manter tão grande império espalhado por todo o mundo, e ainda as enormes despesas que tanto se faziam na Índia, e depois no Brasil, levaram o rei a abandonar em África as praças de Safim e Azamor, em 1542; Alcácer Ceguer e Arzila, em 1549. Entretanto, como recompensa dos valiosos serviços que prestámos à China contra os piratas malaios, foi consentido pelos chefes daquele país que os portugueses ali estabelecessem e fundassem a Colónia de Macau, em 1557. Os restos mortais de D. João ll, encontram-se no mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa. D. Catarina de Áustria (Mulher de D. João III) D. João lll Cognome histórico : o "PIEDOSO" Reinou de 1521 a 1557 Décimo quinto rei de Portugal, filho de D. Manuel 1 e de sua segunda mulher, D. Maria de Castela. Nasceu em Lisboa em 1502. De inteligência muito reduzida e, devoto religioso até ao fanatismo, introduziu em Portugal a Companhia de Jesus e o Tribunal da Inquisição. O grande a magnífico império colonial que D. João lll, herdada de seu pai, começou a ter no seu reinado uma rápida decadência. Na Índia, a Afonso de Albuquerque, sucederam-se governadores corruptos, os abusos de que eram vítimas os povos colonizados, originaram várias guerras, que esgotaram as forças de Portugal. Durante o admirável mas curto reinado do vice-rei, D. João de Castro, de 1545 a 1548, este conseguiu levantar novamente o prestígio de Portugal. Mas quando este morreu, os abusos e as guerras recomeçaram e a Índia tornou-se um grande sorvedouro de homens e de dinheiro. Neste reinado os portugueses tiveram que abandonar Argila, Azamor r outras praças, porque o País já não as podia defender. A despeito da sua mediocridade intelectual, agravada pelo fanatismo religioso, de certa forma começou D. João lll, a desenvolver a colonização do Brasil, dividindo-o em capitanias (*) e concedendo grandes vantagens e benefícios aos seus donatários e colonos. Dos seus numerosos filhos, nenhum lhe sobreviveu e a coroa passou para seu neto, D. Sebastião. D. João lll, jaz no Mosteiro dos Jerónimos (Belém - Lisboa). (*) Capitania - antiga circunscrição territorial das colónias portuguesas. João III, 0 Piedoso - 15.° rei de Portugal. Nasceu em Lisboa a 6 de Junho de 1502, onde também faleceu a 11 do referido mês, do ano de 1557. Era filho de el-rei D. Manuel e de sua segunda mulher, a rainha D. Maria, filha dos reis católicos Fernando e Isabel. 0 dia do seu nascimento foi assinalado por uma horrorosa tempestade, e o do baptismo por um incêndio que se declarou no paço, coincidências que muito impressionaram como de grande agoiro no futuro reinado. Infelizmente, os factos posteriores vieram confirmar estes lúgubres presságios. Em criança deu mostras de medíocre inteligência, e além disso, não teve uma aplicação assídua e séria que os estudos demandam; distraía-se muito com os passatempos que tanto preocupam a juvenil idade, e os mestres, ou por demasiado respeito, ou por mera adulação, nunca pensaram em exercer para com o real discípulo a autoridade que por boa razão lhes cabia. Não chegou, portanto, a desenvolver as faculdades intelectuais, como seria fácil na presença dos grandes meios de instrução que lhe foram proporcionados. Nos Annaes de El-rei D. João Terceiro, publicados por Alexandre Herculano em 1844, Parte I, Cap. ti, diz Frei Luís de Sousa, depois de mencionar todos os mestres de D. João III: «Porém de todo este cuidado se lhe não pegou mais que huma boa inclinação pera as Letras e letrados, em tanto gráo, que achamos posto em memoria, que quando o nosso celebrado Cronista da Asia, João de Barros, compunha por passatempo a fabulla do seu Clarimundo, afim de polir o estilo, pera vir a escrever as verdades dos feitos portuguezes, guerras e costumes da Ásia, com que depois espantou o mundo, tinha o Príncipe tanto gosto da lição della, que acontecia tomar-¬lhe os cadernos e de sua mão illos emendando. Que não póde ser mais claro indicio de amor aos Livros: que todavia valeo muto a este Reyno. Porque vindo a reynar fez que florescessem nelle com grandes aventagens todas as boas letras.» Quando tinha 16 anos pretenderam casá-lo com a juvenil infanta D. Leonor, irmã do imperador Carlos V, porém D. Manuel, que tinha enviuvado, agradou-se da noiva destinada a seu filho, e escolheu-a para as suas terceiras núpcias. 0 príncipe ressentiu-se muito com o procedimento de el-rei, que considerou uma ofensa, e desde então se ficou sombrio e melancólico, tornando-se fanático em extremo, o que deu causa ás maiores atrocidades que se praticaram no seu reinado. Tinha pouco mais de 19 anos quando faleceu seu pai, a 13 de Dezembro de 1521, e foi aclamado rei de Portugal no dia 19. Era muito afeiçoado à madrasta, e parece que a rainha viúva D. Leonor lhe correspondia com igual afecto. Chegou-se a murmurar destes amores, despertando ideias de um casamento, que muito agradava ao povo. Carlos V, porém, é que se opôs, pretendendo que a irmã casasse com o rei de França, Francisco I, e D. Leonor retirou-se para Espanha. D. João III veio depois a casar em 5 de Fevereiro de 1525, na vila de Alvito, com D. Catarina, outra irmã de Carlos V . Quando subiu ao trono em Dezembro de 1521, Portugal dominava na Ásia, na Africa e na América, fundara fortalezas na Índia, e até no extremo Oriente tinha o senhorio de muitas ilhas africanas, e duma parte das costas orientais e ocidentais dessa parte do mundo, possuindo também o território vastíssimo do Brasil, que chamou muito a atenção do monarca. Dividiu-o em capitanias, e começou assim por meio de donatários a colonizá-lo, sendo ele também quem lhe nomeou o primeiro governador-geral, que foi Tomé de Sousa, que em 1549 fundou a cidade da Bahia. A parte importante da história de D. João III é a história da Índia. Subindo ao trono, governava aqueles estados D. Duarte de Meneses, que desonrava o nome português com as suas piratarias, e D. João III mandou-o substituir por D. Vasco da Gama, conde da Vidigueira, que pouco tempo governou, mas conseguiu restabelecer a moralidade com a sua austera energia. Sucedeu D. Henrique de Meneses, homem também enérgico e austero, que socorreu Calecut cercada pelo inimigo. Em seguida devia governar a Índia, Pedro Mascarenhas, mas Lopo Vaz de Sampaio assenhoreou-se do poder, e entre os dois governadores e os seus partidários rebentaram as mais vergonhosas dissensões. Nuno da Cunha fundou as fortalezas de Diu e Baçaim. D. Estêvão da Gama enviou uma expedição à Abissínia, Martim Afonso de Sousa tornou-se tão notável pela sua bravura como pela sua cobiça, D. João de Castro renovou as gloriosas tradições de Afonso de Albuquerque, mas desde então começou a decadência. Contudo, nesse tempo, o poder dos portugueses ampliou-se muito. Descobriu-se a província do Espírito Santo em 1522; conquistou-se Goleta em 1535; deu-se o segundo cerco de Diu, em 1546; a conquista de Baroche, por D. João de Menezes, e a vitória do Dabul, por D. João de Castro, em 1547; a derrota dos franceses, por Mem de Sá, em 1556. 0 nosso domínio chegou à China e ao Japão; os nossos missionários penetraram nos mais recônditos países do Oriente, as nossas fortalezas ergueram se nos extremos limites dos mares das Índias. A má administração e o desejo ambicioso de enriquecer que animava alguns governadores e muitos fidalgos, entregando-se sem rebuço à pirataria e ao roubo, causaram a decadência da Índia, concorrendo também muito a influência dos jesuítas e o estabelecimento do tremendo tribunal da Inquisição. 0 que mais preocupava o espírito de D. João III era o seu fanatismo religioso, que o levou à ferocidade, e tão funesto foi para Portugal. Desejoso de implantar a Inquisição no reino e seus domínios, travou com a cúria romana as mais demoradas negociações, gastando enormes quantias, chegando a declarar que se o papa não acedesse ao seu pedido não teria duvida em separar-se do grémio católico, seguindo o exemplo de Henrique VIII, de Inglaterra. Afinal a Inquisição ficou instituída neste reino pela bula de Paulo III, datada de 23 de Maio de 1536, sendo instituído o tremendo tribunal na sua forma mais completa pela bula de 16 de Julho de 1547. A Companhia de Jesus foi fundada em 1534, foi aprovada em 1540 pelo pontífice Paulo III, e nesse ano entraram em Portugal os primeiros jesuítas, que o fanático monarca acolheu com o maior entusiasmo. A Companhia de Jesus tomou toda a preponderância que desejava; D. João III confiou-lhe o ensino e as missões. Como missionários, deve dizer-se, que prestaram bons serviços, principalmente S. Francisco Xavier na Índia, e José de Anchieta no Brasil. O monarca havia transferido em Abril de 1537 para Coimbra a Universidade, que até então estava em Lisboa. Facilitara subsídios a muitos rapazes de talento para irem estudar nas universidades estrangeiras, e chamará a Portugal homens de abalizado merecimento literário e científico, para virem ensinar as boas letras e as ciências na Universidade. Desta forma dava D. João III demonstrações de que pretendia elevar a Universidade, e em geral os estudos, a subido grau de esplendor. Mas a influência dos jesuítas fez com que por carta régia de 10 de Setembro de 1555, passasse o Collegio das Artes e o governo d'elle mui inteiramente ao Padre Diogo Mirão, Provincial da Companhia de Jesus Os jesuítas erigiram estabelecimentos nas principais cidades do reino, onde logo se encarregaram da instrução da mocidade. Tornaram-se rivais da Universidade e dos bispos, e adquiriram uma superioridade decidida sobre todas as outras ordens religiosas. 0 que faz honra à memória de D. João III é a aceitação que dava a Pedro, Nunes, a quem muito distinguiu. Pedro Nunes tinha vindo de Salamanca para reger a cadeira de Matemática na Universidade de Lisboa, e regeu ainda outras cadeiras da mesma faculdade, e quando se deu a transferência da Universidade, regeu também em Coimbra a cadeira de Matemática até ao ano de 1562, em que foi jubilado. 0 ministro predominante na corte deste fanático monarca foi Pedro de Alcáçova, excepto nos negócios da Inquisição, em que el-rei resolvia só por si. As questões religiosas eram as que mais o interessavam. D. João III ligou-se por tal forma à Espanha, que preparou o desastre de 1580. Influenciado por Carlos V, os dotes das princesas portuguesas, que desposavam os príncipes castelhanos, constituíam um bom recurso financeiro a que o imperador recorria sempre que podia. Do seu consórcio teve os seguintes filhos: D. Afonso, nascido em 1526, e que morreu criança; D. Maria, nascida em 1527, e que fal. em 1545, sendo a primeira mulher de Filipe II, de Espanha; D. Isabel, que nasceu em 1529, e faleceu em criança; D. Beatriz, nascida em 1530, falecendo ainda no berço; D. Manuel, nascido em 1531 e falecido em 1537; D. Filipe, que nasceu em 1533 e faleceu em 1539; D. Diniz, nascido em 1535, fal. em criança; D. João, que nasceu em 1537, e faleceu em 1554, que foi o pai do rei D. Sebastião; D. António, nascido em 1539 e falecido em 1540. Teve um filho bastardo, D. Duarte, que, nasceu em 1521 e faleceu em 1543, sendo arcebispo de Braga. De tantos filhos nenhum lhe sobreviveu, vindo a suceder no reino seu neto D. Sebastião, que apenas contava três anos de idade quando morreu o avô.

D.Sebastião - O desejado -16º Rei de Portugal - Reinou 21anos

Quando D. João lll faleceu, já não era vivo nenhum dos seus nove filhos. Por isso sucedeu-lhe seu neto, D. Sebastião, que contava, ao tempo, pouco mais de três anos. Até à sua maioridade, 1568, governaram, como regentes, primeiro a avó, D. Catarina de Áustria, e depois o Cardial D. Henrique, tio-avô de D. Sebastião. Na Índia, a acção dos portugueses continuava: pelo vice-rei D. Constantino de Bragança e ainda na regência de D. Catarina, a praça de Damão, em 1559. Em 1562, foi defendida em África, por Álvaro de Carvalho, a fortaleza de Mazagão. Em 1570, D. Luís de Ataíde, D. Francisco de Mascaranhas e António Chale, também se notabilizaram, respectivamente, na defesa das praças de Goa, Chaul e Chalé. No Brasil, continuava a progredir a colonização: Mem de Sá fundou a cidade do Rio de Janeiro, que mais tarde seria capital do Brasil. Entretanto, em 1568, D. Sebastião atingiu a idade de 14 nos e assumiu o governo do Reino. Destemido e aventureiro, D. Sebastião imaginou logo, formar um grande império às portas do seu reino, levando a cruz de Cristo ao seio dos grandes senhores de Marrocos. Embalado por este sonho de glória, surgiu para o rei de Portugal o momento oportuno, que o destino lhe oferecia, de conquistar as terras abandonadas por D. João lll e de garantir, na Mauritânia, o predomínio absoluto dos portugueses: Mulei-Hamede fora desapossado do trono de Marrocos por seu tio Molei-Moluco. Aquele, com o fim de recuperar a coroa, mandou pedir auxílio a D. Sebastião, prometendo em recompensa as fortalezas de Arzila e Corache. Em breve D. Sebastião lho prestava, invadindo a África, à frente de um grande exército. No dia 4 de Agosto de 1578 deu-se a célebre batalha de Alcácer-Quibir, em que as tropas portuguesas, a despeito dos seus lances de heroísmo, ficaram vencidas. Milhares dos nossos perderam a vida, e uns 50 conseguiram alcançar Arzila e Tânger) caíram prisioneiros. O próprio rei, empunhando a espada (montante) que dantes servira a D. Afonso Henriques, arremeteu às cutiladas pelo arraial inimigo e ali desapareceu para sempre. Apesar da infortunada empresa de D. Sebastião ter coberto de luto Portugal, foi somente um herói vencido que soube … morrer mas devagar, a combater pelo seu Reino e pelo seu povo. Só no reinado seguinte foram resgatados muito cavaleiros e fidalgos, que se encontravam prisioneiros em Alcácer-Quibir. Seus restos mortais, que dizem ser de D. Sebastião, foram em 1582 trazidos para Lisboa e encontram-se, a ser verdadeiro o que consta, no Mosteiro da Batalha. D. Sebastião Cognome histórico, o "DESEJADO" Reinou de 1557 a 1578 Décimo sexto rei de Portugal, filho do príncipe D. João e de sua mulher, a princesa D. Joana, filha de Carlos V, portanto neto de D. João lll. Nasceu em Lisboa em 1554, algumas semanas depois da morte de seu pai. Quando seu avô morreu em 1757, D. Sebastião tinha três anos e meio. Exerceu a regência, primeiro a rainha viúva, D. Catarina e, depois o cardeal D. Henrique. D. Sebastião foi declarado maior em 1568. A educação que o jovem rei recebera, havia feito dele um exaltado, quase um fanático religioso. Só pensava combater os "Inimigos da Fé", e, reconquistar as praças de África, perdidas no rei reinado de seu avô, para depois poder conquistar o império de Marrocos. Em 1573, apenas com 19 anos, empreendeu de surpresa a sua primeira expedição africana: Foi a Tânger, mas não obteve êxito e por isso voltou sem ter tido ensejo de praticar os altos feitos guerreiros que sempre sonhara. Em 1578, o imperador de Marrocos, Muley-Ahmed foi destronado por seu tio Abd-el-Melik, e pediu auxílio da D. Sebastião para reconquistar o trono. D. Sebastião julgou então que tinha chegado o momento de realizar os seus sonhos. Desprezando conselhos e objecções que os seus conselheiros lhe davam e alertavam, embarcou para África com um exército mal organizado e muito mal dirigido. A batalha de Alcácer-Quibir (*), em 1578, foi o desfeito desta insensata aventura e D. Sebastião desapareceu na batalha ... Os restos de que se julga ser de D. Sebastião, jazem no Mosteiro de Batalha (distrito de Leiria). (*) A batalha de Alcácer-Quibir: Em quatro de Agosto de 1578, o exército português comandado por D. Sebastião, foi completamente derrotado e destroçado pelos Árabes. D. Sebastião, vendo que a batalha estava completamente perdida e as tropas a serem destroçadas, num gesto de grande desespero entranhou-se nas fileiras inimigas e nunca mais tendo sido visto com vida. Neste empresa foram mortos ou ficaram prisioneiros muitos milhares de portugueses. Sebastião I "O Desejado". 16.º rei de Portugal. Nasceu em Lisboa a 20 de Janeiro de 1544, sendo filho, póstumo do príncipe D. João, o único filho varão sobrevivente de D. João III, e de D. Joana, filha do imperador Carlos V. D. João III tivera 10 filhos, legítimos e 1 bastardo, mas todos morreram em vida de seu pai, só o príncipe D. João, que nascera em 1557, chegara à adolescência, e por isso, apenas ele completou 15 anos seu pai o casou com D. Joana, filha de Carlos V, mas a sorte fatal que perseguira os outros filhos do monarca, também o não poupou, e o príncipe D. João faleceu a 2 de Janeiro de 1554, deixando sua esposa grávida e próximo do termo da gravidez. Esperavam todos com ansiedade o nascimento do neto de D. João III, porque a coroa achava-se ameaçada de ficar sem sucessão, e uma clausula fatal inserida nas escrituras do casamento da infanta D. Maria de Portugal com o príncipe D. Filipe de Castela, atribuía aos filhos deste matrimónio a herança da coroa portuguesa no caso de faltarem herdeiros directos. Era a união ibérica sempre temida e sempre detestada pelos portugueses, portanto, todos esperavam com grande inquietação o nascimento do filho póstumo do príncipe D. João, e foi com a maior alegria que se soube, a 20 de Janeiro desse ano de 1554, que acabara de nascer um filho, que ia receber o nome de Sebastião, por ter nascido no dia em que a igreja reza desse santo. Pelo entusiasmo com que aquela noticia fora recebida, se deu ao futuro rei o cognome de Desejado. Não foram os menos contentes os avós, que se viam na perspectiva de ficar sem descendência. D. João III, porém, pouco tempo sobreviveu, porque morreu três anos depois, deixando a herança da coroa a essa débil criancinha, única esperança da nacionalidade portuguesa, e que estava predestinada para nos ser tão fatal. D. Sebastião, começou, pois, a reinar desde 11 de Junho de 1557, com três anos e meio de idade, e foi logo aclamado rei. Levantaram-se dúvidas a respeito da regência, que o cardeal D. Henrique reclamava como tio-avô do jovem monarca, e que a avó, a rainha viúva D. Catarina, assumiu em virtude dum testamento mais ou menos autêntico de D. João III. A regente, porém, era uma senhora que não deslustrava a família a que pertencia, era digna irmã de Carlos V. Inteligente e sagaz chamou para seu auxiliar o cardeal D. Henrique, no propósito reservado de o aniquilar, o que facilmente conseguiu. Para o consolar, trabalhava em Roma para que o elegessem papa, mas no governo do reino anulou-o completamente. Contudo, D. Henrique intrigava, e a rainha para acabar com esse estorvo, lembrou-se de dizer que lhe entregava completamente a regência do reino. Apanhado de improviso, o cardeal infante não se atreveu a aceitar; a sua recusa foi logo aceite e sancionada pelas cortes, que para esse fim se reuniram, e D. Catarina ficou então na posse indisputada e completa da regência. Contudo, D. Henrique tinha um poderoso auxiliar, que eram os jesuítas, a cuja astúcia confiou o êxito da sua causa. Contra eles é que D. Catarina nada pôde conseguir. Os jesuítas tanto intrigaram que afinal a rainha, em 1567, depois de 10 anos de regência, viu se obrigada a cedê-la definitivamente a D. Henrique. Esta regência durou, porém, só até 1568, ano em que D. Sebastião tendo completado 14 anos de idade, foi declarado maior. D. Henrique não era homem capaz de só por si lutar contra a sua inteligentíssima cunhada. Esta cedera, mas não tardou a tomar a sua desforra. Apenas D. Sebastião chegou aos 14 anos, a rainha-avó tanto se moveu que conseguiu que fosse proclamada a maioridade. A regência do cardeal durara apenas um ano. Que esperanças podia o novo soberano inspirar ao povo, e qual seria a sua educação. Ficara órfão de pai, ainda antes de nascer; sua mãe partira para Espanha, mostrando-se muito despeitada por lhe não ser confiada a regência, quando morreu D. João III. A rainha D. Catarina, avó do monarca, podia ser excelente educadora, e mostrou-o resistindo por algum tempo à nomeação que lhe queriam arrancar dum jesuíta para mestre do seu neto, a que afinal cedeu. A Companhia de Jesus era já nesse tempo um colosso. O preceptor foi o padre Luís Gonçalves da Câmara. Para aio escolheu-se D. Aleixo de Menezes, homem de são critério e espírito superior. Os que detestavam a influencia jesuítica imaginaram que D. Aleixo de Menezes, com a sua autoridade exerceria maior influência no ânimo do discípulo. Mas não sucedeu assim, Sem o querer, é certo, D. Aleixo contribuiu para completar a educação do jesuíta. O padre Câmara fez de D. Sebastião um monge, e D. Aleixo um militar brioso; essas duas educações combinadas deram em resultado esse monge militar coroado, esse templário entusiasta, que arrastou Portugal é, ultima cruzada, e que nessa cruzada o perdeu. Com o seu temperamento ao mesmo tempo guerreiro e contemplativo, D. Sebastião facilmente recebeu as lições do preceptor e do aio. O padre Câmara desenvolvia no seu espírito o fervor ascético e religioso para poder fazer do rei, confiado aos seus cuidados, o fiel escravo da Companhia; D. Aleixo de Menezes, cumprindo o seu dever, ensinava lhe os brios cavalheirescos que eram próprios de um rei, e com as suas lições e com os exemplos gloriosos da sua vida ensinava-o a prezar a gloria das armas e a não temer os perigos. Ao mesmo tempo ouvia o jovem monarca a cada instante em torno de si lamentar a resolução de D. João III, que entregara aos mouros algumas praças que tinham sido conquistadas pelos nossos à custa de tanto sangue; era bem criança ainda, mas já com o espírito aberto a todas as impressões, pela sua notável precocidade, quando a defesa heróica de Mazagão exaltou o reino todo e precipitou dentro das muralhas da praça africana a flor da fidalguia portuguesa. Tudo isto concorria para o exaltar e para o excitar. Muito inteligente, muito impressionável, aprendendo tudo de relance, D. Sebastião era por isso mais acessível do que qualquer outro é, influencia de todas estas causas. Dividia o seu tempo pelas caçadas, pelos exercícios religiosos e pela leitura de livros de história, principalmente da história portuguesa. O seu grande prazer era desafiar o perigo e procurar as agruras e os descómodos da vida montesina. Ia de Inverno para Sintra, de Verão para Salvaterra e Almeirim, em dias de temporal é que ele folgava de embarcar nas galés e de ir fora da barra contemplar, da popa dos navios, o mar embravecido. Fugia do amor com uma insensibilidade notável, tanto porque julgava esse sentimento efeminado incompatível com os seus hábitos guerreiros, porque o seu espírito religioso lhe fazia ver o ideal da vida humana na castidade ascética. Tudo concorria pois para perder o rei e o país; as qualidades de D. Aleixo de Menezes e os defeitos de Luís Gonçalves da Câmara, os seus hábitos de caçador semi-selvagem que lhe faziam desprezar a um tempo o amor e o perigo e que o impediram de deixar um herdeiro da coroa e de salvar-se por ocasião da derrota de Alcácer Quibir, quando isso lhe era ainda tão fácil. D. Sebastião tornou-se completamente um escravo dos jesuítas, que tudo tinham feito por lhe desenvolver o fervor religioso, que animavam o seu afastamento das mulheres, porque a influencia duma mulher, esposa ou amante, destruiria para sempre a influência do confessor. Este, sempre hábil, enquanto precisou de ter quem o escudasse, favoreceu o cardeal D. Henrique, criatura sua, contra a rainha D. Catarina, e quando viu que já lhe não era preciso, tratou de o inutilizar, servindo-se para isso do despeito de D. Catarina, e foi proclamar a maioridade de D. Sebastião. D. Henrique, profundamente despeitado, recolheu-se ao convento de Alcobaça, e D. Catarina, vendo logo que não podia nada em seu neto, porque, tendo-lho pedido que nomeasse vedor da fazenda Pêro de Alcobaça, homem de grande importância e merecimento, teve o desgosto de ver a sua recomendação postergada, sendo escolhido para esse legar D. Martinho Pereira, homem perfeita mente nulo, para escrivão da puridade Martim Gonçalves da Câmara, irmão do confessor, e para secretario Miguel de Moura, também uma inutilidade, de forma que os Câmaras eram verdadeiramente omnipotentes no conselho de D. Sebastião. Havia outra influência poderosa no ânimo de D. Sebastião, que o jesuíta trataria de destruir se a morte lhe não poupasse esse trabalho. Era o velho aio D. Aleixo de Menezes, que faleceu logo em 1569, deixando ao seu pupilo umas recomendações, que ele nunca cumpriu. Aconselhava-lhe que não desse ouvidos aos aduladores que pretendessem afasta-lo de seu tio e de sua avó e foram esses aduladores omnipotentes no seu espírito; que se não entregasse nas mãos dos fidalgos moços, e foi logo o que ele fez da a breves anos; que se não lançasse em empresas temerárias e improfícuas para o reino, e houve a expedição lamentável a Alcácer Quibir; que não entregasse os cuidados do governo a religiosos, e quem governava em Portugal eram dois padres; finalmente lhe aconselhava, que não promulgas se pragmáticas incómodas para os seus vassalos, o D. Sebastião, com as tendências do seu espírito monástico, a primeira coisa que fez, foi promulgar uma pragmática severíssima. Como as cortes insistiam para que el-rei escolhesse noiva entre as princesas europeias, D. Sebastião resignou-se, e principiou a negociar-se o seu casamento com a célebre Margarida de Valois, irmã de Carlos IX. A Espanha opôs-se vivamente a esse casamento, e tratou de oferecer a arquiduquesa Isabel, mas, depois por uma mudança de politica, Filipe II casou esta princesa com o próprio rei de França, Carlos IX. D. Sebastião ressentiu-se dessa desfeita, e tomou o caso como pretexto para se recusar absolutamente a entabular novas negociações para o seu casamento. Estavam, por conseguinte, seguros os jesuítas; ainda assim receavam que a avó recuperasse sobre ele o seu antigo império, mas para se livrarem desse receio, foi suficiente insinuarem-lhe que D. Catarina queria continuar a governar à sombra dele, para que o irritável monarca se despeitasse de forma, que infligiu à avó tais desfeitas que D. Catarina se retirou escandalizada para o palácio de Xabregas, enquanto D. Sebastião passava em Santos ou na Alcáçova o pouco tempo que residia em Lisboa. Queixavam-se muito dessas constantes saídas os habitantes da capital, e com mais razão se queixaram ainda, quando, sobrevindo a terrível peste de 1569, D. Sebastião os abandonou completamente, fugindo da epidemia com a maior cobardia, ele que tantas provas dera de louca e temerária audácia. E porque em D. Sebastião o valor era uma questão de temperamento e não de consciência; não tinha o valor reflectido, que afronta os perigos para cumprir um dever, tinha o valor brutal do caçador e do soldado, a quem o perigo embriaga como um vinho ardente. Durante uma viagem que fez pelas províncias, fugindo da peste de Lisboa, praticou as maiores extravagâncias. Mandava abrir os túmulos dos reis seus antepassados, extasiava-se diante dos que tinham sido guerreiros, mostrava o mais completo desdém pelos pacíficos, principiando a inspirar a todos os mais sérios receios esta sua índole destemperada e bravia que se curvava ao jugo dos jesuítas. Por esse tempo veio um novo facto actuar no seu espírito. D. João de Áustria ganhara a gloriosa batalha de Lepanto, e essa vitória tivera ecos infinitos na cristandade. Sentiu-se um pouco estimulado, os louros do moço príncipe espanhol, seu tio, lhe perturbaram o sono. Nesse tempo veio a Portugal um legado do papa, o cardeal Alexandrino, convidar D. Sebastião para uma cruzada contra os turcos. O monarca abraçou com entusiasmo essa ideia. Afirmou à república de Veneza que marcharia imediatamente em seu auxílio, escreveu ao Xá da Pérsia para que ele atacasse pelo Oriente o império turco enquanto os cristãos o atacariam pelo Ocidente. Enfim, chegou ao ponto de mandar dizer a Carlos IX de França, que aceitaria a mão de sua irmã Margarida de Valois se ele quisesse entrar na sua cruzada contra os turcos. Não só se resignava a esse casamento, como recusava o dote de 400.000 cruzados, e se comprometia a dar outros 400.000 mil a Carlos IX para ele guerrear os huguenotes do seu reino. O rei de França não pôde aceita esse vantajosíssimo negócio, porque Margarida de Valois já era noiva de Henrique de Navarra. D. Sebastião resolveu passar à Índia, mas dissuadiram-no dessa ideia; quis então passar à. África, de que também o dissuadiram; pensou em aprestar uma frota para ir socorrer Carlos IX nas suas guerras contra os huguenotes, mas a matança da noite sangrenta de São Bartolomeu dispensou esse auxílio. O rei de Portugal resolveu de novo ir ao Oriente, mas teve de desistir desse projecto, porque as tempestades no próprio rio Tejo lhe dispersaram a frota. D. Sebastião continuou a dar prova da mais rematada loucura. 0 pior, porém, foi a primeira expedição a África, em que logo ao sentiu a que loucas temeridade se poderia arrojar essa criança coroada. Em Agosto de 1574 embarcou secretamente e passou a África, sem prevenir pessoa alguma. Houve grande terror, quando se soube do seu desaparecimento sem se poder suspeitar para onde ele fora. Finalmente apareceu uma carta régia, em que participava a sua expedição, nomeando regente do reino na sua ausência o cardeal D. Henrique. As pessoas mais autorizadas lhe mandaram suplicas repetidas, pedindo-lhe que voltasse. D. Sebastião voltou, mas não foi por esse motivo, foi porque nem em Ceuta nem em Tânger encontrou ocasião de combater. Os marroquinos, apenas souberam da sua chegada, retraíram-se supondo que D. Sebastião era acompanhado de todas as suas forças do reino. D. Sebastião regressou por conseguinte a Portugal, mas decidido a voltar em estado de tentar empresas sérias. O resultado mais importante desta expedição africana foi a convivência mais íntima que travou com uns fidalgos moços e com D. Álvaro de Castro, que, sem ser moço, era o chefe do partido juvenil, convivência de que resultou o golpe de estado que deu apenas chegou a Lisboa, e pelo qual Martim Gonçalves da Câmara caiu no régio desagrado. A influência passou então a D. Álvaro de Castro, mas D. Sebastião que em nada se importava com os negócios públicos, que tudo deixava entregue aos seus ministros, só numa coisa era intransigente, no que dizia respeito à expedição africana. Esse era o seu grande, o seu decidido empenho. Voltando de Tânger não pensava noutra coisa. Os seus validos agora eram D. Álvaro de Castro e Pedro de Alcáçova Carneiro. Foi este último encarregado de ir negociar com Filipe II um tratado de aliança contra Marrocos, e logo viu que o soberano espanhol não pensava nem por sombras em fazer uma cruzada africana, mas como hábil político, não querendo ficar com a responsabilidade do malogro de uma negociação em que o rei estava empenhado, soube fazer aceitar a D. Sebastião a ideia de uma conferência com seu tio D. Filipe. Foi a célebre conferência de Guadalupe no Natal de 1576. Nessa conferência D. Sebastião insistiu no seu projecto, alegando como pretexto político que era indispensável tomar Larache aos mouros. D. Filipe, primeiro, tentou dissuadi-lo, mas depois começou a entrever as vantagens que da realização desse projecto lhe poderiam talvez resultar, e tratou então unicamente de se não envolver a si próprio no desastre. Por essa ocasião apareceu um inesperado ensejo, que até certo ponto parecia justificar os planos de D. Sebastião. Disse-lhe o bispo do Algarve, D. Jerónimo Osório, que não desaprovava a ideia de uma cruzada contra os mouros, mas que achava inconveniente de todo o ponto a ocasião, e que devia aproveitar-se o momento em que houvesse discórdias graves entre os mouros. Ora essas discórdias deram-se, e tão graves que um príncipe, Muley Moluk, tio do soberano reinante Muley Hamed, expulsou-o do trono, e este apareceu em Portugal pedindo socorro ao rei, a quem prometia em compensação as mais largas concessões de territórios. Para prova da sua boa fé, um seu partidário entregou logo soe capitães portugueses a praça de Arzila que D. João III abandonara. D. Sebastião ficou contentíssimo com este fausto sucesso, e deliberou logo sem a mais leve hesitação, empenhar todas as forças do reino em socorrer Muley Hamed. Debalde todos, sem excepção, instaram com ele para que desistisse de tão louco intento; debalde o conselho de Estado unanimemente lhe declarou que não aprovava semelhante procedimento; debalde a rainha D. Catarina lhe suplicou e o cardeal D. Henrique e o senado da Câmara de Lisboa e os próprios embaixadores de Filipe II instaram com ele, que desistisse do intento, debalde o próprio Muley Moluk lhe ofereceu as condições mais honrosas para que a paz se não rompesse, de ninguém fez caso na sua extraordinária monomania. Ao conselho de Estado disse que o reunira, não para deliberar sobre a questão de se saber se era ou não oportuna a sua passagem à África, essa já, não admitia discussão, estava perfeitamente resolvida. Do que se tratava era de se saber o modo como se havia de realizar a expedição projectada. A Muley Moluk exigiu que lhe entregasse primeiro umas poucas de praças, ditando condições a um inimigo poderoso, mas prudente, como as ditaria a um vencido. Se a empresa era insensata, o modo de a levar a efeito foi mais insensato ainda. No levantamento do dinheiro preciso para a expedição cometeram-se as maiores exacções que irritavam o povo extraordinariamente. Depois fizeram-se grandes levas no estrangeiro a peso de ouro, e reuniram-se terços espanhóis, alemães e irlandeses, com todos os inconvenientes das tropas mercenárias, recrutaram-se no reino uns 9 mil soldados bisonhos, fracos, que não ofereciam a mínima garantia. 0 corpo de voluntários da nobreza era brilhante, sem dúvida, pela bravura dos que o compunham, mas era ao mesmo tempo indisciplinado, e depois equipava-se com um luxo completamente impróprio para uma expedição militar. D. Sebastião, não só tolerava esse luxo, apesar das severas pragmáticas que promulgara em tempo, mas animava-o. Apesar de ser acima de tudo cortesão, Pedro de Alcáçova não pôde deixar de escrever uma Memoria, apontando os inconvenientes da expedição, e o modo desastroso como estava sendo preparada. D. Sebastião havia nomeado general da armada a D. Luís de Ataíde, homem de bom conselho e de muita circunspecção, e que sempre se havia oposto a esta temerária empresa; mas por isso mesmo o rei o mandou por vice-rei para a Índia, e deu o comando a D. Diogo de Sousa. Completamente desvairado, tendo-se munido da espada de D. Afonso Henriques que mandara pedir a Santa Cruz de Coimbra, e de uma coroa de ouro que devia colocar na cabeça quando se proclamasse imperador de Marrocos, partiu finalmente a 25 de Junho com uma armada de 800 velas e um exército de 18.000 homens, em que entravam soldados de todas as proveniências, que já em Lisboa haviam tido varias e gravíssimas rixas. Ao chegar a África, as loucuras continuaram. Foi D. Sebastião quem tudo quis dirigir. Para tomar Larache, que é um porto de mar, desembarcou em Tânger a 17 de Julho de 1578, e seguiu por terra, passando por Arzila e Alcácer Quibir. A marcha em Agosto era pesadíssima para os nossos soldados, que ao chegarem a Alcácer Quibir iam já mortos de fadigas. Seguiu-se a batalha desastrosa de 4 de Agosto, que já está descrita minuciosamente nesta obra, vol. I, pág. 149; acrescentaremos que D. Sebastião, apenas sentiu o cheiro da pólvora, esqueceu tudo, os seus deveres de comandante, as ordens que dera, e arrojou se ao inimigo do espada em punho, praticando verdadeiros prodígios de valor. Quando a derrota começou, D. Sebastião nem deu por ela, mas do repente, quando percebeu que as hostes portuguesas estavam em completa debandada, compreendendo então a enormidade dos seus erros, soube expiá-los os heroicamente. Era um novo erro, porque a sua morte ia deixar o trono vago, sem sucessão. Soube morrer com brio, com uma intrepidez verdadeiramente extraordinária. Acompanhado apenas por uma porção de fidalgos, arrojou-se loucamente ao inimigo, procurando salvar a artilharia que os marroquinos levavam. Não o conseguiu, e os fidalgos que o rodeavam, esquecendo também a sua própria salvação, resgatando lambem heroicamente as culpas da sua temeridade, não pensavam senão em dar a vida para o salvar. 0 prior do Crato, a pé, com a espada embotada dos golpes que vibrara, todo coberto de sangue, indicava-lhe um claro nas fileiras muçulmanas por onde podia ainda salvar-se, mas D. Sebastião não o atendia. Já não tinha a exaltação febril da coragem, mas a resolução fria de lavar com todo o seu sangue a sua culpa enorme. Já não podia fugir, mas podia comprar a vida com a perda da liberdade. Rendei-vos, senhor, dizia-lhe D. Francisco de Mascarenhas, e ele, meneava trinta e negativamente a cabeça. Só nos reata morrer, acudiu D. João de Portugal. Morrer, sim, respondeu o monarca com voz abafada, morrer, sim, mas devagar. Cristóvão de Távora, querendo salvá-lo à viva força, acenou a um mouro que viu próximo, para que viesse tomar-lhe a espada, mas D. Sebastião percebendo, disse bruscamente: Não, não a liberdade real só se há de perder com a vida. E metendo esporas ao cavalo com verdadeira fúria, sumiu-se nas fileiras muçulmanas vibrando para um e outro lado as mais formidáveis cutiladas. Debalde, os fidalgos tentaram segui-lo, mas D. Sebastião tomara-lhes tão grande avanço, que foi impossível alcançá-lo. Desapareceu, e da sua sorte nunca mais se soube. O povo não quis acreditar na sua morte, e formou se em torno do seu nome, não só uma lenda, mas uma seita, que ficou conhecida por Sebastianistas. Mas a morte do infeliz monarca foi oficialmente reconhecida, e a coroa caiu por infelicidade em seu tio, o cardeal D. Henrique. Em 1582 o cadáver suposto ou verdadeiro, veio para Portugal, e foi enterrado num túmulo da igreja de Belém, onde se escreveu um pequeno epitáfio em latim, que deixa transparecer a dúvida, porque diz: Aqui jaz, si vera est fama ... Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico, Volume VI, págs. 778-782. A batalha de Alcácer-Quibir http://www.eternos.org/ Em 1576, o sultão de Marrocos, Mulei Maamede é deposto pelo seu tio, Mulei Moluco. Entusiasmado com uma vitória alcançada em Tânger, Sebastião decide apoiar Maamede, que em troca lhe ofereceria Arzila. D. Filipe II, de Espanha, considera a ideia da cruzada uma loucura e não apoia o sobrinho, tentando demovê-lo da ideia. O sultão Moluco faz uma proposta de paz e compromete-se mesmo a oferecer a Sebastião uma parte da costa de Marrocos. Em vão. A 25 de Junho de 1578, parte de Lisboa uma imensa frota de 500 navios e 23 000 soldados, incluindo mercenários oriundos de toda a Europa e grande parte da nobreza portuguesa. Chegando a Arzila, juntam-se ao exército, os homens de Mulei Maamede e juntos partem para o interior, ao encontro dos seus destinos. A 4 de Agosto de 1578, chega o momento da verdade. Mulei Moluco está gravemente doente, e apesar do seu exército de 100 000 homens ter uma vantagem numérica imensa, tenta ainda chegar a um acordo, mais uma vez sem qualquer sucesso. Portugal, com um exército esgotado pelo cansaço, pela fome e pelo calor, enfrenta então os Mouros, comandados por Moluco. Depressa Sebastião vê os seus homens rodeados pelo imenso poderio do inimigo, e a batalha caminha para o seu inevitável desfecho. 8000 mortos, 15 000 prisioneiros, 100 sobreviventes que conseguiram a fuga até à costa. D. Sebastião desapareceu. Moluco acabou por morrer também nesta batalha, não por ferimentos, mas pelo seu estado débil agravado pelo esforço de cavalgar. Maamede sobreviveu à batalha, mas acabaria por morrer afogado num rio enquanto tentava a fuga. Em Marrocos, a batalha de Alcácer Quibir é conhecida como a batalha dos três reis. As consequências Com o desaparecimento de Sebastião, é o seu tio-avô, o Cardeal D. Henrique que sobe ao trono. O seu curto reinado de dois anos, é dedicado a tentar minimizar o desaire da derrota sofrida no Norte África. A maioria dos nobres portugueses morreram ou foram feitos prisioneiros, e o país precisa endividar-se para pagar os resgates exigidos pelos Mouros. Finalmente, com a morte do Cardeal, Portugal fica sem um sucessor directo ao trono. Os pretendentes sucedem-se, mas acaba por ser Filipe II de Espanha, tio de Sebastião a conquistar o trono. Pela primeira vez desde a sua fundação, e por um período de 60 anos, Portugal deixa de existir como nação independente. Lenda de D. Sebastião Décimo-sexto rei de Portugal, filho de Dom João de Portugal e de Dona Joana rainha de Áustria, filha de Carlos V. Em 1578, com 24 anos, partiu para Marrocos com um grande exército, dos quais cerca de um terço eram mercenários estrangeiros. Embora os militares mais experimentados na guerra o aconselhassem a não se afastar da costa (de onde lhe poderia vir auxílio dos navios portugueses), o rei preferiu avançar para o interior com as suas tropas. Encontrou o exército muçulmano em Alcácer Quibir e aí se travou a célebre e infeliz batalha em que foram mortos ou feitos prisioneiros praticamente todos os portugueses que nela participaram. O rei também morreu na batalha solteiro e sem deixar descendentes, mas nenhum dos portugueses que regressaram disse ter visto seu corpo. Dois anos depois, Portugal perdeu a sua independência política, quando Filipe II, rei de Espanha e neto do rei Dom Manuel I, subiu ao trono de Portugal. Durante os anos que se seguiram, o povo acreditava que Dom Sebastião não tinha morrido na batalha e iria regressar a Portugal, numa noite de nevoeiro. Então, reclamaria para si o trono e o reino ganharia de novo a sua independência. Esta crença popular ficou conhecida na história com o nome de "Sebastianismo". Como tema popular, o sebastianismo assumiu enorme importância, dando expressão a um desejo persistente de libertação da miséria e opressão quotidianas. Para o povo, D. Sebastião não morreu, apenas desapareceu. Este vazio provocado pelo seu desaparecimento determina a esperança no seu regresso. D. Sebastião torna-se, assim, o desejo encoberto da alma do povo português

D.Henrique - O Casto - 17º Rei de Portugal - Reinou 2 anos

D. Sebastião não deixara descendentes directos. Por esse motivo subiu ao trono seu tio, que era o seu parente mais próximo, o Cardeal D. Henrique, que contava já 66 anos. A avançada idade de D. Henrique, os seus achaques e a circunstância de ser sacerdote, que lhe não permitia dar sucessor directo à Coroa, fizeram agitar o problema da sucessão. Nesta conjuntura apareceram vários pretendentes ao trono de Portugal. Era quatro os principais, todos netos de D. Manuel l: D. António Prior do Crato, filho natural do Infante D. Luís; D. Catarina, Duquesa de Bragança, filha do Infante D. Duarte; Filipe ll de Espanha, filho da Infanta D. Isabel; D. Manuel Felisberto, Duque de Sabóia, filho da Infanta D. Beatriz. Dos quatro pretendentes o que tinha mais direitos era a duquesa de Bragança, D. Catarina, por ser a sucessora na linha masculina. Por isso, D. Henrique inclinava-se a seu favor. Descoberto o segredo, logo o rei de Castela encarregou o português traidor e degenerado Cristóvão de Moura, que vivia na corte espanhola, de vir a Portugal. Este, à custa de muitas ameaças feitas ao Cardeal-rei, conseguiu modificar-lhe a opinião, levando-o a concordar na seguinte proposta: reunião de cortes e elas resolveriam quem subiria ao trono. Assim, no dia 11 de Janeiro de 1580, reuniram-se Cortes em Almeirim. Contava Filipe ll de Espanha ver indicado o seu nome nessa assembleia. Para tal, tinha Cristóvão de Moura, seu emissário, feito muitas promessas e gasto rios de dinheiro. D. Henrique, sempre receoso, continuava indeciso. As opiniões dividiam-se. Entretanto, o partido do rei espanhol aprecia aumentar. Foi então que se ergueu a voz do grande patriota Febo Moniz, para protestar contra a escolha de um rei estrangeiro. E as corte terminaram sem nada terem resolvido. D. Henrique morreu no dia 31 de Janeiro de 1580, sem que tenha decidido qualquer coisa respeitante à sucessão. Poucos dias antes de falecer, tinha nomeado uma Junta de cinco governadores para administrar o Reino: D. Jorge de Almeida, arcebispo de Lisboa; D. Francisco de Sá Menezes, camareiro-mor do reino; D. João Telo; D. João de Mascarenhas; D. Diogo Lopes de Sousa. O Conselho exerceu os normais actos de soberania enquanto esteve em funções – destacando-se, pela sua importância, a cunhagem de moeda própria. Exercia a presidência do Conselho o arcebispo de Lisboa. Dentre os seus membros, somente João Telo era contrário a Filipe II de Espanha, sendo os demais pelo rei castelhano. Tendo as Cortes dissolvido pouco depois sem deliberarem acerca da sucessão, acabaram os Governadores do Reino por – comprados pelas dobras castelhanas oferecidas por Cristóvão de Moura – decidir ser Filipe II de Espanha o legítimo herdeiro do trono de Portugal e Algarves e seus senhorios ultramarinos. Em virtude desta tomada de decisão, o povo de Santarém viria a rebelar-se e a aclamar como rei de Portugal o Prior do Crato, D. António, em 24 de Julho de 1580. Poucos dias mais tarde entrava em Lisboa triunfalmente, onde foi recebido com idêntico entusiasmo, o que levou os Governadores a fugirem com receio para Setúbal, e daí rumo a Ayamonte, onde declararam sucessor legítimo da Coroa o rei de Espanha Filipe II, e dando-lhe assim um pretexto para invadir militarmente o reino, tendo em vista apossar-se daquilo que, agora, lhe pertencia de direito. Os restos mortais de D. Henrique encontram-se nos Mosteiro dos Jerónimos. D. Henrique Cognome histórico: o "CASTRO" Reinou de 1578 a 1580 D. Henrique (que era cardeal) foi o 17º rei de Portugal e filho de D. Manuel l e de D. Maria de Castela, sua Segunda mulher e irmão de D. João lll. Nasceu em Lisboa em 1512 e morreu em Almeirim, em 1580. Seguiu a vida eclesiástica e foi arcebispo de Braga e de Évora, e também regente do Reino durante os últimos seis anos da menoridade de D. Sebastião. Quando este subiu ao trono, o cardeal retirou-se para o Mosteiro de Alcobaça (distrito de Leiria), onde foi surpreendido pela notícia da catástrofe de Alcácer-Quibir, e que o fazia rei de Portugal. O seu curto reinado foi um período muito mau para Portugal, dizimado pela fome e por epidemias, e também agitado pelas intrigas dos pretendentes à sucessão do velho rei. Este reuniu Cortes em Almeirim para designarem o herdeiro à coroa e usou de toda a influência para que a escolha recaísse em Filipe ll de Espanha, neto materno de D. Manuel l. Não conseguiu, porém os seus intentos e, quando morreu, não estava ainda a questão resolvida. O povo, porém não lhe perdoou a intenção e, antes de morrer, no seu Paço de Almeirim, o último rei da Dinastia de Avis, pode ouvir a multidão cantar nas ruas: "Viva el-rei D. Henrique/ No inferno muitos anos,/ Pois deixou em testamento/ Portugal aos castelhanos/. D. Henrique, o último rei da Dinastia de Avis, jaz no Mosteiro dos Jerónimos. Cardeal D. Henrique - "o Casto. Foi o 17.º rei de Portugal. Nasceu em Lisboa a 31 de Janeiro de 1512, fal. em Almeirim em igual dia do ano de 1580. Era filho de el-rei D. Manuel, e de sua segunda mulher, a rainha D. Maria; irmão de el-rei D. João III. Destinando se à vida eclesiástica foi nomeado aos 14 anos de idade prior comendatário de Santa Cruz de Coimbra, sendo aos 22 elevado a arcebispo de Braga pelo papa Clemente VII. Finalmente, aos 27 anos, em 1539, foi nomeado inquisidor¬-mor de Portugal e suas possessões ultramarinas, mas o pontífice Paulo III não quis reconhecer esta nomeação, o que deu causa a uma luta muito curiosa entre a coroa portuguesa e a corte pontifícia. De Braga passou a Évora, em 1540, sendo o primeiro arcebispo, que existiu naquele arcebispado, e 6 anos depois, em 1546, Paulo III lhe concedeu o chapéu cardinalício. Em 1561, Pio V o instituiu legado a latere no reino de Portugal, e por morte do arcebispo de Lisboa, Fernão de Vasconcelos, em 1564 foi transferido para este arcebispado. Segundo se lê nas Memorias historicas sobre alguns mathematicos portuguezes e estrangeircs domiciliarios em Portugal ou nas conquistas, por António Ribeiro dos Santos, o infante D. Henrique não foi somente versado nas ciências eclesiásticas. Teve por mestre o grande matemático Pedro Nunes, com quem aprendeu aritmética e a geometria dos Elementos de Euclides; o tratado da esfera; as teorias dos planetas; parte da grande composição dos astros de Ptolomeu; a mecânica de Aristóteles, toda a cosmografia; o uso dos instrumentos antigos, e de alguns que seu sábio mestre havia inventado para a pratica da navegação. Estas indicações constam da dedicatória do tratado de Crepusculis de Pedro Nunes a el-rei D. João III. Lê-se ainda nas referidas Memorias: «Os estudos e indagações, que sobretudo o desvelavam, como os de seu maior gosto, e propensão, foram os da Astronomia; e tanto folgava com eles, que ainda depois de se achar de todo entregue aos estudos e coisas eclesiásticas, costumava quase todos os dias propor a Nunes algum problema árduo e pedir-lhe que o resolvesse por demonstrações de Matemática.» 0 infante D. Henrique era muito fanático, e deu grande impulso ás perseguições contra os judeus. No entretanto, mostrou-se adverso à Companhia de Jesus, quando ela pretendeu introduzir-se em Portugal. Parece, porém, que modificou depois as suas ideias, porque se tornou protector e um dos mais dedicados devotos daquela corporação religiosa. Foi ele quem entregou aos jesuítas a instrução pública, fundou o colégio de Santo Antão, o primeiro que a Companhia de Jesus teve em Portugal, assim como o colégio do Espírito Santo, em Évora, que se construiu em 1551, e se inaugurou em 29 de Agosto de 1533, com a abertura solene das escolas publicas de Teologia Moral, e letras humanas (humanidades), únicas disciplinas que então era permitido ensinar fora da Universidade de Coimbra. Conseguiu mais tarde erigir também em Évora uma Universidade sujeita à mencionada Companhia, a qual se inaugurou solenemente em 1559, sendo visitada em 1560, com a maior pompa, pelo seu fundador, acompanhado do geral dos jesuítas, o padre espanhol Francisco de Borja, que mais tarde a igreja canonizou. Quando em 1557 faleceu D. João III, ficou herdeiro do trono seu neto D. Sebastião, que apenas contava 3 anos de idade. A regência do reino durante a menoridade do novo rei foi confiada à rainha D. Catarina, viúva de D. João III, a quem competia. D. Catarina assumiu a regência, e chamou para seu auxiliar e conselheiro, seu cunhado, o infante cardeal D. Henrique, que também ambicionava o poder, que por este motivo resignou o arcebispado de Évora no bispo do Algarve, e veio para a metropolitana de Lisboa, por bula de Pio IV. Aos jesuítas não convinha a regência da rainha, senhora de ânimo varonil e decidido, e procuraram pela intriga afastá-la, ficando a regência entregue ao infante. A questão da escolha dum preceptor para o jovem rei, veio mais influir a favor dos jesuítas que incitaram o infante a impor-se, para que o preceptor fosse nomeado entre os padres da Companhia de Jesus, e assim o conseguiram, recaindo a nomeação no padre Luís Gonçalves da Câmara, a que D. Catarina acedeu contra vontade. As intrigas prosseguiram, porque os jesuítas preferiam que a regência recaísse por completo no infante cardeal D. Henrique, que eles dominavam, até que a rainha se resolveu a desistir do governo a favor do seu cunhado, e próximo do Natal de 1560 chamou de súbito D. Henrique, e declarou-lhe que precisava descansar, e por isso lhe entregava a tutela do rei e do reino. Em vista desta declaração formal, D. Henrique receou como sempre; o poder atraía-o e assustava-o, e não se atrevia a tocar-lhe. Com humildade procurou frouxamente dissuadi-la comi várias razões de semelhante intuito, e D. Catarina convencionou que escreveria uma carta aos Estados do reino, declarando-lhes a sua resolução, e pedindo que a aprovassem. A ideia de que o poder viria a cair nas mãos do cardeal D. Henrique assustou a todos os que lhe conheciam a índole, e uma manifestação imponente, vinda de todos os pontos do reino, da nobreza, do clero e do povo, veio suplicar a D. Catarina que desistisse do seu propósito. Os jesuítas, porém, despeitados com a derrota, levantaram tais dificuldades ao governo de D. Catarina, que a rainha dois anos depois, declarou de novo e terminantemente que resolvera entregar a regência. Para isso reuniu cortes, mas os jesuítas tinham agora por si um habilíssimo diplomata, Lourenço Pires de Távora, que lhes era muito dedicado e à corte de Roma, todos interessados na regência de D. Henrique. 0 infante-cardeal ficou, portanto, proclamado regente em 23 de Dezembro de 1562. (V. Catarina, D.). Esta regência poderia ilustrar-se dalgum modo, se o cardeal entregasse o governo nas mãos do hábil Lourenço Pires de Távora, que tanto contribuíra para que ele a assumisse, mas D. Henrique considerava-o um censor incómodo, e longe de o querer para ministro afastou-o do reino, nomeando-o governador de Tânger. Então os jesuítas governaram o reino à sua vontade por intermédio do regente, mas ainda isso lhes pareceu incómodo, e assim que viram que o padre Luís Gonçalves da Câmara, confessor e preceptor do jovem rei alcançara certo domínio no espírito de D. Sebastião, envidaram todos os seus esforços para que fosse proclamada a maioridade, o que na verdade se realizou em 1568 tendo o rei apenas 14 anos de idade. No relatório, que o infante-cardeal apresentou a seu sobrinho neto, do que sucedera durante os seis anhos da sua regência, lia-se o seguinte, que vem publicado nas Memorias d'el-rei D. Sebastião, por Diogo Barbosa Machado, parte III, liv. I, cap. III. «Com a mais profunda veneração se receberam os decretos do Concilio Tridentino, e exactamente se praticaram nos Sínodos provinciais celebrados em Braga e Lisboa. Aumentou-se com copiosas rendas a Universidade de Coimbra, por ser a Palestra Universal, em que a ciência triunfa da ignorância, e da mesma liberalidade se usou com os quatro Colégios da Companhia, fundados em Coimbra, Braga, Évora e Lisboa, para a instrução dos engenhos, e cultura das virtudes». D. Henrique retirou-se então para o mosteiro de Alcobaça, e não se tornou a ouvir falar nele, até que em 1578 as desgraças de Alcácer Quibir de novo o apresentaram. Em 30 de Novembro de 1566 fundou o seminário de Santa Catarina, e nesse mesmo ano celebrou o concílio provincial. Mandou executar na diocese de Lisboa todos os decretos do Concílio Tridentino que tratam da reforma dos costumes. Obteve um jubileu anual para os que se confessassem e comungassem nas quatro festas principais do reino, o que já havia conseguido para Braga, e depois para Évora. Estava tão afastado dos negócios, que D. Sebastião, nem por mera formalidade, o consultou quando se tratou daquela fatal expedição, nem lhe deixou a mais pequena parte no governo do reino quando Partiu para África. Apenas, porém, chegou a notícia do desastre, os governadores do reino mandaram logo a Alcobaça avisar o cardeal, que era o único sucessor do trono. D. Henrique saiu de Alcobaça a 13 de Agosto e chegou a Lisboa no dia 16. Agitado por ambições senis, sentia grande desejo de cingir a coroa, mas como não havia notícia oficial da morte de D. Sebastião, reuniu uma comissão encarregada de deliberar sobre o que se deveria fazer. A comissão deliberou que D. Henrique governasse o reino como curador, enquanto não houvesse notícia segura da morte de D. Sebastião. A 24 de Agosto assumiu efectivamente essas funções, mas logo no dia 29 cingiu a coroa, por ter chegado de África uma carta de Belchior do Amaral, prisioneiro dos mouros, que declarava ter visto e reconhecido o cadáver de D. Sebastião. 0 povo assistiu com tristeza à coroação, mas aplaudiu os primeiros actos do soberano, que puniu Pedro de Alcáçova, tomando por pretexto o imputar-lhe o conselho da expedição de África, mas na realidade para satisfazer vinganças populares, e que, abolindo algumas medidas fiscais vexatórias que D. Sebastião tomara para arranjar dinheiro e ordenando que pudessem ser de novo confiscados os bens dos judeus condenados pelo Santo Ofício, satisfazia ao mesmo tempo os interesses e as paixões fanáticas do povo. Todos percebiam, que o reinado de D. Henrique não podia ser duradouro, seria apenas um intervalo entre o drama de Alcácer Quibir e a sucessão do reino, novo drama ainda mais terrível, porque não se podia esperar que vivesse muito tempo, por ser já velho, doente, e além disso pelo seu estado eclesiástico, não podia ter herdeiros directos ao trono. Filipe II de Espanha era um dos pretendentes, por ser neto de el-rei D. Manuel, por sua mãe, a infanta D. Isabel, e portanto sobrinho do cardeal. No nosso artigo sobre Filipe II de Espanha e I de Portugal, vol. III do Portugal, a pág. 489 e seguintes, vêm largamente descritas as providências que este monarca tomou para alcançar a posse de Portugal, e os nomes dos outros pretendentes ao trono, um dos quais era D. António, prior do Crato (V. António, D.). As intrigas aglomeravam-se. Para dispor as coisas a seu modo, Filipe II mandou a Portugal o duque de Ossuna, Pedro Girão e Cristóvão de Moura, fidalgos aparentados com a primeira nobreza de Portugal. Esses fidalgos indicaram ao cardeal rei como sucessor da coroa o monarca espanhol, mas D. Henrique parecia inclinar-se mais ao duque de Bragança. Ossuna chamou os jesuítas em seu auxílio; o povo inquietava-se. 0 senado da câmara de Lisboa, no intuito de assegurar a sucessão, lembrou que melhor seria que o cardeal se casasse, pedindo-se a indispensável dispensa do papa. D. Henrique recusou este alvitre, mas como o povo insistisse resolveu-se a aceder. Propuseram-lhe então uns a viúva de Carlos IX, de França, Isabel, segunda filha do imperador Maximiliano II, e outros a filha mais velha do duque de Bragança, Maria, que não tinha ainda 14 anos, por quem afinal D. Henrique se decidiu. 0 monarca mandou pedir ao papa Gregório XIII que lhe concedesse a dispensa, e escreveu ao cardeal Carlos Borromeu para lhe advogar a pretensão. Em Espanha logo se soube esta resolução, e Filipe 11 expediu ordens aos seus delegados em Roma para que a dispenso fosse recusada, o que mais irritou D. Henrique. A situação era deveras difícil, porque os sofrimentos do cardeal se agravavam; era tal o seu estado de fraqueza, que se alimentava com leite de mulher, servindo-lhe de ama até à morte, Maria da Mota, de nobre geração, casada com Rui Fernandes Cota. 0 povo, vendo o rei em tão iminente perigo de morte, insistia para que fosse nomeado um sucessor. D. Henrique convocou então as cortes em Lisboa, em Abril de 1579, e obtendo que nele delegassem perfeitamente o direito de escolher sucessor, convidou todos os pretendentes ao trono para exporem o que entendessem a bem dos seus direitos. Depois de longas e complicadas controvérsias em que Espanha se salientou, procurando por todos os modos colocar-se em primeiro lugar, o cardeal, que nada havia deliberado convocou de novo as cortes para Almeirim, em Outubro do mesmo ano. Nessa assembleia, onde se ergueu, vibrante de patriotismo a voz de Febo Moniz, foram proclamados os nomes dos 5 homens que tinham de governar o reino por morte do cardeal: D. Jorge de Almeida, arcebispo de Lisboa; Francisco de Sá, camareiro mor do reino; João Telles, João Mascarenhas e Diogo Lopes de Sousa, presidente do tribunal de justiça de Lisboa. Começava o ano fatal de 1580; a peste e a fome assolaram Portugal. Mais de 25.000 pessoas morreram desta epidemia. O rei e a corte foram para Almeirim, e foi ali que a 9 de Janeiro se realizou nova sessão de cortes, sendo o cardeal rei conduzido à sala numa cadeira. D. Henrique lassou os últimos dias muito atormentados. Estava moribundo D. António, prior do Crato, que ele expulsara do reino, achava-se em Almeirim; D. Catarina, mulher do duque de Bragança, cuja causa ele abandonara, vira junto do seu leito queixar-se e lançar-lhe em rosto a sua fraqueza; D. Cristóvão de Moura ameaçava-o com as iras do seu amo, que reunia ostensivamente o seu exército nas fronteiras de Portugal; o povo tumultuava em torno do paço, gritando que Portugal, com a morte do rei, perdia a sua independência. Perseguido pelos remorsos, revolvendo se com amargura no leito de espinhos que ele mesmo preparara, D. Henrique entregou a administração do reino aos 5 governadores nomeados. Pouco tempo sobreviveu. A sua morte não foi lamentada por ninguém. Quis a fatalidade que na ocasião mais critica da vida de Portugal, fosse chamado a reger os destinos do país um homem, sempre incapaz de reinar, e ainda muito mais incapaz, por estar à beira do túmulo. Assim acabava a dinastia de Avis, tão brilhantemente começada por el-rei D. João I. D. Henrique conhecia perfeitamente o grego, o hebraico e o latim. Escreveu: Meditações e homilias sobre alguns mysterios da vida de nosso Redemptor, e sobre alguns logares do Santo Evangelho, que fez o Serenissimo e Reverendissimo Cardeal Infante D. Henrique por sua particular devoção, Lisboa, 1574. Saíram as Meditações com licença do seu autor, por diligência de Frei Luís de Granada, como este declara na sua Carta proemial al lector. Os jesuítas do colégio de Évora fizeram depois uma edição em latim, que se publicou em 1576, e em 1581.

Filipe I - O Prodente - 18º Rei de Portugal - Reinou 18 anos


Vencidos os portugueses na Batalha de Alcântara; Filipe II de Espanha (1º de Portugal) veio a Portugal e convocou as Cortes de Tomar, em 1581, onde foi aclamado rei de Portugal. Nessas cortes, afim de atrair a simpatia dos portugueses, jurou governar o Reino segundo os seus usos e costumes tradicionais: - Que todas as leis, direitos, regalias e liberdades, seriam assegurados; - Que para os lugares públicos e de confiança do Reino, só seriam nomeados portugueses da nascimento; - Que a língua do Reino continuaria a ser a portuguesa; - Que o nosso império colonial seria respeitado; - Etc. Mas, se bem prometeu, infelizmente, a tudo faltou. D. António, Prior do Crato, encontrava-se na Ilha Terceira, que não aceitara o jugo espanhol, auxiliado por algumas centenas de soldados franceses e ingleses que ali conseguira juntar, procurava fazer valer os seus direitos ao trono. Porém, uma esquadra organizada por D. Filipe Iº, derrotou a de D. António na batalha naval de Vila Franca, junto da ilha de São Miguel, nos Açores, em 1582. Mais tarde, pedindo socorro à Inglaterra, que lho concedeu, ainda voltou a Portugal para sublevar o País, mas sem resultado prático, pois foi de novo repelido, em 1589: Depois disto retirou-se finalmente para França, onde morreu em 1595. Filipe lº, para se vingar de algumas afrontas recebidas da Inglaterra, tomou a resolução de invadir este país. Para isso reuniu uma poderosa esquadra, chamada a Armada Invencível, da qual faziam parte os melhores navios portugueses. Devido a uma tempestade, quase todos os navios naufragaram e os restantes foram desfeitos por uma armada inglesa, em 1588. O povo português não concebia a ideia do desaparecimento de D. Sebastião na Batalha de Alcácer-Quibir. Julgava-o ainda vivo. Aproveitando esta crença popular, apareceram neste reinado quatro aventureiros que tentaram fazer-se passar por D. Sebastião (o rei Desejado). Descoberto o logro, foram condenados à morte. Os restos mortais de Filipe lº encontram-se no : Escurial (Espanha). Filipe Iº de Portugal (IIº de Espanha) "O Prudente". Nasceu em Valladolid em 1527, faleceu no Escurial a 13 de Setembro de 1598. Era filho de Carlos V, imperador da Alemanha, e da imperatriz D. Isabel, filha de el-rei D. Manuel, de Portugal. Casou em 15 de Novembro de 1543, contando 16 anos de idade, com a infanta D. Maria, que também contava a mesma idade, filha de D. João III e da rainha D.: Catarina, a qual faleceu dois anos depois, a 12 de Julho de 1545. Ficando viúvo aos 18 anos, Filipe assim se conservou até 1551, em que casou com Maria Tudor, rainha de Inglaterra, e foi residir em Londres, mas tornou-se tão pouco simpático aos ingleses, que estes, com o maior prazer o viram partir em 1555 para os Países Baixos, cujo governo Carlos V lhe cedeu, como anteriormente lhe cedera, um ano antes, o governo de Nápoles e da Sicília, e como lhe cedeu mais tarde, em 1556, a coroa de Espanha, quando completamente abdicou para se recolher no mosteiro de S. Justo. Filipe enviuvou também da rainha de Inglaterra, falecida em 1558, e tornou a casar, pela terceira vez, com a princesa de França, Isabel de Valois, filha de Henrique II. Não seguiremos a vida deste monarca, senão depois de se ter apoderado de Portugal em 1530. Depois da morte de el-rei D. Sebastião na funesta batalha de Alcácer Quibir, Filipe pensou na posse do trono português, com as maiores esperanças, por ver aclamado o cardeal D. Henrique, velho decrépito, de quem não se podia recear sucessão. Era, porém, preciso antes da sua morte, assegurar a posse do trono, e para isso empenhou, todos os meios, intrigas e. dinheiro para ganhar ao seu partido a corte de Portugal, conseguindo assim. chamar para seu lado muitos fidalgos portugueses. Os pretendentes, que eram sete, disputavam entre si a posse do. reino, mas; desses sete, contavam-se cinco que baseavam as suas pretensões em fundamentos aceitáveis. Estes cinco eram: Filipe do Espanha, que alegava ser filho de D. Isabel, filha primogénita de D. Manuel, que casara com Carlos V; o duque de Sabóia dizia ser filho da infanta D. Beatriz, filha do referido monarca, que casara com seu pai o duque de Sabóia; D. António, prior: do Crato, alegava ser filho natural do infante D. Luís, igualmente filho de el-rei D. Manuel; o duque de Parma, o ser neto, por sua mãe, do príncipe D. Duarte, filho também de D. Manuel; e a duquesa de Bragança, D. Catarina, alegava ser filha do mesmo príncipe. Os dois, que menos direito mostravam, eram Catarina de Medicis, rainha de França, dizendo-se descendente de D. Afonso III e de sua primeira mulher, a condessa Matilde de Bolonha, e finalmente o papa, que se dizia herdeiro natural dos cardeais, e entendia portanto dever usufruir o reino que um cardeal governava como podia usufruir uma quinta de que fora possuidor. Os cinco primeiros é que apresentavam títulos valiosos, e entre esses só três disputavam seriamente entre si a coroa: Filipe, D. António, prior do Crato, e a duquesa de Bragança. Cem a morte do cardeal D. Henrique ainda mais se acendeu a intriga. Cristóvão de Moura, o português renegado que estava sendo em Portugal o agente infernal do rei de Espanha, conhecido pelo demónio do meio-dia, enleava tudo nas redes da sua diplomacia corruptora, espalhando ouro castelhano, com que comprava as consciências que quisessem vender-se: Filipe II, em Espanha, seguia com ansiedade a marcha dos acontecimentos, e de lá dirigia os planos e auxiliava a politica do seu emissário. O reino ficara, entregue a cinco governadores vendidos a Cristóvão de Moura, os quais, receando do povo que se agitava; hesitavam em reconhecer Filipe como rei de Portugal. Vendo isto, o monarca castelhano dispôs-se a conquistar o reino pela força das armas, empresa fácil, porque os governadores das praças já eram, na maior parte, criaturas de Cristóvão de Moura. D. António, prior do Crato, fizera-se aclamar em Santarém, mas dispunha de poucas tropas. Apesar disso, Filipe reuniu um poderoso exército, cujo comando confiou ao general duque de Alba; confiou ao marquês de Santa Cruz o comando duma esquadra, e conservou-se próximo da fronteira de Badajoz. O duque de Alba marchou sobre Setúbal; conquistando facilmente o Alentejo, atravessou para Cascais na esquadra do marquês de Santa Cruz, marchou sobre Lisboa, derrotou o prior do Crato na batalha de Alcântara, a 4 de Agosto de 1580, perseguiu-o até à província do Minho, e preparou enfim o reino para receber a visita do seu novo soberano. (V. Antonio, D.). Filipe, em 9 de Dezembro, atravessou a fronteira, entrou em Elvas, onde se demorou dois meses recebendo nesta sua visita os cumprimentos dos novos súbditos, sendo um dos primeiros que o veio saudar o duque de Bragança. A 23 de Fevereiro de 1581 saiu de Elvas, atravessou triunfante e demoradamente todo o país, e a 16 de Março entrou em Tomar, para onde convocara cortes, e ali distribuiu as primeiras recompensas, e ordenou os primeiros suplícios e confiscos, e recebeu a noticia de que todas as colónias portuguesas haviam reconhecido a sua soberania, exceptuando a ilha Terceira, onde se arvorara a bandeira do prior do Crato, que fora ali ,jurado rei de Portugal a 16 de Abril de 1581. Nessas cortes prometeu Filipe II respeitar os foros e as isenções de Portugal, e nunca lhe dar para governador senão um português ou um membro da família real. Entendendo que devia demorar-se algum tempo no território português, expediu de Lisboa as tropas que subjugaram, depois de porfiada luta, a resistência da ilha Terceira, em que D. António fora auxiliado pela França, e só partiu para Espanha, quando a vitória naval de Vila Franca, em que o marquês de Santa Cruz destroçou a esquadra francesa em 26 de Julho de 1582, lhe garantiu a definitiva submissão da referida ilha. Nomeando para vice-rei de Portugal seu sobrinho, o cardeal arquiduque Alberto, e depois lhe ter agregado um conselho de governo, e de ter nomeado os membros do conselho de Portugal, que devia funcionar em Madrid, partiu finalmente a 11 de Fevereiro de 1583 para Espanha. A 29 de Agosto conquistava o marquês de Santa Cruz a ilha Terceira. A nova monarquia hispano lusitana era opulentíssima; abrangia na Europa toda a península ibérica, Nápoles, Sicília, Milão, Sardenha e Bélgica actual; na Ásia as feitorias portuguesas da Índia, da Pérsia, da China, da Indochina, e a da Arábia; na África: Angola, Moçambique, Madeira. Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe, Canárias, toda a América menos algumas das Antilhas, parte dos actuais Estados Unidos e o Canadá, e urnas porções de terrenos na Guiana; na Oceânia tudo o que então havia conhecido e pertencente aos europeus. Nenhuma outra nação ali fora ainda assentar domínio. As Molucas eram a parte mais importante dessas possessões. A Europa principiou a assustar-se com este poderio colossal, receosa de que por este caminho Filipe chegasse a realizar o sonho ambicioso de monarquia universal. Sucederam se então importantes acontecimentos políticos, em que a Inglaterra aproveitou para se vingar de Filipe, de quem se considerava ofendida. As coisas complicaram-se gravemente porque Isabel, de Inglaterra, mostrou-se disposta a auxiliar as pretensões do prior do Crato, e o almirante Drake, por ordem superior, invadiu as colónias espanholas, que eram também as portuguesas, saqueando Cabo Verde, tomando o castelo do Cabo de S. Vicente, e apresando quantos galeões americanos cruzavam nos mares dos Açores. Foi então que Filipe organizou a célebre Armada Invencível, comandada pelo duque de Medina Sidónia, que uma tempestade aniquilou por completo, em Junho de 1588. (V. Armada Invencível). As ambições de Filipe II foram profundamente ruinosas para as nossas colónias. Em 1589 fechara aos ingleses os Portos portugueses e em 1591 fechou-os também aos holandeses Daí resultou que não podendo nem uns nem outros vir buscar a Portugal os géneros do Oriente, lembraram-se de ir à, fonte desse comércio. Os holandeses começaram a aparecer no seu tempo no Oriente, onde a nossa decadência era sensível, e onde depois da perda da nossa independência só dois capitães ilustres, D. Paulo de Lima Pereira e André Furtado de Mendonça, tinham mantido nobremente a honra da bandeira portuguesa. Os ingleses salteavam as nossas possessões mais próximas, Cabo Verde e os Açores, mas não tardariam também a aparecer no Oriente favorecendo a natural reacção dos indígenas contra o nosso domínio. Em Portugal houve duas tentativas de revolta, promovidas pela aparição de dois homens em quem o povo julgou ver D. Sebastião, e que por isso tiveram a denominação de rei de Penamacor e de rei da Ericeira. O motim promovido por este último tomou proporções gravíssimas, e foi reprimido dum modo sanguinário e violentíssimo. Filipe II, apesar da destruição da Armada Invencível, não desistiu das suas expedições contra a Inglaterra, e ainda em 1596 enviou urna à Irlanda que também os temporais dispersaram, perdendo a Espanha neste desastre 40 navios. Filipe enviuvou pela terceira vez, e casou novamente com uma segunda prima, Ana de Áustria, que faleceu em 1580, quando estava com seu marido em Badajoz, seguindo o progresso das armas castelhanas em Portugal, deixando-o pela quarta vez viúvo. Filipe II teve uma série de primeiros-ministros notáveis: o duque de Alba, que morreu em Lisboa dois anos depois da conquista; o príncipe de Eboli que morreu muito antes do rei; António Peres, que lhe sobreviveu, mas que ele perseguiu implacavelmente; o cardeal de Granville, que depois de ter perdido todo o valimento, o recuperou e foi chamado de Nápoles para ficar como regente do reino em Madrid, enquanto o rei vinha a Portugal; e Cristóvão de Moura, que foi o valido da última hora, o que recebeu o seu derradeiro suspiro e as suas derradeiras confidencias. Pouco tempo antes de morrer, o cardeal-arquiduque Alberto, vice-rei de Portugal, fora nomeado soberano de Flandres, e para o substituir em Portugal nomeou um conselho composto do arcebispo de Lisboa, dos condes de Portalegre, de Sabugal e de Santa Cruz, e de Miguel de Moura. Foi este o último acto importante do seu reinado. Com a Universidade de Coimbra deu-se o seguinte facto, logo no começo do reinado de Filipe. Em Fevereiro de 1580, pouco depois da morte do cardeal rei D. Henrique, apresentou-se ao claustro da Universidade o Dr. João Nogueira, com uma provisão dos governadores do reino, na qual permitiam a todos os lentes, que não fossem desembargadores, dar o seu parecer dentro de oito dias, sobre a sucessão do trono. Quis, porém, a má estrela da Universidade, que D. António, prior do Crato, lhe escrevesse uma carta, datada de Santarém aos 20 de Junho do mesmo ano, dando conta de ter sido aclamado rei em diversos lugares do reino. A Universidade resolveu em claustro que se fizesse uma procissão, em acção de graças, desde a sua capela até Santa Cruz; e no mesmo claustro foram eleitos, para irem dar obediência ao nosso rei, reconhece-lo como tal e fazer-lhe a entrega da protectoria, o reitor Fernão Moniz Mascarenhas e Fr. Luís Sotto-mayor. Em 13 de Dezembro voltou o reitor, disse em claustro que era desnecessário dar conta do desempenho da sua missão, pois de todos era já sabido que o rei de Castela estava reconhecido como rei de Portugal. Em vista desta declaração deliberou-se que o próprio reitor, encarregado havia pouco de cumprimenta o prior do Crato, fosse agora com os lentes da sua escolha, dar obediência a Filipe I. Este acto cerimonial realizou-se em Elvas a 20 de Dezembro de 1580, sendo a Universidade representada por D. Jorge de Ataíde e D. Afonso Castelo Branco. Tornou-se a fazer outra procissão solene, quando o reitor, em voltando, trouxe carta de el-rei, datada de Elvas a 25 de Fevereiro de 1581, na qual significava o contentamento que sentira pela obediência da Universidade, e com o ser declarado seu protector. Mas Filipe não era homem que deixasse sem castigos os sentimentos que a Universidade manifestara ao prior do Crato. Pedro de Alpoim, colegial de S. Pedro e lente do Código, foi degolado em Lisboa; Fr. Luís de Sotto-mayor privado da cadeira grande de Escritura; Fr. Agostinho da Trindade, da de Escoto; Fr. Luís foi depois restituído, mas Fr. Agostinho ausentou-se para França, e foi lente de Teologia na Universidade de Tolosa; João Rodrigues de Vasconcelos, que trouxera a carta do prior do Crato, foi preso e morreu na prisão. Outro facto é também digno de narrar-se; pela provisão de 9 de Março de 1583 foi Manuel de Quadros nomeado visitador e reformador da Universidade; tomou posse do cargo e prestou, juramento a 21 de Março do mesmo ano. O visitador vinha encarregado de construir escolas para a Universidade, mas os seus esforços estacaram afinal pela falta de dinheiro. A Universidade pediu a Filipe I que lhe cedesse os paços reais para neles se assentarem as escolas, que lá estavam havia já 40 anos. O rei respondeu, em 30 de Setembro do referido ano de 1583, que, embora desejasse fazer muitas mercês à Universidade, não era conveniente a seu serviço dar-lhe os seus paços, que aliás, em sendo desocupados pela Universidade, tencionava mandar concertar, para poder em algum tempo ir a eles, como desejava. Filipe nunca realizou o desejo que disse ter de ir aos paços de Coimbra. Anos depois, em 1597, o mesmo monarca vendeu à Universidade esses mesmos paços por 30 mil cruzados. Neste sentido foi expedido um alvará em 17 de Maio de 1597, e se fez a carta de venda, em nome de el-rei, a 16 de Setembro do mesmo ano. No reinado de Filipe I recebeu a Universidade estatutos por duas vezes, uma em 1592, sendo trazidos de Madrid pelo Dr. António Vaz Cabaço, resultantes da reformação operada por Manuel de Quadros; outra, os novos estatutos confirmados em 8 de Junho de 1597, e trazidos de Madrid pelo Dr. Rui Lopes da Veiga. Filipe I, o rei ambicioso e desumano, que todos esmagava com o seu feroz despotismo, faleceu coberto de vermes e de úlceras, depois dum doloroso. e demorado sofrimento.

Felipe II - O Pio- 19º Rei de Portugal- Reinou 23 anos


A governação espanhola ia-se tornando cada vez mais prejudicial para Portugal. Os nossos interesses foram desprezados e as nossas colónias corriam grave ameaça, pois estavam sendo atacadas e assoladas por ingleses e holandeses, inimigos da Espanha; - Cresciam os impostos sobre o povo – eram enormes os sacrifícios de toda a ordem exigidos aos portugueses. O mau-estar aumentava no Reino. Filipe II, na esperança de poder abrandar as iras justificadas dos bons portugueses, ordenou em 1603 a impressão de leis – Ordenações Filipinas – e fundou o Tribunal da Relação do Porto. Neste reinado, o primeiro governador de Portugal, foi o português traidor, Cristóvão de Moura. Os restos mortais de Filipe II encontram-se no Escurial (Espanha). Filipe II de Portugal (III de Espanha) - "O Pio". Nasceu em Madrid em 1578, onde também faleceu em 31 de Março de 1621. Era filho de Filipe II, e de sua quarta mulher, D. Ana de Áustria. Subiu ao trono em 1598, contando 20 anos de idade. Tinha um carácter fraco, apático e irresoluto, e foi completamente dominado pelo seu ministro duque de Lerma, D. Cristóvão de Moura, que fora elevado a marquês de Castelo Rodrigo, e nomeado vice-rei de Portugal, o que muito indignou os portugueses, apesar da sua administração ser das mais hábeis, segundo consta. O duque de Lerma procurava um pouco favorecer Portugal e cimentar a união dos dois reinos da península, adoptando medidas de grande importância. Assim tratou tanto quanto possível do desenvolvimento da marinha, aboliu os Portos secos, as alfândegas, abriu os Portos de Portugal ao comércio inglês, e por algum tempo também os teve abertos ao comércio holandês, mas essa ultima medida pouco tempo durou, o que prejudicou muito Portugal. Em 1609, vendo que não podia lutar por mais tempo com os estados da Holanda, assinou com eles uma trégua de doze anos, mas tão ineptamente procedeu o marquês de Castelo Rodrigo que, assinando a trégua na Europa, deixou que continuassem as hostilidades nas colonial, onde mais prejudiciais eram ao país. Por essa mesma época publicou Filipe III um edito expulsando definitivamente de Espanha os descendentes dos mouros. Depois da conquista de Granada por Fernando o Católico, esses moiros tinham sido forçados a abraçar o Cristianismo, formavam uma massa de população submissa, industriosa, cultivando admiravelmente a terra e enriquecendo o Estado, mas o fanatismo espanhol não lhes perdoava a sua origem. A sua expulsão foi uma grande fatalidade para a península, que perdeu perto de um milhão doa seus habitantes mais industriosos, e arruinou a sua agricultura e a sua indústria. Desses desgraçados, os que se recusavam a abandonar a pátria, eram perseguidos como feras e assassinados, ficando somente as crianças de menos de 7 anos, que se venderam como escravas, depois de se baptizarem. Esta expulsão dos moiros não foi movida só pelo fanatismo, porque Filipe III tratava ao mesmo tempo com os judeus de Portugal para os proteger contra os rigores da Inquisição, a troco dum subsídio importante. Ao marquês de Castelo Rodrigo sucedera no governo de Portugal o bispo de Coimbra, a este o bispo de Leiria, voltara depois ao marquês, novamente ao bispo de Leiria, ao arcebispo de Braga, ao arcebispo de Lisboa, e finalmente ao marquês de Alenquer, espanhol de origem, e que por conseguinte estava completamente fora das condições estipuladas pelas cortes de Tomar. O descontentamento dos portugueses era geral, e Filipe III, que não o ignorava, empreendeu uma viagem a Portugal, resolução que muito aplaudiu o novo ministro e valido, o duque de Uzeda, filho do duque de Lerma, que descaíra do valimento real, e se havia afastado da corte. A viagem realizou-se em 1619. Dela ficou a interessantíssima narrativa ilustrada de João Baptista Lavanha, e que, embora impressa em Madrid, o foi à custa da cidade de Lisboa. O soberano foi acolhido por toda a parte com o maior entusiasmo, as câmaras e as corporações portuguesas gastaram enormes somas para uma pomposa recepção, esperando grandes proveitos desta viagem, imaginando que o soberano daria providencias contra os danos de que todos se queixavam das arbitrariedades dos governadores. Filipe III, porém, nada fez, nem sequer soube cativar simpatias. Insinuou-se-lhe que fizesse de Lisboa a capital da vasta monarquia espanhola, e Filipe nem se dignou responder; os fidalgos e os jurisconsultos queixaram-se de que nem recebiam mercês, nem eram empregados nos tribunais, nas embaixadas, nas universidades espanholas, e Filipe não fez o mínimo caso destas reclamações. O duque de Uzeda, muito menos hábil que seu pai tratou com aspereza o duque de Bragança, que viera também prestar homenagem à majestade castelhana. Depois de estar alguns mexes em Lisboa, sem fazer mais do que causar grandes despesas aos seus súbditos portugueses, Filipe retirou-se em Outubro do referido ano de 1619, deixando Portugal descontentíssimo, agravando-se ainda mais esse descontentamento, depois da sua saída, com a recondução do marquês de Alenquer no cargo de vice-rei de Portugal. Na Índia, contudo, mantinha-se o nosso domínio, ainda que, a muito custo; os holandeses já tinham tentado tomar-nos as Molucas, Malaca e Moçambique, mas batidos por André Furtado de Mendonça e Estêvão de Ataíde, haviam desistido dessa empresa. Na América também os holandeses ainda não tinham atacado as nossas colónias. Filipe III casou com D. Margarida de Áustria, filha do arquiduque Carlos, no dia 18 de Abril de 1599. Ao sair de Portugal Filipe adoeceu gravemente em Covarrubias, e nunca mais se restabeleceu, falecendo pouco mais dum anuo depois. Diz-se que a sua morte foi devida ao rigor de etiqueta, porque sentindo-se muito incomodado com o calor dum braseiro, teve de o suportar enquanto não apareceu o fidalgo, que pela sua hierarquia, segundo as praxes palacianas, era encarregado de o fazer remover para outro lugar. No Panorama, vol. II da 2.ª série, 1843, a pág. 218, 238 e 253, vem uma narrativa intitulada O Brazeiro, em que se descreve este facto. No seu reinado publicou-se a reforma das Ordenações do reino, que Filipe II tratou logo no começo do seu reinado; apesar de já estar concluída em 1597, só veio a publicar-se em 1603. São as conhecidas ordenações denominadas Filipinas, e que na ordem dos tempos foram precedidas pelas intituladas Afonsinas e Manuelinas.

Filipe III - O Grande - 20º rei de Portugal Reinou 19 anos


Este rei, que a história cognominou de “Grande”, mas que para os portugueses foi o “Opressor”, fez quanto pôde no sentido de acabar com a poucas regalias com que os portugueses ainda usufruíam. A sua política traduzia-se nisto: - Reduzir Portugal a uma simples província espanhola, e esse plano estava sendo executado pelo seu primeiro ministro, o conde-duque de Olivares; - Os portugueses era obrigados a servir nas guerras em que a Espanha andava envolvida com outras nações; - Os impostos continuavam a aumentar; - A Indústria e a agricultura foram desprezadas. Enfim: era a nossa completa ruína. Para que a desgraça fosse completa, os holandeses, franceses e ingleses iam-nos desapossando de grande parte do domínio ultramarino. Assim, perdíamos: No Brasil: Bahia, Pernambuco e Recife; Na África: Arzila, Angola, São Tomé, e São Jorge da Mina; No Oriente: Ormuz, Mombaça, as Molucas, etc. Este estado de coisas ia preparando a revolta na alma dos portugueses. A tentativa mais importante manifestou-se em Évora em 1637 (Revolta de Évora – ou do Manuelinho) que foi sufocada violentamente. Todavia, a semente da revolução, então lançada por esse punhado de patriotas, havia de germinar muito em breve. Portugal queria voltar a ser livre.

D. João IV - O Restaurador - 21º Rei de Portugal Reinou 16 anos

Em Janeiro de 1641, reuniram-se as cortes em Lisboa para confirmar a proclamação de D. João IV. Nelas foram também aprovadas todas as convenientes medidas de segurança e defesa do Reino, pois já se contava com a guerra com a Espanha ia declarar a Portugal. Foram, em seguida, enviados embaixadores a várias nações, com as quais se realizavam tratados de aliança e que começaram a reconhecer a nossa independência. Aclamação de D. João IV Aclamação de D. João IV Primeiro, mandaram-se enviados à Catalunha, que redobrou de esforços na luta sustentada contra os espanhóis e impediu numerosas forças de marcharem sobre Portugal. Depois, despacharam-se embaixadores para França, Holanda, Inglaterra e outros países. A França aceita auxiliar-nos por terra e por mar, embora nunca tenha cumprido a promessa. A Holanda promete socorro naval, permite o recrutamento de soldados e oficiais, prontifica-se a mandar-nos alimentos e munições. A Suécia envia-nos oito navios de guerra e muito material bélico. A Inglaterra fornece-nos armas e dá licença para alistarmos soldados e oficiais ingleses. Na Dinamarca, os nossos embaixadores são recebidos, com todas as atenções, mas não se assina qualquer tratado, em virtude do respectivo monarca estar, nesse momento, a negociar a paz, como medianeiro entre os Estados protestantes e o imperador da Alemanha. Quanto à Santa Sé, junto da qual a Espanha dispunha de grande influência, a questão foi difícil e morosa. O nosso primeiro embaixador, D. Miguel de Portugal, bispo de Lamego, viu-se atacado nas ruas de Roma pelos emissários de Filipe IV (de Espanha), não foi recebido pelo papa e teve que regressar a Portugal. Seguiram-se novas negociações, que se protelaram por mais de vinte anos, até que se veio a conseguir a aplanação de todas as dificuldades. Na França, na Inglaterra, na Holanda e na Itália, trabalhou, como agente secreto de D. João IV, o padre António Vieira que trouxera a Portugal a adesão do Brasil à revolução de 1640 e se tornara um dos mais fiéis servidores do monarca e do Reino. Entretanto, por influência da duquesa de Mântua, ou por alguns fidalgos se julgarem com mais direitos à Coroa do que o duque de Bragança, tentou-se uma conspiração contra a vida de D. João IV. Em 1647, no dia do Corpo de Deus, houve uma conspiração contra o rei. Domingos Leite tinha-se incumbido de matar nesse dia o rei. Mas, descobertos os seus propósitos, foi imediatamente executado. Durante este reinado voltaram ao domínio português, grande parte das possessões que havíamos perdido. Em Marrocos, retomámos Tânger; Salvador Correis de Sá e Benevides, reconquistou Angola e São Tomé aos holandeses; no Brasil, também voltaram à nossa posse Pernambuco, Bahia e Maranhão. Porém, Ceuta, Malaca e Ceilão perderam-se para sempre. Os restos mortais de D. João IV encontram-se na Igreja de São Vicente de Fora. Rainha D. Luísa de Gusmão Rainha D. Luísa de Gusmão D. João IV Vigésimo primeiro rei de Portugal, fundador da dinastia de Bragança, também conhecida por Brigantina, era filho de D. Teodoro ll, sétimo Duque de Bragança e de sua mulher, a Duquesa D. Ana de Velasco. Nasceu em Vila Viçosa em 1604. A sua juventude decorreu tranquilamente no seu magnífico domínio em Vila Viçosa (Alentejo, votada quase inteiramente aos prazeres da música e da caça. Chamado ao trono português pela Revolução de 1640, o novo rei organizou, sem perder tempo, da organização da defesa de Portugal. Depois teve de castigar uma conspiração, formada por vários fidalgos portugueses que tinham a intenção de o assassinar, e, em seguida voltar a entregar Portugal aos espanhóis. O Marquês de Vila Real, o Duque de Caminha, ( "Marinha Grande - Penedo da Saudade (**), em o Conde de Armamar e D. Agostinho Manuel, que eram com o arcebispo de Braga, os principais, expiaram o seu crime (lesa-majestade), no cadafalso e o arcebispo acabou os seus dias num cárcere. Durante o reinado de D. João lV, a guerra com a Espanha arrastou-se numa série de pequenos combates e escaramuças, com uma única excepção: a Batalha do Montijo (*) que foi para os portugueses uma brilhante vitória. No Brasil, a luta contra os holandeses, começada em 1642, terminava em 1654 com a expulsão destes. Em África, um luso-brasileiro de nome Salvador Correia de Sá, depois de libertar o Rio de Janeiro, rumou para Angola e S. Tomé e Príncipe e também de lá expulsou os holandeses. As características de D. João lV era o bom senso, a prudência e o tacto governativo; o seu principal defeito era ser egoísta. Jaz em S. Vicente de Fora (Lisboa). (*) Batalha de Montijo (Badajoz – Espanha). Célebre vitória dos portugueses, comandados por Matias de Albuquerque sobre os espanhóis, capitaneados pelo barão de Mollingen, em 26 de Maio de 1644. (**)A Lenda do Penedo da Saudade - Carlos Leite Ribeiro Recordamos que "Penedo da Saudade" existem dois: um romântico situado em Coimbra, voltado para o vale do Calhabé, e o outro em S. Pedro de Moel. É deste que vamos contar a Lenda. Contrariamente ao que possam imaginar, não vamos falar da Rainha Santa Isabel, da sua mantilha, nem das lágrimas de esposa traída pelo seu rei e senhor D. Dinis o "Lavrador", que gozava de fama (e talvez proveito) de ser uma grande sedutor. O drama de que vamos falar (lenda), respeita aos Duques de Caminha: D. Miguel Luís Meneses e de sua esposa D. Juliana. Este feliz casal vivia uma vida muito recatada no seu palácio, afastado do bulício e das intrigas da Corte e da política bem efervescente naquele ano de 1941. Mas ... Cert dia foram surpreendidos por um dos seus criados que anunciou a chegada do senhor Marquês de Vila Real, pai de D. Miguel de Meneses. D. Juliana teve logo o presságio de que algo de grave se tratava, dado que se levantou empalecida. Em vão seu esposo, D. Miguel, tentava acalmar sua amantíssima esposa. Entretanto, mandou entrar seu pai. Não obstante o desejo do Marquês falar a sós com seu filho, este insistiu para que a esposa ficasse presente. "Seja !" - concordou por fim o Marquês de Vila Real. O seu aspecto era grave o que deixou o casal ainda mais inquieto. D. Miguel quis saber da visita de seu pai: "O que se passa, senhor meu pai ?... Este encarou bem de frente o filho e retorquiu-lhe: "Senhor Duque de Caminha e meu filho, chegou a hora de el-rei D. João lV pagar a sua tirania ! A conspiração está organizada e, dela fazem parte o arcebispo-primaz, o Conde de Armamar, D.Agostinho de Vasconcelos, eu e vós !". Muito surpreendido, D. Miguel que não havia sido anteriormente consultado, tentou não fazer parte da conjura: "Não meu pai !". O velho fidalgo quase que fusilou o filho com o olhar: "E se vos der uma ordem ?... não deveis trair-nos !". D. Juliana assistia atónica e horrorizada ao diálogo trágico travado entre seu sogro e o seu marido. Cabisbaixo e bastante consternado, D. Miguel, não tendo outra alternativa, decidiu ser um dos conjurados. D. Juliana, perante a louca decisão de seu amado esposo, caiu desmaiada num canapé, onde, momentos antes partilhava as carícias do esposo que tanto amava. Gorada a conjura, feitos prisioneiros todos os conjurados, entre os quais estava o Duque de Caminha, foram encarcerados na fortaleza de S. Vicente de Belém (Torre de Belém - Lisboa). Aí, no silêncio da noite, estendido nas palhas putrefactas do cárcere, D. Miguel tomou noção da sua fraqueza em ter acedido às ordens de seu pai ! Tomou então a decisão de escrever a el-rei pedindo-lhe perdão - mas em vão. D. Juliana também implorou a el-rei o perdão para o marido - mas também sem o conseguir. D. Miguel de Meneses subiu ao cadafalso e com a morte pagou a fidelidade que o ligava a seu pai. Inocente ?... Culpado ?... a decisão fora sua ! Para o povo, ele estaria inocente e pagou pelo crime do pai. Refugiada em S. Pedro de Moel, a Duquesa de Caminha, ia todos os dias chorar as suas desgraças num penedo solitário. Os soluços que se soltavam de seu peito e as suas lágrimas, misturavam-se com as ondas do mar e foram-se espalhando, qual balada trágica, por esse mundo fora. Perante tamanha dor, o povo de S. Pedro de Moel, passou a chamar àquele rochedo, o Penedo da Saudade. E assim fez-se lenda ... D. João IV Filho de D. Teodósio, duque de Bragança e de D. Ana Velasco, casou em 1633 com D. Luísa de Gusmão, espanhola da casa de Medina Sidónia. Já em 1638, os conjurados da Revolução de 1640 tinham procurado obter a aceitação de D. João para uma revolta contra Espanha. Mas as hesitações, ou cautelas, do duque fizeram levantar a hipótese de se conseguir o regresso do infante D. Duarte, solução que falhou, tendo-se mesmo encarado a instauração de uma república, nos moldes da das Províncias Unidas. A verdade é, que depois da sua aclamação como rei a 15 de Dezembro de 1640, todas as hesitações desapareceram e D. João IV fez frente às dificuldades com um vigor que muito contribuiu para a efectiva restauração da independência de Portugal. Da actividade global do seu reinado, deveremos destacar o esforço efectuado na reorganização do aparelho militar - reparação das fortalezas das linhas defensivas fronteiriças, fortalecimento das guarnições, defesa do Alentejo e Beira e obtenção de material e reforços no estrangeiro; a intensa e inteligente actividade diplomática junto das cortes da Europa, no sentido de obter apoio militar e financeiro, negociar tratados de paz ou de tréguas e conseguir o reconhecimento da Restauração; a acção desenvolvida para a reconquista do império ultramarino, no Brasil e em Africa; a alta visão na escolha dos colaboradores; enfim, o trabalho feito no campo administrativo e legislativo, procurando impor a presença da dinastia nova. Quando morreu, o reino não estava ainda em segurança absoluta, mas D. João IV tinha-lhe construído umas bases suficientemente sólidas para vencer a crise. Sucedeu-lhe D. Afonso VI, seu segundo filho. Ficha genealógica: D. João IV nasceu em Vila Viçosa, a 19 de Março de 1604 e morreu em Lisboa, a 6 de Dezembro de 1656, tendo sido sepultado no Mosteiro de S. Vicente de Fora. Era filho de D. Teodósio II, 7 ° duque de Bragança, e de sua mulher, D. Ana de Velasco. Do seu casamento, celebrado em 12 de Janeiro de 1633, com D. Luísa Francisca de Gusmão, que nasceu em San Lucar de Barrameda, a 13 de Outubro de 1613, e morreu em Lisboa a 27 de Outubro de 1666, filha do 8 ° duque de Medina-Sidónia, D. Juan Manuel Pérez de Guzman, e da duquesa D. Joana de Sandoval, nasceram: 1. D. Teodósio, que nasceu em Vila Viçosa a 8 de Fevereiro de 1634 e morreu em Lisboa, a 13 de Maio de 1653. Foi 9 ° duque de Bragança e príncipe do Brasil, em 1645; 2. D. Ana, que nasceu em Vila Viçosa, a 21 de Janeiro de 1635 e morreu no mesmo dia; estando enterrada no Convento das Chagas daquela vila; 3. D. Joana, que nasceu em Vila Viçosa a 18 de Setembro de 1635 e morreu em Lisboa, a 17 de Novembro de 1653; sepultada no Mosteiro dos Jerónimos e mais tarde trasladada para o Mosteiro de S. Vicente de Fora; 4. D. Catarina, que nasceu em Vila Viçosa, a 25 de Novembro de 1638 e morreu em Lisboa, a 31 de Dezembro de 1705. Foi sepultada no Mosteiro dos Jerónimos e mais tarde trasladada para o Mosteiro de S. Vicente de Fora. Foi rainha de Inglaterra pelo seu casamento, em 1661, com o Carlos II, rei de Inglaterra, que morreu em 16 de Fevereiro de 1685; 5. D. Manuel, que nasceu em Vila Viçosa, a 6 de Setembro de 1640 e faleceu no mesmo dia, tendo sido sepultado no Convento de S. Francisco daquela vila; 6. D. Afonso VI, que herdou a coroa; 7. D. Pedro II, que sucedeu ao precedente; Teve D. João IV uma filha ilegítima, de mãe desconhecida: 8. D. Maria, que nasceu em Lisboa, a 30 de Abril de 1644, e morreu em Carnide, a 7 de Fevereiro de 1693, no Convento de S. João dos Carmelitas Descalços. Foi reconhecida pelo progenitor, o qual lhe fez mercê das vilas de Torres Vedras e Colares e dos lugares de Azinhaga e Cartaxo, tendo-se dado à vida religiosa. Fontes: Joel Serrão - Pequeno Dicionário de História de Portugal, Lisboa, Iniciativas Editoriais, 1976 Joaquim Veríssimo Serrão - História de Portugal, Volume V: A Restauração e a Monarquia Absoluta (1640-1750), Lisboa, Verbo, 1980 Guerra da Restauração A guerra da Restauração mobilizou todos os esforços que Portugal podia despender e absorveu enormes somas de dinheiro. Pior do que isso, impediu o governo de conceder ajuda às frequentemente atacadas possessões ultramarinas. Mas, se o cerne do Império, pelo menos na Ásia, teve de ser sacrificado, salvou pelo menos a Metrópole de uma ocupação pelas forças espanholas. Portugal não dispunha de um exército moderno, as suas forças eram escassas – sobretudo na fronteira terrestre –, as suas coudelarias haviam sido extintas, os seus melhores generais lutavam pela Espanha algures na Europa. Do lado português, tudo isto explica por que motivo a guerra se limitou em geral a operações fronteiriças de pouca envergadura. Do lado espanhol, é preciso lembrar que a Guerra dos Trinta Anos (prolongada em Espanha até 1659) e a questão da Catalunha (até 1652) demoraram quaisquer ofensivas de vulto. Regra geral, a guerra, que se prolongou por 28 anos, teve os seus altos e baixos para os dois contendores até ser assinado o Tratado de Lisboa, em 13 de Fevereiro de 1668, entre Afonso VI de Portugal e Carlos II de Espanha, em que este último reconhece a independência do nosso País. Salvador Correia de Sá e Benevides Restaurador de Angola, conhecido também pelo nome de Salvador Correia de Sá e Benevides. Descendia da gloriosa família de Mem de Sá e de Estácio de Sá, os fundadores do Rio de Janeiro. N. nesta cidade em 1591; fal. em Lisboa em 1 de Janeiro de 1688. Era filho de Martim de Sá e de sua mulher D. Maria de Mendoza y Benavides. Em 1612, contando 18 anos, entrou no serviço militar, distinguindo-se nas guerras contra os índios. Pouco tempo depois começaram os holandeses a infestar as costas do Brasil, assenhoreavam-se daquela grande região, e Salvador Correia, que já então tinha perto de 30 anos, mostrou o que valia não só a sua bravura, como a sua perícia militar, começando por levar a salvamento de Pernambuco para Lisboa um comboio de 30 navios. Ao voltar desta expedição, que era arriscada porque a marinha holandesa dominava os mares, Salvador Correia alistou na capitania de S. Vicente uns 200 homens, meteu-os a bordo de duas caravelas e de três canoas de guerra, a conduziu-os à empresa da restauração da Baía, empresa importante para a qual no ano de 1624 saíra de Lisboa uma esquadra hispano portuguesa, bastante numerosa. De caminho para a Baía, desembarcou Salvador Correia na capitania do Espírito Santo, e demorando-se ali algum tempo, teve ensejo para surpreender um troço de holandeses, que também haviam saltado em terra, e que foram pelo jovem herói completamente derrotados. Seguindo para a Baía, distinguiu-se muito na conquista dessa praça, em 1 de Maio de 1625, tendo chegado poucos dias antes ao campo dos sitiadores. Em 1634, Salvador Correia, que granjeara grande reputação, foi nomeado almirante dos mares do sul. Tratava-se para os espanhóis de resolver uma questão vital para o seu domínios nas margens do rio da Prata. Ardia ali há muitos anos a rebelião que devastava principalmente a província de Tucuman, rebelião conhecida pelo nome de revolta dos Caléquis e dirigida por um hábil chefe, D. Pedro Chamay. Salvador Correia dirigiu a campanha com tanta habilidade e energia, que, tendo ganho a batalha de Pelingarta, havendo aprisionado D. Pedro Chamay, e tendo também recebido um grande numero de frechadas, porque a luta foi áspera e rude e Salvador Correia não se poupou, conseguiu restabelecer completamente a ordem nas margens dos rios da Prata a do Paraguai. Foi então nomeado capitão-general do Rio de Janeiro, dando a carta régia, que o nomeava, testemunho dos altos serviços prestados pelo agraciado à coroa de Espanha. Foi por essa ocasião também que Salvador Correia, filho de espanhola, foi procurar esposa à fidalguia dessa nação, casando com D. Catarina de Velasco. filha de D. Pedro Ramirez de Velasco, governador do Chile. Apesar destas relações tão íntimas de parentesco que o ligavam à Espanha, apesar de ter militado e comandado em terreno exclusivamente espanhol, e de não ter razão de queixa pessoal do governo de Espanha, nem por isso Salvador Correia deixava de ser essencialmente patriota e de sentir pulsar no peito um coração português. Apenas chegou ao Rio de Janeiro a notícia da revolução de 1 de Dezembro de 1640, logo sem a mínima hesitação se proclamou nessa cidade a realeza de D. João IV. Salvador Correia lutava com dificuldades muito graves, porque os jesuítas queriam executar as leis a as bulas que lhes concediam a liberdade dos índios, e os paulistas, que tinham índios como escravos, recusavam-se a libertá-los, chegando a revoltar-se abertamente contra os jesuítas, que Salvador Correia defendia e sustentava com toda a energia, porque na verdade eles defendiam nesse momento a causa da civilização e da humanidade. Salvador Correia esperava que o grande sucesso da restauração de Portugal abrandasse os ânimos dos paulistas, ou pelo menos os decidissem a mandar representantes ao Rio de Janeiro com poderes bastantes para resolverem as questões que promoviam conflito, mas os paulistas entenderam, pelo contrario, que a fidelidade de que tinham dado provas e o modo como tinham acolhido a aclamação de D. João IV, os tornava credores da gratidão do rei de Portugal, e portanto as suas pretensões deviam ser atendidas pelo capitão-mor do Rio de Janeiro. Negaram-se então a consentir em quaisquer medidas que tivessem por fim a libertação dos índios. Vendo que era indispensável ir tratar directamente com os revoltosos, Salvador Correia partiu para Santos, onde depois de largas negociações conseguiu que os paulistas elegessem 48 procuradores para tratarem do assunto, chegando enfim a um resultado, que se não resolveu inteiramente a questão, pelo menos apaziguou a capitania. O novo governo de Lisboa depositava nele plena confiança, e nomeou-o sucessivamente em 1644 general da frota que devia escoltar os navios do comércio brasileiro ameaçados nos mares da América pelos holandeses, nos da Europa pelos espanhóis, delegado do conselho ultramarino, e dando-lhe finalmente amplos poderes para explorar as minas, cuja existência e riqueza no vasto território que estava sob a jurisdição de Salvador Correia já então se pressentiam. Bem convinha o seu descobrimento ao governo de D. João I V, que fez a Salvador Correia as mais brilhantes promessas, no caso de conseguir explorá-las com felicidade; porém este, com todo o desinteresse, delegou em outros a viagem das minas e o exercício do lugar para que fora escolhido, e aceitou a comissão mais gloriosa, menos rendosa, e mais perigosa, a de comboiar os navios mercantes que iam do Rio de Janeiro para a Europa. Fez três viagens: escoltando na primeira 37 velas. Nessa primeira viagem prestou um alto serviço à insurreição pernambucana, porque escoltou até ao porto de Tamadaré 8 navios da Baía que levavam a João Fernandes Vieira, que acabava de ganhar a batalha de Tabocas, um reforço de 800 homens ainda mais precioso por serem os chefes dos terços André Vidal de Negreiros e Martim Soares Moreno, cujas heróicas espadas não haviam de contribuir pouco para a expulsão definitiva dos holandeses de Pernambuco. Mais duas viagens fez ainda Salvador Correia até que em 1648 D. João IV o encarregou dum emprego de alta importância, porque se tratava de arrancar Angola ao poder dos holandeses. A importância de Angola era extrema, porque era dali que se fornecia o Brasil de escravos pretos indispensáveis para a cultura das suas terras. A empresa de a reconquistar era tanto mais difícil, quanto pela situação extravagante em que nos achávamos com os holandeses, nossos aliados na Europa, era indispensável que Salvador Correia encontrasse meio de tomar Angola, sem que parecesse que fora ele que tomara a ofensiva, para se não considerarem rotas as pazes com a Holanda. Salvador Correia chegou ao Rio de Janeiro, e apelando para o patriotismo e até para os interesses próprios dos homens abastados, interesse que a perda desse reino prejudicava altamente, despendendo também com liberalidade os seus próprios dinheiros, conseguiu juntar 15 navios, 4 dos quais foram comprados à sua custa, e levando neles 900 homens de desembarque, partiu no dia 12 de Maio para Angola. Nunca empresa tão importante fora intentada com tão pequenas forças. O fim aparente da expedição era edificar um forte na enseada de Quicombo, afim de estabelecer comunicações com os portugueses, que desde a perda de Angola se tinham refugiado em Massangano. Chegou a Quicombo, mas, tomando pretexto de hostilidades que os holandeses faziam aos restos da antiga guarnição portuguesa declarou que era isto uma quebra flagrante da paz, que o autorizava a pedir-lhes uma satisfação. Dirigiu-se para Luanda, tendo já perdido um navio por causa dum rombo no porão, e apenas chegou à capital da província, participou aos holandeses os motivos da sua vinda, as suas razões de queixa, declarando-lhes que, logo que eles não respeitavam a paz estabelecida, também ele se não julgava obrigado a deixar de a infringir, e portanto que exigia que eles se entregassem. Surpreendidos os holandeses com esta audácia, avaliaram em maior do que era o poder dos assaltantes, e pediram 8 dias para tomarem uma decisão. O fim evidente era reunirem as tropas que andavam pelo campo, e Salvador Correia, percebendo-o, apenas lhes concedeu dois dias. No fim do prazo marcado. desembarcou em chalupas 650 soldados e 250 marinheiros, deixando 180 nos navios com muitas figuras pelas enxárcias e pelas amuradas, para que de longe se julgasse muito mais numerosa a tripulação dos navios. Os holandeses, repelidos de todos os pontos exteriores, refugiaram-se na fortaleza do Morro de S. Miguel e no forte de Nossa Senhora da Guia, tendo abandonado tanto à pressa o fortim de Santo António, que nem tiveram tempo de encravar mais do que duas peças das oito que o fortim possuía. Aproveitou-as Salvador Correia, e juntando-as, a quatro meios canhões que mandou desembarcar, formou uma bateria que principiou a bombardear a fortaleza, causando pouco dano, mas produzindo grande terror aos holandeses, assombrados da rapidez com que a bateria se assentara. Viu, porém, Salvador Correia que seria demorado o êxito da bateria, a apertado pela necessidade de impedir que os holandeses fossem reforçados, mandou no dia seguinte, 15 de Agosto de 1648, dar assalto às duas fortalezas ocupadas pelo inimigo. A temeridade era incrível e seria indesculpável, se não fosse a situação perigosa em que Salvador Correia se via. Tinha apenas 900 homens e ia assaltar duas fortalezas, onde a artilharia quase nem tinha aberto brecha e guarnecidas por 1.200 soldados europeus e outros tantos negros. Por isso o assalto deu resultados terríveis. Depois duma escalada audaciosa em que os assaltantes foram repelidos, Salvador Correia mandou recolher as forças, e viu que perdera 163 soldados mortos e 160 feridos. Tinha por conseguinte fora do combate mais da terça parte do seu exército. Salvador Correia, sombrio mas resoluto, ia fazer uma segunda tentativa, quando com grande surpresa, viu aparecer um parlamentário, que vinha propor uma capitulação, o que Salvador Correia resolveu aceitar, receando o resultado de um novo assalto, em vista das perdas enormes que já sofrera. A capitulação foi concedida com todas as honras, facilitando-lhes logo a amnistia que eles pediram para os seus partidários, e assinada a capitulação viu-se o caso estranho de saírem rendidos de duas fortalezas, onde nem quase havia brecha, 1.100 homens e passarem, diante de menos de 600, que a essa força estava reduzida, depois do primeiro assalto, o exército sitiador. Havia já 5 dias que Salvador Correia tomara posse das fortalezas, quando apareceu na cidade, vindo do sertão um corpo de 250 homens acompanhados por mais de 2.000 negros, súbditos da rainha Ginga (V. Portugal, vol. III, pág. 737). Bem desejariam eles romper a capitulação, mas Salvador Correia tomara as suas precauções, fazendo logo embarcar em três navios a guarnição holandesa da cidade; de sorte que os recém chegados, vendo-se sós, capitularam também. Os negros da rainha Ginga é que não quiseram sujeitar-se, e arrojaram os maiores impropérios aos holandeses, por eles os desampararem. A guarnição de Benguela rendeu se a dois navios portugueses sem disparar um tiro, e a da ilha do S. Tomé, apenas soube que Luanda se rendera, partiu desamparando a ilha, deixando a artilharia e munições, de forma que os navios que Salvador Correia enviara para procurarem apoderar-se dessa nossa antiga e importante colónia, encontraram já a bandeira portuguesa arvorada nos fortes. Assim desampararam os holandeses também as suas feitorias de Benguela-a-Velha, de Leango e da Pinda, de forma que em dois meses tinham voltado ao domínio português. Angola e S. Tomé. A vitória quase miraculosa de Salvador Correia deixou de si lembrança tão viva na memória dos povos, que ainda em 1812 se celebrava em Luanda uma festa em acção de graças no dia 15 de Agosto pela vitória alcançada nesse dia por Salvador Correia. Expulsos os holandeses, tinha ainda de subjugar e punir os negros que haviam seguido o seu partido. Os principais eram os súbditos da rainha Ginga, e Salvador Correia, dispondo de poucas forças, alistou ao seu exército muitos franceses, que faziam parte da guarnição holandesa e que tinham ficado em Angola. O comando foi confiado a Bartolomeu de Vasconcelos, que facilmente subjugou os negros dissidentes, vendo-se a rainha Ginga forçada a pedir a paz, por se convencer que nada podia contra os portugueses. No entretanto Salvador Correia dava grande impulso às suas medidas administrativas, favorecendo o desenvolvimento de Luanda, onde se demorou até 1651, ano em que tornou a partir para o Rio de Janeiro, deixando por seu sucessor Rodrigo de Miranda Henriques. Por carta régia de 17 de Setembro de 1658, muito honrosa para o agraciado, fora-lhe conferido o governo das capitanias do sul do Brasil com absoluta independência do governo da Baía. Quando chegou ao Rio de Janeiro, achou a cidade em deplorável situação, com o comércio paralisado, as tropas mal pagas, e os cofres públicos exaustos. Foi preciso recorrer a novos tributos, o que descontentou o povo, sendo necessário todo o prestígio de Salvador Correia para o manter na obediência; mas quando o governador saiu da cidade para visitar a província de S. Paulo, deixando como seu substituto Tomé Correia de Alvarenga, a insurreição rebentou, reclamando os insurgentes a deposição de Salvador Correia, depondo o seu delegado Alvarenga, e elegendo para os governar Agostinho Barbalho Bezerra. Quis a câmara do Rio de Janeiro obter o auxílio dos paulistas, mas estes não só não aceitaram o convite, mas ofereceram-se a Salvador Correia para o ajudarem a subjugar os rebeldes. Preferiu este recorrer aos meios pacíficos, e chegou a declarar a Bezerra que o consideraria como governador, se se considerasse seu delegado, mas os revolucionários julgando ver nisto uma prova de fraqueza, não quiseram aceitar estas propostas pacíficas, e prepararam-se para resistir à força aberta. Pouco lhes durou, porém, esta resolução, porque, vendo-se isolados, depuseram as armas, apenas lá lhes apareceu o desembargador Pessanha, enviado da Baía para inquirir a respeito da revolta, e Salvador Correia de Sá tomou de novo posse do governo, que exerceu até ao ano de 1662, e entregando-o então ao seu sucessor, partiu para Lisboa. Como sucedeu a todos os grandes homens que tantos serviços prestaram à pátria, a intriga conseguiu feri-lo. Os seus inimigos, que não eram poucos, desde que a rainha regente D. Luísa de Gusmão criara de propósito para ele um governo independente no Rio de Janeiro, trataram de o intrigar, e de o afastar do ânimo dos ministros, apesar de ser muito favorito do conde de Castelo Melhor seu filho mais velho, Martim Correia de Sá, que o grande ministro fez em 1665 visconde de Asseca em recompensa dos muitos serviços de seu pai. Ainda assim maiores amarguras teve Salvador Correia de Sá, quando o conde de Castelo Melhor caiu do poder porque tendo-o D. Afonso VI chamado para se aconselhar com ele, isso bastou, juntamente com a privança que seu filho tivera, para o tornar odiado do infante D. Pedro, e para o tornar alvo de tantas perseguições, que chegou a ser condenado a degredo de 10 anos para essa mesma África, onde ressoava ainda o eco das suas vitórias. À custa de muito dinheiro conseguiu que o deixassem ficar num convento, e depois que o deixassem passar à sua casa em Santos, onde se conservou preso sem menagem. Foi seu filho, que fora ferido em Badajoz e que ficara gravemente enfermo, quem instou com ele para que requeresse esta última concessão, porque o heróico restaurador de Angola, profundamente ferido e desgostoso com todas estas perseguições, estava resolvido a terminar a vida num convento. A morte do visconde de Asseca, sucedida pouco depois, e a orfandade em que ficaram os netos de Salvador Correia de Sá, fizeram com que o príncipe regente pensasse que era vergonhoso, realmente, que o homem que tão altos serviços prestara ao seu país, estivesse agora quase octogenário preso como um criminoso, enquanto seus netos não tinham quem os amparasse e guiasse na estrada da vida. Deu ordem para que fosse solto, e logo em seguida voltou ao lugar que lhe pertencia de membro do Conselho Ultramarino. Consta que Salvador Correia de Sá escrevera umas Memorias da sua vida, que infelizmente se perderam. Fal. contando 91 anos de idade, conservando até aos últimos dias da sua vida e rijeza do corpo e do espírito. Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico, Volume VI, pág. 434-436. Padre António Vieira Após a Restauração da Independência em Portugal (1640), em 1641 Padre António Vieira iniciou a carreira diplomática. Em 1644 deixou Portugal como embaixador (seu pai, que antes vivera pobre, foi nomeado pensionista real) para negociar com os Países Baixos a devolução da Região Nordeste do Brasil. O povo de Portugal não gostava das pregações de Vieira em favor dos judeus. Após esses tempos conturbados da política portuguesa acabou voltando ao Brasil, onze anos após voltar para a Europa. Permaneceu na região Nordeste por algum tempo, tendo voltado para a Europa com a morte de D. João IV, tornando-se confessor da Regente, D. Luísa. Com a morte de D. Afonso IV, António Vieira não encontrou apoio, e a Inquisição vingou-se, acusando-o de heresia com base numa carta de 1659, endereçada ao bispo do Japão, na qual António Vieira expunha a sua teoria do Quinto Império, segundo a qual Portugal estaria predestinado a ser a cabeça de um grande império do futuro. Foi expulso de Lisboa, desterrado) e encarcerado no Porto e depois em Coimbra, enquanto os jesuítas perderam os seus privilégios. Em 1667 foi condenado a internamento e proibido de pregar, mas, seis meses depois, a pena foi anulada. Em 1669, desiludido com D. Pedro III partiu para o Vaticano, onde encontrou o Papa à beira da morte. Quando em 1671 uma nova expulsão dos judeus foi promovida, Vieira novamente os defendeu. Em 1675 foi absolvido totalmente pela Inquisição, e voltou para Lisboa por ordem de D. Pedro, mas afastou-se dos negócios públicos. Em 1681 voltou para o Brasil e dedicou-se à tarefa de continuar a edição completa em quinze volumes dos seus Sermões, iniciada em 1679, e à conclusão da Clavis Prophetarum. As suas obras começaram a ser publicadas na Europa, onde foram elogiadas até pela Inquisição. Já muito velho e doente, teve que espalhar circulares sobre a sua saúde para poder manter em dia a sua vasta correspondência. Em 1694 já não conseguia escrever de próprio punho. Em 10 de Junho começou a agonia quando perdeu a voz e silenciaram-se os seus discursos. Em 17 de Junho de 1697 faleceu na Bahia, com 89 anos.

D.Afonso VI - O Vitorioso - 22º Rei de Portugal Reinou 11 anos

A D. João IV, por ter falecido o príncipe herdeiro D. Teodósio, sucedeu o seu segundo filho, D. Afonso VI, que à data, contava apenas treze anos. Por isso, durante a menoridade, ficou regente do Reino, sua mãe, a rainha viúva D. Luísa de Gusmão, que desempenhou com o maior zelo e acerto essas funções, de 1656 a 1662. D. Afonso VI tomou conta do poder em 1662, tendo escolhido para seu primeiro ministro o grande estadista Conde de Castelo Melhor, homem activo e inteligente, a quem se deve a organização do nosso exército, que assim pode alcançar as vitórias militares na guerra contra a Espanha. A luta pela independência continuava vigorosamente, tendo-se travado diversas batalhas, sempre gloriosas para as armas portuguesas. Em 1659 (ainda na regência de D. Luísa de Gusmão), eram os espanhóis vencidos na batalha das Linhas de Elvas, por D. Sancho Manuel, Conde de Vila Flor, e D. António de Meneses, Conde de Cantanhede. Em 1663, foram igualmente derrotados em Ameixial, por D. Sancho Manuel e pelo general francês, Conde de Schomberg. Em 1664, é tomada Valência de Alcântara, e Pedro Jaques de Magalhães ganha a batalha de Castelo Rodrigo. Em 1665, dá-se a batalha de Montes Claros, em que os portugueses, comandados pelo Marquês de Mariava e Schomberg, desbarataram completamente o exército espanhol. Esta foi a última e decisiva vitória das armas portuguesas, assegurada a Restauração de Portugal. No reinado de D. Afonso VI, celebrou-se o casamento da infanta D. Catarina, filha de D. João IV, com Carlos II, rei de Inglaterra, tendo então Portugal cedido àquela nação, em troca da ajuda que ela nos prometia em caso de guerra, as fortalezas de Tânger e Bombaim. Na Índia, perdíamos também Cochim e Cananor. Com o fundamento de que D. Afonso VI era inapto, para desempenhar as suas altas funções, houve contra ele uma conspiração dirigida pelo infante D. Pedro, irmão do rei; este foi então destronado e obrigado a abdicar do governo do Reino em favor do mesmo D. Pedro, em 1667. Deposto o rei, D. Pedro tomou conta da regência. Em seguida, foi preso o já ex-rei D. Afonso VI e desterrado para o Castelo de Angra, nos Açores, onde esteve cinco anos. Transferido depois para o palácio de Sintra, ali veio a morrer, no cativeiro, em 1683. Ainda como regente, D. Pedro assinou em 1668, um tratado de paz com Carlos II, rei de Espanha, pelo qual findava a Guerra da Restauração, que durou perto de 28 anos. Seus restos mortais encontram-se na Igreja de São Vicente de Fora. Vigésimo segundo rei de Portugal, nasceu em Lisboa, em 1643. Filho de D. João lV e de D. Luísa de Gusmão. Ainda criança, foi atacado por uma grave doença que o deixou muito fraco para sempre, tanto de corpo como de espírito. Quando faleceu seu pai, tinha três anos e, até à sua maioridade exerceu a regência a rainha viúva , sua mãe. Já durante este período se manifestaram deploravelmente desvios físicos e morais do príncipe, que só se sentia bem na companhia de aventureiros devassos e da mais baixa condição social, acompanhando-os em tropelias pelas ruas de Lisboa, armando escândalos e desordens, que muitas vezes saia maltratado. Quando completou dezoito anos, como a rainha viúva hesitasse em lhe confiar o governo do reino, o príncipe, a instigações do Conde de Castelo Melhor, tirou a regência a sua mãe e assumiu o poder, logo nomeando para ministro, Castelo Melhor (*), que se revelou um estadista eminente. Às suas qualidades de organizador se deveram, em grande parte, as vitórias decisivas de Ameixial, em 1663 e dois anos depois a de Montes Claros, que asseguravam a nossa independência e valeram ao fraco D. Afonso Vl o cognome de o "VITORIOSO". Em 1666, casou D. Afonso Vl com D. Maria Francisca de Sabóia, filha dos Duques de Nemour (França). Foi uma união desastrosa, pois, a rainha não tardou em desprezar o homem a quem se ligara. Estabeleceu-se entre ela e o Conde Castelo Melhor, uma forte rivalidade política, de que resultou complicadas intrigas na Corte. O infante D. Pedro, irmão de D. Afonso Vl, tomou partido da rainha, criando-se entre ambos relações amorosas, cujo escândalo em breve se tornou público. D. Pedro, que detestava o Conde de Castelo Melhor, manobrou por forma a arrancar ao incapaz rei a demissão do único homem que o podia amparar no trono. Privado do seu ministro, D. Afonso Vl estava perdido. A rainha pretextando que o casamento não se consumara, retirou-se para um convento. Seguiu-se um processo de divórcio, que é uma das mais vergonhosas páginas da nossa História. Os acontecimentos precipitaram-se e D. Afonso Vl foi dominado pelo infante e seu irmão D. Pedro, e nenhuma resistência lhe opôs. As Cortes, convocadas em 1668, depuseram o rei, confiando a regência a seu irmão. De Roma (Vaticano) veio a anulação do casamento e autorização para que os dois cunhados pudessem casar, o que fizeram ainda nesse mesmo ano. D. Afonso Vl foi exilado para a Ilha terceira (Açores) e encarcerado no castelo de S. João Baptista. Quatro anos depois, em seguida a uma conspiração em seu favor e que se malogrou, custando a vida a alguns que haviam nela participado, o pobre rei foi transferido para o Paço Real de Sintra, onde, subitamente veio a falecer em 1683. Jaz em S. Vicente de Fora (Lisboa). (*) Conde de Castelo Melhor. Grande estadista e primeiro ministro de D. Afonso Vl. Ao seu génio organizador, se deveram as vitórias que ilustram o reinado de D. Afonso Vl. Quando o infante D. Pedro se apoderou do trono, o Conde de Castelo Melhor imigrou para Inglaterra, fixando residência em Londres, onde prestou relevantes serviços à rainha deste país, mas de origem portuguesa, D. Catarina de Bragança. Neste reinado continuou a "Guerra da Restauração" também conhecida pela Guerra dos Vinte Sete Anos. A luta pela consolidação da independência continuava muito vigorosa, tendo-se travado diversas batalhas. Em 1659 (ainda na regência de D. Luísa de Gusmão), deu-se a Batalha das Linhas de Évora, com o exército português comandado por Sancho Manuel (Conde de Vila Flor) e D. Manuel de Meneses (Conde de Cantanhede). Em 1663, a Batalha do Ameixial, com as tropas comandadas por D. Sancho Manuel e o general francês, Conde de Schomberg. Em 1664, Pedro Jaques de Magalhães, conquistou Valência de Alcântara e também ganha a Batalha de Castelo Rodrigo. No ano seguinte, na Batalha de Montes Claros, o Marquês de Marialva e Schomberg ganham esta Batalha consolidando de vez a Independência (ou Restauração) de Portugal. D. Afonso VI Sexto filho de D. João IV e de D. Luísa de Gusmão. Atacado na infância por doença não identificada, fica mental e fisicamente diminuído. Com a morte de seu irmão D. Teodósio e de seu pai, sobe ao trono com treze anos, pelo que a regência ficou entregue a sua mãe. O rei foi crescendo, rebelde a toda a acção educadora, levando uma vida desregrada e manifestando-se perfeitamente incapaz para assumir as responsabilidades do governo. Um dos seus companheiros, na vida de arruaceiro que levava, António Conti, italiano de origem, insinuou-se-lhe de tal maneira que em breve passou a viver no Paço, a convite de D. Afonso VI e a ter influência nos negócios do governo do reino. O escândalo aumentou a um ponto que D. Luísa de Gusmão fez jurar herdeiro do trono o infante D. Pedro e António Conti foi preso. Logo a seguir, o conde de Castelo Melhor executa um golpe de Estado, compelindo D. Luísa a entregar o governo a D. Afonso VI e forçando-a a retirar-se para um convento. Nas boas graças do rei, Castelo Melhor lança-se na sua curta a brilhante carreira política, terminando vitoriosamente com a guerra da Restauração e conseguindo casar D. Afonso com Mademoiselle de Aumale. Em breve a nova rainha entra em conflito com Castelo Melhor. Giza-se nova conspiração no paço, de que resulta a demissão do conde e a abdicação de D. Afonso VI. D. Pedro toma as rédeas do poder, casa com a cunhada, depois da anulação do casamento desta com D. Afonso e este último é desterrado para Angra do Heroísmo em 1669, donde regressa em 1674, sendo então encerrado no Palácio de Sintra até à sua morte. Ficha genealógica: D. Afonso VI nasceu em Lisboa, a 12 de Agosto de 1643 e morreu em Sintra, a 12 de Setembro de 1683, tendo sidosepultado no Mosteiro dos Jerónimos e trasladado para o Mosteiro de S. Vicente de Fora. Casou em 1666 com D. Maria Francisca Isabel de Sabóia, que nasceu em Paris, a 21 de Junho de 1646, e morreu em Lisboa, a 27 de Dezembro de 1683, estando sepultada na igreja do Convento das Francesinhas e trasladada em 1912, para o Mosteiro de S. Vicente de Fora, filha de Carlos Amadeu de Sabóia, duque de Nemours, e de Isabel de Vendôme. Morreu sem descendência. Fontes: Joel Serrão - Pequeno Dicionário de História de Portugal, Lisboa, Iniciativas Editoriais, 1976 Joaquim Veríssimo Serrão - História de Portugal, Volume V: A Restauração e a Monarquia Absoluta (1640-1750), Lisboa, Verbo, 1980 Luísa de Gusmão http://pt.wikipedia.org/wiki/ D. Luísa, rainha de Portugal. Luísa Francisca de Gusmão (Sanlúcar de Barrameda, 1613 — Lisboa, 6 de Novembro de 1666), pelo seu casamento com João, duque de Bragança (12 de Janeiro de 1633) veio a ser a primeira rainha de Portugal da quarta dinastia. Filha dos duques de Medina-Sidónia (os senhores mais poderosos da Andaluzia), era ambiciosa por natureza, mesmo apesar de espanhola, tendo orientado a política do marido na rebelião contra a Espanha. D. Luísa de Gusmão incitou-o a ser coroado mesmo que fossem precisos grandes sacrifícios "melhor ser Rainha por um dia, do que duquesa toda a vida". Quando da revolta de 1641 foi de parecer que os culpados não mereciam perdão, mesmo o inocente duque de Caminha. Foi nomeada regente depois da morte do rei, na menoridade de D. Afonso VI. As rivalidades da corte levaram-na a nomear a Junta Nocturna, com vários conselheiros da sua confiança, sendo o principal Frei Domingos do Rosário, hábil diplomata, se quis manter a soberania no palácio. O partido afecto a D. Afonso lança-se abertamente na luta contra a rainha regente, sob a orientação de D. Luís de Vasconcelos e Sousa, 3.º conde de Castelo Melhor, que em 1661 pretende abandonar o governo, chegando a redigir um papel para justificar a sua atitude e a «monstruosidade que representava o reino com duas cabeças»; mas temendo a desastrosa administração de seu filho resolve manter-se regente. A aliança com Inglaterra, assinada em 1662 foi em grande parte obra sua, bem como a organização das forças que, no ano seguinte, já no governo de D. Afonso VI, vieram a obter as vitórias da Restauração. A viúva de D. João IV defendeu os princípios de liberdade e independência da Restauração e manteve-se no governo receosa que o filho mais velho o comprometesse. Jaz no Panteão dos Braganças, no mosteiro de São Vicente de Fora em Lisboa, para onde foi transladada de Xabregas. Conde de Castelo Melhor Reposteiro-mor da Casa Real, escrivão da puridade, conselheiro de Estado, primeiro-ministro e valido de D. Afonso VI, e depois do conselho de Estado de D. João V, senhor de Valhelhas, Almendra e Mouta Santa, alcaide-mor e comendador de Pombal; senhor do condado da Calheta, de que foi o 6.° conde, etc. N. em 1636, fal. a 15 de Agosto de 1720. Era filho do 2.º conde de Castelo Melhor, D. João Rodrigues de Vasconcelos e de sua mulher D. Mariana de Lencastre e Vasconcelos. Acompanhando seu pai durante a campanha de 1658, mostrou então grande bravura e intrepidez, mas os campos da batalha eram estreito recinto para quem, reconhecendo em si inteligência não vulgar, pensava em subir aos mais elevados cargos do estado, e por isso trocando a vida agitada dos acampamentos pela não menos difícil e espinhosa da câmara do palácio real, tratou de conquistar o valimento do jovem príncipe, que pela morte de D. João IV herdara a coroa portuguesa, mas que se conservava ainda sob o domínio da rainha regente, sua mãe. A grande dificuldade, porém, a vencer, não era só o assenhorear-se do ânimo do futuro monarca, mas em lhe dar força bastante para assumir o poder e em contrariar e desfazer os planos do marquês de Marialva e de outros áulicos, que, tendo grande importância no tempo da regência, se dispunham a conservá-la quando o novo soberano fosse aclamado. Aproveitando habilmente a prisão de António Conti, valido do príncipe, ordenada pela rainha, e valendo-se do auxilio do conde de Atouguia e de outros fidalgos que atraíra ao seu partido, o conde de Castelo Mentor conseguiu levar D. Afonso a um golpe de estado, e entrando com ele numa liteira foi para a quinta de Alcântara onde o rei mandou chamar toda a nobreza, e expediu a todas as autoridades a comunicação de haver tomado posse do governo. A rainha tentou resistir por boas razões e bons conselhos, mas, reconhecendo as dificuldades da luta entregou definitivamente a seu filho o governo do reino a 29 de Junho de 1662, e o conde de Castelo Melhor começou por assim dizer, a ser o verdadeiro rei de Portugal, embora só com o título de escrivão da puridade. Para melhor assegurar o seu domínio, procurou cercar o monarca de pessoas exclusivamente suas, introduzindo no palácio de Corte Real em que vivia o infante D. Pedro, homens da sua completa confiança, para o informarem da intriga que ali se urdia, e desconfiando que a rainha viúva ainda conservava alguma influencia no animo do rei, procurou afastá-la, fazendo com que fosse viver numa quinta no sítio do Grilo. Quando o conde de Castelo Melhor se viu senhor omnipotente da administração, eram bem críticas e desesperadas as circunstâncias do país. O tratado dos Pirinéus, pelo qual a França nos havia traiçoeiramente abandonado, permitia a Filipe IV voltar contra Portugal todas as forças disponíveis da sua vasta monarquia, e de facto D. João de Áustria, atravessando a fronteira do Alentejo com um grande exército, veio pôr cerco a Évora, tomou essa cidade, e 5.000 castelhanos chegaram até Alcácer do Sal, quase à vista de Lisboa. Em tão graves circunstâncias o novo ministro tornou-se incansável em reunir e organizar novas tropas, em vencer as rivalidades dos generais, e em empregar finalmente todos os elementos para afastar o perigo que ameaçava a nossa independência. Concentrando no Alentejo todos os recursos de que podia dispor, habilitou D. Sancho Manuel a ganhar a vitória do Ameixial, e sem descansar continuou a juntar novas forças e a prestar a maior atenção aos preparativos militares. O conde de Castelo Melhor buscava também o auxílio das cortes estrangeiras, e para estreitar as relações de Portugal e da França, e interessar esta nação nos nossos destinos, tratou de negociar o casamento de D. Afonso VI com uma princesa da família de Luís XIV. Aproveitando o sucesso obtido pelas nossas armas em Montes Claros e a vontade do soberano francês, que se apresentou como medianeiro para ir tratar da paz entre Portugal e Espanha, o conde de Castelo Melhor impôs condições duríssimas para o orgulho espanhol, que não chegaram a realizar-se, mas, enquanto elas duraram, mostrou uma firmeza e energia admiráveis, qualidades que também manifestou depois nas relações que teve com o representante de Luís XIV em Lisboa para se ajustar a liga ofensiva e defensiva entre Portugal e a França. Desejava sinceramente o soberano francês essa aliança, mas queria conservar para si a liberdade de acção e fazer o menor número possível de sacrifícios, ao mesmo tempo que Portugal se empenhasse na luta com todas as suas forças. O conde de Castelo Melhor não acedeu a estes princípios, e conseguiu afinal que se ajustasse a liga com perfeita e completa reciprocidade de direitos e deveres para os dois estados contratantes, embora um deles fosse a poderosa França e o outro a pequena nação cuja independência poucos anos antes estivera ainda em grave risco. O conde pensava, quando se tratasse da paz definitiva, obter alguma porção de Espanha, que anexando-se ao nosso país, alargasse o território de Portugal, ficando pertencendo a este toda a faixa ocidental da península, e tendo o mar por limites ao norte, ao sul e ao ocidente. O ministro não pôde realizar este grandioso projecto, porque as intrigas contínuas da corte e a vergonhosa trama que tirou a D. Afonso a esposa e o trono, fizeram cair do poder o homem que dirigia os negócios públicos e o governo com tanta fineza e inteligência. Enquanto viveu a rainha D. Leonor de Gusmão, as discórdias entre os dois irmãos conservaram-se quase na sombra, mas apenas faleceu as hostilidades romperam-se abertamente. O conde de Castelo Melhor, receando uma guerra civil que transtornasse os seus planos políticos e que num instante desfizesse as vantagens adquiridas à custa dos trabalhos e sacrifícios de uns poucos de anos, cedeu ás exigências de D. Pedro, mas longe de ficar serenada a tempestade nascente, esta redobrou de intensidade e fervor com a vinda da princesa D. Maria Francisca de Sabóia, escolhida para esposa de D. Afonso VI. Apenas chegou a Portugal, logo a rainha procurou por todos os meios possíveis insinuar-se no ânimo do monarca, seu marido, e como o escrivão da puridade, não só por ciúme mas porque não queria ver o país sujeito completamente à vontade de Luís XIV, tratou do estorvar esses desejos, donde se originou a decidida inimizade entre a soberana e o ministro, que ao princípio se conservou encoberta, mas que dentro em pouco se manifestou clara a abertamente, apesar do astuto diplomata evitar com a maior diligência, que a rainha tivesse motivo para se queixar do seu procedimento. A injustificada exigência feita pela rainha a seu marido, para demitir o secretário de estado António de Sousa de Macedo, exigência que não foi satisfeita por conselho do conde de Castelo Melhor, forma o primeiro acto do drama tristíssimo e indecoroso em que a rainha e o infante representaram os principais papéis. As intrigas prosseguiram, dando o resultado bem conhecido da deposição do monarca, da subida de D. Pedro ao trono, o casamento com sua cunhada, e a demissão do ministro. O conde de Castelo Melhor saiu então do reino, a depois de ter viajado pela França a pela Itália, fixou a sua residência em Londres em 1677, e tais serviços prestou à rainha D. Catarina de Bragança, mulher de Carlos II, e irmã de D. Pedro, que esta conseguiu que o conde regressasse ao reino em 1685, indo residir então para Pombal, onde permaneceu até 1687, ano em que lhe foi permitido voltar a Lisboa. Mais tarde, D. João V readmitiu-o no conselho do Estado. O conde de Castelo Melhor era casado com D. Guiomar de Távora, viúva de D. .Jorge de Ataíde, 3.º conde de Castro de Aire, filha e herdeira de Bernardim de Távora, reposteiro mor, senhor das ilhas do Fogo, Santo Antão e Santa Maria, comendador de Santa Maria de Cacela na ordem de Cristo, e de sua mulher, D. Leonor de Faro, filha do conde de Faro, D. Estêvão de Faro. Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico, Volume II, págs. 890-891. D. Maria Francisca de Sabóia Duquesa de Nemours e de Aumale; rainha de Portugal pelo seu casamento com o rei D. Afonso VI e depois com D. Pedro II. N. em Paris a 21 de Junho de 1646, fal. em Palhavã, a 27 de Dezembro de 1683. Era filha de Carlos Amadeu de Sabóia, duque de Nemours, e da duquesa D. Isabel de Vendôme, neta por bastardia de Henrique IV de França. Quando se tratou do casamento de D. Afonso VI, procurou o seu grande ministro conde de Castelo Melhor uma noiva francesa, porque era a aliança de Luís XIV a que ele sobretudo cobiçava para a realização dos seus planos políticos. Primeiro pretendeu casar D. Afonso VI com a Grande Mademoiselle, e Luís XIV favorecia esse projecto, mas foi a noiva que resistiu tenazmente por causa dos seus amores com o duque de Lauzun. Foi então que o duque de Guise lembrou ao marquês de Sande, nosso ministro em Paris, mademoiselle de Nemours e de Aumale, pertencente a uma casa soberana, parente de Luís XIV, gentil e inteligente senhora, que devia ter um valioso dote. Sendo aparentada com os Condés e com todos os principais fidalgos franceses, mademoiselle Nemours trazia para Portugal as simpatias de toda a corte francesa, o que era muito importante por estarmos ainda em, luta com a Espanha. A única dificuldade, que se levantou, foi a que proveio dos escrúpulos da duquesa de Nemours, que prometera a mão de sua filha a Carlos de Lorena, e não queria faltar a essa promessa. Morrendo, porém, a duquesa, cessou esse obstáculo, e o casamento ajustou-se definitivamente em 1655. A 24 de Fevereiro de 1666 assinaram-se as escrituras pelas quais a nova rainha trazia de dote um milhão e oitocentas mil libras tornezas (324.000$000 réis), devendo usufruir em Portugal a herança de sua sogra, a rainha D. Luísa de Gusmão, que valia 100.000 cruzados, e mencionando-se que, se sobrevivesse ao rei sem ter filhos, poderia sair de Portugal, levando o dote e mais 500.000 libras esterlinas, e tendo filhos, só poderia levar, no mesmo caso, a terça parte do dote e a terça parte das 500.000 libras. Assinadas as escrituras a jovem rainha saiu de Paris com sua mãe, a 29 de Maio de 1666, acompanhadas do marquês de Sande e de numerosa comitiva, dirigindo-se a La Rochell, onde casou em 27 de Junho por procuração, representando D. Afonso VI o marquês de Sande. A 4 de Julho embarcou a bordo duma esquadra francesa, composta de 10 navios, comandada pelo marquês de Ruvigny, e recebendo a esquadra de seu tio duque de Beaufort ordem para lhe abrir caminho, porque era de recear que os espanhóis, que então ainda estavam em guerra com Portugal, pretendessem aprisionar a nova rainha, partiu para o rio Tejo. A rainha chegou ao sitio da Junqueira a 9 de Agosto do referido ano de 1666, indo recebê-la a bordo o conde da Castelo Melhor com sua mãe, que fora nomeada camareira-mor, e dirigiu-se para o paço de Alcântara, onde a esperava o rei D. Afonso VI, seu irmão D. Pedro, mais tarde D. Pedro II, e toda a corte. 0 monarca mostrou-se muito impressionado com a formosura da noiva. 0 casamento foi ratificado na igreja do convento das Flamengas, situado naquele sítio de Alcântara sendo celebrante o bispo de Tara e capelão-mor da Casa Real. No dia 19 do citado mês de Agosto veio para Lisboa a jovem rainha em direcção à Sé Catedral, onde se devia realizar um solene Te Deum. D. Afonso VI, acompanhado de sua gentil esposa e do infante D. Pedro, saiu do palácio de Alcântara com uma luzida comitiva. Davam princípio ao cortejo os dois procuradores do senado, seguidos dos ministros em que este tinha jurisdição, todos ricamente vestidos trazendo os seus lacaios vistosas librés, e os cavalos ricos arreios e jaezes; seguiam-se seis porteiros do rei com as maças aos ombros e logo os reis de armas, arautos e passavantes, com cotas de armas e cadeias de ouro; depois os corregedores do crime e da corte, com as garnachas forradas de tela branca e seguidos dos mais ministros da justiça, todos brilhantemente vestidos; continuavam os coches e liteiras douradas e guarnecidos de adornos riquíssimos, a que correspondiam as librés dos respectivos lacaios. Os fidalgos, com vestuários de gala montavam em belos cavalos ricamente ajaezados, acompanhando o cortejo. Não havia precedência de coches até ao do estribeiro-mor, a que seguiam os coches de respeito, do infante, da rainha e do rei. 0 coche dos régios desposados era o último, onde se via o rei sentado à direita da rainha, e o infante no assento da frente. 0 coche real não levava tejadilho, mas era abrigado do sol por uma espécie de umbela de damasco carmesim guarnecido de ouro, que num varão dourado levava um moço da câmara. Atrás do coche, que era ladeado de moços da estribeira, viam-se os capitães, tenentes e soldados da guarda; depois seguiam-se os coches dos fidalgos e damas de honor. As ruas estavam vistosamente adornadas, e de espaço a espaço se encontravam graciosas danças. A distâncias proporcionadas viam-se 16 arcos cobertos de ouro, prata e pedras preciosas, com figuras, emblemas e inscrições. A pouca distância do primeiro arco fez o senado da câmara a costumada cerimónia de entregar as chaves da cidade a el-rei, que as deu à, rainha. Logo adiante estavam o marquês de Marialva, governador das armas de Lisboa e província da Estremadura, o conde da Torre, mestre de campo general, e todos os mais oficias de ordens, de grande uniforme; toda a cavalaria e infantaria formavam alas pelas ruas do trânsito. Os reis entraram na igreja da Sé, ricamente adornada, e terminado o Te-Deum dirigiram-se para o paço da Ribeira. Neste dia e ainda nos seguintes se realizaram muitas festas públicas: jogos de canas, touradas, fogos de artifício, iluminações, etc. 0 conde de Castelo Melhor não tardou em reconhecer uma inimiga declarada na gentil soberana. Efectivamente a rainha, que fascinara seu marido, logo 15 dias depois da sua chegada quis ter entrada no conselho de Estado, e obteve-a; quis que o general Schomberg, seu parente, comandasse em chefe, lugar que ele nunca pudera alcançar pela oposição dos generais portugueses, e Schomberg foi nomeado governador das armas do Alentejo. Estas vitórias não as alcançou a rainha sem dissidências intestinas, e lutando sempre com a resistência do conde de Castelo Melhor. Luta igual sustentava havia muito tempo o dedicado ministro de D. Afonso VI com o infante D. Pedro, irmão do rei, e daí resultou uma aproximação natural entre o infante e sua cunhada para combaterem o inimigo comum. Desta aproximação política resultou rapidamente um amor adúltero, que, segundo se diz, teve começo em Santarém durante umas caçadas. D. Pedro era então um rapaz simpático, enquanto que D. Afonso não passava dum homem indolente e incapaz de inspirar amor. Os dois aliados, ou antes, os dois cúmplices, começaram a empenhar todos os seus esforços para tirar o poder ao conde de Castelo Melhor, que era o ministro omnipotente. Este, hábil e cortesão, nunca deu à rainha o mais leve ensejo para se queixar dele. Contrariava-lhe os planos, mas mostrava-lhe sempre o mais profundo respeito. 0 seu amigo e auxiliar, o secretário de Estado António de Sousa de Macedo, não teve tanto sangue frio, e parece que respondeu uma vez menos convenientemente à rainha, não nas palavras, mas no tom em que as proferiu, mas a soberana logo se queixou com escândalo, a resposta porém de António de Sousa de Macedo fora tão ligeira, as palavras, que a própria rainha dizia que ele lhe dirigira, eram tão lisonjeiras que o rei aceitando a opinião do conselho de Estado, que se reunira, não quis demitir o secretário de Estado. A rainha zangou-se, formaram se partidos; o infante mostrou-se ameaçador, e D. Afonso, que ao princípio mostrara querer conservar a todo o custo no poder o conde de Castelo. Melhor e os seus amigos, como quem previa que eram eles as suas únicas garantias para se conservar no trono, afinal, medroso da atitude do infante, perseguido todos os dias pela rainha, começou a fraquejar. Assim que o conde percebeu isso, quis despedir-se primeiro que o despedissem, e pedindo um salvo-conduto à rainha, pediu ao rei a sua demissão. Estava conseguido o que desejavam ardentemente D. Pedro e sua cunhada; viam-se assim livres dos seus mais encarniçados inimigos, porque António de Sousa de Macedo havia sido exilado, por imposição da rainha. Com a perda destes dois dedicados amigos, D. Afonso VI achou-se completamente desamparado. 0 instinto de conservação, que dá às vezes perspicácia aos maiores imbecis, fez com que o monarca, depois de ter por algum tempo como ministro Henrique Henriques de Miranda, chamasse para junto de si António de Sousa de Macedo. A rainha protestou contra esse procedimento, e o infante D. Pedro, à frente dum bando de fidalgos armados, entrou no paço a 5 de Outubro de 1667, e obrigou o rei a demitir e exilar de novo o seu secretário de Estado. 0 infante preparara tudo para lhe tirar a coroa e convocar as cortes para esse fim. 0 pobre monarca quis ir para o Alentejo, não o deixaram, e finalmente a 21 de Novembro de 1667 a rainha saiu do Paço, indo para o convento da Esperança, donde dirigiu à câmara. de Lisboa e ao rei duas cartas verdadeiramente impudentes, declarando que o rei não consumara com ela o matrimónio, por não poder consumá-lo, e em que pedia para se retirar para França com o seu dote. D. Afonso, apenas recebeu a carta da rainha, dirigiu-se ao convento da Esperança, e achando as portas fechadas mandou arrombá-las, a que se opôs o infante D. Pedro e alguns grandes do reino, tendo o infeliz monarca que desistir da sua empresa e voltar para o paço. Na manhã seguinte a rainha mandou pedir ao infante que lhe fosse falar à grade da igreja da Esperança, e encarregou-o de tratar da sua ida para França, sendo-lhe restituído o dote, prometendo-lhe o infante que faria o que fosse possível. Voltando ao paço participou tudo ao rei, que muito se enfureceu. A rainha empregou então as maiores diligências com os juízes e os conselheiros de Estado, afirmando que o seu intento era declarar a todos que o seu casamento estava nulo por impossibilidade de seu marido. Este procedimento da rainha acabou de desvairar o débil espírito de D. Afonso VI, já seriamente abalado por todos estes acontecimentos, e que se via prisioneiro no próprio palácio real. Teve um acesso de fúria que os seus carcereiros aproveitaram para o apresentarem como louco reconhecido. Manifestações da nobreza e do povo, habilmente preparadas, fizeram com que D. Afonso VI assinasse uma renúncia aos seus direitos, ficando D. Pedro com a regência do reino. Esperava o infante que as cortes convocadas em 1 de Janeiro de 1668 lhe oferecessem a coroa, mas somente o nomearam regente. As cortes reunidas a 27 deste mês o juraram príncipe herdeiro. Em 13 de Fevereiro seguinte D. Pedro fez um tratado de paz com a Espanha, com o maior contentamento da nação em geral, que estava extenuada com uma guerra de 27 anos. Este tratado foi aprovado e reconhecido pelas cortes. Entretanto D. Afonso, aconselhado por alguém, fez uma declaração confessando que efectivamente não consumara o matrimónio com sua mulher. Como a rainha dissera que tomara a sua resolução apenas por descargo de consciência, porque o seu único desejo era voltar para França, a confissão de seu marido devia bastar-lhe, mas não era isso o que se desejava. Era preciso um processo para a anulação do matrimónio, e houve o processo altamente escandaloso, iníquo e vergonhoso, em que a própria rainha foi testemunha, apresentando com o maior impudor segredos mais íntimos do tálamo conjugal, e tal foi a impudência com que toda esta questão se encaminhou que, tendo a sentença que anulava o matrimónio, sido pronunciada a 24 de Março de 1668, logo no dia 27 se celebrava o casamento entre a rainha e seu cunhado, na igreja da Esperança estando ainda em Lisboa o primeiro marido, porque D. Afonso VI só partiu para o castelo de Angra, na ilha Terceira, em 1619, onde ficou prisioneiro. 0 escandaloso processo da anulação do matrimónio foi publicado com o titulo seguinte: Causa sobre nulidade de matrimónio entre partes, de uma como autora a Sereníssima Rainha D. Maria Isabel de Sabóia Nossa Senhora, e da outra o procurador da Justiça Eclesiástica em falta de procurador de Sua Majestade El-Rei D. Afonso VI Nosso Senhor; fez-se uma edição deste livro, em Lisboa, 1843, e outra em 1859. 0 segundo casamento de D. Maria Francisca de Sabóia com seu cunhado, o infante D. Pedro, não foi feliz. Teve apenas uma filha que foi a princesa D. Isabel, que fal. solteira aos 21 anos de idade, depois de ter varias vezes ajustado o seu casamento com diversos príncipes (V. Portugal, vol. III, pág. 1007). A rainha D. Maria Francisca de Sabóia fundou em 1667 o convento do Santo Crucifixo, mais conhecido pelas Francesinhas (V. este vol. pag. 286), e enriqueceu muitas igrejas. No princípio do ano de 1683 adoeceu gravemente com uma hidropisia, e foi para o palácio do conde de Sarzedas, em Palhavã, a mudança de ares; melhorou um pouco, mas depois piorou vindo a falecer três meses depois de D. Afonso VI. Foi sepultada no convento das Francesinhas, que fundara. D. Pedro II sentiu muito a sua morte. Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico, Volume IV, págs. 837-840. Batalha das Linhas de Elvas Na madrugada de 14 de Janeiro de 1659, no meio da neblina, o exército do Conde de Cantanhede investe sobre as tropas que havia três meses cercavam Elvas isolando-a do mundo. Cerca de 8 mil infantes e 3 mil cavaleiros portugueses supreendem as linhas espanholas e pelas 10h00 da manhã rompem-nas. Os espanhóis tentam reagir. Contra-atacam primeiro com a sua cavalaria mas são batidos. Resistem nos fortins e são dizimados. Lançam depois contra-ataques de infantaria, debalde, são derrotados; a despeito da energia do seu segundo comandante-chefe, o Duque de San German. Pelas 15h00 a Batalha fora decidida, ferido San German e em fuga D. Luís de Haro, o exército espanhol cede. Alguns soldados e oficiais protegem-se nos fortes. O reduto de Nossa Senhora da Graça só cairia no dia 15 de manhã, assim como o Quartel da Corte. D. Luís de Haro deixa no terreno entre 2000 e 3000 mortos e entre 2.000 e 5.000 prisioneiros, conforme as fontes. E uma enorme quantidade de material apreendido: 10.000 a 15.000 armas capturadas, uma vintena de bocas de fogo e muito material de ordenança militar. As baixas portuguesas foram tão só cerca de 200 mortos e 600 feridos na batalha, aos quais se devem juntar, na cidade de Elvas, algo mais de 4.000 mortos derivados do cerco. A primeira batalha da Restauração fora uma prova de força que pressagiava o futuro triunfo da independência de Portugal. (composto a partir de extractos de António Paulo Duarte, 2003) Batalha de Montes Claros A Batalha de Montes Claros, foi travada em 17 de Junho de 1665, em Montes Claros perto de, Borba, entre Portugueses e Espanhóis. Preparam-se os espanhóis para um ataque que tudo levasse de vencida, mas por seu lado os governantes portugueses tomaram todas as cautelas e providências indispensáveis para a defesa do reino. Calculando que a tentativa de invasão seria feita através das fronteiras do Sul, isto é pelo Alentejo, foi nessa província que se tomaram as maiores precauções. Três mil e quinhentos homens foram sem demora enviados de Trás-os-Montes, constituindo quatro terços de infantaria e catorze companhias de cavalaria. Simão de Vasconcelos e Sousa levou de Lisboa trezentos cavaleiros e dois mil infantes e Pedro Jacques de Magalhães apresentou-se com mil e quinhentos soldados de infantaria e quinhentos de cavalaria. O conjunto representava um reforço de sete mil e oitocentos homens, o que dotava António Luís de Meneses, Marquês de Marialva com o comando total de vinte mil e quinhentos combatentes. O Marquês de Caracena havia planeado nada menos do que ocupar Lisboa, tomando em primeiro lugar Vila Viçosa e a seguir a cidade de Setúbal. Então pôs em movimento o seu exército, que se compunha de quinze mil infantes, sete mil e seiscentos cavaleiros e as guarnições de catorze canhões e dois morteiros. Tendo ocupado Borba que encontraram despovoada, os espanhóis atacaram Vila Viçosa que embora mal fortificada, ofereceu aos ataques do inimigo uma resistência inquebrantável. Entretanto, o exército português avançava para socorrer a praça, mas foi resolvido pelo comando que as tropas se detivessem em Montes Claros, a aproximadamente meio caminho entre Vila Viçosa e Estremoz. O general espanhol ao saber da proximidade do exército português, deu ordens imediatas para que as forças de que dispunha marchassem ao encontro do adversário. Carregando em massa, a cavalaria espanhola abriu brechas nos terços de infantaria da primeira linha, mas foi recebida com uma chuva de metralha disparada pela artilharia comandada por D. Luís de Meneses. Os esquadrões de Castela, obrigados a recuar refizeram-se e lançaram segunda carga sobre o terço de Francisco da Silva Moura, caas brechas abertas pela cavalaria colmatadas, enquanto a artilhari Uma segunda carga igualmente impetuosa, conseguiu no entanto levar os cavaleiros espanhóis até ao mesmo ponto onde fora detida a primeira, mas as perdas sofridas foram de tal ordem que tiveram de deter-se também, sem que a segunda linha portuguesa comandada pessoalmente pelo Marquês de Marialva, tivesse sequer sido molestada. O Conde de Schomberg esteve prestes a cair em mãos espanholas, quando um tiro abateu o cavalo que ele montava. O espanhóis que pareciam ter contado com a fúria dos primeiros ataques em massa, executados em especial pela cavalaria, viram-se em situação de perigo. Deram ainda uma terceira carga, mas o ímpeto inicial tinha-se perdido e o desânimo apoderava-se deles. Ao cabo de sete horas de luta, os atacantes começaram a debandar, e o próprio general Caracena, reconhecendo que a batalha estava perdida, fugiu para Juromenha, de onde seguiu depois a caminho de Badajoz. Pode considerar-se que a batalha de Montes Claros decidiu definitivamente a independência de Portugal, que seria reconhecida pela Espanha três anos mais tarde, ao firmar-se entre os dois países um tratado de paz. A batalha de Montes Claros foi a última das cinco grandes vitórias que Portugal contra os espanhóis na Guerra da Restauração, sendo as restantes: Montijo, Linhas de Elvas, Ameixial e Castelo Rodrigo.

D. Pedro II - O Pacifico - 23º Rei de Portugal - Reinou 23 anos

Terminada a Guerra da Restauração, em que os portugueses saíram vitoriosos, quis D. Pedro II envolver Portugal noutra guerra com a Espanha – a Guerra da Sucessão. O rei de Espanha, Carlos II, morreu sem deixar filhos que o substituíssem no trono. Mas apareceram logo dois pretendentes: o Arquiduque Carlos de Áustria, auxiliado pela Inglaterra e Holanda, e Filipe de Anjou, neto de Luís XIV, rei de França, apoiado por este país e pela Espanha. Ambos os pretendentes, que iam guerrear, pediram auxílio a D. Pedro II, que veio aprestá-lo a quem lhe oferecera maiores vantagens. Assim, tomando definitivamente o partido do Arquiduque Carlos, o qual prometia o aumento do nosso território com a cedência de algumas terras espanholas, organizou um exército comandado por D. João de Sousa (Marquês das Minas), o qual, de vitória em vitória, entrou triunfante em Madrid, onde proclamou rei de Espanha o Arquiduque Carlos, em 1706. Porém, os portugueses, ameaçados por forças muito superiores, tiveram de abandonar aquela cidade, retirando-se para Portugal. Neste reinado negociou-se um acordo comercial, conhecido por Tratado de Methen. Por esse acordo era favorecida a entrada em Portugal de lanifícios ingleses e, na Inglaterra, facilitado o negócio dos vinhos do Porto, os quais nas suas alfândegas pagariam direitos muito reduzidos. Vigésimo terceiro rei de Portugal, nasceu em 1448 em Lisboa, terceiro filho varão de D. João lV e de D. Luísa de Gusmão. Logo em seguida ao casamento de seu irmão D. Afonso Vl, em 1666, com D. Maria Francisca de Sabóia, estabeleceu-se entre esta e o seu cunhado, relações amorosas. Concluíram os dois com um escandaloso processo de divórcio, a deposição de seu irmão e respectivo esposo. Conseguiram que Roma (Vaticano) anulasse o casamento, D. Pedro mandou prender seu irmão e assumiu a regência do reino, casando depois com sua cunhada. No ano seguinte, assinou um tratado com a Espanha para pôr termo à "Guerra dos Vinte Sete Anos". Para sustentar as pretensões de um Arquiduque de Áustria ao trono espanhol, envolveu-se mais tarde numa guerra funesta para Portugal. Em 1706, D. Pedro ll chegou a entrar em Madrid, mas já no reinado seguinte (D. João V), as tropas portuguesas foram vencidas pelos espanhóis em Almansa e em Caya. Durante este reinado acentuou-se a decadência moral e material de Portugal. Jaz em S. Vicente de Fora (Lisboa). D. Pedro II Último dos sete filhos de D. João IV, quarto na ordem de sucessão, nascido em 1648, foi vigésimo terceiro rei de Portugal e o terceiro da Dinastia de Bragança, pelo imperativo duma solução política de emergência na mais grave conjuntura das primeiras décadas da Restauração, tão recente como ainda periclitante. Um signo funesto parecia pesar sobre os destinos da nascente dinastia. Não desistia o orgulho da Espanha de eliminá-la radicalmente por guerra de reconquista. Consumira-se o fundador, exausto na luta, sem ter podido consolidá-la. Por cúmulo, três anos antes da sua morte, falecera-lhe em 1653, aos 19 anos de idade, o primogénito, príncipe D. Teodósio, em quem seu pai fundava as melhores esperanças. Ficava-lhe por sucessor, ainda menor de 13 anos, o infante D. Afonso, com os defeitos que o incompatibilizavam com o exercício da realeza e as consequências políticas da sua doentia inferioridade, a principal das quais foi o golpe de estado que elevou à situação de primeiro-ministro, aparentemente na modesta designação de escrivão da puridade do monarca, mas na função efectiva de verdadeiro soberano, o conde de Castelo Melhor. Entretanto em 1666, para assegurar-lhe a sucessão e o apoio do poderoso Luís XIV, o diligente ministro negociara o casamento de D. Afonso VI com uma princesa de França, Mademoiselle d'Aumale, D. Maria Francisca Isabel de Sabóia, sobrinha de Luís XIV e neta de Henrique IV. E foi esse o único acto imprudente do sagaz político, tão fatal para a desgraça do rei, como para os seus próprios planos ambiciosos duma política de engrandecimento do Reino. Realizado em 1666, resultou o casamento irreparavelmente desastroso, dada a incapacidade física e moral do rei. Foi praticamente o detonador da segunda revolução de palácio, em 1667, encabeçada agora pelo infante D. Pedro, com o apoio de todos os inimigos de Castelo Melhor, invejosos da sua fortuna política. Educada na dissoluta corte de Versalhes, a nova e formosa rainha D. Maria Francisca, vexada por tal consórcio, apaixonou-se pelo brilhante cunhado D. Pedro, de 18 anos. Nos seus delituosos amores, ambos conluiaram novo golpe político. Em certa manhã de Novembro de 1667, a rainha abandonava o Paço e, de concerto com o infante D. Pedro, refugia-se no Convento da Esperança, aonde logo ele acorria a seu favor, com o Conselho de Estado; e, depois de tumultos vários, o rei era coagido a assinar a sua própria deposição e entrega do governo do Reino a seu irmão, o qual, em nome da rainha, assumia o poder como príncipe-regente, desterrando para os Açores o irmão destronado e, depois de rápido e escandaloso divórcio, casava com a cunhada em Abril de 1668, dela tendo logo em Janeiro do ano seguinte a sua primeira e única filha, a princesa D. Isabel Luísa. Consumara-se a dupla usurpação do trono e da mulher. Assim dramaticamente, com 20 anos apenas, começava D. Pedro, em 1668, a sua atribulada vida política. Defrontava-se de entrada com a gravíssima situação económica e financeira do Portugal restaurado, arruinado por vinte e oito anos de guerra sem tréguas, depois dos sessenta de estragos directos e indirectos do domínio filipino. Resolutamente se esforçou desde logo o usurpador por administrar bem, com acerto, chamando ao Conselho, para conjurar a crise, um escol de homens notáveis pela cultura e pelo carácter, como Diogo Rodrigo de Macedo, o 3.º conde da Ericeira, D. Luís de Meneses, e outros economistas, homens cultos, informados já pelas novas teorias económicas fisiocráticas de Colbert, grande ministro das Finanças de Luís XIV. Nada, porém, remediavam de momento as suas tentativas de reformas drásticas, por inoperantes em pais tão devastado pela guerra, desfalcado de população produtiva, com as lavouras ao abandono, sem indústrias fabris e inveteradamente viciado no gozo falaz da. ilusória opulência do comércio do Oriente, já reconhecidamente ruinoso para o Estado e para a Nação desde os tempos de D. João III e Pêro de Alcáçova Carneiro. Restava à Metrópole, como esteio económico, o Brasil, com sua próspera actividade, agro-industrial de plantações e engenhos de açúcar, exportação de pau-brasil e outras madeiras e produtos exóticos, além da intensiva pesquisa de minas de ouro e prata que se presumia existirem a oeste, como nos sertões do Peru e da Bolívia, próximos em continental continuidade. No afã de se acudir por todos os meios à ameaça duma bancarrota à vista, recorria-se ainda complementarmente à valorização económica dos domínios de África. Em 1678 tentava-se uma colonização militar em Moçambique, para fixação de colonos e exploração agrícola, e desenvolvia-se na fertilíssima região da Zambézia um símile de capitanias donatárias, à semelhança das do Brasil, com as concessões de terras, a que se deu a designação oficial de prazos da Coroa. Na Guiné, em Cabo Verde, em Angola, que praticamente viviam do tráfico de escravatura, incrementava-se por meios adequados o fomento agrícola e comercial, criando companhias de comércio privilegiadas, como as de Cacheu e Cabo Verde e outras, disseminando feitorias e povoações comerciais nas zonas mais populosas de Angola e Moçambique. Tudo, porém, pouco mais do que inútil. Progressivamente se agravavam a penúria e decadência material da Metrópole, sob a regência de D. Pedro, cujo reinado legítimo só propriamente começara em 1683, por morte do irmão proscrito, sem descendência, na sua prisão-desterro do Paço de Sintra, para onde viera transferido dos Açores (ilha Terceira), depois de malograda, pela execução dos cabecilhas, a conjura de 1673, para o libertar e repor no trono. De perto o seguiu no túmulo, ainda nesse ano, a própria rainha D. Maria Francisca, sua ex-mulher, sem outros herdeiros além da infanta D. Isabel Luísa. Já rei de facto, proclamado em Cortes, D. Pedro II casava, em segundas núpcias, com D. Maria Sofia de Neuburgo, princesa bávara do Palatinado do Reno, que em 1689 lhe assegurava a sucessão da coroa em varão herdeiro dando à luz o príncipe D. João, depois D. João V, logo como tal proclamado, em substituição da princesa Isabel Luísa, das primeiras núpcias, falecida pouco depois, aos 22 anos de idade. Nesse mesmo ano de 1690 a situação agravava-se com o suicídio do 3.0 conde da Ericeira, seu vedor da Fazenda, numa crise aguda de neurastenia, exacerbada pela inanidade da sua sábia administração desde 1675 e de todos os seus planos da criação de indústrias fabris para ressurgimento da Metrópole em sólidas bases económicas. Era o sinal de alarme duma inevitável ruína financeira a curto prazo, que arrastaria possivelmente a própria Nação à catástrofe duma desagregação política, precursora de definitiva absorção por Espanha. De resto, já mesmo em 1683, ano da proclamação do rei em Cortes, era tão patente e generalizada a previsão dessa fatalidade que o próprio D. Pedro II chegara a encarar seriamente o propósito de renunciar à coroa e retirar para o Brasil, abdicando na filha D. Isabel e em quem viesse a ser seu marido. Dissuadiram-no dessa espécie de deserção o confessor e o seu conselheiro secreto, sem que por esse facto se desanuviassem as perspectivas do pessimismo que havia levado ao suicídio o seu mais ilustre vedor da Fazenda. Em 1685, cedia enfim ao acto de generosidade de autorizar o regresso de Castelo Melhor, já velho e sem veleidades políticas. Nesse destino lúgubre se teria talvez afundado, com a dinastia, a sobrevivência da Nação, se nos fins do século não tivesse providencialmente chegado à corte a alvoroçada notícia da descoberta de minas de ouro e brilhantes no Brasil, a coroarem de pleno êxito as exaustivas e pertinazes incursões do bandeirismo paulista nas selvas e sertões a oeste do imenso e inexplorado estado americano. Como o rendimento fiscal da Coroa era desde logo o quinto da mineração, a primeira remessa de 1699 trazia a D. Pedro, além de 11000 quilos de ouro amoedado, o valor de sete milhões de cruzados, na transacção de brilhantes em Amesterdão; e até final do reinado o quinto devido à Coroa orçaria por cerca de cinco milhões de cruzados. Era uma ressurreição de desvairantes esperanças! Considerados desnecessários, e logo abandonados, todos os planos de sadia reformação económica por exploração metódica das próprias riquezas da Metrópole, e por isso também já despiciendo, por supérfluo, o acordo comercial negociado com Inglaterra em 1703, conhecido por Tratado de Methuen. Era, aliás, de vantagens problemáticas para a nossa economia a colocação dos nossos vinhos em Inglaterra, mas substancial para esta a colocação entre nós de seus lanifícios. O fortuito caudal de ouro e pedras preciosas do Brasil tudo viria suprir e sanar sem mais cuidados para o futuro da dinastia. Ter-lhe-ia, pois, terminado em glória o tormentoso reinado sem a aventura militar em que por fim precipitava o Reino, acedendo a pressões inglesas para se imiscuir também, como aliado, no imbróglio inextricável da Guerra de Sucessão de Espanha, em que rigorosamente não se pleiteavam vitais interesses materiais ou políticos para a Nação, nem mesmo a defesa do seu território ou da honra nacional, que, pelo contrário, ficavam sob a permanente ameaça das contingências duma guerra, sempre imprevisíveis. Aderindo à tripla aliança anglo-austro-holandesa contra o bloco bourbónico franco-espanhol, D. Pedro obrigava-se, por acordo de 1703, a fornecer aos aliados um exército de 28 000 homens e, pior que tudo, à cedência do próprio território pátrio para teatro de operações, como a melhor base estratégica de invasão da Espanha. Favorável de começo a campanha, pelos êxitos efémeros do exército do marquês das Minas na sua marcha e entrada triunfal em Madrid (1706), evoluiria em breve desastrosamente para os aliados, depois da sua decisiva derrota na batalha de Almansa, em Espanha (1707), a que se seguiu a contra-ofensiva espanhola sobre Portugal, em cujas fronteiras, forçosamente desguarnecidas, a batalha do Caia foi outra--derrota para o exército anglo-português. Em suma, por sua morte, em 1706, o rei, cognominado Pacífico, deixava ao sucessor, com várias praças do Alentejo ocupadas por espanhóis, o encargo de liquidar uma guerra inglória e dispendiosa que, no reinado seguinte, se arrastaria por mais seis anos e de que a única vantagem positiva para a Nação, pelo Tratado de Paz de Utreque, ratificado em 1713 com a França e em 1715 com a Espanha, viria a ser a de se ter salvo, ao menos, a integridade dos seus domínios do Ultramar. Em reinado de tão tumultuária política interna e externa, a actividade cultural da Nação não sofreu, todavia, o colapso ou afrouxamento que seria de esperar, quer na expressão literária, em que fulgurara o talento dum António Vieira, mestre e renovador da língua, quer nas artes plásticas, pintura religiosa e arquitectura religiosa e civil, em que o barroquismo seiscentista, com toda a sua sobrecarga de decoração ornamental, teve entre nós e no Brasil o seu período áureo e de carácter tão inconfundivelmente nacional como o manuelino, no século XVI. Ficha genealógica: D. PEDRO II nasceu em Lisboa, a 26 de Abril de 1648, e faleceu em Lisboa a 1 de Dezembro de 1706; tendo dido sepultado no Mosteiro de S. Vicente de Fora. Do seu primeiro casamento, com a cunhada D. Maria Francisca Isabel de Sabóia, teve: 1. D. Isabel Luísa Josefa (n. em Lisboa, a 6 de Janeiro de 1668; f. no palácio de Palhavã, a 21 de Outubro de 1690; sepultada no Convento das Francesinhas, erigido por sua mãe, e transladada para o Mosteiro de S. Vicente de Fora). Foi herdeira presuntiva do Reino entre 1668 e 1689, tendo-se malogrado o projecto de consórcio com Vítor Amadeu de Sabóia. Do segundo casamento de D. Pedro II, com D. Maria Sofia de Neuburg (n. em Brewath, a 6 de Agosto de 1666; f. em Lisboa, a 4 de Agosto de 1699; sepultada no Mosteiro de S. Vicente de Fora), filha de Filipe Guilherme de Neuburg, eleitor palatino do Reno, e de sua mulher Isabel Amália, nasceram os seguintes filhos: 2. D. João (n. em Lisboa, a 30 de Agosto de 1688; f. em 17 de Setembro seguinte; sepultado em S. Vicente de Fora); 3. D. João, que herdou o trono; 4. D. Francisco Xavier José António Bento Urbano (n. em Lisboa, a 25 de Maio de 1691; f. na quinta das Gaeiras, em Óbidos, a 21 de Julho de 1742; sepultado no Mosteiro de S. Vicente de Fora). Foi 7 ° duque de Beja, grão-prior do Crato e senhor do Infantado. Morreu solteiro e sem descendência. 5. D. António Francisco Xavier José Bento Teodósio Leopoldo Henrique (n. em Lisboa, a 15 de Março de 1695; f. em Lisboa, a 20 de Outubro de 1757; sepultado no Mosteiro de S. Vicente de Fora). Morreu solteiro e sem descendência; 6. D. Teresa Maria Francisca Xavier Josefa Leonor (n. em Lisboa, a 24 de Fevereiro de 1696; f. em Lisboa, a 16 de Fevereiro de 1704; sepultada no Mosteiro de S. Vicente de Fora); 7. D. Manuel José Francisco António Caetano Estêvão Bartolomeu (n. em Lisboa, a 3 de Agosto de 1697; f. na quinta de Belas, em igual dia de 1736; sepultado no Mosteiro de S. Vicente de Fora). Morreu solteiro e sem descendência; 8. D. Francisca Josefa (n. em Lisboa, a 30 de Janeiro de 1699; f. na mesma cidade, em 15 de Julho de 1736; sepultada no Mosteiro de S. Vicente de Fora). Morreu solteira. Fora dos dois consórcios, D. Pedro II teve os seguintes filhos: 9. D. Luísa (n. em Lisboa, a 9 de Janeiro de 1679; f. em Évora; a 23 de Dezembro de 1732; sepultada no Convento de S. João Evangelista, dos cónegos seculares da mesma cidade), filha de D. Maria da Cruz Mascarenhas. Foi criada na família do secretário de estado Francisco Correia de Lacerda, e depois no Mosteiro de Carnide, junto de sua tia D. Maria (veja-se supra, 1, 8). Casou com D. Luís e, em seguida, com D. Jaime de Melo, respectivamente, 2 ° e 3 ° duques de Cadaval. 10. D. Miguel (n. em Lisboa, a 15 de Outubro de 1699; f. afogado no Tejo, a 13 de Janeiro de 1724; sepultado no Convento de S. José de Ribamar), filho da francesa Ana Armanda Du Verger. Foi reconhecido por D. João V como seu irmão e casou em 1715 com D. Luísa Casimira de Nassau e Ligne, herdeira da casa de Arronches. 11. D. José (n. em Lisboa, a 6 de Maio de 1703; f. em Ponte de Lima, a 3 de Junho de 1756; sepultado na sé arquiepiscopal de Braga), filho de D. Francisca Clara da Silva, foi aluno da Universidade de Évora e ali obteve o grau de doutor em Teologia. Arcebispo de Braga em 1739, foi sagrado em 5 de Fevereiro de 1741 e entrou naquela sé em 23 de Julho seguinte. Fontes: Carlos Selvagem e Hernâni Cidade, Cultura Portuguesa, 10, Lisboa, Editorial Notícias, 1973 Joaquim Veríssimo Serrão História de Portugal, Volume V: A Restauração e a Monarquia Absoluta (1640-1750), Lisboa, Verbo, 1980 Guerra da Sucessão Espanhola A Guerra da Sucessão Espanhola disputou-se entre 1702 e 1714, pelo direito de sucessão da coroa espanhola, depois da morte do último monarca da casa de Habsburgo, Carlos II de Espanha. A guerra foi motivada pela morte precoce de José Fernando da Baviera, Príncipe das Astúrias, que levou à ascensão de Filipe V, neto do rei Luís XIV, ao trono da Espanha, que lhe fora legado pelo testamento de Carlos II (1700). Uma aliança anglo-luso-alemã, entretanto, insurgiu-se para evitar a união dinástica de França e Espanha. Nessa guerra, a França enfrentou ao mesmo tempo a Áustria, a Inglaterra, Portugal e as Províncias Unidas. A luta caracterizou-se inicialmente por vitórias parciais francesas na Itália (1702) e na Alemanha (1703). Depois, houve constante pressão sobre o território francês, especialmente na regiões do Flandres e Artois. Ali, tropas inglesas e holandesas, comandadas pelo duque de Marlborough, capturaram diversas praças fortificadas francesas, além de obterem importantes vitórias em campo aberto, como em Ramilles. Porém, uma das batalhas mais decisivas foi travada longe dali, em Blenheim (1704), na Baviera. Logo se seguiram reveses sérios: a invasão da Espanha pelo arquiduque Carlos (1707) e a derrota de Audenarde (Oudenarde), que abriu caminho para a invasão do norte da França, contida por Villars na batalha de Malplaquet (1709) e na vitória de Denain (1712). Embora a França tenha sofrido sucessivos revezes, a retirada prematura do exército britânico, devido a questões políticas internas, permitiu à França se levantar, batendo os austro-holandeses, comandados por Eugénia de Sabóia, em Denain. O partido dos Bourbons acabou por sair vencedor. Os tratados de Utrecht (1713), de Rastatt e de Baden (1714) puseram fim ao conflito. O primeiro desses tratados contribuiu fundamentalmente para o crescimento do poderio marítimo e colonial da Inglaterra. Os desdobramentos do conflito para Portugal A 30 de Abril de 1704, Filipe V de França declarou guerra a Portugal, iniciando-se uma etapa do conflito na península Ibérica. A 7 de Novembro de 1712, Portugal assinou armistícios com a Espanha e com a França. Posteriormente, assinou o Tratado de Paz com a França (1° Tratado de Utrecht, 11 de Abril de 1713), obtendo a completa renúncia gaulesa às possessões portuguesas na margem esquerda do rio Amazonas, no Estado do Brasil. O processo seria concluído com a assinatura do Tratado de Paz com a Espanha (2° Tratado de Utrecht, 6 de Fevereiro de 1715). Em 1703, Portugal e a Inglaterra assinaram o Tratado de Methwen, onde as trocas comerciais entre os dois países foram regulamentadas. Ficou estabelecido um regime especial para a entrada de vinhos portugueses em Inglaterra. A exportação de vinho conheceu então um novo incremento.

D. João V - O Magnanimo - 24º Rei de Portugal Reinou 44 anos

Tendo falecido José Iº, imperador da Alemanha, foi chamado a ocupar quele lugar seu irmão o Arquiduque Carlos que, por isso, se desinteressou das antigas pretensões ao trono de Espanha. Seguidamente a este acontecimento, um congresso reunido em Utreque (Holanda) – que pôs termo à guerra da Sucessão, sem qualquer benefício para Portugal – reconheceu os direitos de Filipe de Anjou, aclamando-o rei de Espanha, em 1713. D. João V, para satisfazer um pedido do Papa Clemente XI, enviou em socorro da Itália, ameaçada pelos turcos, uma poderosa esquadra comandada pelo Conde do Rio Grande. Esta armada, em cooperação com outros navios de diferentes nacionalidades, derrotou a esquadra turca em 1717. No reinado anterior (D. Pedro IIº), tinham sido descobertas no Brasil, importantes jazidas de ouro e de diamantes. Com a abundância desse rendimento, parte, do qual vinha para Portugal, pode D. João V realizar importantes obras que muito contribuíram para o desenvolvimento das belas artes portuguesas, como: - O Convento de Mafra, em que chegaram a trabalhar 50 mil pessoas; as suas torres possuem 114 sinos ; Capela de São João Baptista; Igreja das Necessidades; Casa da Moeda; Paço de Vendas Novas; Basílica Patriarcal de Lisboa; etc. Com esse dinheiro, subsidiou a construção do Aqueduto das Águas Livres de Lisboa, pago, todavia, na maior parte, pela Câmara de Lisboa. Tem 18.065 metros de comprimento, 127 arcos de cantaria e levou 66 anos a construir. Destinava-se a conduzir as águas para o consumo de Lisboa. A este rei, se deve também a fundação da Academia Real de História Portuguesa; a Academia de Portugal, em Roma; da Biblioteca da Universidade, em Coimbra , etc. O papa Benedito XIV agraciou D. João V com o título de “Fidelíssimo”, qua passaria aos seus sucessores e honrou a Sé de Lisboa com a dignidade de Patriarcal. Seus restos mortais encontram-se na Igreja de São Vicente de Fora, em Lisboa. Vigésimo quarto rei de Portugal, nasceu em Lisboa em 1689; filho de D. Pedro ll e de sua segunda mulher, D. Maria Sofia Isabel de Neuburgo. Os primeiros anos do seu reinado ficaram assinalados pelas derrotas nas Batalhas de Almansa em 1707 e de Caya em 1709, e pelo saque do Rio de Janeiro (Brasil) pelo francês Duguay-Trouin. Em 1713, o Tratado de Utrcht (Holanda) pôs termo à "Guerra da Sucessão" de Espanha, sem conceder a Portugal a menor compensação. D. João V, exerceu o governo absoluto e nunca se dignou reunir Cortes. Provenientes das minas de ouro e de diamantes do Brasil, entraram em Portugal, durante este reinado, incalculáveis riquezas, mas, em vez de as empregar em benefício e no desenvolvimento da indústria e da agricultura, foram estas riquezas esbanjadas em doações a igrejas e a mosteiros, e, em prodigalidades insensatas. A edificação do Convento de Mafra, custou-lhe 120 milhões de cruzados; as quantias enviadas para Roma (Vaticano), em pagamento de indulgências, canonizações e outros, como embaixadas, passaram dos 200 milhões. O luxo da sua Corte era esplendoroso, só comparado na Europa à Corte Francesa do Rei Sol. Quando foi preciso construir uma obra tão necessária ao povo, como o Aqueduto das Águas Livres (Lisboa), o povo teve de contribuir com um novo e pesado imposto. A fundação da Academia Real de História, do Arsenal da marinha, da Casa da Moeda e de umas poucas fábricas industriais, não basta para reabilitar este grande gastador e esbanjador de fortunas, como fez no seu reinado. Jaz em São Vicente de Fora. B R A S I L (entre 1640 e 1750) Em 1648, o exército holandês que havia assentado praça em algumas partes do Brasil, foi derrotado na Baía, e, no seguimento destas escaramuças, em 1648 e 49, nas duas Batalhas de Guararapes, foram completamente expulsos do norte do Brasil. Uma expedição comandada por Salvador Correia de Sá e Benevides, libertou não só o Rio de Janeiro, como também atravessou o Atlântico e libertou Angola e São Tomé e Príncipe. Finalmente, os holandeses capitularam em 1654, em Taborda (Brasil). Foram trinta anos de resistência heróica, em que o principal papel coube à própria população brasileira, aos portugueses, pretos, índios e mestiços. De entre outros, salientaram-se Matias de Albuquerque, Vidal de Negreiros, Fernando Vieira, Filipe Dias, Camarão e muitos outros. Entretanto, as guerras europeias não havia distraído os portugueses do povoamento do interior brasileiro, assim como Paraíba, parte de Sergipe, Rio Grande do Norte. Também foram criadas novas capitanias no Ceará, Piauí e Maranhão. Alexandre de Moura fundou a cidade de Belém. As bandeiras paulistas avançaram em Minas Gerais e chegaram a Goiás, entrado nas bacias hidrográficas do Panará, do Paraguai e do Amazonas. No começo do século XVll, já havia nestes lugares população, não só portuguesa, como também de sertanejos. Logo a seguir deu-se a Batalha dos Emboamas, seguindo-se a chamada Guerra dos Mascates. Em 1710, Luís XlV de França, mandou um capitão de sua confiança, de nome Duclerec, com cinco navios e 1.700 soldados, tomar o Rio de Janeiro, que na altura contava com 12 mil habitantes, mas foi completamente derrotado. Mas, para vingar este desaire, no ano seguinte, foi mandado pelo rei francês, Duguay-Trouin, que bombardeou violentamente o Rio de Janeiro, conseguindo em 1680, a sua rendição e um pesado resgate. Mais tarde, em 1704, o Rio de Janeiro voltou a ser brasileiro. DESENVOLVIMENTO DO BRASIL Brasil não se podia desenvolver-se economicamente sem abundância de mão-de-obra. Os primeiros colonos haviam tentado resolver o problema com a escravização dos Índios. Mas, a breve trecho, verificaram que o trabalho do índio era pouco remunerador, pela sua indolência natural, o seu espírito de independência, a sua inadaptibilidade aos trabalhos agrícolas. Por outro lado, a protecção que encontraram junto aos jesuítas, defensores intemeratos da sua liberdade, era motivo constante de lutas com os missionários. Esta situação levou os povoadores a procurarem mão-de-obra de outra procedência - a de África - de onde começaram a chegar, em levas sucessivas, numerosos escravos negros, que passaram a labutar nos campos, nos engenhos de açúcar, nas fábricas, nas casas particulares; em toda a parte onde havia trabalho a realizar. A mancha negra alastrou por todo o Brasil, que os escravos africanos ajudaram a desbravar, a enriquecer, a cultivar. Tornaram-se, por fim libertados, parte integrante da população brasileira, com a qual se haviam misturado e confundido. No entretanto, aumentava o conhecimento do país, cujo interior permanecera, durante muito tempo, fechado à penetração dos portugueses, que temiam as suas florestas tenebrosas, as suas tribos de índios ferocíssimos, os perigos das feras, a braveza da selva. Expulsos, porém, os franceses e os holandeses, aumentada a população, acrescida a prosperidade económica, os portugueses lançaram-se à conquista de novos territórios e, depois, penetraram ousadamente no interior, levados pela ânsia de devassar os seus segredos. A conquista territorial levou os portugueses a estabelecerem-se em Paraíba, em Sergipe, no Rio Grande do Norte, no Pará, no Amazonas, no Piauhy, onde levantaram fortalezas, cidades, vilas, aldeamentos. Por toda estas paragens surgiram fazendas laboriosas, granjas modelares, campos cerealíferos, pomares, engenhos de açúcar. Em seguida, iniciaram a avançada para o sertão. Esta epopeia pertence aos "bandeirantes", ou grupos de aventureiros arrojados que marchavam ao som do tambor, conduzidos pela bandeira que flutuava na frente. Assim, penetraram na selva, em caminhadas dolorosas que, a pouco e pouco, os levaram ao conhecimento rigoroso dos confins do Brasil. Os "bandeirantes" foram os verdadeiros exploradores do interior brasileiro, que conseguiram devassar lentamente. Romperam através do mato. Combateram os índios e as feras. Resistiram às ciladas dos indígenas, à hostilidade do clima, à fome e ao cansaço. Domaram a força das correntes, atravessaram os rios e desvendaram, por fim, todos os segredos da terra brasileira. Os "bandeirantes" mais célebres foram os habitantes de São Paulo, cidade fundada pelos jesuítas. Eram homens arrojados, valentes, laboriosos. Dotados destas qualidades, meteram-se pelo interior, chegaram ao Amazonas, ao Rio da Prata, ao Paraguai, a mato Grosso. Bandeirantes ousados partiram também de Parnaíba e Taubaté. Foram ainda os "bandeirantes" que encontraram as minas de ouro e pedras preciosas, que se dizia existirem no interior da Brasil e eram procuradas desde a época distante da descoberta. Um dos "bandeirantes" que mais contribuiu para a descoberta do ouro, foi Fernão Dias Pais Leme, corajoso paulista, ao qual o governador geral do Brasil havia passado a carta patente de "Governador das Esmeraldas". Partiu em 1670 de São Paulo, acompanhado de seu filho Garcia Pais, do genro, Borba Gato, e de numerosos escravos. Errou durante sete anos pelo sertão. De vez em quando, parava, semeava milho, colhia a mandioca, esperava a colheita. Depois, provido de mantimentos, prosseguia a jornada fatigante. Em certa altura, Pais Leme, encontrou belas pedras esverdeadas. Convencido de que deparava com as decantadas esmeraldas, voltou com as amostras para as entregar ao governador geral. Mas morreu no caminho, minado de febres. Veio depois a verificar-se que se tratava de turmalinas sem importância. Borga Gato ficou, porém, no sertão. Continuou as pesquisas no zona do Rio das Velhas e verificou que o ouro apresentava cor semelhante ao aço por temperar. Era o famoso "ouro preto", que veio mais tarde a dar nome à povoação de "Ouro Preto", estabelecida na região, denominada por sua vez, de Minas gerais. As pedras preciosas encontravam-se, mais tarde, em plena zona aurífera. A notícia da descoberta do ouro provocou verdadeiro deslumbramento. Os colonos, seduzidos pela miragem de riqueza rápida, abandonaram as culturas, reuniram os escravos e partiram para o interior, ao mesmo tempo que Portugal se despovoava e seguia o mesmo rumo. Foi tal a loucura que teve que ser proibida a saída de gente de Portugal para o Brasil, por decreto de D. João V. No entanto, começava a extracção que o governo procurou regularizar. Impôs a ordem aos aventureiros, que se batiam em pugnas sangrentas, e começou a cobrar um quinto do metal e diamantes extraídos. A política mercantilista do conde da Ericeira continuou a dominar durante o reinado de D. João V, que procurou dotar o reino de indústrias prósperas. Para isso recomendou aos seus representantes no estrangeiro, que fizessem pesquisas sobre inovações realizadas no campo dos ofícios e das artes e ordenou a compra de modelos e segredos industriais. As realizações de D. João V foram numerosas: Protegeu as fábricas de lanifícios da Covilhã. Transformou a indústria de vidros, que começou a laborar na Marinha Grande. Fundou uma fábrica de papel na Lousã. Criou indústrias de sedas, tapetes, peles e outras. O Marquês de Pombal seguiu rumo idêntico: Fundou fábricas novas e reformou algumas das já existentes. Mas muitas destas indústrias desapareceram logo que a protecção do Estado deixou de as amparar. Outras impuseram-se com o tempo, progrediram lentamente e vieram a converter-se em laboriosos centros de trabalho. De harmonia com este plano, o Marquês de Pombal, este foi completado com a instituição de poderosas companhias, às quais concedeu o monopólio de determinadas transacções. A sua actividade neste sentido começou, ainda antes do terramoto de Lisboa (1755), com a "Companhia do Grão-Pará e Maranhão", isto em 1753, à qual deu exclusivo do comércio naquelas paragens brasileiras e a faculdade de só ela poder introduzir escravos no Brasil e fabricar pólvora. Seguiram-se outras empresas, como: "Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto-Douro (1756), que ficou com o monopólio do comércio de vinhos, aguardentes e vinagres, a exportar da cidade do Porto para o Rio de Janeiro e outros portos brasileiros; em 1759 a "Companhia de Pernambuco e Paraíba", que montou no Brasil numerosos engenhos de açúcar, servidos por escravos negros; a "Companhia para a pesca das costas do Brasil"; " "Companhia geral das reais pescas do Algarve; etc. Todos estes monopólios atacados pelos pequenos capitalistas e comerciantes, cujos interesses prejudicavam, desapareceram, quando o Marquês de Pombal deixou o poder. Apenas se manteve a "Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto – Douro", depois de cerceados os privilégios de que gozava, por decreto da rainha D. Maria l. João V. O Magnânimo. - 24.° rei de Portugal. N. em Lisboa a 22 de Outubro de 1689, onde também fal. a 31 de Julho de 1750. Era segundo filho de D. Pedro II, e de sua segunda mulher, a rainha D. Maria Sofia Isabel de Neuburgo. Falecendo seu irmão mais velho, do mesmo nome João, a 30 de Agosto de 1688, tendo apenas um mês de vida, foi proclamado príncipe herdeiro em 1 de Dezembro de 1697, em acto solene na presença da corte, e por morte de seu pai, em Dezembro de 1706, subiu ao trono, sendo solenemente aclamado no dia 1 de Janeiro de 1707. Em 1696 fora armado por seu pai cavaleiro da ordem de Cristo. No Anno Historico, do padre Francisco de Santa Maria, vol. I, pág. 12 e seguintes, vem uma descrição minuciosa desta cerimónia e das festas que então se realizaram. D. .João V herdou de seu pai uma guerra que ia começar a ser desastrosa, a da Sucessão de Espanha. Os pretendentes eram o arquiduque Carlos e duque de Anjou, neto de Luís XIV, Filipe V. A Espanha aceitava a realeza de Filipe V, e D. Pedro II, de Portugal, aliara-se com os ingleses e os austríacos a favor do arquiduque. O duque Berwick, um dos generais de Filipe V, tinha na sua frente o general português marquês dás Minas, que na campanha de 1706 atravessou a Espanha e entrou vitorioso em Madrid, onde fez aclamar o arquiduque com o nome de Carlos III. Mas a vontade decidida de Espanha de querer Filipe V para seu rei, era muito poderosa. As províncias intermediárias entre Madrid e Portugal sublevaram-se em massa, ao mesmo tempo Luís XIV, por um esforço desesperado, reforçava as forças do duque de Berwick, e o marquês das Minas achava-se em Madrid cortado da fronteira portuguesa. Outro general do arquiduque, lorde Peterborough, desembarcara na província de Valência da qual tomara posse, e o marquês das Minas, obrigado a abandonar Madrid, em vez de se retirar para Portugal, foi para Valência. O duque de Berwick seguiu-o desejoso de dar batalha nas planícies dessa parte da Espanha, por causa da grande superioridade da sua cavalaria. O marquês das Minas desejava evitá-la, por isso mesmo, mas lorde Galloway, comandante das tropas auxiliares inglesas, insistiu para que se travasse a luta. Deu-se então a batalha de Almanza a 25 de Abril de 1707, em que ficou vencedor o partido de Filipe V. O marquês das Minas deixou sob o comando do conde de Atalaia um pequeno exército português agregado ás tropas inglesas, e veio para Portugal. A guerra daí em diante foi apenas uma série de combates de pouco valor nas fronteiras, sendo o facto mais importante a defesa de Campo Maior, em 1711, ultima façanha da guerra da Sucessão de Espanha, em que Portugal se envolvera: A guerra expôs à perseguição dos franceses a nossa marinha e as nossas colónias. Em 1710 organizou-se em Brest uma pequena esquadra para atacar o Rio de Janeiro, mas o comandante, Mr. du Clerc, ficou derrotado caindo em poder dos portugueses. Esta notícia causou a maior satisfação em Lisboa, e celebrou-se um solene Te-Deum na capela real a que assistiu el-rei e toda a régia família. No ano seguinte, 1711, uma outra esquadra, comandada pelo célebre marítimo Du Guay-Trouin, veio atacar o Rio de Janeiro, e vingou cruelmente o desastre do seu compatriota du Clerc, apesar da forte resistência, oposta pelo governador Francisco de Castro de Morais. A cidade foi posta a saque. Finalmente, em 1715 assinou-se o tratado de Utrecht entre as diversas potências beligerantes, que trouxe a paz à Europa. Nesta luta foi Portugal que menos aproveitou, porque nenhumas compensações obteve por tantos e tão cruéis sacrifícios. Enquanto durara a guerra com a Espanha e a França, deu se o casamento de el-rei D. João V com a arquiduques D. Maria Ana de Áustria, filha do imperador Leopoldo, irmã do imperador José, então reinante, e do imperador Carlos VI. Foram assombrosas as solenidades que se realizaram em Viena e depois em Lisboa à chegada da nossa rainha. O conde de Vilar Maior, Fernando Teles da Silva, foi encarregado, como embaixador extraordinário, de ir pedir em casamento a arquiduquesa. O embaixador chegou a Viena a 21 de Fevereiro de 1705, e antes de fazer a sua entrada. pública, recebeu audiência particular do imperador, da imperatriz sua mulher e da imperatriz viúva; dias depois também lhe foi concedida audiência das arquiduquesas. A entrada oficial demorou-se algum tempo, porque o embaixador português esperava que de Holanda lhe chegassem alguns coches e cavalos, que deviam figurar no acto solene. No dia 7 de Junho é que se realizou a imponente cerimónia da apresentação. O conde de Vilar Maior saiu de Inzerstorff, para onde partira na véspera, e entrou em Viena com todo o aparato; aí o esperava o conde Waldestein, marechal da corte, o qual o conduziu com dois coches do imperador, e mais 42, tirados a seis cavalos, mandados pelos cavalheiros principais da corte com os seus gentis-homens. 0 cortejo era imponente; passou pelo paço da Favorita, em cujas janelas se viam o imperador José, as imperatrizes e as arquiduquesas, e seguiu até ao palácio do embaixador português. No dia seguinte, o conde Gundacharo Poppone de Dietrichstein, com os mesmos dois coches do imperador, foi buscar o conde de Vilar Maior, Fernando Teles da Silva, para a conduzir ao paço da Favorita, à audiência pública dos imperadores reinantes, e pouco depois ao paço de Viena, onde também foi recebido em audiência pela imperatriz viúva e pelas arquiduquesas. No dia 21 de Junho é que no paço da Favorita, em solene audiência foi pedida em casamento a arquiduquesa D. Maria Ana, em nome de el-rei de Portugal D. João V. Repetiu-se depois a mesma cerimónia no paço da imperatriz viúva. O embaixador entregou à futura rainha o retrato de D. João V, guarnecido de diamantes de grande valor. Neste mesmo dia se assinou o contrato de casamento. À noite houve baile no Paço, e no dia seguinte realizou-se no palácio do embaixador um magnífico cortejo, a que assistiu toda a corte austríaca. Em 9 de Julho efectuou-se a cerimónia nupcial, sendo o imperador quem recebeu a rainha por procuração do rei de Portugal; foi celebrante o cardeal de Saxónia Zeits, a quem o conde embaixador presenteou com um dos seus coches, tirado a seis cavalos, presenteando também com diversas dádivas todos os demais capelães que assistiram à solenidade. Na viagem para Portugal tocou em diversos portos, realizando-se sempre pomposas festas, até que em 26 de Outubro chegou a Lisboa, onde teve uma imponentíssima recepção. No paço da Ribeira houve serenatas e músicas. No Terreiro do Paço queimaram-se fogos de artifício, e armou-se um anfiteatro, onde em três tardes sucessivas se realizaram corridas de touros. No dia 22 de Dezembro, seguidas dum pomposo cortejo, foram as pessoas reais e toda a corte à Sé, onde se cantou um solene Te-Deum. No Anno Histórico do Padre Francisco de Santa Maria, vol. II, pág 334 e seguintes, vêem minuciosamente descritas as esplêndidas festas, os deslumbrantes cortejos e cerimónias, que se realizaram em Viena de Áustria e em Lisboa, assim como a descrição do dote da rainha. do contrato do casamento, e de muitas ofertas feitas pelo imperador da Áustria às pessoas que compunham a embaixada portuguesa. Em Lisboa houve por esta época uma notável contenda com os embaixadores das principais potências, que insistiam para terem umas franquias incompatíveis com o regular andamento da justiça. D. João V foi sempre muito enérgico em todas estas contendas com os ministros estrangeiros, mantendo as prerrogativas da Coroa e as preeminências marcadas pela etiqueta com a mais severa austeridade. Também pode dizer-se que em poucas épocas teve Portugal diplomatas tão hábeis como no tempo de. D. João V, em que se encontram os nomes de D. Luís da Cunha, Diogo de Mendonça Corte Real e de Alexandre de Gusmão. O monarca era extremamente devoto, e dessa exagerada devoção resultou intervir Portugal numa guerra entre o papa, os venezianos e os turcos. Em 1716 enviou em socorro do papa uma luzida esquadra, comandada pelo conde do Rio Grande, que tomou parte na gloriosa vitória do cabo Matapan, mas que sobrecarregou a fazenda com uma despesa enorme. Descuidava das causas urgentes do país, e despendia largas e fabulosas somas com a cúria romana, com igrejas e monumentos religiosos. Construiu o grandioso convento de Mafra que custou 120 milhões de cruzados; a capela de S. João Baptista na igreja de S. Roque, obra riquíssima que se construiu em Roma pelo desenho de Vanvitelli, e enquanto se não concluiu, D. João V mandava repetidas vezes importantes quantias exigidas pelo papa, então Benedito XIV. Em 1744 ficou pronta a capela, que se armou dentro da igreja de S. Pedro, e depois de sagrada em 15 de Dezembro do referido ano, o papa oficiou de pontifical. El-rei, por esta distinção feita à sua devota capela, presenteou o pontífice com 100.000 cruzados. Em 1746 foi toda desarmada e cuidadosamente encaixotada, transportando-se assim para Lisboa, sendo acompanhada por alguns dos artistas que tinham trabalhado na obra e do escultor afamado Alexandre Giusti, que nunca mais abandonou Portugal. Quando a capela chegou a Lisboa, achava-se D. João V gravemente doente, e já não pôde ver realizada a sua monumental obra, porque faleceu pouco tempo depois. A capela somente se colocou em S. Roque já no reinado de D. José, em 13 de Janeiro de 1751. No vol. XI do Gabinete Historico, de Fr. Cláudio da Conceição, vem descrita a história da capela de S. João Baptista na igreja de S. Roque e de todas as suas grandiosas riquezas. D. João V engrandeceu bizarramente a capela real que ele elevou a uma sumptuosa patriarcal com um numeroso cabido, musicas e cantores. (V. Patriarcal). Dividiu Lisboa em duas partes: Lisboa Oriental e Lisboa Ocidental; a primeira metropolitana e a segunda patriarcal. As negociações para a concessão desta igreja custaram também importantíssimas somas, que se enviaram à Cúria romana; conseguiu igualmente do Papa a 22 de Dezembro de 1748, a troco de grandes dádivas, a denominação de rei fidelíssimo para si e para os seus descendentes, considerando assim como a maior glória da sua raça o ter sido sempre fiel à Santa Sé. As prodigalidades deste monarca eram extraordinárias; enriqueceu os conventos, deu dinheiro ilimitado aos fidalgos; nos últimos anos da sua vida mandou rezar para cima de 700.000 missas; por urna imagem que o papa benzeu, de prata dourada, deu 120.000 cruzados; para Jerusalém mandou 1.377 cruzados; fundou o convento do Louriçal dotando-o com 6.000 cruzados, e deu-lhe muitas alfaias e pratas; ceou dois bispados no Brasil; mandou para diferentes igrejas do estrangeiro alfaias e adornos de incalculável valor; em indulgências e canonizações enviou para Roma perto de 1,38 milhões de cruzados; na missão que foi a Roma assistir a um conclave gastou-se para cima de dois milhões de cruzados; ao núncio Bichi, quando se retirou de Lisboa, mandou dar-lhe 1.000 moedas para ajuda da viagem; ao cardeal Oddi deu-lhe uma caixa de brilhantes no valor de 20.000 cruzados, etc. Apesar da sua exagerada devoção, não tinha escrúpulo em profanar a clausura das virgens do Senhor, o que lhe adquiriu o titulo de rei freirático, transformando, por exemplo, o convento de Odivelas, sustentando escandalosamente os seus amores com a madre Paula, freira sua predilecta. O que bastante ilustra este reinado foi a edificação do Aqueduto das Aguas Livres, melhoramento de grande importância (V. Águas Livres, aqueduto das), e a fundação da Academia Real da História Portuguesa, pelo decreto de 8 de Dezembro de 1720. Esta Academia tinha por fim escrever a história eclesiástica destes reinos, e depois tudo o que pertencesse à história deles e de suas conquistas. (V. Academia Real da História Portuguesa). Também neste reinado se deu muita atenção aos estudos de cirurgia; em 1715 foi impressa a tradução da Cirurgia de Le Clerc; em Abril de 1731 estabeleceu-se no hospital real de Todos os Santos uma escola cirúrgica, dando as lições Isaac Eliot com cirurgiões de partido, aos quais el-rei assignou o vencimento de um tostão por dia. No Porto estabeleceu-se em 1746 a Academia Cirúrgica Protótipo Lusitânica Portuense (V. este nome), cujos estatutos foram aprovados por D. João V. Na Historia dos Estabelecimentos scientificos, litterarios e artisticos, de José Silvestre Ribeiro, vol, I, pág. 174 e seguintes, encontram-se notícias circunstanciadas acerca desta academia. D. João V tinha constante desvelo em favorecer os autores pobres, habilitando-os a publicar os seus escritos, que sem a protecção do monarca, ficariam por imprimir. Se alguma obra lhe era indicada como excelente, e já rara, não hesitava em a mandar reimprimir. Foi assim que se publicou a Historia Genealogica da Casa Real Portugueza, por D. António Caetano de Sousa; O Vocabulario portuguez e latino de Bluteau; o Corpus poetarum lusitanorum, do padre António dos Reis, e outras muitas obras. Reuniu, com grande dispêndio, uma rica livraria no seu palácio, bem como numerosos e interessantes objectos de estudo. D. António Caetano de Sousa dá curiosas notícias a este respeito: «Assim tem, diz ele, uma numerosa e admirável livraria, que se vêem as edições mais raras, grande número de manuscritos, instrumentos matemáticos, admiráveis relógios, e muitas outras coisas raras que ocupam muitas casas e gabinetes. Não havia no Paço mais que um pequeno resto da Livraria antiga da Sereníssima Casa de Bragança: El-rei o fez colocar em esta Real biblioteca, que se compõe de muitos mil volumes, que quase não cabem no grande edifício chamado o Forte.» Determinou ao seu enviado junto à Santa Sé, Manuel Pereira de Sampaio, que formasse uma colecção de tudo quanto pudesse descobrir nas bibliotecas da Cúria Romana, que dissesse respeito à história do reino. Do cumprimento desta ordem proveio talvez a colecção que tem o título de Symmicta Lusitanica, que existe na Biblioteca Real da Ajuda, excedente a 200 volumes. A Sebastião José de Carvalho, quando foi ministro plenipotenciário na Grã-Bretanha, ordenou que reunisse uma colecção de bíblias hebraicas, e de tudo quanto pertencesse a seus ritos, leis, costumes e polícia, em qualquer das línguas vivas. Aquela preciosa colecção chegou a Lisboa no ano de 1743. Por este tempo foi Martim de Mendonça nomeado bibliotecário de el-rei e adiantou este ramo de erudição, mandando vir obras da mesma natureza na língua original, em que era muito versado. Para aumentar a Biblioteca Real sustentou o soberano muitos amanuenses fora do país por alguns anos. Para o mesmo fim fez comprar diversas colecções de livros, tiveram ordem os livreiros Gendeon e Reycend de mandar vir os que pudessem alcançar. Destes livros repartiu el-rei com as bibliotecas das Necessidades e de Mafra, por sua ordem se abriram nesta última casa, em Janeiro de 1731, escolas públicas, com sete cadeiras. Em Outubro deste mesmo ano chamar a Lisboa Martim de Pina de Proença, para formar o catálogo da livraria real, na ocasião em que tinham chegado 20.000 volumes. A Universidade de Coimbra não possuía uma casa competente para acomodação duma livraria. 0 reitor Nuno da Silva Telles solicitou e obteve do soberano a permissão de construir um bom edifício. A provisão régia, que deu esta licença, tem a data do de 31 de Outubro de 1716. A casa da livraria veio a concluir-se, sendo reitor Francisco Carneiro de Figueiroa. D. João V, também elevou a 100$000 réis anuais a verba de 40$000 réis, que a Universidade tinha para a compra de livros. Promoveu os estudos militares, mandando traduzir e imprimir algumas obras de fortificação e artilharia; Assistindo a actos solenes dos exames de tais disciplinas, e decretando em 24 de Dezembro de 1732, que, além da Academia Militar estabelecida na corte, e a da praça de Viana do Minho, se estabelecessem outras academias militares: uma na praça de Elvas e outra na de Almeida. Em 1713 já o monarca havia mandado traduzir e imprimir a Fortificação Moderna, de Pfeffinger. Foi protector e académico, com o título de Pastor Albano, da Academia dos Árcades, de Roma, e ali comprou um sítio em que se estabeleceu a Academia, para se realizarem as suas assembleias. Sobre a porta do edifício está, colocada uma inscrição latina. Esta Arcádia fora fundada em 1690 por alguns poetas célebres. Mandando D. João V vir par a sua igreja patriarcal músicos e cantores italianos, começou em Portugal a influencia da musica italiana. As solenidades que se realizavam naquele sumptuoso templo, eram imponentes, executadas por um coro de 70 cantores, muitos deles escolhidos entre os melhores que se podia encontrar em Itália, dirigidos pelos professores Scarlatti, João Jorge, Jomelli e David Peres, os mais eminentes mestres então conhecidos no referido país. D. João V também mandou vir de Roma cantocanistas e liturgistas, enviando para aquela cidade a estudar alguns pensionistas. De todos os livros do coro usados no Vaticano, mandou tirar cópias para servirem na sua real capela, em observância rigorosa do uso e ritual pontifício. D. João V também prezava a música profana. Os saraus do Paço eram frequentemente entretidos com peças teatrais ornadas de música. As mais antigas representações neste género, de que há notícias, são as festas realizadas em 1711, 1712 e 1713 nos dias dos anos do rei e da rainha. Em 1733 um violinista italiano ao serviço do Paço, Alexandre Paghetti, obteve privilégio para dar representações públicas de óperas no teatro armado junto ao convento da Trindade, em que se cantaram algumas óperas nos anos de 1737 e 1738. No teatro da Rua dos Condes também se cantaram em 1738, 1739 e 1740. D. João V mandou construir um teatro no palácio de Belém, que tinha comprado em 1726 ao conde de Aveiras, e foi este o primeiro teatro régio especialmente construído para esse fim, inaugurando-se a 4 de Novembro de 1739, o monarca instituiu um seminário destinado ao ensino especial da música, organizado à semelhança do de Vila Viçosa, e cujas despesas eram pagas pelas rendas da Capela Real. Tem a data de 9 de Abril de 1713 o decreto que fundou este novo seminário de música, o qual começou logo a funcionar no antigo paço dos arcebispos; pouco depois, para ter mais largueza, foi transferido para o convento de S. Francisco. Em 1729, D. João V casou seu filho, o príncipe D. José, com a princesa espanhola D. Mariana Vitoria, e sua filha, D. Maria Bárbara, com o príncipe das Astúrias, D. Fernando, que depois foi Fernando VI, rei de Espanha. A troca das duas princesas efectuou-se na presença dos dois soberanos das duas cortes, num pavilhão que se ergueu na ponte sobre o rio Caia, exactamente na fronteira dos dois estados, fazendo-se tudo com extraordinária pompa. Em 1742 foi o monarca atingido pelo primeiro ataque de paralisia. Reconhecendo o seu estado melindroso, dedicou-se a Deus, temendo a morte que o esperava. Os frades estimulavam-lhe o fervor religioso, e os físicos lhe aconselhavam o emprego das águas das Caldas da Rainha. D. João V utilizou efectivamente estas águas, acompanhando o tratamento com exercícios devotos e muitas rezas. Fez treze jornadas às Caldas, seguido de frades e de freiras. Em 1717 ordenou que o hospital fosse refundido, ficando as obras concluídas em 1750. Em Julho deste ano piorou consideravelmente, e foi sacramentado. Os frades foram chamados, recitaram-se salmos e jaculatórias, e o núncio veio administrar-lhe o sacramento da extrema unção. 0 rei expirou pouco depois, tendo a seu lado a rainha, o príncipe D. José, os infantes D. Pedro e D. António, o cardeal da Cunha e os médicos da corte. Assim terminou o rei D. João V, deixando pobre o país pelas suas prodigalidades e desperdícios. Deixou também três filhos bastardos, D. António, D. Gaspar e D. José, conhecidos pelos Meninos de Palhavã. Acerca deste monarca escreveu Rebelo da Silva o interessante romance A Mocidade de D. João V. Das amantes fala-se nos seguintes livros: A Caveira da martyr, de Camilo Castelo Branco; 0 mosteiro de Odivellas, de Borges de Figueiredo; As minhas queridas freirinhas de Odivellas, de Bernardes Branco; As amantes de D. João V, de Alberto Pimentel; A Madre Paula, de Rocha Martins. 0 Sr. Artur Lobo de Ávila publicou recentemente no Diário de Notícias um novo romance histórico, com o título de 0 Rei magnífico. Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico, Volume III, págs. 1048-1051. A Batalha de Matapan (actualmente Cabo Tenaro na Grécia) em Abril de 1717. O Rei, para satisfazer a um pedido que lhe fizera o Papa, enviou em socorro da Santa Sé ameaçada pelos Turcos, uma poderosa esquadra comandada pelo Conde de Rio Grande. Nesta batalha, envolveram-se duas esquadras: uma formada a pedido do Papa Clemente XI, na qual estavam 7 embarcações portuguesas e 30 galeras de Malta, Veneza e dos Estados Pontífices; a outra esquadra, formada por 54 galeras, pertencia ao sultão Ahmed de Constantinopla, que tentava expandir seus domínios no Mediterrâneo. Após quase um dia de batalha, os turcos foram derrotados, tendo perdido diversas embarcações e mais de 2000 homens, enquanto que a frota católica perdeu 300 homens. BREVE APRESENTAÇÃO DA ACADEMIA PORTUGUESA DA HISTÓRIA http://www.aph.com.pt A ACADEMIA PORTUGUESA DA HISTÓRIA, instituição científica estatal, criada pelo Decreto-Lei n° 26611, de 19 de Maio de 1936, é a legítima herdeira da mais antiga Academia nacional – a ACADEMIA REAL PORTUGUESA DA HISTÓRIA – fundada por D. João V, conforme decreto de 8 de Dezembro de 1720. Durante dezenas de anos esta instituição desenvolveu uma actividade cultural de grande relevo, como se pode verificar nas magníficas edições, mas, por circunstâncias ainda pouco conhecidas, começou a desagregar-se na segunda metade do século XVIII, acabando por se extinguir naturalmente. Herdeira da figura da História, da divisa Restituet Omnia, para além de parte da obra literária a nova Academia Portuguesa da História começou as suas actividades a 9 de Janeiro de 1938, data da primeira reunião do Conselho Académico. A sua constituição e fins são claramente definidos nos Estatutos, cujo texto refere tratar-se de uma «agremiação de especialistas que se dedicam à reconstituição documental e crítica do passado». Tem a Academia, designadamente, os seguintes fins: a) Realizar a investigação científica da história e tornar públicos os seus resultados; b) Estimular e coordenar esforços tendentes ao rigoroso conhecimento da história nacional, no sentido de esclarecer a contribuição portuguesa para o progresso da Cultura e da Civilização; c) Promover a publicação sistemática de fontes documentais que interessem à História portuguesa; d) Publicar, em língua portuguesa ou em línguas estrangeiras, obras que contribuam para o conhecimento dos factos relacionados com a presença civilizadora de Portugal no Mundo; e) Procurar servir de orientadora dos estudos históricos nacionais; f) Cooperar em tudo o que respeita à inventariação e defesa do património histórico e documental da Nação, emitindo parecer sobre esta matéria sempre que lhe seja solicitado. Hoje, poderá definir-se ainda como uma «agremiação de especialistas que se dedicam à reconstituição documental e crítica do passado», sendo igualmente o órgão consultivo do Governo na matéria da sua competência» (art°. 3 dos respectivos estatutos). Tem a seguinte constituição: Académicos de Número: - 30 de nacionalidade portuguesa; - 10 de nacionalidade brasileira; Académicos Correspondentes: - 80 de nacionalidade portuguesa; - 20 de nacionalidade brasileira; - 10 de outros países de expressão portuguesa; - 80 de outros países estrangeiros. Neste conjunto se inserem especialistas em várias áreas do saber, mas cuja obra seja um contributo decisivo para a “História de Portugal”, nos mais diversos âmbitos (linguista, militar, religiosa, regional e local, etc.). Por isso, no conjunto dos Académicos se contam reputados investigadores e especialistas, quer de obra já consagrada, quer jovens-promessa que possam assegurar a Academia de amanhã. Nessa estratégia de presente e de futuro se insere a presença de consagrados intelectuais, como os Professores Doutores: Joaquim Veríssimo Serrão, Justino Mendes de Almeida, Maria Leonor Machado de Sousa, Aníbal Pinto de Castro, Carlos Antera Ferreira, Humberto Baqueio Moreno, José Marques, Pedro Soares Martinez, Mário Júlio de Almeida Costa, José Pedro Machado, José de Pina Martins,Luís Oliveira Ramos. E a par destes, integram igualmente a A.P.H. outros reputados historiadores, ainda no activo, tais sejam os Professores Doutores: António Pedro Vicente, Luís Adão da Fonseca, Maria Helena da Cruz Coelho, Maria Alegria Marques, Manuela Mendonça, Maria José Azevedo Santos, Maria do Rosário Themudo Barata, João Luís Cardoso. Nesta aliança entre o saber e a experiência nasce a síntese criativa que a Academia Portuguesa da História se orgulha de assegurar. Para tanto, a sua acção desenvolve-se do seguinte modo: - sessões semanais, abertas ao público, nas quais os Académicos comunicam aspectos da respectiva investigação; - sessões extraordinárias em que celebram efemérides notáveis, cujo tema é objecto de estudo e comunicação; - sessões extraordinárias fora da Academia, privilegiando a História Local; - Jornadas de trabalho, abertas ao público sempre que o tempo histórico vivido o proporciona; - Publicações diversas, quer das Actas dos encontros, quer resultado da investigação dos Académicos; - Reedições de obras esgotadas. Pode afirmar-se que a Academia Portuguesa da História vive actualmente um período de renovação, quer pela inclusão de número significativo de membros jovens, quer pelo impulso dinâmico que a coloca no lugar cimeiro da investigação Histórica. Para a correcta prossecução das suas actividades impõe-se a mudança de sede, para edifício digno e que lhe permita apresentar-se em igualdade de circunstâncias com as suas congéneres, nomeadamente de Espanha e de toda a Ibero-América, cujo contacto e intercâmbio privilegia. No seu rico espólio conta com várias bibliotecas e arquivos particulares, que urge organizar em espaço condigno e individualizado. Do mesmo modo, importa tratar e abrir ao público a sua notável biblioteca que, nas anteriores instalações, se encontra inoperável e guardada em cerca de 4 quilómetros de prateleira. É uma biblioteca especializadíssima, cuja abertura muito contribuirá para o desenvolvimento da ciência Histórica em Portugal, o que será completado pela disponibilização de um fundo documental rico, mas carecendo de tratamento e instalações adequadas. A Academia Portuguesa da História dispõe ainda de numerosas publicações, em armazém, que igualmente precisam de ser conhecidas e divulgadas. A instalação da Academia num novo Palácio permitirá fazer dela um Centro de Cultura que muito enriquecerá a cidade de Lisboa – cidade cuja história é anualmente tratada, todos os meses de Junho. Assim, prevemos que, nas novas instalações, venham a ser possíveis, para além dos serviços administrativos: - Uma biblioteca e arquivo aberta ao público; - Duas salas de conferencias, que virão a ser facultadas a outras actividades intelectuais solicitadas do exterior; - Um espaço para exposições temporárias; - Gabinetes de estudo e orientação de temáticas históricas. Também chamada Casa da Livraria. A "obra-prima do ciclo joanino da arquitectura coimbrã" (Cf. Inventário Artístico de Portugal - Cidade de Coimbra), uma das mais belas do mundo. Inicia-se a construção em 1717. Obra executada pelo arquitecto Gaspar Ferreira então mestre permanente das obras da Universidade, sendo empreiteiro o construtor coimbrão João Carvalho Ferreira. João Rodrigues de Almeida, mestre-de-obras de carpintaria e António Martins Jacob, lavrante, são os autores das obras de talha. Em 22 de Junho de 1723 são contratados os pintores António Simões Ribeiro e Vicente Nunes para executarem os frescos dos tectos em perspectiva, e, em 22 de Agosto do mesmo ano, é contratado o pintor Manuel da Silva para fazer o douramento e pintura acharoada das estantes, balaustradas, e outras, da Biblioteca. Em 1725 é colocada na parede do topo, em posição de destaque, uma grande tela com o retrato de D. João V. Desconhece-se o seu autor. "Esta obra maravilhosa de proporções, estilo e gosto, única no Mundo pela unidade e originalidade da concepção ... foi toda executada por artistas portugueses" (Cf. Inventário Artístico de Portugal - Cidade de Coimbra). Texto de Augusto Alfaiate especialmente para o regiaocentro.net Amantes de D. João V A Madre Paula (1701-1768) foi uma freira famosa, apenas por ser amante do rei D. João V,de quem teve vários filhos. A madre Paula, religiosa de Odivelas e mãe de D. José, um dos Meninos de Palhavã , tornou-se a amante mais célebre do Magnânimo, ficando para sempre associada ao monarca e ao seu reinado. O traço de escândalo da paixão que teria inspirado a D. João V durante uma longa relação amorosa combina-se com a fama do espantoso luxo que a protecção do soberano enriquecido pelo ouro brasileiro forneceria a Paula. Paula Teresa da Silva nasceu em Lisboa em 17 de Junho de 1701, sendo baptizada na freguesia de Santa Justa, de acordo com o registo de baptismos desta paróquia. O seu avô paterno era João Paulo de Bryt, um alemão estabelecido em Lisboa como ourives. Do seu casamento com Leonor de Almeida (filha do marinheiro napolitano Domingos Urselo e de Domingas Andrade Almeida) nasceu Adrião de Almeida Paulo, que seguiu a profissão do pai. Adrião de Almeida e a sua mulher, Josefa da Silva e Sousa, tiveram três filhas, Maria Micaela da Luz, Paula Teresa da Silva e Leocádia Felícia de Assis e Almeida. De acordo com os registos do mosteiro de Odivelas, Maria Micaela da Luz tornou-se noviça em 15 de Agosto de 1704, tendo professado a 4 de Outubro desse ano e permanecido na instituição até à sua morte (4 de Julho de 1768). Quanto a Leocádia Felícia, também passou por Odivelas, vindo no entanto a casar com José Falcão de Gamboa Fragoso (morgado da Boavista e Santo Aleixo e dono da Quinta da Bela Vista, ou Quinta do Falcão, na Pontinha), do qual teve uma filha. Paula Teresa seguiu o exemplo da irmã mais velha, juntando-se a Maria da Luz no mosteiro de Odivelas, cujos assentos registam o seu noviciado, em 31 de Janeiro de 1717, tal como a profissão, em 22 de Fevereiro do ano seguinte. A sua entrada na vida religiosa parece ter sido decidida pelo pai desde muito cedo. Os escassos recursos de Adrião de Almeida justificariam essa vontade de assegurar o sustento das filhas através do seu ingresso no célebre mosteiro dos arredores de Lisboa. Não existe base para a hipótese de Paula ter conhecido D. João V antes de entrar para a congregação. Odivelas era um local assiduamente frequentado pela nobreza de corte na época em que Paula se tornou freira. Em 1719, realiza-se no mosteiro a festa do Desagravo do Santíssimo Sacramento (11 de Maio), promovida pelo conde de Penaguião e por Francisco de Assis de Távora, na qual se ofereceu “um magnífico jantar a toda a Nobreza que assistiu” à cerimónia. No mesmo ano, a 23 de Outubro, ocorre em Odivelas, com a presença da Corte, a tourada comemorativa do casamento de D. Brás Baltasar da Silveira e D. Joana de Meneses (filha dos condes de Santiago). Não faltariam, portanto, oportunidades para D. João V e os titulares que o rodeavam se deslocarem ao local. Terá sido por esta altura que começaram os encontros entre o rei e Paula Teresa da Silva, uma vez que D. José de Bragança nasce, em Lisboa, no dia 8 de Setembro de 1720. Sobre a forma como o monarca e a filha de Adrião de Almeida se conheceram, existem versões sem grande credibilidade, como as de Charles Fréderic de Merveilleux (o interesse por outra mulher que resistia, refugiando-se em Odivelas, à sua aproximação teria levado o rei ao mosteiro, onde conheceria Paula) e Alberto Pimentel (para este autor, o primeiro interesse amoroso do monarca seria D. Madalena de Miranda, mãe de D. Gaspar, outro dos “Meninos de Palhavã”). O luxo de Paula Adrião de Almeida beneficiou da ligação entre a sua segunda filha e o monarca, que lhe concedeu algumas benesses, documentadas na Chancelaria da Ordem de Cristo. Em 15 de Setembro de 1722, o pai de Paula recebe o hábito de Cristo (nesta altura, segundo a carta que lhe atribui o hábito, era já viúvo e maior de 50 anos) e é armado cavaleiro, recebendo licença para professar no Mosteiro de Nossa Senhora da Luz. É-lhe também atribuída uma tença de 12 réis “no Almoxarifado da Fruta de Lisboa” (8 de Outubro). Em 1728, Paula recebe tenças avultadas, registadas na Chancelaria de D. João V. Assim, em 28 de Abril, são concedidos à religiosa 210 mil réis anuais. Em 10 de Maio, são atribuídos 210 mil réis por ano a Paula e a todos os seus herdeiros e sucessores, “assentados nos direites da Casa de India e pagos como athegora em duas pagas de Natal e São João”. Finalmente, a 3 de Novembro, é estabelecida uma tença de 1288 mil réis (cedida por Manuel Tomás da Silva, deão da capela real de Vila Viçosa), que duraria três vidas (Paula, Maria da Luz, Leocádia), podendo prolongar-se por mais duas vidas, caso a terceira beneficiária tivesse filhos. D. João V não deixaria de mandar construir para Paula “uma residência cujo interior era digno da magnificência do rei do ouro”, erguendo o edifício conhecido popularmente por “Torre da Madre Paula” (demolido em 1948 devido ao perigo de derrocada, aquando de obras no espaço do mosteiro). Aí se localizariam os aposentos de Paula e da sua irmã Maria da Luz. Uma descrição do seu interior encontra-se num manuscrito anónimo e sem data (existente na Biblioteca Nacional de Lisboa), embora aparentemente contemporâneo das habitantes da casa, uma vez que utiliza o tempo presente (“O quarto de cima, aonde assistem”, “O gabinete em que se touca Paula”). Um dos exemplares conhecidos do documento possui o título de Notícia verdadeira do ornato que se viu nas casas de Madre Soror D. Paula Maria, religiosa no mosteiro de Odivelas. Seria a quem El-Rei D. João V tratou com as mais distintas honras obrigado a um amoroso afecto. O texto refere as várias divisões que compõem os aposentos de Paula e Maria da Luz, enumerando a decoração (“assentos de veludo amarelo, com passamanes de prata”, “armado de melania carmesim, com franjas e passamanes cor de ouro”) e os móveis que as ornamentam, procurando o autor impressionar com a profusão de objectos como espelhos (frequentemente dourados) ou bufetes (existentes em todos os espaços descritos, excepto no oratório, também ele luxuoso). Alguns móveis, como o “leito da moda” de Paula, com “santos de ouro maciço em relevos” e roupa também valiosa (“lençois de olanda mui boa”), merecem particular destaque. O autor afirma não ter contemplado (“isto ainda não se viu”) as numerosas arcas “de roupa de cheiro” que se dizem existir. O aspecto mais impressionante da descrição é a abundância de prata (“tudo de prata dourada, que não tem número”, “e tudo, que não se pode repetir, de prata”), de talha dourada (“as paredes de talha dourada”, “tectos de entalhados dourados”, “oratório todo de talha dourada”, “duas sanefas de talha dourada”, etc.) e ouro (“cortinas bordadas de ouro e borlas de ouro”). A repetição de termos relativos a este metal (nos onze parágrafos do texto, a palavra “ouro” é utilizada trinta vezes, tal como o conjunto de adjectivos dela derivados) destaca a preocupação do autor anónimo em realçar o esplendor da habitação. Os metais brasileiros abundariam em Odivelas, sendo a habitação de Paula (servida por nove criadas) um verdadeiro símbolo do esplendor joanino. César de Saussure contribui para a ideia do luxo de Paula com a sua descrição da “banheira de prata maciça”, “dourada por dentro e por fora”, que viu em Londres (a qual terá sido encomendada em 1724 por D. João V ). Fabricada para oferta à amante do monarca português, “uma religiosa de não sei que convento”, a banheira pesaria 3580 onças, causando, pela sua beleza, a admiração da corte britânica. A caracterização pormenorizada do edifício presente no documento anónimo tem sido considerada verosímil, embora Carlota Abrantes Saraiva aponte a ausência de referências aos conjuntos de valiosos azulejos joaninos cuja existência no local, já no século XIX, é referida por Borges de Figueiredo e Manuel Bernardes Branco. Na minha opinião, o manuscrito que descreve a habitação da freira erroneamente designada por “Paula Maria” no título pode não merecer plena confiança, caindo no exagero. Terá surgido em resultado quer do interesse pela relação extraconjugal de D. João V quer da fama que logo na altura se criou acerca da ostentação que constituía um aspecto essencial da imagem do rei freirático. A sua favorita não poderia deixar de beneficiar dessa riqueza, correspondendo o conteúdo do texto às expectativas dos eventuais leitores. Mitos criados logo na primeira metade do século XVIII estarão na origem da crença no luxo oriental da religiosa. No entanto, D. João V terá contribuído (conscientemente?) para essa lenda com as benesses que concedeu a Paula e à sua família e o seu investimento na decoração da Torre (cujos aposentos principais terão sido destruídos pelo sismo de 1755). Os denominados Meninos de Palhavã eram os filhos bastardos (de sexo masculino) de D. João V (1706-50), reconhecidos pelo soberano em documento que firmou em 1742, mas que só foi publicado em 1752, após a sua morte. A expressão deriva do facto de terem habitado no palácio dos marqueses de Louriçal, situado na zona de Palhavã, na altura arredores de Lisboa, mas que hoje se situa em plena cidade (o edifício - denominado Palácio da Azambuja - é hoje a Embaixada de Espanha em Portugal, sendo também conhecido por "Palácio dos Meninos de Palhavã"). Eram eles: D. António (1704-1800), filho de uma francesa cujo nome é desconhecido. Doutorou-se em Teologia e veio a ser cavaleiro da Ordem de Cristo. D. Gaspar (1716-1789), filho da religiosa D. Madalena Máxima de Miranda. Veio a ser arcebispo primaz de Braga. D. José (1720-1801), filho da religiosa madre Paula de Odivelas (Paula Teresa da Silva). Exerceu o cargo de Inquisidor-mor. Em consequência de um conflito que tiveram com o marquês de Pombal, D. António e D. José foram desterrados para o Buçaco em 1760 de onde só puderam regressar depois da morte de D. José I, ocorrida em 1777.

D. José I- O reformador - 25º Rei de Portugal Reinou 27 anos

A D. João V sucedeu seu filho D. José I, que logo nomeou para seu primeiro-ministro, a quem deu todos os poderes, Sebastião José de Carvalho e Melo, depois Conde de Oeiras e mais tarde, Marquês de Pombal. Vigésimo quinto rei de Portugal, filho de D. João V e da rainha D. Mariana de Áustria. D. José l nasceu em Lisboa em 1714. Logo que subiu ao trono, escolheu de imediato para seu ministro, Sebastião José de Carvalho e Melo, depois 1º Conde de Oeiras e mais tarde Marquês de Pombal. Neste reinado, no dia 1º de Novembro de 1755, deu-se o terrível terramoto que quase destruiu completamente Lisboa. Foi a partir daí que o Marquês de Pombal se revelou um grande homem de Estado. D. José l entregou-lhe completamente a direcção dos negócios públicos. A conspiração chamada "dos Távoras" (*), aumentou ainda mais a influência de Pombal, como ministro. A história do reinado de D. José 1, é a das reformas que Pombal despertou o país do seu torpor de dois séculos, restituindo-lhe alento e vida. Sem grandes qualidades de espírito líder, D. José soube compreender o valor do homem, que o destino pusera a seu lado, e teve o bom senso de lhe conservar intacta a sua confiança, até ao derradeiro momento de sua vida. O seu corpo jaz na Igreja de São Vicente de Fora (Lisboa). Tinha apenas 14 anos de idade quando foi contratado o seu casamento com a princesa espanhola D. Mariana Vitória, filha de Filipe V e da rainha D. Isabel Farnésio, celebrando-se a cerimónia nupcial a 19 de Janeiro de 1729. Por morte de seu pai, subiu ao trono, sendo aclamado a 7 de Setembro de 1750. Reconhecendo o elevado valor de Sebastião José de Carvalho e Melo, pela forma como se houvera em Londres e em Viena de Áustria, quando ali estivera como embaixador durante o reinado de seu pai, D. José chamou-o para seu lado como primeiro ministro, entregando lhe com a máxima confiança a administração do reino. Esta deferência de el-rei acarretou as maiores inimizades da nobreza e da Companhia de Jesus contra o novo ministro, inimizades que já anteriormente se haviam manifestado. O futuro conde de Oeiras e marquês de Pombal, apenas entrou no exercício do seu elevado cargo, tratou de fazer conhecer aos reis da Europa que Portugal tornara a ser uma potência. No dia 1.º de Novembro de 1755, cinco anos depois da aclamação do novo monarca, deu-se a lamentável catástrofe do grande terramoto, que deixou Lisboa num montão de ruínas. Pode dizer-se que foi desde então que principiou o grande poder de Sebastião José de Carvalho. A extraordinária actividade com que procedeu a prontas e acertadas providências em tão dolorosa situação, atendendo às mais pequenas circunstâncias, resolvendo as inúmeras dificuldades que a cada momento surgiam, castigando severamente os malfeitores que se aproveitavam de tão grande desgraça para violações e roubos, ainda mais redobrou a confiança no monarca. Na verdade o marquês de Pombal muito conseguiu com a sua administração enérgica, a despeito dos seus inimigos, a nobreza e a poderosa Companhia de Jesus, que por meio das maiores intrigas procuravam por todas as maneiras perde-lo no conceito de el-rei, desejando que ele o demitisse a desterrasse do reino, mas Sebastião José de Carvalho saía sempre vitorioso de todas essas intrigas prosseguindo na honrosa missão a que se propusera de levantar o país do abatimento em que estava, entregue à preponderante influência dos jesuítas, tornando-o consideravelmente próspero, animando as indústrias e as artes, e impondo-o ao respeito das outras nações, que o olhavam desdenhosamente, considerando-o uma nação pequena e de nenhuma importância. O reinado de el-rei D. José foi um reinado glorioso, graças aos esforços, à iniciativa enérgica, e à notável persistência de Sebastião José de Carvalho na administração de que se encarregara. A disciplina militar que tanto decaíra nos precedentes reinados, foi restabelecida. Foi o general inglês conde de Lippe, quem o ministro mandou chamar para reorganizar o exército a regulamentar a disciplina. A cidade de Lisboa, saindo do caos em que o terramoto a tinha deixado, foi em pouco tempo reedificada, formando uma cidade soberba. Criaram-se as companhias das Vinhas do Alto Douro a do Grão Pará e Maranhão; protegeu-se muito a agricultura, a fábrica das sedas em Lisboa, as de lanifícios da Covilhã, Fundão a Portalegre; a fábrica de vidros da Marinha Grande; regulou-se a polícia interna e aumentaram-se os rendimentos do Estado, reformou-se a Universidade de Coimbra que reabriu com a máxima solenidade depois da reforma, em 28 de Outubro de 1772, cujo ensino estava entregue aos jesuítas desde o tempo do fanático D João III; animaram-se as artes, restabeleceram-se novas manufacturas. Os produtos do Brasil também foram aumentados; deu-se a liberdade aos índios, regulou-se e reformou-se a administração desperdiçadora daquela nossa colónia riquíssima; acabou-se com a diferença entre cristãos novos e cristãos velhos; enquanto à instrução popular também o poderoso ministro atendeu com o máximo cuidado, criando escolas em todas as vilas do reino. Criou-se também o Real Colégio dos Nobres. Foram restituídos os bens da Coroa usurpados; fundou a Aula do Comércio, formulou novos regulamentos de comércio, estabelecendo feiras que se tornaram florescentes; protegeu muito o comércio, obrigando as casas inglesas do país a terem só empregados portugueses; limitou o poder, restringiu o da Inquisição; atendeu cuidadosamente aos negócios da Índia, suprimiu por inúteis os tribunais de Goa; tratou-se da paz com o rei de Marrocos para tornar livre a navegação da África. Fundou-se a Impressão Régia, hoje Imprensa Nacional. A nobreza que possuía ainda um grande número de privilégios, cada vez se mostrava mais hostil ao ministro omnipotente, que não poupava a ocasião de lhos restringir. D. José de Mascarenhas, que herdara a casa e o título dos duques de Aveiro, pretendia que para ele passassem as comendas administradas pelos antigos duques. D. José não lho consentira, por instigação do seu ministro o que despertou no orgulhoso fidalgo um ódio implacável contra o monarca. Os jesuítas aproveitaram este ensejo para se vingarem do ministro, instigando o duque, era ideia de que, se o rei morresse, o ministro perderia necessariamente o grande prestígio que o acompanhava, porque a confiança ilimitada de D. José era a base do seu grande poder. Morto o rei, se o ministro sobrevivesse, ficaria completamente inutilizado. Planeou-se a célebre conspiração, para que foram chamados os Távoras, a qual se realizou em 13 de Setembro de 1758, e que teve o terrível desenlace dos suplícios horrorosos que os acusados sofreram na praça de Belém a 13 de Janeiro de 1759. Foi um terrível exemplo para a nobreza, que se convenceu da impossibilidade da luta com aquele poderoso inimigo. Sebastião José de Carvalho e Melo, já então conde de Oeiras, que não desanimara da empresa de livrar o pais da nefasta Companhia de Jesus, activou mais as negociações diplomáticas que já tinha encetado com a corte de Roma Foi uma luta gigantesca, porque a Companhia de Jesus era um colosso que dificilmente poderia ser derrubado. Os embaixadores estrangeiros haviam-se tornado hostis, o papa hesitava, mas Sebastião José de Carvalho prosseguindo implacável no seu plano, repetindo as queixas contra os jesuítas tanto em Portugal, como no Brasil, prendeu uns poucos de padres, mandou cercar de tropas os colégios e casas da ordem e sequestrou-lhes os bens. Ao mesmo tempo mandava pedir licença ao papa para mandar processar os jesuítas acusados de cúmplices do atentado contra o rei. Depois de muitas dificuldades o papa concedeu a licença, rogando porém, ao rei D. José, que não permitisse que os padres fossem expulsos dos seus domínios. Este pedido, contudo, não impediu que os jesuítas saíssem de Portugal, pelo decreto de 3 de Setembro de 1759, saindo na noite desse dia uma grande porção dos padres a bordo do brigue S. Nicolau, que os levou para a Itália. Resultaram deste facto sérias pendências com a cúria romana, e mostrando-se o núncio muito frio e até insolente foi obrigado pelo enérgico ministro sair de Portugal sem mais hesitação. Em 1775, por gratidão a el-rei D. José I, erigiu-se a grande estátua equestre, que se ostenta na Praça do Comercio, antigo Terreiro do Paço, nome porque é ainda mais vulgarmente conhecido. O ministro destinava aquele monumento para o remate da sua grandiosa obra da reconstrução de Lisboa. Na estátua figura o medalhão do marquês de Pombal; foi construída pelo escultor português Joaquim Machado de Castro e fundida em bronze pelo tenente-coronel de artilharia Bartolomeu da Costa. A inauguração realizou-se com grande pompa no dia 6 de Junho do referido ano de 1775, dia em que D. José completava 61 anos de idade. D. José também exilou para as matas do Buçaco seus irmãos bastardos D. António e D. José, conhecidos pelos meninos de Palhavã. Era muito amigo das grandezas, assim como seu pai el-rei D. João V, e mandou construir no paço da Ribeira um riquíssimo e vastíssimo teatro, denominado a Ópera do Tejo, que ficou substituindo um teatro pequeno que se havia armado na chamada Casa da Índia. Inaugurou-se com extraordinária pompa no aniversário da rainha, em 31 de Março de 1755, com a ópera de David Peres, Alessandro nelle Indie, e em 6 de Junho, aniversário do rei, cantou-se La Clemenza di Tito, de António Mazzoni. 0 Seminário Patriarcal teve uns estatutos especiais, que D. José referendou, com a data de 23 de Agosto de 1765. Na Biblioteca Nacional de Lisboa, dizem existir um exemplar manuscrito destes estatutos, que se não imprimiram o qual tem a rubrica de D. José, feita pelo seu próprio punho. No artigo referente ao marquês de Pombal se tratará mais minuciosamente de muitas das obras que tanto engrandeceram o reinado de D. José I. Por morte do monarca, subiu ao trono sua filha D. Maria I, e o grande ministro foi desterrado para as suas propriedades de Pombal. Marquês de Pombal (Sebastião José de Carvalho e Melo) Célebre ministro do rei D. José I, o mais notável estadista do seu tempo, não só de Portugal, como de toda a Europa. N. em Lisboa a 13 de Maio de 1699, sendo baptizado a 6 de Junho do mesmo ano na freguesia das Mercês, então instalada na capela da mesma invocação existente na rua Formosa, a qual pertencia a sua família; fal. em Pombal a 8 de Maio de 1782. Era filho do capitão de cavalaria e fidalgo da Casa Real, Manuel de Carvalho e Ataíde (V. Portugal, vol. I, pág. 846), e de sua mulher D. Teresa Luísa de Mendonça e Melo, filha de João de Almeida e Melo, senhor dos morgados dos Olivais e de Souto do Rei. Em 31 de Julho de 1750 morreu o monarca, e subindo ao trono seu filho D. José, a rainha viúva, que se tornara muito amiga da mulher de Sebastião de Carvalho, que fora nomeada sua dama de honor, instou com o novo soberano para que nomeasse o antigo embaixador secretario de Estado dos negócios da guerra e estrangeiros. Assim se fez logo no dia 3 de Agosto, sendo ao mesmo tempo nomeado secretario de Estado da marinha o ultramar Diogo de Mendonça Côrte-real, filho do antigo e célebre ministro de D. João V. Com Pedro da Mota, secretário de estado, que o rei D. José encontrou em exercício, ficou o ministério completo. Havia apenas bem poucos dias que estava no poder, quando rebentou o terrível incêndio do hospital de Todos os Santos, a 10 de Agosto do 1750, que serviu logo para manifestar a energia e desembaraço de Sebastião de Carvalho. Não tardou muito que o antigo diplomata adquirisse no conselho do rei urna grande influência, que se quis atribuir a diferentes causas, mas cujo motivo principal estava, segundo as melhores opiniões, na inteligência superior e na vontade enérgica do futuro marquês de Pombal, que facilmente subjugou os seus colegas e adquiriu no ministério a iniciativa e a preponderância. Os homens como ele, podem pelas circunstâncias ser afastados do poder, mas apenas entram nele, assenhoreiam-se da direcção suprema pelo direito da sua energia, da sua actividade e do seu talento. Além disso, nenhum dos outros ministros era capaz de lutar com ele. Diogo de Mendonça era homem tímido, Pedro da Mota estava velho e cansado, Sebastião de Carvalho possuía em alto grau a iniciativa e a audácia. Entrava no ministério com projectos maduramente concebidos e com intenção firme de os executar, quebrando todos os obstáculos. Era um reformador na mais larga acepção da palavra. Tinha decidido levantar o seu país à altura da civilização europeia, não recuando para isso diante de embaraços de espécie alguma. Richelieu era o seu ideal; como ele, desejava consolidar o régio poder com o fim do introduzir alterações profundas no regime do Estado. Tinha em muitas coisas as ideias erróneas do seu tempo, e também preconceitos pessoais, mas possuía ideias administrativas de grande alcance. Conhecia os abusos do regime existente, conhecia os vícios da governação, percebeu que um povo, sob pena de se aniquilar, não podia persistir numa senda oprobriosa, e, não lhe sendo estranho nenhum dos progressos da sua época, vinha decidido a realizá-los à viva força, até sendo preciso, desfazendo as resistências, passando por cima das oposições, rodeando se de terror, e usando largamente do direito repressivo; Carvalho tinha a consciência, o fanatismo da sua missão reparadora. Fosse qual fosse o motivo, é certo que não tardou a exercer no gabinete de que fazia parte, uma influência exclusiva. A primeira medida que tomou, revelou logo a sua índole enérgica, mas também mostrou que o seu génio não poderia contudo rasar horizontes novos em economia politica e eximir-se às preocupações erróneas do seu tempo. Considerando como uma grande desgraça para Portugal a dependência em que estava da Inglaterra, e o tributo que lhe pagava todos os anos em somas enormes em trocados artefactos que de lá recebia, entendeu que o modo mais simples de acabar com essa dependência, era proibir debaixo de penas severas a exportação de metais preciosos, querendo assim restabelecer arbitrariamente a balança de comércio, exigindo que os ingleses levassem de Portugal mercadorias correspondentes no preço aquelas que nos enviavam. O grande ministro partilhava as ideias erradas do seu tempo, e supunha, como quase todos os estadistas do século XVIII, que a riqueza de uma nação consistia essencialmente no instrumento circulante que apenas a representa. Quebrando assim, pela repressão dos tumultos do Porto, as resistências municipais dirigidas contra a sua enérgica administração, não pensava Sebastião de Carvalho senão em reprimir igualmente o orgulho da nobreza, como depois todo se empregou em despedaçar esse formidável poder organizado debaixo do nome de Companhia de Jesus. Os fidalgos, impacientes com o seu despotismo, rompendo a luta que ele estava ansioso por travar, deram-lhe ensejo de os punir, e essa conspiração, cujo malogro foi a perda da nobreza, também lhe deu depois ensejo para romper as hostilidades contra os jesuítas. A nobreza, que possuía ainda muitos privilégios, mostrava-se profundamente hostil a Sebastião de Carvalho, que não poupava ocasião de os restringir. D. José do Mascarenhas, que herdara a casa e o título dos duques de Aveiro, pretendera que passassem para ele as comendas administradas pelos antigos duques. O rei não lho consentira, por instigação de Sebastião de Carvalho, e daí nascera o ódio fidagal votado ao rei pelo duque de Aveiro. Apesar de todo o mistério que envolve os factos relativos a este processo, parece incontestável que o duque de Aveiro teve a ideia de assassinar o rei, que para isso falou ao seu guarda-roupa Manuel Álvares Ferreira, e que este combinara o crime com seu irmão e com o seu parente José Policarpo de Azevedo. O que é incontestável, porém, é que na noite de 13 de Setembro de 1768, quando o rei recolhia numa carruagem à Ajuda, de uma excursão nocturna e provavelmente amorosa, recebeu uns tiros entre a Quinta do Meio e a de Cima, e que só se salvou de morte infalível por uma série de acasos, que fizeram com que errasse fogo um dos bacamartes e com que o cocheiro e o rei se lembrassem de voltar para trás em vez ele seguir para o paço. O rei teve, contudo, umas poucas de feridas, mas todas sem gravidade. Sebastião de Carvalho, prevenido imediatamente, adivinhou de relance que tinha ali o ensejo favorável para descarregar um grande golpe na nobreza e talvez também nos jesuítas. Concebeu logo o seu plano com um sangue frio extraordinário, deu ordem rigorosa para que se guardasse acerca da ferida do rei o maior segredo, espalhando-se simplesmente que o rei dera uma queda, e depois de fazer todas as investigações necessárias com o maior segredo, prendeu três meses depois, no dia 13 de Dezembro, todos os indiciados no crime, sem lhe escapar senão José Policarpo de Azevedo, e esse unicamente por não ter tido o marquês conhecimento prévio da sua cumplicidade. Os indiciados não foram só o duque de Aveiro e os seus criados, foram também todos os membros da família Távora, contra a qual se não podia alegar a ser a principal entre as famílias nobres descontentes, e a suposição de que o marquês Luís Bernardo, cuja mulher fora notoriamente favorita do rei D. José, estaria por isso gravemente ressentido contra o soberano. O principal crime, porém, ou antes o crime único dos Távoras, era o serem inimigos declarados de Sebastião de Carvalho e ser a sua casa o centro da hostilidade contra o grande ministro. Em todo o caso lá se encontraram no processo indícios que foram reputados suficientes, e além do duque de Aveiro, dos Alornas, Távoras e Atouguias, foram também presas umas poucas de senhoras, a duquesa de Aveiro, as duas marquesas de Távora, a condessa de Atouguia, a marquesa de Alorna e sua filha. Ao mesmo tempo criou-se uma junta ou tribunal de inconfidência, presidido pelos três ministros de estado que deviam julgar os acusados. Foi esta a primeira e enormíssima iniquidade do processo, nomear um tribunal especial, e logo um tribunal assim presidido pelos secretários de estado, que, ainda que não fossem directamente interessados, sempre eram os representantes do rei, e por conseguinte juízes representantes da parte. Esta junta de inconfidência vinha apenas tingir vagamente com uma fórmula vã de justiça, a revoltante arbitrariedade da sentença que se proferia. Correu este lúgubre processo envolto no maior segredo, e o público só conhecia a sequência dele pelas repetidas prisões, que vinham de quando em quando sobressaltar a população. Os fortes das margens do Tejo povoava-os Carvalho com os fidalgos mais conspícuos do reino, sem que nunca se soubesse quais as provas que tinha contra cales e que deviam ser completamente nulas, pois até contra alguns dos que foram executados não podia haver senão muito leves e muito vagas presunções. A respeito dos marqueses de Távora, por exemplo, é certo que não houve no processo senão o depoimento do duque de Aveiro, arrancado por incríveis torturas, ao passo que os criados do duque nem nos tormentos confessaram que os Távoras estivessem implicados na conjuração, ao passo que confessaram a sua culpa e a de seu amo. Uma das grandes glórias do marquês, de Pombal foi o imenso impulso que deu à instrução popular. A lei de 6 de Novembro de 1772 organizava a instrução primária do modo mais completo para o tempo. Estabelecia o princípio de concurso, animava o ensino particular, dotava as escolas com o rendimento de um novo tributo denominado subsídio literário. Favorecia a instrução secundária criando escolas, que eram o germe dos nossos liceus actuais, e convidando as ordens religiosas a que abrissem aulas nos seus conventos; favorecia a instrução superior criando o Colégio dos Nobres, e tratando de reformar a Universidade de Coimbra. Para intentar essa reforma, criou se uma junta intitulada da Providência Literária. A alma desse tribunal era o bispo de Coimbra D. Francisco de Lemos, que foi nomeado reitor da Universidade, por decreto de 11 de Setembro de 1772. Os estatutos redigidos por esta junta, introduziram a revolução na Universidade, substituindo aos velhos métodos legados pelos jesuítas os processos mais audaciosos da ciência nova. Além das reformas dos estudos, a nomeação de sábios lentes, alguns deles estrangeiros de nomeada, concorreram muito para o brilhantismo dessa reforma. Criou estabelecimentos auxiliares, de que anteriormente nem sequer fora reconhecida a necessidade, como um observatório astronómico, um museu de história natural, um gabinete de física um laboratório químico, um teatro anatómico, um dispensário farmacêutico, e um jardim botânico. O rei D. José, por carta régia de 28 de Agosto de 1772, constituiu o marquês de Pombal seu plenipotenciário e lugar-tenente na restauração da Universidade. No dia 22 de Setembro entrou na cidade de Coimbra, no dia 23 publicou o despacho de quatro colegiais para o Colégio dos Militares; na manhã de 25 recebeu os novos colegiais dos colégios de S. Paulo e de S. Pedro. Na tarde desse dia foi lida com toda a solenidade e aparato, na sala grande da Universidade, a seguinte carta régia: «Honrado Marquês, meu Lugar-Tenente, muito prezado Amigo. Faço saber a essa Universidade, como protector que sou dela, ser servido reformá la, e por isso em Meu nome fareis tudo, concedendo vos todos os privilégios, que são concedidos, aos Vice Reis, e ainda aqueles que eu reservo para Mim. A mesma Universidade o tenha assim entendido, e vos respeite todas as honras, que vos são devidas, pois sois do Meu Real agrado e protecção. Palácio de Nossa Senhora da Ajuda, em 13 de Agosto de 1772. Rei.» No dia 29 do referido mês de Setembro foram publicados, com a maior solenidade os novos estatutos, e no dia 30 prestaram os novos lentes o competente juramento, na presença do marquês de Pombal, no paço. A cerimonia de abertura da Universidade realizou se a 23 de Outubro com imenso esplendor. Foi decerto este o dia mais jubiloso da existência do notável estadista. Rodeado de homenagens por um povo de cortesãos, que viam nele não o representante do rei, mas o próprio soberano de Portugal, tinha além disso a consciência a dizer-lhe que acabava de prestar ao seu paìs e à civilização o mais elevado e o mais importante de todos os serviços. A fundação da Imprensa Nacional de Lisboa completou a obra do marquês de Pombal com relação ao nosso desenvolvimento intelectual. Esta reforma da instrução pública, a mais importante que tivemos, valeu ao nosso grande ministro a admiração e o respeito da Europa. Mr. Montigny, encarregado de negócios de França em Lisboa, não ocultava a sua veneração pelo homem, que fizera com que houvesse neste pequeno reino tão mergulhado até então nas trevas, 837 escolas de instrução primária e secundária. O duque de Aiguillon, ministro que sucedera no gabinete de Luís XV ao duque de Choiseul, dizia: «A opinião, que formamos dos talentos e das luzes do marquês de Pombal, dá-nos a mais vantajosa ideia das mudanças e das adições que esse ministro deve fazer nos estatutos da universidade.» Quando se observa esta importantíssima reforma, feita pelo marquês de Pombal, quando se vê que o grande ministro soube arrancar o país das trevas da ignorância em que estava imerso, a trazê lo à luz imensa, que de toda a parte se irradiava pela Europa, quando se nota que todas as suas reformas tiveram por fim, e conseguiram introduzir em Portugal todos os elementos civilizadores tem de se confessar que o marquês de Pombal foi neste extremo da Europa a incarnação viva e eficaz da grande revolução do século XVIII, e que o seu enérgico despotismo foi uma dessas ditaduras tirânicas mas fecundas, que em toda a parte precederam e prepararam a aurora da liberdade. Foi por este tempo que se concluiu a estátua do rei D. José, que o grande ministro destinava para ser o complemento e o remate da sua grande obra da reconstrução de Lisboa. A estatua do rei D. José, em cujo pedestal figurava o medalhão do marquês de Pombal, construída pelo grande escultor português Joaquim Machado de Castre, fundida em bronze pelo tenente coronel de artilharia Bartolomeu da Costa, inaugurou se com extraordinária pompa, na Praça do Comércio no dia 6 de Junho de 1775. Nesta obra, vol. IV, no artigo Lisboa, a pág. 330 e seguintes, está uma circunstanciada descrição desta majestosa solenidade. Contudo, enquanto o marquês de Pombal tomava providências tão sábias e tão justas, continuava a seguir o sistema de repressão implacável. Os seus colegas no ministério continuavam a ser as suas vítimas; José de Seabra, que fora o seu braço direito na luta com os jesuítas, foi de súbito desterrado para Angola por motivo misterioso. Tempo depois, outro suplicio atroz veio assombrar Lisboa. Em 11 de Outubro de 1775 foi esquartejado na Junqueira o genovês João Batista Pele, acusado de tentativa de assassínio contra o marquês de Pombal. A Espanha rompera de súbito as hostilidades contra nós, por causa dos limites da América, e não nos quis dar satisfações. A França preparou-se a auxiliá la em virtude do Pacto de Família, e a Inglaterra abandonou nos. Apesar disso, o marquês de Pombal, entendendo que estava empenhada nesta questão a dignidade da coroa portuguesa, não hesitou em se preparar para a guerra; não cuidava decerto que poderia afrontar a França e a Espanha com os nossos limitados recursos, mas entendia também que, logo que o dever falava, a questão da possibilidade desaparecia. Seria esmagado, mas a sua defesa contra agressões injustas era já um protesto contra a violência. Quando se preparava para esta luta, cometeu o marquês de Pombal um acto de atrocidade, que não é dos que menos mancham a sua memória. Tinham-se refugiado na Trafaria alguns refractários, como se diria hoje. Sendo difícil apanhá-los naquela aldeia pobríssima, o marquês de Pombal ordenou que se lançasse fogo a essa povoação de pescadores. Essa ordem, executada barbaramente em seu nome no dia 23 de Janeiro de 1777 devia encher de pavor os últimos dias da existência de D. José, que faleceu no dia 24 do mês seguinte de Fevereiro. Com ele expirava o poder do marquês de Pombal. (V. Portugal, neste vol. pág. 738, no artigo de Pina Manique). A herdeira do trono, beata e dominada pelos nobres, era figadal inimiga do grande ministro. Assim que o rei fechou os olhos, logo o marquês percebeu que estava demitido. Sendo mordomo-mor, foi avisado para que se não ocupasse do enterro do rei. Deram-se largas aos seus inimigos, deixaram-se correr contra ele as maiores calúnias. Soltaram-se todos os presos políticos que estavam por sua ordem encarcerados, e o espectáculo miserando dessas vítimas da energia implacável do marquês de Pombal devia exacerbar contra ele a cólera do povo, sempre mudável. Em seguida foi demitido, conservando-se-lhe secamente o ordenado de ministro, e concedendo-se-lhe o rendimento de uma comenda. Dava-se-lhe ordem para se recolher a sua casa de Pombal, e consentiu-se que o povo o insultasse em casa e pela estrada, arrancava-se o seu medalhão do pedestal da estatua de D. José e substituí-se pelo navio com as velas cheias, que é o brasão de Lisboa, o que fazia com que ele dissesse no seu retiro: Agora é que Portugal vai à vela. O que houve de mais impudente nesta reacção foi o procedimento de algumas pessoas, que, para lisonjearem o marquês de Pombal, tinham feito com ele contratos em que eram lesados e que depois, quando o viram caído, o demandaram para alcançarem indemnizações! Um tal Galhardo Mendanha chegou a escrever a esse respeito um folheto que por tal modo indignou o marquês de Pombal, que este pegou na pena e respondeu com azedume e veemência num folheto que a rainha D. Maria I proibiu que corresse. As acusações de concussão, de abusos de poder ferviam, todos os amigos e parentes do marquês eram perseguidos, e afinal a rainha D. Maria I, cedendo à pressão dos inimigos do marquês e ao natural impulso da sua própria inimizade, ordenava que o ministro de seu pai fosse processado. Para isso enviou a Pombal dois desembargadores que sujeitaram o marquês a um longo e penoso interrogatório, até que o grande homem, prostrado pela doença, pela fadiga e pelas amarguras, pedia perdão à rainha das faltas que podia ter cometido. Ao fim de 14 meses, a 16 de Agosto de 1781, expediu a rainha um decreto no qual declarava que havia por bem perdoar ao marquês de Pombal as culpas em que incorrera, em atenção aos seus anos e enfermidades. Era uma última mentira! Não o puniram, porque teriam de punir tombem a memória do rei D. José. Esse decreto fulminou-o. Estava um pouco melhor dos seus padecimentos, graças a um tratamento que adoptara. Piorou outra vez de um momento para o outro. O seu orgulho sentia-se profundamente ferido, a consciência do seu talento e dos imensos serviços que prestara ao seu país, fez com que gastasse as suas ultimas forças escrevendo uma Petição de recurso feita à sereníssima rainha D. Maria I, em que mais uma vez tentou justificar os seus actos. A opinião pública, ou o que então se podia designar por esse nome, era-lhe adversa, ou pelo menos indiferente. A petição caiu portanto no meio desta indiferença ou desta aversão, e não produziu o mínimo efeito. Dez meses sobreviveu ainda o marquês de Pombal ao funesto decreto, dez meses de longos e incomportáveis padecimentos. Faleceu enfim o grande estadista na sua casa de Pombal na idade de 83 anos. Na noite. de 11 de Maio de 1782 foi o cadáver conduzido num coche puxado por três parelhas para a igreja do convento de Santo António da vila do Pombal. Esperava-o à porta o bispo de Coimbra, D. Francisco de Lemos, fiel à caída grandeza, que celebrou com toda a pompa as exéquias solenes, sendo pregada a oração fúnebre pelo monge beneditino Frei Joaquim de Santa Clara, notável orador sagrado, que se inspirou na grandeza do assunto, e legou à posteridade um magnífico discurso que atesta não só o seu talento mas a grandeza do seu espírito. O Marquês de Pombal, quando faleceu, assinava-se: Sebastião José do Carvalho e Melo, conde de Oeiras e da Redinha; marquês de Pombal; do conselho do rei; alcaide-mor de Lamego; senhor donatário das vilas de Oeiras, Pombal e Carvalho, e do lugar de Cercosa e dos reguengos e direitos reais de Oeiras e de A-par de Oeiras; direitos do pescado do Porto, de Peniche e de Atouguia da Baleia; das rendas do pescado e direitos da dízima, portagem, jugadas, oitavos de pão e quinais de vinho da vila e porto de Cascais; e das tornas da sisa do pescado e sáveis de Lisboa; padroeiro in solidum da paróquia de Nossa Senhora das Mercês, da cidade de Lisboa, e das de Santa Maria da vila de Carvalho e sua anexa, Santa Maria de Cercosa, no bispado de Coimbra, e do convento de Nossa Senhora da Boa Viagem; comendador das ordens de Cristo e de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, etc. O seu brasão era o dos Carvalhos. Em campo azul uma estrela de ouro, entre uma quaderna de crescentes de prata. Este brasão também usam os condes da Retinha e os marqueses de Pomares. Num rápido esboço resumiremos a notícia das grandes reformas empreendidas pelo notável ministro do rei D. José I: Protegeu eficazmente a indústria, levantando a decaída fábrica de sedas que D. João V fundara, subvencionando e desenvolvendo as indústrias da chapelaria e relojoaria, fez sair quase do nada a fábrica de vidros da Marinha Grande, e a de papel da Lousã, tomou a iniciativa do fabrico da porcelana, protegeu a industria das lãs, e fundou a magnifica fábrica real da Covilhã. Teve a honra de hospedar no seu palácio e quinta de Oeiras o rei D. José no Verão dos anos de 1775 e 1776. Nessa quinta realizou uma grande feira onde concorreram, por sua ordem, os produtos de todos os géneros da indústria fabril portuguesa, vindo os donos das fábricas armar barracas em Oeiras, expondo ali à venda os diversos produtos da sua indústria Esta feira teve um êxito completo; foi uma verdadeira exposição de tudo quanto se fabricava então em Portugal, e assim teve Oeiras a honra de ali realizar a primeira exposição industrial que houve no país, e talvez a primeira que se efectuou em toda a Europa. (V. Portugal, neste vol. artigo Oeiras, pág. 182 e seguintes). Favoreceu muitíssimo a agricultura, mas de um modo demasiadamente despótico, mandando por exemplo arrancar as vinhas do Ribatejo para ter produção cerealífera. Para desenvolver o comércio criou a Aula do Comércio e fundou diversas companhias. Na administração civil e económica do país operou maravilhas, dando o primeiro passo para a liberdade da terra, suprimindo os morgados insignificantes, regulando-lhes a sucessão e não consentindo que se instituíssem senão morgados opulentíssimos, declarou livres todos os escravos que nascessem ou pusessem pé no continente de Portugal, emancipou os índios do Brasil, acabou na Índia com a distinção entre gentios e cristãos, no reino com a distinção entre cristãos-novos e cristãos-velhos. Com o clero procedeu energicamente, expulsando os jesuítas, impedindo as profissões demasiado numerosas de frades e de freiras; deu à Inquisição um regimento que a anulava completamente; na instrução pública reformou completamente a Universidade pondo-a a par dos estabelecimentos científicos desse tempo no estrangeiro; criou o Colégio dos Nobres, fundou a instrução primária portuguesa solidamente, desenvolveu a instrução secundária, aproveitando para isso largamente as ordens religiosas, refundiu completamente a legislação, acabando com os arrestos absurdos, com os recursos aos comentadores, etc. ordenou que o direito canónico apenas regulasse em matérias espirituais. Criou o Erário introduzindo ordem e método na administração da fazenda, criou no Conselho de Fazenda um tribunal de contencioso financeiro, administrou com tanta economia que não precisou recorrer a empréstimos, reorganizou admiravelmente o exército com o auxílio do conde de Lippe, fortificou Elvas de um modo assombroso, deu impulso à marinha e soube apreciar e chamar ao ministério Martinho de Melo e Castro que à marinha portuguesa prestou depois tão relevantes serviços, e ocupou-se com zelo das colónias, acrescentou o nosso domínio oriental com as Novas Conquistas, o nosso domínio africano com as ilhas de Bissau, etc. De todos os chefes de governo que no século XVIII iniciaram em todos os países da Europa as reformas que a opinião pública reclamava, foi sem dúvida o marquês de Pombal o mais audacioso. O ilustre ministro teve grande predilecção pela cidade de Aveiro, por causa dum protesto representação em que a câmara com a assistência dos nobres e povo, lavrou contra os autores da conspiração do duque de Aveiro, D. José de Mascarenhas, pedindo para que este fidalgo deixasse de ser donatário de Aveiro. Esta demonstração dos aveirenses foi recebida com entusiasmo pelo marquês de Pombal, que se deu pressa em agradecer à câmara, assegurando-lhe que os desejos do povo, cujo representante era, seriam satisfeitos, e que Aveiro, ficando pertença da coroa, havia de ser beneficiada tanto quanto pudesse sê-lo. A palavra do grande estadista foi cumprida. Aveiro entrou numa nova fase de progresso. Melhorou-se consideravelmente a barra, criaram-se escolas e procurou-se ensaiar novos sistemas de cultura, como foi a do arroz e da batata. O marquês também pensou em estabelecer aqui urna fábrica de tecidos de algodão, para o que mandou proceder a experiências em 1770. Ainda empreendeu outros melhoramentos de não menor alcance para os interesses da terra, que por decreto de 11 de Abril de 1759 elevou à categoria de cidade, e por decreto de 4 de Setembro de 1760, foi de novo elevada a comarca, que desde de D. João III deixara de ser, para formar um almoxarifado, cujas justiças eram providas pelo donatário. Em 28 de Setembro de 1773 pediu o marquês de Pombal o báculo de diocese para Aveiro, que lhe foi concedido por breve apostólico de 12 de Abril de 1775, sendo o 1.º bispo D. António Freire Gameiro de Sousa. (V. Aveiro). Sobre o grande ministro do rei D. José tem se escrito muito, tanto em Portugal, como no estrangeiro. A relação dos principais trabalhos encontra-se no Dicionário bibliográfico, vol VII, pág. 213 a 216; e no suplemento, volume XIX, peIo Sr. Brito Aranha, de pág. 17 a 184, onde também se encontram muitas gravuras dos carros que figuraram no cortejo cívico, por ocasião das festas do centenário, gravuras das ruínas causadas pelo terramoto de 1 de Novembro de 1755, e diversos documentos. Além dessas obras, ainda citaremos: «Le marquis de Pombal», na Revue des deux mondes, 1.º de Setembro de 1870; Historia da Instrucção publica em Portugal, por D. António da Costa; Ensaio sobre a historia do governo e da legislação de Portugal, de Coelho da Rocha; Perfil do marquez de Pombal. de Camilo Castelo Branco; O marquez de Pombal, do conde de Samodães; O marquez de Pombal, por Teófilo Braga; Lisboa antiga, de Júlio de Castilho; Historia de Portugal, de Schaeffer, Pinheiro Chagas e Oliveira Martins; 0 marquez de Pombal, romance histórico, de António de Campos Júnior; O marquez de Pombal, exame e historia critica da sua administração, de D. Miguel de Soto Maior; Encyclopedia do Porto, Diccionario Popular, dirigido por Pinheiro Chagas, de que transcrevemos alguns períodos, etc. Terramoto de 1755 Algo terrível mudaria Lisboa para sempre - o terramoto de 1755. É frequente ler na história de monumentos e igrejas que os mesmos foram reconstruídos ou recuperados depois do terramoto de 1755. Este foi o momento mais negro da história de Lisboa. Na manhã de 1 de Novembro de 1755 sentiu-se o primeiro tremor e apenas uns minutos depois sentiu-se o segundo, muito mais violento, que reduziu metade da cidade a destroços. O terramoto provocou um maremoto que varreu a cidade quase por completo. Barcos, docas e edifícios foram destruídos pela fúria das águas e milhares de pessoas foram arrastadas para nunca mais serem vistas. Como se tudo isto não bastasse, um fogo terrível deflagrou pela cidade, ardendo durante três dias seguidos e destruindo o pouco que restava de Lisboa. Ao todo, perderam-se 60.000 vidas só em Lisboa e outros tantos milhares morreram noutras áreas. O sismo foi sentido por quase toda a Europa e no noroeste de África. Mas a reconstrução de Lisboa tornou-se uma prioridade e ainda nem tinham terminado os tremores, já o Marquês de Pombal estava a delinear ideias para reconstruir a cidade. Ele começou dizendo "Enterrem os mortos e alimentem os vivos" e, arregaçando as mangas, lançou-se ao trabalho. Devido à sua determinação e sentido prático, Lisboa ergueu-se rapidamente e melhor do que nunca. A área situada entre a baixa de Lisboa e a Praça do Marquês de Pombal, principalmente da Praça do Rosio à Praça do Comércio, ainda hoje mostra o sistema inovador pensado por Sebastião José de Carvalho e Melo - o próprio Marquês! Apesar dos problemas, Sebastião de Melo levou a cabo um ambicioso programa de reformas. Entre outras realizações, seu governo procurou incrementar a produção nacional em relação à concorrência estrangeira, desenvolver o comércio colonial e incentivar o desenvolvimento das manufacturas. No âmbito dessa política, em 1756 foi criada a Companhia para a Agricultura das Vinhas do Alto Douro, à qual o ministro concedeu isenção de impostos nas exportações e no comércio com a colónia, estabelecendo assim a primeira zona de produção vinícola demarcada no mundo, colocando-se os célebres marcos pombalinos nas delimitações da região. Em 1773, surgia a Companhia Geral das Reais Pescas do Reino do Algarve, destinada a controlar a pesca no sul de Portugal. Ao mesmo tempo, o marquês criou estímulos fiscais para a instalação de pequenas manufacturas voltadas para o mercado interno português, do qual também faziam parte as colónias. Essa política proteccionista englobava medidas que favoreciam a importação de matérias-primas e encareciam os produtos importados similares aos de fabricação portuguesa. Como resultado, surgiram no reino centenas de pequenas manufacturas produtoras dos mais diversos bens. O ministro fundou também o Banco Real em 1751 e estabeleceu uma nova estrutura para administrar a cobrança dos impostos, centralizada pela Real Fazenda de Lisboa, sob seu controle directo. Atentado contra D. José I A 27 de Agosto de 1758, morre a rainha de Espanha e irmã de D.José I, D.Maria Bárbara. Dias depois, a 3 de Setembro do mesmo ano, a notícia chega a Portugal. Segundo consta, apesar do acontecimento, D.José naquela noite saiu do Paço da Ajuda acompanhado pelo Sargento-mor, Pedro Teixeira, em direcção à sege deste último, para se encontrar com a amante. Mais tarde, por volta das 11 horas, quando voltavam para o palácio, Teixeira tentou abrir a porta da Quinta de Baixo, que dava acesso às quintas, mas não conseguiu fazê-lo, dado que alguém entupira a fechadura. Após sua limpeza e a abertura da porta, seguiram pela Calçada do Galvão até ao dobrar da esquina do norte das Casas da Quinta do Meio. Dessa esquina, surgiram no escuro três homens a cavalo que dispararam tiros sobre a carruagem, atingindo D.José no braço e na anca direita. Encontrando-se o rei gravemente ferido, o sargento-mor e o bolieiro Custódio da Costa, também atingidos pelos tiros, resolveram dirigir-se ao Bairro da Junqueira à casa do cirurgião-mor António Soares Brandão. Depois de receber os curativos necessários, a seguir dirigiu-se ao palácio. No dia seguinte, surgem diversos rumores acerca do sucedido. Houve quem dissesse que o rei adoecera, quem defendesse que o rei tinha sido alvejado por engano, sendo os tiros destinados a Pedro Teixeira, que era bastante odiado na corte e ainda quem acusasse a família Távora da tentativa de assassinato do rei, já que, por ser muito devota, não consentiria a ofensa que a relação entre o D.José I e a Marquesa constituía. Este acontecimento depressa foi encarado como uma represália familiar dos Távoras contra o rei, pela humilhação que este os fizera passar. Ao longo de três meses, manteve-se, no Paço,um completo silêncio sobre o atentado. A «Gazeta de Lisboa» ia anunciando as melhoras do Rei, mas não houve reacções oficiais. No ano de 1758, o rei português D. José I foi vítima de um atentado dentro de seu próprio país. A partir daí, sob a acusação da prática dos crimes de Traição e Lesa-Majestade, procedeu-se uma perseguição a membros de algumas das principais famílias da nobreza de Portugal, especialmente o Duque de Aveiro e o Marquês de Távora. Tal perseguição culminou num julgamento de cunho político repleto de irregularidades jurídicas e numa execução bárbara com requintes de crueldade que entrou para a história como "O Processo dos Távora". "O Processo dos Távora", igualmente cognominado de "O Caso dos Távoras" é um episódio histórico muito famoso em Portugal, mas que permanece até os presentes dias cercado de lacunas e pontos obscuros tanto do ponto de vista fático quanto jurídico. Como se trata de um acontecimento praticamente desconhecido no Brasil e pelo fato de aqui serem residentes e domiciliados vários descendentes das famílias envolvidas nessa tragédia, pareceu-me oportuno escrever a respeito do tema. A história remonta o ano de 1750, quando El-Rei Nosso Senhor de Portugal, D. João V (tratamento conferido aos reis da época) nomeou D. Francisco de Assis (o Marquês de Távora), para o cargo de Vice-Rei da Índia. Assim, em março daquele ano o Marquês de Távora partiu para a Índia com o intuito de representar a Coroa Portuguesa naquele país, acompanhado de sua esposa D. Leonor Tomásia de Távora [01] (a Marquesa de Távora) e seus filhos Luís Bernardo (o Marquês-novo) e José Maria, deixando em Portugal suas duas filhas casadas e a esposa de Luís Bernardo, Teresa de Távora e Lorena (a Marquesa-nova). Enquanto D. Francisco de Assis estava em Goa, na Índia, o rei D. João V faleceu, assumindo o trono o até então príncipe D. José (agora El-Rei D.José I). Ao regressarem a Portugal, após quatro anos de bem sucedido governo de D. Francisco de Assis na Índia, os Marqueses de Távora foram informados por amigos e parentes que a esposa de Luís Bernardo de Távora, D. Teresa de Távora [02] havia se tornado a amante preferida do rei D. José I, e que esse relacionamento amoroso adulterino já era de conhecimento público. Indignada com a situação, D. Leonor passou a pleitear a anulação canônica do casamento de seu filho Luís Bernardo e exigiu que o mesmo não mais convivesse maritalmente com D. Teresa. A posição radical adotada pela Marquesa de Távora em relação ao casamento do filho mais velho, aborreceu extremamente o rei D. José I, o qual mandou seu principal ministro Sebastião José de Carvalho e Melo, tentar convencer os Marqueses de Távora de que D. Teresa deveria retomar a vida conjugal normal com o marido Luís Bernardo de Távora. Contudo, os Marqueses se mostraram irredutíveis. Posteriormente, o próprio rei D. José I solicitou pessoalmente a D. Francisco de Assis que fosse relevado o "suposto affair" de D. Teresa com aquele regente em troca de favores e títulos no governo, mas D. Francisco de Assis recusou a proposta do rei, irritando-o mais profundamente ainda. Pouco tempo depois, em 1º de novembro de 1755, dia de feriado religioso católico português denominado "Dia de Todos os Santos", a cidade de Lisboa (capital do Império Português) sofreu um terrível terremoto que destruiu casas, igrejas, edifícios e palácios, e que foi sentido inclusive em outras cidades do Reino. Não se tratou de mais um dos tantos abalos sísmicos a que os europeus estavam acostumados, mas sim o pior da história do velho continente já registrado. Além do terremoto, Lisboa foi inundada por um grande maremoto e depois ficou ardendo em chamas durante seis dias. É imperioso mencionar que o rei D. José I não gostava de governar e delegava a maioria de seus poderes, principalmente para o seu ministro de confiança Sebastião José de Carvalho e Melo (o qual futuramente foi nomeado Marquês de Pombal [03]). Desse modo, determinados membros da nobreza começaram a se incomodar com o fato de uma pessoa considerada de origem inferior a deles deter cada vez mais poder prestígio e importância no Reino. Foram nessas circunstâncias que se esboçou um movimento palaciano contestatório, encabeçado pelo desembargador Costa Freire, com o fulcro de derrubar o governo e substituí-lo por outro, a ser constituído por alguns membros da nobreza portuguesa. Posto isso, em 03 de setembro de 1758, deu-se o incidente que mudou a história. Nessa noite, o rei D. José I saiu secretamente para uma breve visita a sua amante predileta, D. Teresa de Távora. Tanto era secreto esse encontro que alguns dias antes o rei havia decretado luto oficial no país em virtude da morte de sua irmã Maria Bárbara, ex-rainha da Espanha; fato esse que impedia as saídas dos membros da Família Real do Paço que habitavam em Belém, depois do terremoto em Lisboa. Desse modo, o rei não se serviu da carruagem nem da escolta reais. Ao retornar do encontro com a Marquesa-nova, o monarca tomou a estrada de volta ao Paço, quando por volta das onze e meia da noite, homens encapuzados abriram fogo de clavina e pistola sobre a carruagem que transportava o soberano, ferindo-o no ombro e braço direitos, bem como nas costas. Contudo, o cocheiro conseguiu escapar levando o rei até a casa do Marquês de Angeja [04], na Junqueira, onde permaneceu até o amanhecer, quando regressou ao Paço numa carruagem real e escoltado por um corpo de Dragões. Depois do ocorrido, o rei D. José I ordenou que o ministro Carvalho e Melo procedesse a uma investigação sobre o atentado [05] com o intuito de apenar os culpados. Sendo assim, o aludido ministro se aproveitou da situação utilizando o atentado sofrido pelo monarca como pretexto para deflagrar um processo de perseguição aos maiores opositores deles (ou seja, pessoas contrárias ao rei e ao ministro), culpando e incriminando setores do clero e da nobreza pelos crimes de Traição e Lesa-Majestade. As principais retaliações sofridas pelo clero foram à queda da Companhia de Jesus, o encarceramento de figuras exponenciais do alto e baixo clero e até mesmo a morte de alguns deles. Por sua vez, no que tange à nobreza, foi criado expressamente para julgar as pessoas as quais se atribuíam à culpa da tentativa de regicídio um órgão denominado Tribunal da Inconfidência; porém os juízes encarregados do caso jamais lograram provar substancialmente uma inteira e líquida culpabilidade dos réus, pois as provas eram tão fracas e inconsistentes que às vezes nada mais eram do que deduções extraídas do que indivíduos teriam dito ou ouvido pelas ruas, e as confissões obtidas de alguns réus teriam sido conseguidas por intermédio de coação física. É nesse contexto que deve ser analisada a confissão do Duque de Aveiro, o qual sob tortura chegou a confessar muito mais do que lhe fora perguntado, implicando na conjura todos aqueles que sabia terem caído no desagrado do Rei e de seu todo-poderoso ministro. Por conseguinte, asseverou que o desacato havia sido cometido por instigação dos padres jesuítas, tendo como cúmplices os nobres Marquês de Angeja, o Conde de Avintes, os Condes da Ribeira Grande, Óbidos e São Lourenço, os Marqueses de Távora pai e filho, José Maria de Távora e o Desembargador Costa Freire [06]. Todavia, por ordem do ministro, o conteúdo dessa "confissão" não serviu para incriminar a totalidade das pessoas nele envolvidas, mas apenas as que lhe interessavam. Ademais, a Marquesa Leonor de Távora nunca esteve presente no Tribunal e sequer foi inquirida pelos juízes, pois nem se sabia que ela estava entre os acusados. De fato, só quando o desembargador Eusébio Tavares de Sequeira (o qual houvera sido incumbido pelo próprio rei de proceder à defesa dos inculpados) requereu a Carvalho e Melo os quesitos do processo e inculpação para redigir tal defesa, é que o ministro lhe comunicou que ela era um dos principais acusados. Vale ressaltar a incrível celeridade com que ocorreram os derradeiros atos da marcha processual, pois a defesa dos réus foi entregue no dia 11 de janeiro de 1759 às quatro horas da tarde e nesse mesmo dia a Junta conclui os autos e requereu ao rei permissão para agravar as penas previstas em lei. No dia 12, foi concluída a devassa, redigida a sentença, comunicada aos réus e executada na manhã do dia 13. Destarte, o julgamento em tela foi em tudo contrário às leis e a justiça, mesmo porque consoante o escritor português Luiz Lancastre e Távora [07] há registros de que a sentença já se encontrava previamente lavrada antes mesmo do término do julgamento. Tanto isso é verdade que nem os juízes cuidaram em averiguar um único fato alegado pelos réus em sua defesa ou em inquirir uma só testemunha por eles oferecidas. Não obstante, passa-se, enfim, à parte das sentenças: ao Duque de Aveiro e ao Marquês de Távora pai seria aplicada a pena de serem rompidos em vida, quebrando-lhes os ossos das pernas, braços e peito a golpes de maça, estando seus corpos atados às rodas, após o que seria queimados, sendo as cinzas jogadas ao mar. D. Leonor teria a cabeça decepada à espada pelo carrasco, o qual após expor a cabeça ao povo deveria queimá-la juntamente com o restante do corpo e lançar as cinzas ao mar. O Marquês Luís Bernardo, José Maria Távora e o Conde de Atouguia seriam logo garrotados e só depois quebrados os ossos das pernas e braços, antes de serem seus corpos lançados na mesma fogueira que os predecessores. Pena igual aplicar-se-ia aos criados Manuel Álvares e João Miguel, assim como ao cabo Brás Romeiro. António Álvares e José Policarpo de Azevedo seriam atados em postes altos e queimados em vida, tendo suas cinzas o mesmo destino das dos outros réus. Além disso, todos foram condenados a desnaturazilação de Portugal, exautoração das honras e privilégios da nobreza a que tinham direito e total confisco de bens. Ademais, no tocante especificamente à família Távora, ficava de futuro proibido o uso do sobrenome Távora; determinava-se que suas armas fossem picadas e raspadas onde quer que se encontrassem; o restante das mulheres deveriam ser separadas dos filhos (os quais ficavam obrigados a professar) e encerradas em conventos; e suas casas arrasadas e salgados os chãos onde se erguiam para eterna lembrança desse castigo. A execução da sentença ocorreu no sítio de Belém, no chamado Cais Grande, onde se construiu especialmente para tal feito um alto e grande patíbulo [08] todo em madeira sobre o qual se encontravam os postes, as rodas, as aspas e todos os outros apetrechos necessários a sua realização; e onde até hoje existe um pelourinho. À luz do exposto, percebe-se que todo o processo foi uma farsa, levada a cabo para ocultar, sob uma aparência de legalidade, uma das mais atrozes vinganças pessoais e uma política de governo autocrática e absoluta, constituindo-se "O Processo dos Távora" num ato meramente político e sendo o Tribunal da Inconfidência tão-somente um instrumento da política pombalina. Alfim, faz-se-mister ressaltar que após a morte do rei D. José I e da saída do Marquês de Pombal do governo português, a nova rainha D. Maria I ordenou que se procedesse a um inquérito sobre a atuação do ex-ministro e consentiu na revisão do processo dos Távora. Nesse sentido, os juízes que examinaram a petição de revisão da sentença condenatória dos Marqueses de Távora, filhos e genro, o Conde de Atouguia, consideraram -lhes inocentes face às provas que haviam sido usadas para incriminá-los; reabilitando-se a Memória da família Távora e devolvendo-se, na medida do possível, os títulos e bens a que tinham direito. Notas: 01 Leonor Tomásia de Távora e Francisco de Assis eram primos legítimos entre si e tiveram o casamento arranjado desde cedo pelos respectivos pais (como era de praxe na época). Ela era herdeira da Casa dos Távoras e ele era filho do Conde de Alvor. Desse matrimônio nasceram 13 filhos, dos quais 09 pereceram em tenra idade, sobrevivendo só dois homens e duas mulheres, a saber: Mariana Bernarda de Távora (primeiro rebento do casal), Luís Bernardo de Távora (o primeiro filho homem do casal), José Maria de Távora e Leonor de Lorena e Távora. 02 Teresa de Távora e Lorena (a Marquesa-nova) era filha do Conde de Alvor (portanto, irmã de Francisco de Assis) e nasceu com poucos dias de diferença de Luís Bernardo. Assim, em tom de jocosidade, o Conde de Alvor dissera que deveria ficar desde logo aprazado o casamento da tia com o sobrinho legítimo; o que para a desgraça da família realmente viera a se concretizar em 1742. 03 O título de Marquês de Pombal foi instituído em benefício de Sebastião José de Carvalho e Melo por decreto do rei D.José I em 16 de Setembro de 1769. 04 O qual era cunhado do rei D. José I. 05 Na realidade, nunca se descobriram as verdadeiras pessoas nem motivações envolvidas por trás daquele incidente, existindo diversas teorias a respeito. Pessoalmente, filio-me a corrente que sustenta trata-se o atentado ao rei D. José I de uma simples tentativa de assalto, muito comum àquela hora e local. 06 O qual já havia sido castigado há bastante tempo com o desterro para Angola, na África. 07 D. Leonor de Távora. O Tempo da Ira. O Processo dos Távora, 3.ed., Lisboa: Quetzal, 2003. (Livro que serviu de base à redação do presente artigo). 08 Concluída com êxito a execução da sentença, fora ateado fogo no patíbulo, transformando-o em uma enorme fogueira e fazendo com que a maior parte das cinzas dos mortos sujassem casas e telhados já distantes, na Junqueira e Ajuda. D. Jerónimo de Ataíde -11.º conde de Atouguia N. a 14 de Julho de 1721; foi supliciado em 13 de Janeiro de 1759, em Belém, por ser acusado de cumplicidade no crime dos Távoras praticado em Setembro de 1758. Era filho de D. Luís Peregrino de Ataíde, 10.º conde de Atouguia, e da condessa D. Clara de Assis Mascarenhas, filha do conde de Óbidos. Casou com D. Mariana Bernarda de Távora, filha dos marqueses de Távora, e por esse motivo foi envolvido na conspiração contra D. José, de que era acusada a família de sua mulher. Sendo preso junto com os outros réus e levado para o pátio dos Bichos em Belém, dali saiu unicamente para o patíbulo. Os seus bens foram confiscados, a casa demolida e picado o brasão, o qual se compunha de quatro bandas de prata em campo azul, tendo por timbre uma onça azul bandada de prata, como que saltando. Duque de Aveiro Nasceu a 2 de Outubro de 1708, falleceu em Belém a 13 de Janeiro de 1759, no patíbulo, por ser sentenciado como um dos principais influentes no crime de conspiração contra a vida de el-rei D. José, em 3 de Setembro de 1758. Era filho segundo do 3.º conde de Gouveia e 6.º conde de Santa Cruz, D. Martinho de Mascarenhas; e de sua mulher, D. Inácia Rosa de Távora, filha de António Luís de Távora, 2.º marquês deste título. D. José, sendo destinado por seu pai para a vida eclesiástica, foi porcionista do colégio de S. Pedro da Universidade de Coimbra. Seu irmão mais velho foi o 4.º marquês de Gouveia e 7.º visconde de Santa Cruz; apesar de ser casado, apaixonou-se por uma senhora, também casada, e fugiu com ela. Como este crime era gravíssimo e punido com as mais. severas penas, D. João viu-se impossibilitado de voltar ao reino, e renunciou a sua casa e títulos em favor de seu irmão D. José, ficando este fidalgo com uma posição na corte bem diferente da que tencionava. Era senhor das vilas, morgados e comendas da casa de Gouveia, mordomo-mor da casa de D. João V, que o fez presidente do Desembargo do Paço, cuja posse tomou a 30 de Agosto de 1749. No ano de 1739 casou com D. Leonor de Távora, filha do 2.º conde de Alvor, e irmã do 3.º marquês de Távora, D. Francisco de Assis. Falecendo no estado de solteiro o 7.º duque de Aveiro, D. Gabriel de Lencastre Ponce de Leon, levantou se grande demanda acerca da sucessão entre um sobrinho deste fidalgo, D. António de Lencastre Ponce de Leon, e D. José de Mascarenhas, que se apresentava com direito à casa e ducado de Aveiro, como legítimo sucessor, por ser descendente do 3.º duque daquele título, cuja filha D. Maria de Lencastre. casara com o 1.º marquês de Gouveia. 0 primeiro ministro de D. João V, Frei Gaspar da Encarnação favoreceu muito a pretensão de D. José Mascarenhas, de quem era tio, e conseguiu em 1749 uma sentença a seu favor, a qual foi confirmada três anos depois pela Relação de Lisboa; D. José tomou então posse da casa e ducado de Aveiro, de que foi o 8.º e último duque. Tornando-se excessivamente orgulhoso a altivo, projectou casar seu filho D. Martinho Mascarenhas, marquês de Gouveia, com a filha mais velha do duque de Cadaval, imaginando a possibilidade de reunir no seu herdeiro essas duas nobilíssimas casas, pretendendo ao mesmo tempo que lhe fossem dadas as importantes comendas que, sem fazerem parte da casa de Aveiro, tinham sido administradas pelos duques seus antecessores. As dificuldades que encontrou na realização desse enlace e que atribuiu à má vontade de el-rei D. José, e o indeferimento que teve a segunda pretensão, junto ao ódio que os nobres e grandes do reino consagravam a Sebastião José de Carvalho e Melo, mais tarde conde de Oeiras e marquês de Pombal, fizeram com que o orgulhoso fidalgo planeasse um atentado contra a vida de D. José, para desse modo aniquilar a influência e poder do austero ministro. Decidido a pôr em prática o seu plano, buscou auxiliares em dois criados seus, que eram irmãos, um seu cunhado, José Policarpo de Azevedo, alguns populares, falando vagamente do seu projecto a algumas pessoas da nobreza. Daqui resultou o crime bem conhecido na história pela conspiração dos Távoras, de 3 de Setembro de 1758, cuja tentativa ficou frustrada, resultando ainda uns leves ferimentos em el-rei. Sendo presos os que se indicavam como criminosos, seguiu o processo sumariamente, lavrando-se a sentença condenatória a 12 de Janeiro de 1759, realizando-se a execução logo no dia seguinte. Os títulos de duque de Aveiro e marquês de Távora ficaram extintos para sempre. A sentença ordenava a confiscação de todos os bens, que as armas fossem derribadas e picadas em todos os lugares onde estivessem colocadas, e as casas de residência demolidas a arrasadas de sorte que delas não restassem vestígios, sendo reduzidas a campo e salgado. 0 palácio que o duque de Aveiro possuía em Belém foi completamente arrasado, e nele se erigiu uma memória para perpetuar o crime e o castigo dele. É uma coluna cilíndrica, de cinco metros de altura, terminada por uma chama em forma de pira, cercada de cinco anéis, também de pedra representando os cinco membros da família de Aveiro, que entraram na conjuração. Na base da coluna lê-se o seguinte: Este terreno salgado ficou pertencendo à câmara de Belém; esteve deserto e abandonado até ao reinado de D. Maria I, em que a câmara foi dando licenças para diversas a pequenas edificações. A coluna existe actualmente num beco ficando oculta por uns casebres. A parte da sentença, que ordenava que se picasse o brasão de Aveiro, em todos os locais que se encontrasse, não foi cumprida completamente porque, segundo se diz, ainda hoje se vêem alguns intactos na cidade. de Aveiro a na parede exterior do edifício do colégio de Santo Tomás, em Coimbra, que faz frente para a rua da Sofia. A duquesa de Aveiro, logo em seguida à prisão de seu marido, foi levada para o convento do Rato, onde faleceu em 1761 na mais extrema miséria, porque tendo-lhe sido confiscados os bens e não ousando ninguém socorre-la com receio de incorrerem na cólera do soberano ou do seu omnipotente ministro, a ilustre fidalga viu-se obrigada a servir as freiras a troco da mais humilhante retribuição, para não andar descalça e nua. D. Martinho de Mascarenhas, filho do duque, foi também encarcerado, e só em 1777, por morte de el-rei D. José, é que saiu das prisões da Junqueira. Vendo-se só a sem família, passou algum tempo com os frades de Mafra, obtendo depois por intervenção do marquês de Alorna o posto de capitão num regimento. Foi o 6.º marquês de Gouveia, título que também ficou extinto. D. João VI, sendo ainda príncipe regente, concedeu-lhe por fim uma mesada de 100$000 réis, do seu bolsinho particular, a assim viveu até 1804, ano em que faleceu, ficando por sua morte extinta uma das mais ilustres casas de Portugal.

D.Maria I - A Piedosa - 26ª Rainha de Portugal Reinou 39 anos

A D. José sucedeu sua filha D. Maria Iª. Logo após a morte do rei, o Marquês de Pombal pediu a demissão de ministro e de outros cargos, que a rainha logo deferiu. Contra ele foi depois instaurado um processo, que veio a terminar pela sua condenação. Mas a rainha perdoou-lhe parte dos castigos, limitando-se a determinar que se ausentasse para local distante de Corte 20 léguas. O Marquês partiu então para Pombal, onde viver os últimos anos da sua vida. D. Maria Iª, em seguida à revisão do processo que tinha condenado os supostos implicados na atentado contra D. José, mandou pôr em liberdade a maior parte das pessoas que se encontravam presas, por serem julgadas sem culpa. Pela mesma razão, foram considerados inocentes todos os Távoras. O governo de D. Maria Iª foi extraordinariamente profícuo para o Reino. Cercando-se de bons cooperadores, como o Duque de Lafões, seu tio, e o abade José Correia da Serra, a rainha pode realizar uma obra fecundíssima e de grande alcance nacional. Portugal deve-lhe muito no que diz respeito ao desenvolvimento da instrução: Fundou a Academia Real das Ciências, a Biblioteca Nacional, a Academia Real da Marinha, a Academia Real da Fortificação e a Casa Pia de Lisboa. Inaugurou a iluminação pública de Lisboa. Neste reinado construiu-se a Basílica da Estrela, em Lisboa, principiaram-se as obras do Teatro de São Carlos e concluiu-se a Igreja da Memória. A rainha foi vítima de muitos desgostos: num curto período de sete anos, viu morrer a mãe, o marido )D. Pedro IIIº) e o filho (D. José, herdeiro do trono). Além disso, muito se impressionou com as violências da Revolução Francesa, em que foram assassinados os próprios reis de França, Luís XVI e Maria Antonieta. Tudo isto contribuiu para que a rainha, em 1791, fosse atacada de doença mental. Desde então, até 1796, D. João, seu filho, governou em nome da mãe, passando depois a assumir, definitivamente, a regência do Reino. Em virtude das tremendas atrocidades que se desenrolavam em França, muitas nações revoltaram-se contra aquele país, especialmente a Inglaterra, que era a mais empenhada na luta. Espanha e Portugal resolveram também entrar na guerra. Em 1793, invadiram a Trança, e começou a Campanha do Russilhão, que se manteve até 1795, data em que a Espanha, sem consultar Portugal, assinou a paz com os franceses.. Portugal, no entretanto, fiel aos seus compromissos, mantinha-se firme ao lado da Inglaterra, a quem enviara uma esquadra que, juntamente com a armada inglesa, tomou parte na grande batalha naval de Aboukir, inglória para a França. Em face do sucedido, a represália da França, governada nesse tempo por Napoleão Bonaparte, não se fez esperar. Em 1801, Portugal foi invadido por numerosas tropas espanholas e francesas, já amigas e agora aliadas. O inimigo entrou pela fronteira alentejana, tendo conseguido apoderar-se de Olivença, que nunca nos foi restituída. Napoleão Bonaparte, grande general, imperador dos franceses, pelas vitórias que havia conseguido contra a Áustria, Prússia, Itália, Rússia, etc., julgava-se o senhor absoluto da Europa. Em Julho de 1807, impôs o Bloqueio Continental. Em obediência a esta ordem, todas as nações europeias deviam encerrar os seus portos aos navios britânicos. O Príncipe D. João, inspirado na vontade de seu povo, não cumpriu as determinações de Bonaparte. Tínhamos perdido Olivença e podíamos sofrer mais reveses, mas dignificámos a nossa aliança, franqueando os nossos portos à Inglaterra. Como o nosso Regente, à vista de novas insistências, continuasse a não transigir, Napoleão assinou com a Espanha o Tratado de Fontainebleau, em 27 de Outubro de 1807, pelo qual Portugal seria repartido pela Espanha e pela França. Para tal efeito, tinha Portugal de ser conquistado, o que não foi possível ao general francês. Primeira invasão francesa em 1807: A fim de ser executado o Tratado de Fontainebleau, Napoleão Bonaparte mandou invadir Portugal com um exército de 30 mil homens, comandados por Junot. O inimigo tinha penetrado pela Beira Baixa e chegara já a Abrantes, em marcha sobre Lisboa. No dia 30 de Novembro de 1807, o invasor entrava em Lisboa. A Família Real tinha partido para o Brasil três dias antes. Começaram então os roubos, os atentados, os assaltos às igrejas, repartições públicas e casas particulares. O País não podia sofrer semelhantes violências. Surgem as primeiras manifestações de revolta contra a dominação estrangeira – é chegado o momento de agir. O Porto levanta-se em armas e, a seguir, as províncias do Minho e de Trás-os-Montes. Pedem-se depois auxílios à Inglaterra que nos envia um corpo de exército comandado por Artur Wellesley, depois duque de Wellington. As forças anglo-lusas, atacam os franceses, que são derrotados nas Batalhas de Roliça (Óbidos) e Vimieiro (Lourinhã). Em Agosto de 1808 é assinada a Convenção de Sintra, pela qual Junot e as suas tropas foram obrigadas a sair de Portugal. Segunda invasão francesa em 1809: O imperador dos franceses, que se não havia conformado com a derrota de Junot, organizou outro contingente de tropas, comandado pelo general Soult, e determinou nova invasão a Portugal. O inimigo, desta vez, entrou por Chaves, passou a G Braga e, em Março de 1809, assenhorou-se da cidade do Porto; a população sobressaltada, fugiu para o Douro, a fim de transpor a ponte das barcas, que existia nesse tempo, para fugir para o sul. Esta abateu e milhares de pessoas caíram ao rio morrendo afogadas. As tropas portuguesas agruparam-se logo. Chegaram reforços de Inglaterra – tudo se preparou para a vitória. O Exército anglo-luso, dirigido superiormente por Wellesley, atacou o inimigo, investindo contra o Porto. Soult, reconhecendo a inutilidade da resistência, fugiu desordenadamente e abandonou Portugal. Terceira invasão francesa (1810): Napoleão Bonaparte era teimoso e não perdia a ideia de conquistar Portugal. Para isso tentou uma última cartada. Alinhou as suas melhores tropas (85 mil homens) comandados por Massena e, em Agosto de 1810, Portugal foi invadido pela terceira vez. O exército francês entrou por Almeida e avançou sobre o Buçaco, onde o esperavam os soldados anglo-lusos sob o comando de Wellington, e ali se deu a grande batalha, no dia 27 de Setembro de 1810, em que os franceses foram completamente derrotados. Massena, com o resto da sua gente, conseguiu fazer uma retirada e tentou avançar sobre Lisboa. Mas estacou diante das Linhas de Torres Vedras, onde sofreu nova derrota. Começo a debandada do inimigo, que, passando a fronteira, fugiu em direcção ao seu país. Então, as tropas anglo-lusas, já aliadas da Espanha, que se tinha desavindo com Napoleão, perseguem Massena através da França e entram vitoriosas em Bordéus e Tolosa. Com esta terceira e última invasão, terminou o perigo do domínio napoleónico na Península Ibérica. No dia 20 de Março de 1816, faleceu no Rio de Janeiro, a rainha D. Maria Iª. O seu corpo foi transladado para Portugal e encontra-se na Basílica da Estrela (Lisboa) que ela fundara. Vigésima sexta reinante de Portugal, filha de D. José l e de D. Mariana Vitória. Nasceu em Lisboa em 1734, e, casou em 1760, com seu tio D. Pedro. Logo que chegou ao trono, demitiu o Marquês de Pombal de todos os seus cargos, mandando instaurar-lhe um processo. Mas a rainha perdoou-lhe grande parte dos seus erros e consequentes castigos, limitando-se a determinar que se ausentasse para local distante da Corte Real, vinte léguas. O Marquês partiu então para Pombal (distrito de Leiria) onde viveu os últimos anos da sua vida. Ao mesmo tempo, mandou fazer uma revisão ao processo que tinha condenado os supostos implicados no atentado contra seu pai, D. José l, mandando pôr em liberdade a maior parte das pessoas que ainda se encontravam presas, devido a este processo. Pela mesma razão, foram considerados inocentes todos os Távoras, supliciados e mortos em 13 de Janeiro de 1759, durante o reinado de seu pai. Durante o seu reinado, Portugal decaiu muito. Entretanto, graças à influência de certas figuras públicas de grande valor, como Martinho de Melo, o Duque de Lafões, Sousa Coutinho, o arcebispo de Tessalónica, Diogo de Pina Manique (*), etc., algumas reformas foram feitas. Em 1792, a rainha, a que os acontecimentos de França haviam afectado profundamente, perdeu a razão (loucura) e, seu filho, o príncipe D. João (mais tarde D. João Vl), assumiu a regência do Reino. Em 1807, sempre diminuída mentalmente, acompanhou a Família real ao Brasil, onde veio a falecer nove anos depois (1816). Seu corpo jaz na Basílica da Estrela (Lisboa), monumento construído no seu reinado. (*)Diogo Inácio Pina Manique: Foi intendente de Polícia no tempo do Marquês de Pombal e ainda no reinado de D. Maria l. Nasceu em Lisboa em 1733. Criou a Casa Pia (Belém – Lisboa), albergue de crianças abandonadas. Foi o grande impulsionador da iluminação pública de Lisboa (a azeite) e do seu policiamento. Também da colonização do Alentejo com emigrados dos Açores e outros. Em contrapartida foi um grande perseguidor dos liberais. Com a subida ao trono de D. Maria l, verificou-se uma descontracção na economia, dando-se então, pouco a pouco, a liberdade à produção agrícola. No domínio da indústria, a extinção das corporações, em 1791, liberta o trabalho de "regulamentos rígidos". No comércio, a realização de um tratado com a Rússia alarga os nossos contactos internacionais e aumentam os nossos mercados. Nota: Por altura deste reinado, grandes transformações se dão na economia europeia. Com a descoberta da "máquina a vapor", em 1780 por Watt, a indústria manufactureira transforma-se, e, as unidades industriais servem-se deste invento para mecanizarem a sua produção. Inicia-se assim, graças a esta descoberta, a Revolução Industrial, que favorece decisivamente o progresso do Capitalismo. D. Maria I Filha primogénita de D. José I. Foi aclamada rainha em Maio de 1777. Por sofrer de doença mental foi afastada dos negócios públicos em princípios de 1792, tendo o príncipe D. João tomado conta do governo em nome de sua mãe até 1799, ano em que passou a governar em seu próprio nome, com o título de Regente. Nascida em 1734, recebeu logo o título de "Princesa da Beira", passando com a ascensão ao trono do pai, em 1750, a ser chamada "Princesa do Brasil". Casou em 1760 com o seu tio D. Pedro de quem enviuvou. A animosidade que sempre existiu entre os príncipes do Brasil e o marquês de Pombal e o desejo deste de ver D. Maria renunciar ao trono em favor de seu filho D. José, não permitiram à futura rainha que se familiarizasse com os assuntos políticos. No entanto sente-se que três preocupações absorveram o seu espírito desde os primeiros tempos do seu reinado: reparar as "ofensas" a Deus, moralizar a vida pública e governar em certos campos de uma forma mais progressiva. Perdoou aos criminosos do Estado que lhe pareceram dignos desse acto. Aceitou o pedido de escusa do marquês de Pombal de todos os seus cargos mas manteve-lhe os seus honorários de secretário de Estado. Quando D. Maria subiu ao trono era delicada a nossa posição em política internacional: guerra com a Espanha no Brasil; situação difícil perante o conflito entre a Inglaterra e as colónias americanas. Em relação ao primeiro problema, procurou desde logo a rainha um entendimento com a Espanha, o que deu origem aos Tratados de Santo Ildefonso, de Outubro de 1777, tratado preliminar de delimitação das zonas portuguesa e espanhola na América do Sul, e do Prado assinado em Março de 1778. A solução do segundo tornou-se mais difícil quando a França e a Espanha apoiaram as colónias revoltadas. Na impossibilidade de tomar partido aberto por qualquer dos beligerantes procurou obter a neutralidade, o que aconteceu em Julho de 1782, com a assinatura da convenção marítima com a Rússia, e a aceitação da Neutralidade Armada, não sem dificuldades que o governo português conseguiu vencer com certa diplomacia. A actividade legislativa é notável, sobretudo no que diz respeito à gestão económica. Puseram-se restrições ao monopólio da Companhia do Vinho do Porto. Foi suprimida a Companhia do Grão-Pará e Maranhão; criada a Junta da Administração de todas as fábricas deste Reino e Águas Livres. Impulsionou novas manufacturas. Assinou um tratado de amizade, navegação e comércio com a Rússia. A exportação do vinho do Porto desenvolveu-se largamente. Também no seu tempo se deu um impulso à cultura tendo-se procedido à criação de numerosas instituições, como: a Real Academia das Ciências de Lisboa, Aula Pública de Debucho e Desenho, no Porto, e a Aula Régia de Desenho de Lisboa. Fundou a Academia Real de Marinha e a Real Biblioteca Pública de Lisboa. Criou Hospitais no Brasil e na metrópole. Criou a lotaria para alargar os serviços da Misericórdia de Lisboa. Uma das suas medidas mais importantes é a fundação da Real Casa Pia de Lisboa, obra de Pina Manique. Ficha genealógica: D. Maria I nasceu em Lisboa, a 17 de Dezembro de 1734, recebendo o nome de baptismo de Maria Francisca Isabel Josefa Antónia Gertrudes Rita Joana, e faleceu no Rio de Janeiro, a 20 de Março de 1816, estando sepultada na Basílica da Estrela. Casou em 6 de Junho de 1760 com o seu tio, o infante D. Pedro, que era príncipe do Brasil e veio a ser, pelo casamento, o rei consorte D. Pedro III. Do casamento nasceram: 1. D. José, príncipe da Beira e duque de Bragança. Nasceu no Paço da Ajuda, em 20 de Agosto de 1761, e faleceu no mesmo Paço a 11 de Setembro de 1788; está sepultado no Panteão de S. Vicente de Fora. Casou com a tia D. Maria Francisca Benedita; 2. D. João, infante de Portugal. Nasceu e faleceu em 1763, sendo sepultado no mesmo panteão); 3. D. João VI, que sucedeu no trono; 4. D. Maria Clementina. Nasceu em Lisboa, em 1774 e faleceu na mesma cidade em 1776, estando sepultada em São Vicente de Fora; 5. D. Maria Isabel. Nasceu em Queluz, em 23 de Dezembro de 1766, faleceu em Lisboa, em 1777, e jaz no mesmo panteão; 6. D. Mariana Vitória Josefa. Nasceu em Queluz, a 15 de Dezembro de 1768; faleceu em Madrid, a 2 de Novembro de 1788). Casou com Gabriel António Francisco Xavier de Bourbon, infante de Espanha, tendo havido descendência. Fontes: Joel Serrão - Pequeno Dicionário de História de Portugal, Lisboa, Iniciativas Editoriais, 1976 Joaquim Veríssimo Serrão - História de Portugal, Volume VI: O Despotismo Iluminado (1750-1807), Lisboa, Verbo, 1982 Caetano Beirão - D. Maria I, 1777-1792. Subsídios para a revisão da História do seu Reinado, 2.ª ed., Lisboa, Empresa Nacional de Publicidade, 1934 Tratado de Fontainebleau Em 1806, depois do fracasso na tentativa de invasão à Inglaterra, Napoleão decretou o Bloqueio Continental. Portugal, tradicional aliado da Inglaterra, se nega a acatá-lo. Napoleão então decide invadir Portugal. Mas, para isso, Napoleão precisava levar as suas tropas até o território português. Então, em 27 de outubro de 1807, Manuel Godoy e Napoleão firmam o Tratado de Fontainebleau, por ele que se permitia o passar de tropas francesas pelo território espanhol a fim de invadir Portugal. TRATADO SECRETO ENTRE A ESPANHA E A FRANÇA EM FONTAINEBLEAU AOS 27 DE OUTUBRO DE 1807 Nós Napoleão, pela graça de Deus e da constituição, imperador dos franceses, rei da Itália e protector da confederação do Reno, tendo visto e examinado o tratado, concluído, arranjado e assinado em Fontainebleau, a 27 de Outubro de 1807, pelo general de divisão Miguel Duroc, grão-marechal do nosso palácio, grão-cavaleiro da Legião de Honra, etc, ele., em virtude de plenos poderes conferidos por nós para este fim, com D. Eugénio Izquierdo de Ribera y Lezaun, conselheiro honorário de estado e da guerra de sua majestade o rei de Espanha, o qual também estava munido com plenos poderes pelo seu soberano, o qual tratado é na forma seguinte : Sua majestade, o imperador dos franceses, rei da Itália e protector da confederação do Reno, e sua majestade católica, o rei da Espanha, desejando regular por comum com sentimento o interesse dos dois estados, e determinar a futura condição de Portugal, de maneira que seja consistente com a boa política de ambos os países; tem nomeado para seus ministros plenipotenciários, a saber: sua majestade o imperador dos franceses, rei da Itália e protector da confederação do Reno, ao general de divisão Miguel Duroc, grão-marechal do palácio, grão-cavaleiro da Legião de Honra; e sua majestade católica, rei da Espanha, a D. Eugénio Izquierdo de Ribera y Lezaun, seu conselheiro honorário de estado e da guerra, os quais ministros, havendo ambos mutuamente trocado os seus plenos poderes, concordaram no seguinte: Artigo 1. A província de Entre Douro e Minho, com a cidade do Porto, se trespassará em plena propriedade e soberania para sua majestade, o rei da Etrúria, com o título de rei da Lusitânia setentrional. Artigo 2. A província do Alentejo e o reino dos Algarves se trespassarão em plena propriedade e soberania para o príncipe da Paz, para serem por ele gozados, debaixo do titulo de príncipe dos Algarves. Artigo 3. As províncias da Beira, Trás-os-Montes e Estremadura portuguesa, ficarão por dispor até que haja uma paz, e então se disporá delas segundo as circunstancias, e segundo o que se concordar entre as duas partes contratantes. Artigo 4. O reino da Lusitânia setentrional será tido pelos descendentes de sua majestade, o rei da Etrúria, hereditariamente e conforme as leis da sucessão, estabelecidas na família que ocupa o trono da Espanha. Artigo 5. O principado dos Algarves será lido pelos descendentes do príncipe da Paz hereditariamente e conforme as leis de sucessão estabelecidas na família que ocupa o trono da Espanha. Artigo 6. Se não houver descendentes ou herdeiros legítimos do rei da Lusitânia do norte, ou do príncipe dos Algarves, se disporá por investidura do rei de Espanha, de maneira que nunca se unirão debaixo de uma só cabeça, nem se anexarão à coroa de Espanha. Artigo 7. O reino da Lusitânia setentrional e o principado dos Algarves reconhecerão como protector sua majestade católica, el-rei de Espanha, e em nenhum caso os soberanos destes países farão paz ou guerra sem o seu consentimento. Artigo 8. No caso de que as províncias da Beira, Traz os Montes e Estremadura portuguesa, tidas em sequestro, se devolvam na paz geral à casa de Bragança, em troca de Gibraltar, Trindade e outras colonias, que os ingleses têm conquistado à Espanha e seus aliados, o novo soberano destas províncias terá, relativamente a sua majestade católica, el-rei de Espanha, as mesmas obrigações que tem o rei da Lusitânia setentrional e o príncipe dos Algarves, e as terá debaixo das mesmas condições. Artigo 9. Sua majestade, o rei da Etrúria, cede o reino da Etrúria em plena propriedade e soberania a sua majestade, o imperador dos franceses e rei da Itália. Artigo 10. Assim que as províncias de Portugal forem definitivamente ocupadas, os diferentes príncipes que as devem possuir nomearão mutuamente comissários para verificar os seus limites naturais. Artigo 11. Sua majestade, o imperador dos franceses e rei da Itália, garante a sua majestade católica, el-rei de Espanha, aposse dos seus domínios no continente da Europa, situados ao sul dos Pirenéus. Artigo 12. Sua majestade, o imperador dos franceses e rei da Itália, se obriga a reconhecer a sua majestade católica, o rei da Espanha, como imperador das duas Américas, quando tudo estiver pronto para sua majestade assumir este titulo, que pode ser, ou ao tempo da paz geral, ou o mais tardar tres anos depois daquela época. Artigo 13. As duas altas partes contratantes concordam mutuamente em uma igual divisão das ilhas, colonias e outras possessões transmarinas de Portugal. Artigo 14. O presente tratado será tido em segredo. Será ratificado e trocado em Madrid dentro de vinte dias, o mais tardar, da data da sua assinatura. Dado em Fontainebleau, aos 27 de Outubro de 1807. = Napoleão. = O ministro dos negócios estrangeiros, Champagny. =O secretario de estado, Maret. CONVENÇÃO SECRETA, ENTRE A ESPANHA E FRANÇA DE 27 DE OUTUBRO DE 1807, TENDO POR FIM REALIZAREM A PROMETIDA DIVISÃO E OCUPAÇÃO DE PORTUGAL, ESTIPULADO NO PRECEDENTE TRATADO.Napoleão, pela graça de Deus e da constituição, imperador dos franceses, rei da Itália e protector da confederação do Reno; tendo visto e examinado a convenção concluída, arranjada e assinada em Fontainebleau, aos 27 de Outubro de 1807, pelo general de divisão Miguel Duroc, grão-marechal do nosso palácio, grão-cordão da Legião de Honra, etc., etc., em virtude dos plenos poderes que nós lhe conferimos, de uma parte; e da outra parte D. Eugenio Izquierdo de Ribera y Lezaun, conselheiro honorário de estado e da guerra de sua majestade, o rei de Espanha, igualmente munido com plenos poderes pelo seu soberano, o teor da qual convenção era o seguinte: Sua majestade, o imperador dos franceses, rei da Itália e protector da confederação do Reno, e sua majestade, o rei de Espanha, desejando entrar em um arranjamento, relativamente à ocupação e conquista de Portugal, conforme as estipulações do tratado assinado na data de hoje, têm nomeado, a saber: sua majestade, o imperador dos franceses, rei da Itália e protector da confederação do Reno, ao general de divisão Miguel Duroc, grão-marechal do seu palácio, grão-cordão da Legião de Honra, e sua majestade católica, el-rei de Espanha, D. Eugénio Izquierdo de Ribera y Lezaun, seu conselheiro de estado honorário e da guerra, os quais, depois de haverem mutuamente trocado os seus plenos poderes, concordaram nos seguintes artigos: Artigo 1 Um corpo de tropas imperiais francesas de 25:000 homens de infantaria e 3:000 de cavalaria, entrará em Espanha, e marchará directamente para Lisboa; unir-se-hão a estas um corpo de 8:000 homens de infantaria espanhola, e 3:000 de cavalaria, com 30 peças de artilharia. Artigo 2 Ao mesmo tempo uma divisão de tropas espanholas, consistindo em 10:000 homens, tomará posse da provinda de Entre Douro e Minho e da cidade do Porto; e outra divisão de 6:000 homens, também de tropas espanholas, tomará posse do Alentejo e do reino dos Algarves. Artigo 3 As tropas francesas serão sustentadas e mantidas por Espanha, e o seu pagamento providenciado por França, durante o tempo empregado na sua marcha por Espanha. Artigo 4 Ao momento em que as tropas combinadas entrarem em Portugal, o governo e administração das províncias da Beira, Traz os Montes e Estremadura portuguesa (que devem ficar em estado de sequestro), serão investidos no general comandante das tropas francesas, e as contribuições impostas nas mesmas províncias serão em beneficio da França. As províncias, que devem formar o reino da Lusitânia setentrional e o principado dos Algarves, serão administradas e governadas pelos generais comandantes das divisões espanholas que entrarem nas mesmas, e as contribuições impostas nelas serão a beneficio da Espanha. Artigo 5 O corpo central estará debaixo das ordens do comandante das tropas francesas, a quem também obedecerão as tropas espanholas unidas a este exército. Contudo se o rei da Espanha, ou o príncipe da Paz, julgar conveniente ir ao exército, as tropas francesas com o general que as comandar, ficarão sujeitas as suas ordens. Artigo 6 Outro corpo de 40:000 homens de tropas francesas se ajuntará em Bayonna, cerca dos 20 de Novembro próximo futuro ao mais tardar, estando pronto para entrar na Espanha, para o fim de marchar para Portugal, no caso em que os ingleses lá mandassem reforços, ou ameaçassem com um ataque. Este corpo adicional porém não entrará em Espanha até que as duas altas partes contratantes tenham concordado sobre este ponto. Artigo 7 A presente convenção será ratificada, e as ratificações trocadas ao mesmo tempo que o tratado desta data. Dado em Fontainebleau, aos 27 de Outubros de 1807.;= (Assinados) Duroc=E. lzquierdo. Na busca de outras maneiras para derrotar ou enfraquecer os ingleses, o Império Francês decretou o Bloqueio Continental em 1806, onde Napoleão determinava que todos países europeus deveriam fechar seus portos para o comércio com a Inglaterra, enfraquecendo as exportações do país e causando uma crise industrial. Um problema que afectou muitos países que participaram do Bloqueio era que a Inglaterra, que já havia passado pela Revolução Industrial, estava com uma consolidada produção de produtos industriais, e muitos países europeus ainda não possuíam produção industrial própria, e dependiam da Inglaterra para importar este tipo de produto, em troca de produtos agrícolas. A França procurou beneficiar do Bloqueio com o aumento da venda dos produtos produzidos pelos produtores franceses, ampliando as exportações dentro da Europa e no mundo. A fraca quantidade de produtos manufacturados deixou alguns países sem recursos industriais. Primeira Invasão Francesa Sob o comando do General Junot, as tropas francesas entraram na Espanha em 18 de Outubro de 1807, cruzando o seu território em marcha acelerada em pleno Inverno, e alcançando a fronteira portuguesa em 20 de Novembro. Sem encontrar resistência, uma coluna de tropas invasoras atingiu Abrantes a 24, em busca de provisões. Faminto e desgastado pela marcha e pelo rigor do Inverno, o exército francês teve dificuldade para ultrapassar o rio Zêzere, entrando em Santarém a 28, de onde partiu no mesmo dia, rumo a Lisboa, onde entrou a 30, à frente de dois regimentos em mau-estado. No dia anterior, a Família Real e a Corte portuguesa haviam largado ferros da barra do rio Tejo, rumo ao Brasil, levando em 34 navios de guerra portugueses, cerca de 15.000 pessoas, deixando o governo de Portugal nas mãos de uma regência, com instruções para não "resistir" aos invasores. No ano seguinte, em Agosto, uma força britânica sob o comando do general Arthur Wellesley (mais tarde duque de Wellington), desembarcava em Portugal, avançando sobre Lisboa. Travaram-se, na sequência, a batalha de Roliça e a batalha do Vimeiro, vencidas pelos aliados Portugal/Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte, forçando à Convenção de Sintra. A Convenção de Sintra, foi um acordo entre Inglaterra e França, assinado no Palácio de Queluz a 30 de Agosto de 1808, encerrou a primeira invasão francesa a Portugal, no contexto da chamada Guerra Peninsular. Após a derrota das tropas napoleónicas na batalha de Roliça (17 de Agosto) e na batalha do Vimeiro (21 de Agosto), o general Junot propôs aos ingleses um armistício. Após as negociações decorridas em Sintra, chegou-se à forma final do documento pelo qual se permitia a retirada das tropas francesas, embarcadas em navios ingleses, transportando as suas armas, bagagens e o produto dos saques efetuados em Portugal. O acordo traduzia-se em benefícios mútuos: Junot, sem linhas de comunicação confiáveis com a França, retirava suas tropas sem maiores perdas e em segurança. Os ingleses ganhavam o controle da capital, Lisboa, e da temida linha de defesa da barra do rio Tejo, sem necessidade de combate. Com este acordo, os franceses ganharam tempo e voltariam a invadir Portugal um ano mais tarde. Segunda Invasão Francesa Enquanto a invasão de Portugal sucedia, Napoleão forçou a abdicação do rei Carlos IV de Espanha e de seu herdeiro, D. Fernando (Baionne, 1808), conduzindo ao trono espanhol o seu irmão José Bonaparte. Os espanhóis revoltaram-se contra os usurpadores franceses, obtendo apoio das tropas Britânicas estacionadas no norte de Portugal. Sob o comando de John Moore, os Britânicos passam a fronteira no início de 1809, para serem derrotados, na Corunha, pelo Marechal Soult. Obrigadas a retirar, deixaram a descoberto a fronteira com Portugal, permitindo a Soult, invadir o país pela fronteira do Minho em Março de 1809, avançando até à cidade do Porto, cidade que ocupam a 24 desse mês, fixando fronteira no rio Douro. Em Maio desse mesmo ano, tropas Luso-Britânicas sob o comando do General Arthur Wellesley e do comandante-em-chefe o Marechal William Carr Beresford, vencem a chamada batalha do Douro, reconquistando a cidade do Porto (29 de Maio) e expulsando o invasor, que se retirou para a Galiza. Seguindo para o sul, as tropas de Wellesley travaram a batalha de Talavera em território espanhol e regressaram a Portugal. É de salientar ainda a importância da escaramuça de Serém, Concelho do Vouga — região pantanosa do rio Vouga e do rio Marnel, actualmente pertencente ao Concelho de Águeda —, em que o Capitão-Mor do Vouga, José Pereira Simões, travou o avanço para o Sul do Marechal Soult, até à chegada do Coronel Nicholas Trant e do Batalhão Académico e, posteriormente, do General Arthur Wellesley, com reforços. Como consequência, as hostes do Marechal Soult não conseguiram atravessar o rio Vouga, perderam a escaramuça de Serém e foram obrigados a retirar-se para o Norte, tendo-se acantonado na cidade do Porto. Terceira Invasão Francesa e Contra-Ofensiva Uma terceira invasão francesa do território português teve início em 1810, sob o comando do Marechal André Masséna. Penetrando pela região Nordeste de Portugal, conquistou a Praça-forte de Almeida (Agosto), na fronteira, marchando em seguida sobre Lisboa. Interceptado pelas forças Luso-Britânicas, foi derrotado na batalha do Buçaco (27 de Setembro). Reagrupando as suas forças, retomou a marcha, flanqueando as tropas Luso-Britânicas e forçando-as a recuarem para defender a capital. Os franceses atingiram as Linhas de Torres a 14 de Outubro, erguidas na previsão dessa eventualidade e onde as tropas Luso-Britânicas os aguardavam desde o dia 10, retirando-se, derrotados, ao final do dia seguinte. Contra-Ofensiva A campanha dos exércitos Britânico, Português e Espanhol, entre Maio e Agosto de 1813, culminou na batalha de Vitória, seguida um mês depois pela batalha dos Pirinéus. Em pouco mais de dois meses e depois de uma ofensiva de 600 quilómetros com mais de 100 mil homens das três nações em armas, o curso da história Europeia foi modificado de forma decisiva. Seguiram-se uma série de batalhas em território francês até à vitória em Toulouse (10 de Abril de 1814), que colocou fim à Guerra Peninsular. Batalha do Buçaco (considerações acerca da Batalha) A batalha de Buçaco teve uma importância capital para o resultado da campanha pela acção moral que exerceu nos dois exércitos contrários. O exército anglo-luso perdeu o medo às águias napoleónicas, que ameaçavam dilacerar a Península os ingleses reconheceram que os soldados portugueses eram dignos émulos no valor e brio militar, com os quais podiam e deviam contar. O moral do exército dos aliados foi exaltado. Os franceses reconheceram que não eram invencíveis ao medirem-se com as tropas inimigas, que até então tinham em pouca conta: As desinteligências que lavravam entre os generais franceses mais se acentuaram; e a incapacidade de Massena, já apontada por Ney antes da batalha do Buçaco, tornou-se frisante. Massena sentiu-se golpeado no seu amor próprio: a Vitória abandonava o seu filho querido. E, quando este julgava fazer calar os descontentes e insofridos por um estrondoso triunfo, viu que, ao contrário, a sua derrota mais ia insuflar a indisciplina dos generais seus subordinados. Não estava de todo perdido o exército, podia haver ainda probabilidades de uma vitória; mas era preciso proceder com ponderação. No Buçaco vira ele quanto Wellington. se soubera aproveitar das propriedades defensivas do terreno. Atacar novamente em terreno análogo seria uma temeridade, porque uma nova derrota poderia trazer consigo uma capitulação, mancha vergonhosa que viria empalidecer e murchar os verdejantes louros do herói de Rivoli, de Zurique, de Génova, de Caldiero e de Essling. Era necessário ser-se prudente; ponderado. A derrota do Buçaco cortou as asas a Massena e impediu que voasse até aos cerros de Alhandra, do Sobral de Monte Agraço, de Torres. Se não fora a derrota do Buçaco, Massena teria sido mais ousado em frente das Linhas de Torres, e quem sabe, se não teria saído vitorioso. A vitória do Buçaco teve, portanto; consequências imediatas e materiais; e mais ainda, consequências morais e futuras. Apreciando agora a batalha em si, vamos fazer algumas considerações relativamente aos dois partidos. Os reconhecimentos mandados executar por Massena foram muito incompletos. Os oficiais que os realizaram não souberam desempenhar-se da sua missão. Daí resultou o erro de Massena. Julgando o flanco esquerdo do exército anglo-luso em Sula, e ignorando que se prolongava até ao ninho de Águia, adoptara os dispositivos para envolver a posição de Sula, o que não sucedeu. O ponto escolhido para o ataque, do 2." Corpo - a portela de Santo António do Cântaro - era judicioso e de uma grande importância, pois a posse daquela parte da serra separaria as forças anglo-lusas. Uma parte do exército seria lançado sobre o Mondego e retira ria nas mais precárias circunstâncias; a outra parte seria cortada da estrada do Botão a Coimbra, sendo obrigada a efectuar uma retirada excêntrica, e permitindo aos franceses chegarem primeiro àquela cidade que o exército anglo-luso. Destas considerações resulta que o ataque a Santo António do Cântaro deveria ter sido o principal, porque era o decisivo, e para isso Massena deveria ter empregado o 6." corpo e não 0 2.°, visto que aquele tinha três divisões e este duas. O ataque a Sula seria secundário. Mas estes dois ataques deveriam ter sido simultâneos para deixar o inimigo na indecisão. Não sucedeu, porém, assim. Ney atacou 1h 30 m depois de Reynier, e quando este já tinha sido derrotado. Esta falta de coordenação de esforços resultou da falta de ligação entre os dois corpos de exército. E certo que Massena ordenara que esses ataques fossem simultâneos; mas não bastava ordenar, seria necessário tomar as disposições necessárias para garantir a execução dessa ordem. Reynier cometeu também a falta de só empregar uma divisão na 1.ª linha, deixando uma outra como reserva; e quando esta foi chamada a intervir, apenas uma brigada avançou. No 6.° corpo a divisão, que servia de reserva geral não chegou a enviar força alguma a apoiar as outras duas. As reservas parciais das duas divisões avançadas também. não foram judiciosamente empregadas. Houve, pois, da parte dos franceses: má preparação, boa concepção e má execução. Examinando agora o que se passou do lado do exército anglo-luso, vemos que Wellington, ainda que vencedor, não pôde efectuar a perseguição, última, mas imprescindível fase de uma batalha, para se tirar todo o proveito da vitória. Isto era consequência da posição ocupada; pois a posição do Buçaco não permitia tomar a ofensiva. Por isso na própria Inglaterra se disse «que a batalha do Buçaco fora uma batalha política e não uma batalha militar». Mas se Wellington não pôde efectuar a perseguição, ainda pior foi o deixar-se surpreender tacticamente, visto que foi forçado a abandonar a posição duma maneira precipitada, tendo de efectuar a retirada sem ordem, e vendo-se obrigado a abandonar grande parte das suas munições, fardamentos, víveres e feridos. E incompreensível que um exército vitorioso não tivesse a energia suficiente para se ir opor nos desfiladeiros do Boialvo a um inimigo derrotado! Enquanto que o exército de Massena retirava para Mortágua pelo mau caminho de Boialvo, o exército anglo-luso podia, por um caminho mais curto, ir ocupar o Boialvo e deter, se não aniquilar, o exército francês que ousava fazer uma marcha de flanco em presença dum inimigo vitorioso. Wellington não julgava que Massena efectuasse a retirada pelo Boialvo e confiava que Trant com os seus milicianos tivesse ocupado aqueles desfiladeiros, como ele determinara. Trant, porém, só pôde chegar ao Sardão no dia 28 à tarde e apenas com 1.600 a 1.700 homens. Wellington, porém, devia com a sua cavalaria, que estava sobre o estrada da Mealhada, procurar informar-se do que se passava para aqueles lados. Na guerra devem ser previstas e prevenidas todas as hipóteses. A retirada do exército anglo-luso fez-se sem consequências graves, porque o exército francês perdeu por várias vezes o contacto, em virtude da lentidão da marcha. As tropas francesas careciam de calçado, de fardamento, de víveres e tinham poucas munições. Quando teve lugar a batalha do Buçaco, havia três ou quatro dias que o exército francês não comia pão. «N'avons pas de pain depuis quatre jours» dizia Junot em uma carta enviada no dia 28 de Setembro a sua mulher. Há quem tenha também atribuído o triunfo do exército anglo-luso no Buçaco à superioridade da táctica inglesa sobre a táctica francesa, o que já se tinha evidenciado na batalha do Vimeiro. De facto, o exército inglês tinha passado por uma grande transformação, desde que o duque de York fora nomeado comandante em chefe. O regulamento táctico mandado publicar em 1798, e que era o resultado dum profundo estudo do regulamento francês de 1791 e dos regulamentos alemães, era muito superior àquele. Além disso tinham sido criados campos de instrução para se ministrar o ensino prático, tendo já muitos regimentos recebido essa instrução. Enquanto a infantaria francesa formava ainda em três fileiras, a infantaria inglesa adoptou a formação em duas fileiras, o que permitia maior rapidez nos movimentos e aumento da reserva, quando se não queria aumentar as frentes de combate, ou cobrir a frente principal com fortes postos avançados. Foi até este último dispositivo o adoptado por Wellington, que mandara ocupar os grupos de árvores e casas ou depressões de terrenos, ao alcance da artilharia, com postos avançados que sustentaram um fogo enérgico contra as colunas francesas, obrigando-as prematuramente a desenvolver-se e tornando mais difícil e perigoso o avanço pelas ásperas encostas da serra. A artilharia, ocupando os, salientes, cooperou de uma maneira activa e judiciosa com .a infantaria, o que não sucedeu aos franceses, cuja artilharia não pôde sustentar as colunas de ataque. A artilharia anglo-lusa representou um papel importante na batalha do Buçaco. A infantaria, coberta como dissemos, por postos avançados, formava à retaguarda da crista do terreno, sustentada nalguns pontos por artilharia, que ocupava os intervalos, ou os flancos. Em geral, os postos. avançados eram constituídos pelas 2 companhias extremas dos batalhões (1.ª e 10.ª) que eram formadas de atiradores de elite - granadeiros e caçadores. Como cada batalhão tinha 10 companhias., segue-se que 1/5 do seu efectivo era empregado nos postos avançados da posição. Foi com este dispositivo táctico que o exército anglo-luso teve uma manifesta superioridade sobre o exército francês. As colunas francesas, precedidas por atiradores, chegavam exaustas à crista, tendo consumido os atiradores as suas munições no combate contra os postos avançados, e, quando se julgavam senhores do terreno, eis que surgia a linha principal dos defensores, executando uma descarga a 2o ou 35 metros e carregando imediatamente à baioneta. As colunas francesas não podiam resistir a esse choque, desapoiadas como estavam da sua artilharia, que não podia tomar posição na zona de terreno batida pelos fogos dos postos avançados e da artilharia avançada que ocupava os salientes. Enquanto as forças atacantes chegavam cansadas e desunidas, as tropas anglo-lusas que ocupavam a linha principal, estavam frescas, sob a completa acção . dos chefes, e não desmoralizadas pelo fogo, nem pela vista do campo de batalha, pois se conservavam até ao último momento a coberto das vistas e do -fogo,--. inimigo. As cargas à baioneta eram violentas, especialmente as realizadas pelas tropas . portuguesas, tornando-se surpreendentes as que foram executadas pelos nossos regimentos de infantaria n.°5 8 e 19, que ali se cobriram de glória. Têm, pois, razão os que atribuem à táctica de combate do exército. anglo-luso uma parte considerável para o seu triunfo. Todas as tropas portuguesas que tomaram parte activa na batalha se comportaram com grande valentia. Wellington e Beresford assim o reconheceram e manifestaram nas suas ordens do dia. Foram especialmente elogiados os regimentos de infantaria n.º 9 e 21, que formavam a brigada do coronel Champalimaud; infantaria n.º 8, comandada pelo tenente-coronel Douglas; os regimentos de infantaria n.os 7 e 19 e o batalhão de caçadores n.º 2, formando a brigada do brigadeiro Colleman; os regimentos de infantaria n.os 1 e 16 e o batalhão de caçadores n.º 4, formando a brigada Pack; os batalhões de caçadores n.os 1 e 3, que faziam parte da divisão Craufurd; o batalhão de caçadores n.º 6, que entrara na composição da brigada Campbell; as brigadas de artilharia, sob o comando do major Arentichild, a brigada de artilharia, anexa à divisão Spencer e a brigada de artilharia de montanha. Mereceram ser citados em especial os nomes dos coronéis Champalimaud, Xavier Palmeirim e Souto Maior; dos tenentes-coronéis Sulton, José Maria Bacelar, Douglas, Jorge de Avilez, Nixan, Luís do Rêgo Barreto, Sebastião Pinto de Araújo, Elder, etc. Beresford, na sua ordem do dia de 28 de Setembro (-), e Wellington na ordem do dia de 3o (°), elogiam e mostram-se reconhecidos para com as tropas portuguesas que tomaram parte na batalha do Buçaco. A sua manifestação era um justo preito à bravura dos nossos soldados. Notas: 6. O mais notável instrutor fora J. Moore. Também os regimentos instruídos por ele destacavam-se dos outros. Tais eram os que faziam parte da divisão Craufurd. 7. Veja-se a ordem do dia, datada do Q. G. do Buçaco, de 28 Setembro de 1810. 8. Vide o ofício de Lorde Wellington a D. Miguel Pereira Forjaz, datado de Coimbra, de 30 de Setembro de 1810, e que vem transcrito na Gazeta de Lisboa, n.º 237, de 3 de Outubro de 1810; e também o ofício enviado pelo marechal Beresford, de 30 de Setembro de 1810, ao mesmo D. Miguel Pereira Forjaz. Fonte: Vitoriano José César - Batalha do Buçaco - 3.ª Ed., Lisboa - Imprensa da Armada, 1930, págs. 28 a 35 (1.ª Ed., Ferin, 1910) A fuga da corte para o Brasil Indeciso, o príncipe regente D. João 3 adiou o quanto pôde a solução, pois qualquer alternativa era danosa à monarquia. Afinal, a iminente invasão francesa tornou inadiável o desfecho. A fuga da Corte para o Rio de Janeiro, decidida na última hora, trouxe, não obstante, duas importantes conseqüências para o Brasil; a ruptura colonial e o seu ingresso na esfera de domínio da Inglaterra. Chegando ao Brasil, D. João estabeleceu a Corte no Rio de Janeiro e em 1808 decretou a abertura dos portos às nações amigas, pondo fim, na prática, ao exclusivo metropolitano que até então restringia drasticamente o comércio do Brasil. A Família Real no Brasil D. João VI No princípio do século XIX a Europa foi sacudida por uma guerra longa e violenta. Napoleão, imperador da França, grande general, organizou um exército poderosíssimo e invadiu vários países somando vitórias. Para derrotar os ingleses, imaginou um estratagema: obrigar as outras nações a fecharem os portos à Inglaterra, que sendo uma ilha ficaria isolada e muito enfraquecida sem poder comerciar. Acontece que Portugal e Inglaterra eram velhos aliados e faziam muitos negócios entre si, por isso os portugueses decidiram não obedecer. Napoleão ficou furioso, preparou um exército de 30.000 homens comandados pelo célebre Junot e ordenou-lhe que conquistasse Portugal. Mas nesse tempo os militares deslocavam-se a pé ou a cavalo, tinham que carregar armas e bagagens, acampar pelo caminho, ou seja, demoravam imenso tempo a chegar ao seu destino. A notícia porém voava de boca em boca ou na bolsa de um mensageiro veloz. Quando em Lisboa se soube que vinha aí uma invasão francesa, foi o pânico. Na altura não havia condições para enfrentar um inimigo tão forte, corria-se o risco de perder a independência. Que fazer? Depois de muitos debates, tomou-se uma decisão: a família real devia partir imediatamente para o Brasil que nessa época era uma colónia portuguesa. A Corte a salvo do outro lado do oceano assegurava a independência. No ano 1807, a família real era muito numerosa e incluía pessoas de todas as idades. A rainha D. Maria I tinha 73 anos, era viúva e enlouquecera, por isso não podia reinar. As irmãs da rainha Maria Ana tinha 71 anos e era solteira. Maria Benedita tinha 61 anos e era viúva O príncipe Regente D. João era o filho mais velho da rainha e ele é que governava em nome da mãe, por isso se diz Príncipe Regente. Tinha 40 anos, era casado com uma princesa espanhola que lhe dera oito filhos. A mulher do Príncipe D. Carlota Joaquina tinha 32 anos. Viera para Portugal em criança para se habituar à língua, aos costumes e ao país do noivo. O casamento efectuou-se quando ela tinha apenas 10 anos. Os oito principezinhos Maria Teresa tinha 14 anos, Maria Isabel tinha 10 anos, Pedro tinha 9 anos, Maria Francisca tinha 7 anos, Isabel Maria tinha 6 anos, Miguel tinha 5 anos, Maria da Assunção tinha 2 anos e Ana de Jesus tinha 1 ano Um primo espanhol, noivo da princesa mais velha Pedro Carlos, primo de Carlota Joaquina, vivia em Portugal desde criança e era o noivo de Maria Teresa. 15 mil viajantes A família real não ia sozinha para o Brasil: ia acompanhada pelas pessoas que desempenhavam altos cargos na Corte e pelos funcionários e criados do palácio. Mas houve muitos nobres e muitos burgueses que decidiram ir também. Assim reuniu-se um número de viajantes espectacular: quinze mil homens, mulheres e crianças. Imagine-se então a bagagem! As pessoas não sabiam ao certo quanto tempo iam ficar no Brasil e como receavam que lhes saqueassem as casas, trataram de mandar encaixotar tudo o que tinha valor material: móveis, pratas, jóias, tapetes, loiças, candeeiros, cristais, quadros, livros, roupa de casa e de vestir, etc. Como sempre acontece em circunstâncias idênticas, não quiseram deixar para trás objectos e animais de estimação, por isso encaixotaram-se também brinquedos, muitas e variadas recordações. Junto com os caixotes seguiam cestos e gaiolas ocupados por cães, gatos, pássaros… e tudo se empilhou no cais entre Lisboa e Belém. Esses imensos volumes de todos os tamanhos e feitios, bem ou mal acondicionados, eram levados depois em botes a remos para os grandes navios ancorados no meio do Tejo. Foi grande a azáfama, enorme a confusão, mas a pouco e pouco lá se encafuaram as bagagens nos porões dos navios. O Embarque No dia 27 de Novembro de 1807 começaram a chegar carruagens ao cais. Os viajantes apeavam-se e dirigiam-se à beirinha da água para tomarem lugar nos botes a remos que os levariam até aos navios. Tinha chovido muito nos dias anteriores, o chão estava enlameado, as pessoas escorregavam, amparavam-se umas às outras para não caírem, tentavam evitar as poças de água. Esse saltitar exterior correspondia certamente a um saltitar interior, pois se a ideia de escapar aos exércitos de Napoleão proporcionava alegria e alívio, o facto de se verem obrigados a deixar a sua terra era motivo de tristeza e desolação. Lisboa em peso acorreu para assistir ao embarque. Uns rodeavam os marujos no cais, outros penduravam-se nas janelas ou espalhavam-se pelas colinas sem saber o que pensar daquela cena nunca vista. Então a família real ia-se embora em bloco, e as famílias mais importantes também, levando consigo tantas riquezas para o outro lado do mundo? Seria de facto essa a única solução para resolver o problema de invasão iminente? E que aconteceria aos que ficavam quando chegassem os franceses? Os mais pessimistas provavelmente anunciaram desgraças sem fim, garantiram que os franceses iam tomar conta de tudo e que a família real nunca mais voltaria. Com certeza houve quem chorasse muito de comoção, de tristeza, de medo. E o choro redobrou quando viram que a velha rainha D. Maria berrava e lutava, tentando recusar-se a embarcar. Coitada! Aquela é que dificilmente tornaria a ver o seu país… A Armada A armada que levou a Corte para o Brasil incluía vários tipos de navios: naus, brigues, fragatas, escunas, bergantins e corvetas. Alguns eram enormes, bem armados de canhões, capazes de transportar muitos passageiros e grandes quantidades de carga. Outros eram mais pequenos e mais velozes. Além dos navios ao serviço da Corte, foram para o Brasil mais quarenta alugados por particulares que se meteram ao caminho à sua própria custa. Uma esquadrilha de quatro navios ingleses acompanhou a armada para dar apoio em caso de ataque no mar alto. O comandante da armada era Manuel da Cunha Sotomaior. Naus Rainha de Portugal (74 canhões) Nesta nau viajou D. Carlota Joaquina com alguns dos filhos mais novos. D. João de Castro (64 canhões) Nesta nau viajou o Duque do Cadaval, o Conde de Belmonte e o Conde de Redondo. Príncipe Real (80 canhões) Nesta nau viajou a rainha D. Maria I, o Príncipe Regente e o filho mais velho, D. Pedro. Princesa do Brasil (74 canhões) Nesta nau viajaram as irmãs da rainha e duas princezinhas. Conde D. Henrique (74 canhões) Martim de Freitas (64 canhões) Afonso de Albuquerque (64 canhões) Fragatas Medusa (74 canhões) - Minerva (44 canhões) - Jutra (32 canhões) - Golfinho (36 canhões) Brigues Voador (22 canhões) - Vingança (20 canhões) Escunas a Curiosa e Bergantins o Três Corações A Partida Após o embarque, o que toda a gente queria era partir. Mas o tempo não permitia. Ventos contrários pareciam ter apostado em reter a armada no rio Tejo. Já se receava que os franceses chegassem a Lisboa a tempo de efectuarem um assalto ou de bombardearem os navios. Finalmente o dia 29 amanheceu lindo, puderam içar velas, levantar âncoras e fazer-se à travessia do Atlântico rumo ao Brasil. Foi por um triz: Junot entrou em Lisboa vinte e quatro horas depois! A Viagem A viagem não foi propriamente um passeio agradável. Como os preparativos tinham sido feitos à pressa e o embarque feito à última hora, faltavam mantimentos e muitos passageiros não encontraram os seus caixotes a bordo. Na melhor das hipóteses, talvez seguissem noutro navio, na pior, talvez tivessem ficado esquecidos no cais onde não tardariam a ser pilhados. Além da perda, havia o transtorno, por exemplo não podiam mudar de roupa. Mas enfim, lá se arranjaram como puderam. A natureza também contribuiu para agravar o mal estar, houve vendavais, o mar encapelou-se, um inferno. A maioria dos passageiros enjoou pavorosamente e além disso todos sofreram momentos de grande ansiedade porque os navios a certa altura dispersaram e como não havia recursos para comunicar à distância era impossível saber se os parentes e os amigos estavam vivos e seguiam por outra rota ou tinham sido engolidos pelo mar. As velhas princesas no Rio de Janeiro A armada tinha um destino comum: o Rio de Janeiro. Mas nem todos puderam ir lá directos. O primeiro a chegar foi um navio alugado por particulares que no dia 3 de Janeiro aportou na Bahia. Os passageiros anunciaram que vinha aí a família real, a cidade ficou na maior excitação e o governador começou a tomar medidas para receber tão ilustres visitantes. A 14 de Janeiro foi a vez do Brigue "Voador" ancorar no Rio. Depois, a pouco e pouco, foram chegando os outros - todos os outros - pois a Natureza rugira e fizera alguns estragos mas nada de irremediável. Só a nau D. João de Castro, bastante danificada, se viu na iminência de ir ao fundo, tendo no entanto alcançado a costa a tempo de evitar o naufrágio e aportado em Paraíba. Três dias depois da chegada do brigue "Voador", entraram na Baía de Guanabara cinco navios da armada portuguesa e três da esquadrilha inglesa. A bordo da nau "Princesa do Brasil" estavam as duas irmãs da rainha - já velhas, muito velhas, pois naquela época era pouco vulgar atingir os 70 anos. Nunca nenhuma delas navegara no alto mar, portanto a experiência de meses a bordo suportando o balanço das ondas deixara-as abaladíssimas; além disso, ficaram aterradas ao verificarem que a nau onde viajava D. João não aparecia. Ele era o sobrinho querido, o Príncipe Regente, a autoridade máxima. Que fazer na sua ausência? A única coisa que lhes ocorreu foi esperar. Não se sentiam com coragem para enfrentar uma terra desconhecida sem a presença protectora do Príncipe e não houve força nem argumentos que as fizessem desembarcar. Durante trinta longos dias, em vez de olharem as belezas naturais daquela região paradisíaca, voltavam-lhe as costas e perscrutavam o horizonte na esperança de verem uma vela ao longe. Diz-se que todas as manhãs, ao acordar, perguntavam uma à outra "O nosso João, já terá chegado?" Aflitíssimas rezavam orações sem fim pedindo a Deus que lhes trouxesse o resto da família sã e salva Só desembarcaram a 17 de Fevereiro, depois de lhes terem jurado que o resto da família se encontrava na Bahia rodeada de carinho e atenções e que em breve se poderiam abraçar. A Chegada à Bahia Os passageiros dos navios que os ventos do destino levaram à Bahia por lá ficaram durante um mês. Entre esses passageiros estava D. João - o Príncipe Regente -, a mulher e os filhos. Ao que parece, D. João mostrou-se maravilhado com o Brasil desde o primeiro momento e caiu nas graças dos baianos que o festejaram com a maior alegria. Enquanto permaneceu na cidade recebeu todas as pessoas que solicitaram audiência, ouviu pedidos e sugestões e tomou uma série de medidas que agradaram ao povo como por exemplo: abriu os portos do Brasil ao comércio directo com o estrangeiro, deu autorização para que se construísse um hospital, uma Escola de Medicina, várias fábricas. A população exultou, pois percebeu que a presença da Corte significaria progresso. Não faltou quem pedisse a D. João que desistisse de ir para o Rio de Janeiro e instalasse a Corte na Bahia. Argumentavam ser a cidade mais central e portanto mais conveniente, ofereciam-se para reunir verbas e construir um palácio de grande categoria… D. João agradeceu, sensibilizado com tantas demonstrações de amizade, mas não pode ceder. Já tinha anunciado às Cortes europeias que ia para o Rio de Janeiro, convinha manter a decisão. No dia 26 de Fevereiro a família real e os acompanhantes despediram-se voltaram a embarcar, zarparam para sul. Preparativos no Rio de Janeiro No Brasil o representante do rei de Portugal tinha o título de vice-rei. Na época o vice-rei era o Conde dos Arcos, que deu voltas à cabeça para organizar uma recepção devidamente animada e elegante e para preparar alojamentos onde instalar tanta gente. Em 1808 viviam na cidade do Rio de Janeiro cerca de 60.000 pessoas. Chegarem mais 15.000 de um dia para o outro era uma espécie de avalanche, uma "avalanche humana". Mas o Conde de Arcos não se atrapalhava com facilidade. Começou por despejar o Palácio dos vice-reis(1) e mandou limpar tudo muito bem para poder funcionar como residência real. Como este Palácio não tinha capela e ele sabia que as pessoas da Corte estavam habituadas a capela privativa, chamou carpinteiros e ordenou-lhes que construíssem rapidamente uma ponte de madeira ligando directamente o Palácio à Igreja do Carmo, que ficava ao lado. Quanto a estas medidas, toda a gente achou muito bem. Mas como ele requisitou algumas habitações particulares para alojar gente da Corte, houve proprietários que ficaram fulos com o abuso. No entanto, a maioria da população estava delirante. Nunca uma família real europeia pisara terras da América do Sul. Receber reis, rainhas, príncipes e princesas fazia as pessoas sentirem-se como personagens de contos de fadas. E a alegria natural dos habitantes do Brasil transformou logo os preparativos em grande festa. 1) O Palácio dos vice-reis ainda hoje existe. É uma casa bonita, situa-se na Praça XV de Novembro e ali funciona um centro de Arte. Uma Entrada Triunfal A armada reunira-se de novo e ancorara em frente ao Pão de Açúcar. Impossível descrever a euforia a bordo e em terra. Toda a gente ansiava pelo momento em que os canhões dariam sinal de desembarque. E isso aconteceu pelas quatro horas da tarde do dia 4 de Março de 1808. Ao primeiro Boum, D. João desceu para um bergantim seguido da mulher e dos filhos. Enquanto os remadores faziam avançar a embarcação para o cais, os canhões atroaram os ares com salvas de boas vindas, repicaram em simultâneo os sinos de todas as igrejas, estalaram foguetes, bandas de música puseram-se a tocar, as pessoas davam vivas no maior entusiasmo. Guardas de honra formavam alas desde o cais à Igreja do Rosário onde estava tudo preparado para uma cerimónia religiosa destinada a dar graças a Deus pelo sucesso da viagem. D. João, D. Carlota Joaquina e os principezinhos seguiram em cortejo pelas ruas atapetadas de folhagens. As janelas das casas em redor tinham sido enfeitadas com grinaldas de flores, colchas de seda encarnadas e azuis. E as famílias vestidas com as melhores roupas e ostentando as melhores jóias debruçavam-se nas janelas a aplaudir. Consta que D. João sorria e acenava feliz por se ver tão acarinhado. E que D. Carlota Joaquina chorava, talvez de comoção. Ninguém reparou especialmente nas reacções do pequeno príncipe D. Pedro. Com nove anos,perante um ambiente colorido, barulhento, festivo, só podia estar maravilhado. Não podia era adivinhar que o destino tinha planos para entrelaçar a sua vida com o futuro daquela terra e daquela gente… Residências reais A família real, além do Palácio dos vice-reis que pertencia à coroa e foi posto à sua disposição, recebeu de presente uma quinta magnífica - A Quinta da Boa Vista em S. Cristóvão -, oferecida por um colono rico e amável. Essa quinta tornou-se a residência preferida de todos.(1)(1) Actualmente o Palácio de S. Cristóvão é o Museu de História Natural e Etnologia. A Quinta é um parque onde há plantas de todo o mundo. Festas e mais Festas Numa terra luminosa e quente como é o Brasil e no cenário maravilhoso do Rio de Janeiro, o que apetece realmente é comemorar o facto de estar vivo. Esse desejo traduziu-se (e ainda hoje se traduz) em festas espampanantes. A Corte não escapou ao sortilégio e… sucederam-se festas magníficas em que participavam não só os nobres mas também o povo cantando e dançando nas ruas iluminadas a preceito. A chegada do famoso compositor Marcos de Portugal acompanhado por muitos músicos e cantores contribuiu para abrilhantar as comemorações. Ópera Em 1811 houve um espectáculo de Ópera no Teatro Real do Rio de Janeiro para comemorar o aniversário de D. Maria I. O maestro foi Marcos de Portugal. O casamento da princesa Maria Teresa com seu primo Pedro Carlos Uma das primeiras grandes festas dada pela Corte no Rio de Janeiro foi o casamento da princesa mais velha em 1810. O Brasil elevado à categoria de reino Em 1815 o Brasil deixou de ser uma colónia portuguesa e foi elevado à categoria de reino unido com Portugal. Naturalmente não faltaram desfiles e bailes. A coroação de D. João VI No ano 1816 morreu a velha rainha D. Maria I. D. João há muito que governava pois a mãe enlouquecera, mas só nesse ano subiu ao trono como D. João VI. Houve um período de luto e só em 1818 se realizaram as ricas e faustosas cerimónias para festejar a coroação O casamento do príncipe herdeiro D. Pedro, sendo herdeiro do trono dos Reinos Unidos de Portugal e do Brasil, só podia casar com uma princesa que pertencesse a uma família real muito antiga e de grande prestígio. A escolha recaiu na princesa Leopoldina, filha dos imperadores da Áustria. O embaixador português foi a Viena apresentar o pedido, houve negociações, chegou-se a um acordo e Leopoldina viajou para o Rio de Janeiro ao encontro do noivo. O casamento realizou-se em 1817 e foi um acontecimento! Artistas franceses no Brasil D. João VI quis decorar os palácios com obras de arte. Na época usava-se cobrir as paredes com grandes telas representando paisagens, retratos e cenas históricas. Como ainda não havia no Brasil artistas que pudessem executar um trabalho de grande qualidade, o rei escreveu ao embaixador que estava em Paris e pediu-lhe que contratasse pintores franceses que quisessem ir para o Brasil. Debret, Pradier e Taunay aceitaram o convite e partiram. Esses três grandes pintores realizaram autênticas "reportagens visuais" que permitem acompanhar a vida da Corte no Brasil e conhecer o ambiente que os rodeava Cientistas austríacos no Brasil A comitiva da princesa D. Leopoldina incluía cientistas que tinham sido contratados pelo imperador da Áustria para acompanharem a filha ao Brasil e por lá ficaram alguns anos a estudar a fauna, a flora e os minerais daquela terra longínqua que tanta curiosidade despertava na Europa. Esses cientistas embrenharam-se no mato, fizeram registos sobre o que viram e recolheram espécies de plantas, animais e minerais. Como nesse tempo ainda não se tinham inventado as máquinas fotográficas, os cientistas fizeram-se acompanhar de desenhadores e pintores para eles se encarregarem das imagens. Assim, no regresso, poderiam dar a conhecer ao "velho mundo" as surpresas do "mundo novo" Nem tudo foram rosas Enquanto a Corte portuguesa esteve no Brasil, houve guerras a norte e a sul. A norte, contra a Guiana francesa. A sul, os conflitos surgiram por causa da linha de fronteira com os territórios das colónias espanholas. Os portugueses lutaram bravamente e saíram vitoriosos mas mais tarde, quando assinaram a paz, retiraram das terras ocupadas. O regresso a Portugal Em Portugal as lutas com os franceses terminaram no ano 1811. Mas a Corte não regressou imediatamente porque não havia garantias de total segurança, porque a deslocação massiva de tanta gente não era fácil e talvez também porque a família real se sentia feliz no Rio de Janeiro. Em 1815 o Brasil deixou de ser uma colónia, foi elevado por D. João VI à categoria de reino, reino unido ao de Portugal. E o tempo foi correndo, sem se falar em regresso. Mas entretanto a Europa agitava-se e havia revoluções destinadas a alterar a forma de governo. Até então os reis tinham todos os poderes, eram reis absolutos. Nesta época, sopravam outras ideias e surgiram partidos que queriam dividir o poder - os Partidos Liberais. Estes defendiam que o rei devia ter unicamente o poder de governar. Julgar os crimes, competia exclusivamente aos juízes. Fazer leis, seria tarefa para deputados eleitos pelo povo. Entre absolutistas e liberais rebentaram muitos conflitos armados. Em Portugal estalou uma revolução no Porto, no ano 1820, os liberais alcançaram uma vitória imediata e uma das primeiras medidas que tomaram foi exigir ao rei que voltasse. D. João VI mandou preparar malas e bagagens e embarcou com toda a família excepto o príncipe herdeiro, D. Pedro, a quem deixou no Brasil como Regente.

D. João VI - O Clemente - 27º Rei de Portugal 1767-1826 Reinou 10 anos

Decorridos dois anos após o falecimento de D. Maria Iª, o Príncipe Regente, seu filho, que continuava no Rio de Janeiro, foi aclamado com o título de Rei do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve. A ausência tão prolongada de D. João VI no Brasil, a miséria e a devastação causada pelo Guerra Peninsular e a preponderância exercida junto do Governo da Regência pelo inglês Beresford, marechal instrutor do exército português, fizeram crescer em Portugal a lista dos desgostos, e prepararam, ao mesmo tempo, um ambiente revolucionário. Este estado de coisas foi então aproveitado pelos portadores das chamada “ideias liberais” para, em 1817, promovem uma conspiração contra a influência de Beresford, mas que tinha por fim, principalmente, substituir o regime tradicionalista – a monarquia absoluta – por outro governo orientado mais ou menos nos princípios da Revolução francesa. Descoberta a conjuntura, de que era chefe o General Gomes Freire de Andrade, foi este preso e enforcado em São Julião da Barra (Oeiras / Lisboa). Outros dos seus companheiros mais comprometidos foram também garrotados no Campo Santana, em Lisboa. As novas ideias, importadas da França pelas tropas de Napoleão durante as invasões francesas e ainda propagadas pelo jornal e pelo livro, iam ateando cada vez mais, apesar da severidade com que foram castigados os conspiradores de 1817. Falava-se contra o governo, contra a Família Real e contra os ingleses. Pintava-se a miséria do povo, a ruína do tesouro, etc. Era a propaganda revolucionária que, anos volvidos, havia de causar sangrentas guerras civis, fazia-se intenso. E tudo isto foi correndo, até que, no dia 24 de Agosto de 1820, estalou no Porto uma revolução, que saiu triunfante, preparada e dirigida por Manuel Fernandes Tomás, José Ferreira Borges, José da Silva Carvalho, etc. A Junta Governativa foi logo demitida e criada outra, a Junta Provisória do Governo Supremo do Reino, que tomou o poder em nome do rei, ficando encarregada de convocar as Cortes Gerais, que deviam decretar uma Constituição. Esta Constituição foi proclamada em 23 de Setembro de 1822, jurada por D. João VI que, ao tempo, já havia regressado do Brasil . D. João VI, regressando a Portugal, deixou ficar no Brasil, a governar como regente, seu filho mais velho, D. Pedro. Aos portugueses residentes naquela colónia e já com foros de reino, bem como aos próprios naturais, não agradou a retirada da Corte, que ali permanecera durante doze anos. Descontentes por isso, proclamaram, em Setembro de 1822, a Independência do Brasil, de acordo com o próprio regente D. Pedro, que depois se fez aclamar seu imperador. Desde então, deixou aquela colónia de pertencer a Portugal, o que só foi reconhecido em 15 de Novembro de 1825, por D. João VI. Entretanto, o infante D. Miguel, filho segundo de D. João VI, auxiliado por sua mãe, a rainha D. Carlota Joaquina , conspirava contra o regime liberal, fazendo todos os esforços por derrubá-lo. Em 27 de Maio de 1823, D. Miguel, à frente de um regimento de infantaria e alguns soldados de cavalaria, fez estalar a contra-revolução em Vila Franca de Xira e proclamou novamente o absolutismo. O rei, embora contrariado a princípio com a atitude do filho, terminou por aderir ao movimento. A seguir, demite o governo, promete uma nova Constituição e nomeia D. Miguel chefe dos exércitos. Porém, aquela revolta não ofereceu os resultados positivos que se esperavam. O rei, por sua livre vontade ou aconselhado, contrariou depois a marcha dos acontecimentos. Isso contribuiu para que D. Miguel se revoltasse de novo, a 30 de Abril de 1824, levando consigo toda a guarnição militar de Lisboa a cercar o palácio real da Bemposta. D. João VI, medindo a gravidade do momento, seguiu para bordo de um navio inglês que estava ancorado no Tejo. De lá retomou todos os poderes e demitiu D. Miguel do seu alto posto de generalíssimo. Tendo fracassado a causa de D. Miguel, foi este obrigado a abandonar o País pouco tempo depois. O rei faleceu no dia 10 de Março de 1826, tendo deixado a administração do País entregue a uma Junta de Regência, presidida por sua filha D. Isabel Maria “enquanto o legítimo herdeiro e sucessor desta Coroa não der as suas providências a este respeito. Morte de D. João VI: Vencido e expatriado D. Miguel, D. João VI consagra os últimos anos do seu reinado a tentar resolver o problema brasileiro e, por altura da sua morte, em 1826, sonhava ainda com a reunião dos dois países na pessoa de um só soberano. Faleceu em Março de 1826 após adoecer por alguns dias, e cuja causa mortis suspeitava-se ter sido por envenenamento. Recentemente uma equipa de pesquisadores exumou o pote de cerâmica chinesa que continha as suas vísceras e que encontrava-se enterrado sob as lages da capela dos Meninos da Palhavã no mosteiro de São Vicente de Fora, pedaços do seu coração foram reidratados e submetidos a análises, o que veio a comprovar a suspeita de envenenamento por arsénico. Contam as lendas que o rei fora envenenado com laranjas colhidas no palácio de Belém, a mando da rainha Carlota Joaquina, o que não se pode provar, mas sabe-se que de facto o rei comeu as laranjas, pois isso consta dos relatórios médicos da época, e só depois das tais laranjas é que D. João adoeceu. Foi sepultado no Panteão dos Braganças, onde viria também repousar a sua polémica esposa a seu lado. Vigésimo sétimo rei de Portugal. Nasceu em Lisboa em 1767, filho de D. Maria l e de D. Pedro. Decorridos dois anos após o falecimento de D. Maria l, o príncipe regente, seu filho que continuava no Rio de Janeiro (Brasil), foi aclamado com o título de "REI DO REINO UNIDO DE PORTUGAL, BRASIL E ALGARVE". A ausência tão prolongada (12 anos) da Corte Portuguesa em terras do Brasil, a miséria e a devastação causada pela Guerra Peninsular e preponderância exercida junto ao Governo da Regência pelo inglês Beresford, marechal e instrutor do exército português, fizeram crescer em Portugal a lista dos desgostos, que se prepararam, ao mesmo tempo num ambiente revolucionário. Este estado de coisas foi então aproveitado pelos simpatizantes das chamadas "Ideias Liberais" para, em 1817, promoverem uma conspiração contra a influência do inglês Beresford, mas, que tinha por fim, principalmente, substituir o regime tradicionalista, ou seja, a monarquia absoluta, por outro Governo orientado mais ou menos nos princípios da revolução Francesa. A conjura foi descoberta e enforcado o seu principal chefe, o general Gomes Freire de Andrade, na fortaleza de São Julião da Barra (perto do Estoril / Cascais). Outros de menor patente militar, foram mortos em Lisboa, no Campo de Santana (Campo dos Mártires da Pátria). Este reinado foi um dos mais agitados da História de Portugal: A Guerra de Rossillon, em 1893; a Guerra com a Espanha e o desastroso tratado de paz celebrado em Badajoz (Espanha) que lhe pôs termo, em 1801; marcaram os primeiros tempos da regência. Em 1807, Napoleão Bonaparte assina em Fontainebleau com a Espanha um tratado, que suprimia o reino de Portugal da carta política da Europa, e, dividia o território português em três Estados, um dos quais devia de pertencer ao rei da Etruria, o segundo ao príncipe da Paz, reservando a França o terceiro para si. E assim, um exército comandado pelo general francês de nome Junot, invadiu Portugal em 1807. Na véspera da sua entrada em Lisboa, em 29 de Novembro, a Família Real Portuguesa e sua Corte, assim como muitos fidalgos, já haviam embarcado para o Brasil, levando consigo riquezas incalculáveis (*1). Enquanto o povo português lutava heroicamente para expulsar o invasor (*2), o príncipe regente ocupava-se a administrar e a desenvolver o Brasil, que lhe ficou devendo grandes progressos. Em 1816, morreu no Rio de Janeiro, D. Maria l, mas nem mesmo assim D. João Vl se decidiu a voltar para Portugal. A Revolução de 1820, substituiu a regência por uma Junta Provisória e convocou "Cortes". Estas redigiram uma constituição, a qual mereceu a aprovação de D. João Vl e também a quis aplicar no Brasil, já então elevado a reino. Em Abril de 1821, finalmente, resolveu regressar a Portugal, deixando a representá-lo no Brasil, seu filho primogénito, o príncipe D. Pedro. Quando chegou a Lisboa, o rei jurou a Constituição, que sua mulher, D. Carlota Joaquina (*3) se recusou a reconhecer, sendo por isso exilada para a Quinta do Ramalhão (entre o Estoril e Sintra), onde com seu filho, o infante D. Miguel, promoveu em 1823, uma conta – revolução (Vilafrancada (*4) que estabeleceu o absolutismo. Entretanto, em Setembro de 1822, D. Pedro proclamou a independência do Brasil, aceitando o título de Imperador. Em 1824, o movimento revolucionário "Abrilada" (*5), obrigou D. João Vl a recolher a bordo de um navio inglês. Este novo acto de ingratidão e de revolta de seu filho afectaram profundamente o velho rei, cuja saúde muito se ressentira do dissabor que lhe causara a perda do Brasil. D. João Vl faleceu no dia 10 de Março de 1826, deixando o reino confiado a uma regência presidida por sua filha, a infanta D. Isabel Maria. (*1) A Corte no Brasil: Para além da instabilidade que provocou a ausência da Corte, verificou-se ainda a saída para o Brasil de muitas riquezas. Além disto, grandes proprietários nobres e figuras do alto clero que acompanharam a Família Real, passaram a ter os seus rendimentos enviados para o Brasil, empobrecendo ainda mais Portugal e o seu povo. (*2)Guerra Peninsular: As três invasões francesas. (*3) D. CARLOTA JOAQUINA DE BOURBON: Nasceu em Madrid (Espanha) em 1775, filha do rei Carlos lV de Espanha. Casou em 1785, tendo 10 anos apenas, com o príncipe D. João, mais tarde D. João Vl. Sem educação intelectual, dotada de grande ambição, foi um joguete na agitada política da época, tendo apoiado (e tido) aventuras e conspirações. Esteve exilada na Quinta do Ramalhão, e, mais tarde no Paço de Queluz (10 Km de Lisboa), onde viria a falecer em 1830. (*4)Vila Francada: Nome por que ficou conhecida a contra revolução de Maio de 1823, para abolir o regime constitucional. O infante D. Miguel fez-se aclamar por um corpo de tropa, o Absolutismo, em Vila Franca de Xira (30 Km a norte de Lisboa). D. João Vl partiu para esta localidade, aderiu ao movimento e assim, o regime absolutista ficou novamente estabelecido. (*5) Abrilada: A revolta política de 30 de Abril de 1824, na qual o infante D. Miguel e sua mãe a rainha D. Carlota Joaquina, tentaram fazer abdicar D. João Vl, para restabelecer o absolutismo. A tentativa malogrou-se graças à intervenção do corpo diplomático. infante foi demitido do seu cargo de generalíssimo e exilado para o estrangeiro (Viena de Áustria). A rainha foi desta vez internada no Paço de Queluz, onde se teria suicidado. João VI - "0 Clemente" - 27.º rei de Portugal. Nasceu em Lisboa a 13 de Maio de 1767, onde também faleceu a 10 de Março de 1826. Era filho segundo da rainha D. Maria I, e de seu marido e tio D. Pedro III. A 8 de Maio de 1785 casou com a princesa espanhola, D. Carlota Joaquina de Bourbon, filha de Carlos IV e da rainha D. Maria Luísa Teresa de Bourbon. Em 1788 foi declarado herdeiro do trono, por ter falecido seu irmão primogénito, o príncipe D. José. Tendo enlouquecido a rainha sua mãe, teve de assumir a regência do reino no dia 1 de Fevereiro de 1792. D. João estava habituado a entregar-se à caça e a percorrer os conventos, muito despreocupado dos negocies públicos, que se lhe tornavam indiferentes, bem longe de pensar que seria cedo nomeado regente do reino, e mais tarde aclamado rei. Além disso, o país encontrava-se numa situação deplorável. Por ocasião da morte de Luís XVI em 1793, Portugal entrou na liga com a Inglaterra e a Espanha contra a Republica Francesa. Uma divisão portuguesa combatia no Rossilhão ao lado dos espanhóis, tornando-se muito distinta, mas apesar disso, a Espanha resolveu fazer a paz com a República Francesa, abandonando Portugal. A situação do nosso país ficou deveras embaraçosa. Sem o auxilio da Espanha, desprezados pela Inglaterra, prejudicados gravemente no comércio pelos corsários franceses, resolveu o governo português solicitar da República Francesa a paz, que bem precisa se tornava nestas difíceis circunstâncias, mas o Directório republicano não estava disposto a concedê-la, e só mais tarde é que propôs um tratado de paz, que não era muito desvantajoso para Portugal, mas o governo português não quis ratificá-lo, para não ser desagradável à Inglaterra. A França irritou-se, e Bonaparte, que se indignara muito com a presença duma esquadra portuguesa no Mediterrâneo, auxiliando a de Nelson, quando subiu ao poder como primeiro cônsul, fez com que a corte de Madrid declarasse guerra a Portugal, em 1801. As tropas daquelas duas nações, comandadas pelo Príncipe da Paz, D. Manuel Godoy, atacaram Portugal, tomaram Olivença, e entraram no Alentejo. 0 nosso exercito achava-se num estado miserável, e não podendo resistir, teve o governo de aceder a um tratado de paz humilhante, feita em Badajoz, que tem a data de 6 de Junho do referido ano de 1801, sendo ratificado pelo governo português no dia 14, e pela Espanha em 21 do citado mês e ano. Desde então perdeu a Europa toda a consideração pelo nosso país; o embaixador de França, o general Lannes, tratava o governo português com o máximo desdém, e Napoleão, que subira ao trono da França com o titulo de imperador, convencendo-se que não conseguiria nunca que o príncipe regente de Portugal cedesse francamente ao denominado Sistema continental, fechando os portos às embarcações inglesas, tomou o partido de riscar este reino da carta política da Europa, e fez um tratado com a Espanha, que se assinou em Fontainebleau a 27 de Outubro de 1807, que dividia Portugal em três estados: a Lusitânia do Norte (Entre o Douro e Minho) devia pertencer ao Rei da Etrúria; o Alentejo com os Algarves ao Príncipe da Paz, valido de Carlos IV, que tomaria o título de rei dos Algarves; o terceiro estado ficaria no poder da França até à paz geral. Reino da Etrúria era o nome que teve por algum tempo o grão-ducado da Toscânia, quando em 1801 foi tirado à casa da Áustria e erigido em reino a favor de Luís, príncipe hereditário de Parma. Por morte deste príncipe em 1803, passou a ser governado por Maria Luísa, filha de Carlos IV, de Espanha. Este reino desapareceu no fim do ano de 1807, em consequência dum tratado com a Espanha, ficando incorporado na França, e reapareceu como grão-ducado da Toscânia em 1809. Para a execução do tratado de Fontainebleau, Napoleão mandou marchar para Lisboa com a maior rapidez um exército comandado pelo general Junot. 0 exército passou o Bidassoa a 18 de Outubro de 1807, atravessou em pleno Inverno as serranias espanholas, sofrendo privações de toda a qualidade, e chegou à fronteira portuguesa em 20 de Novembro já em condições detestáveis. 0 Inverno era desabrido; não havia estradas, parecia impossível que um exército pudesse atravessar a Beira em semelhantes condições. Pois atravessou sem encontrar resistência alguma. Junot entrou em Abrantes no dia 24 à frente de 4.000 ou 5.000 homens, descalços, famintos, estropiadas. No dia 25 saiu de Abrantes com uns 4.000 homens que a muito custo conseguira apurar dum dia para o outro. Encontrou muitas dificuldades para passar o rio Zêzere, para atravessar os campos da Golegã inundados; entrou em Santarém no dia 28 com o seu estado-maior incompleto, com um regimento de granadeiros e 70 soldados de linha. Nesse mesmo dia marchou para Lisboa, e a pequena distancia desta cidade encontrou um destacamento de cavalaria portuguesa. Uma carga dos nossos cavalos bastaria para dispersar essa turba fatigada, que se arrastava a custo pelas estradas, mas os soldados tinham ordem de receber os franceses como amigos, e não havia quem os comandasse. No dia 30 de Novembro, finalmente, entrou Junot em Lisboa com dois regimentos compostos de soldados pálidos, fracos, com o uniforme rasgado, e as espingardas arruinadas. A família real portuguesa, a corte e muitos dos seus vassalos que quiseram acompanhá-la, embarcaram para o Rio de Janeiro debaixo da protecção duma esquadra inglesa, a 29 de Novembro. Portugal ficou entregue a uma regência. Junot declarou logo à sua entrada em Lisboa, que em nome de Napoleão a família de Bragança deixara de reinar; e na qualidade de governador de Portugal nomeou um conselho de governo, de que fizeram parte alguns portugueses, para substituir a regência, que o rei nomeara 0 povo, abandonado pelos seus príncipes, mas impaciente com sofrer o jugo estrangeiro, indignado pelas exigências dos franceses, pelas afrontas feitas por Junot à bandeira portuguesa, pela violência que praticara expedindo para França o nosso exército, reduzido a um pequeno corpo, que tomou o nome de Legião portuguesa, que foi obrigada a militar no exercito de Napoleão, o povo ergueu-se indignado no Porto em 1808, propagou-se a revolução nas províncias do norte, e rebentou depois no Algarve. Junot reprimiu-a cruelmente, e os seus subalternos Loison, Margaron, Thomiéres e Kellermann, em Évora, Leiria, Nazaré e Beja, praticaram verdadeiras atrocidades, mas entretanto a Inglaterra, que procurava no continente um porto onde fizesse desembarcar tropas para combater Napoleão, aproveitou a insurreição portuguesa. O general Arthur Wellesley, depois duque de Wellington, desembarcou com o seu exército a 6 de Agosto de 1808 na baía de Vagos, derrotou os franceses nas acções da Roliça e de Vimeiro, dadas nesse mês, e Junot, venda a impossibilidade de sustentar-se em Portugal, foi obrigado a capitular, propondo a célebre Convenção de Cintra, que assinou em 30 de Agosto o general Dalrymple, que tinha sucedido a Wellesley no comando, para a total evacuação de Portugal pelo exercito francês, o a 15 de Setembro seguinte arvorou-se em Lisboa a bandeira portuguesa. Assim terminou a primeira invasão francesa. As condições da Convenção, em que não figuraram portugueses, foi reprovada, tanto em Portugal, como em Inglaterra. Bernardim Freire e o conde de Castro Marim foram os primeiros a protestar; em Londres, os jornais ocuparam-se largamente do assunto, que foi também discutido no parlamento; o governo britânico mandou meter em processo o general que a assinou. A Espanha, a que Napoleão quisera impor para rei seu irmão José, depois de ter arrancado em Baiona a Carlos IV e a seu filho D. Fernando uma abdicação forçada, revoltara-se contra os franceses. As tropas inglesas, comandadas por John Moore, pretenderam passar de Portugal a Espanha, mas foram derrotadas na Corunha pelo general Soult no principio do ano de 1809, sendo obrigadas a embarcar, descobrindo a fronteira portuguesa, que o general Soult invadiu pela provinda do Minho em Março de 1809 com um numeroso exercito. A cidade do Porto foi tomada no dia 24 desse mês. Soult, afagando vagas ideias de uma realeza portuguesa, não prosseguiu na sua marcha, o que permitiu que a regência de Portugal desse o comando do nosso exército, para o disciplinar e instruir, ao general inglês Beresford. 0 exército anglo luso marchou para o norte às ordens do general Wellesley, e a 29 de Maio recuperou a cidade do Porto, perseguindo os franceses até à fronteira do norte, e obrigaria o general Soult a capitular, se ele se não esquivasse para a Galiza numa retirada habilíssima. Descendo ao sul, Wellesley entrou em Espanha, deu a batalha de Talavera, e retirou para Portugal, conservando-se o exército português em observação. Em 1810 houve a terceira invasão francesa, sendo o exército comandado pelo general Massena. Depois de tomar Almeida, marchou para Lisboa, e atacou a 27 de Setembro o exército anglo-luso postado nas alturas do Buçaco; foi repelido com perdas graves, mas no dia seguinte pôde tomar a posição, o que obrigou o general inglês a retirar-se precipitadamente para cobrir Lisboa. Massena avançou, devastando tudo pelo caminho, mas esbarrou na frente das linhas de Torres Vedras, em que ficou vencido. Até 1814 deram-se diferentes batalhas em que os franceses foram sempre derrotados, até que afinal Massena abandonou Portugal, terminando assim a guerra da Península. A Legião Portuguesa, que fora a França combater às ordens de Napoleão, regressou a Portugal. No entretanto, a família real e a corte conservavam-se no Brasil. 0 príncipe D. João dirigira os negócios do reino, mas despachou sempre em nome da rainha, sua mãe, até 14 de Julho de 1799, em que perdidas completamente as esperanças do restabelecimento da infeliz enlouquecida, assumiu oficialmente a regência. Em 16 de Março de 1816 faleceu D. Maria I, e D. João VI começou a reinar como soberano no dia 20, sendo aclamado e coroado rei do Reino Unido de Portugal, Brasil, a 6 de Fevereiro de 1818. Na vida doméstica o monarca era muito infeliz. A rainha D. Carlota Joaquina, além do seu procedimento escandaloso, não se cansava de levantar obstáculos de todo o género em Portugal conspirando contra o rei, correndo até o boato de que pretendera envenená-lo, na América, procurando formar um reino para si com uma parte das colónias espanholas. 0 Brasil havia acolhido com entusiasmo a família real, cuja residência ia transformá-lo de colónia em metrópole. Por isso também escapou ao contágio da revolução, e nem pensou em reclamar a sua independência. Mas, ao terminar a guerra da península, tendo D. João VI continuado a demorar-se na América, Portugal começou a inquietar-se e a indignar-se, tanto mais que o general Beresford, que ficara em Portugal comandando o nosso exército, com muitos oficiais ingleses a comandarem os nossos regimentos, governava mais do que a regência, o que sobremaneira exaltava o ânimo do povo, pouco sofredor do jugo estrangeiro. Além disso, aqui, como em toda a Europa, começavam a fermentar as ideias liberais espalhadas pela revolução francesa. Em 1817 tramou-se uma conspiração promovida em parte pelas ideias liberais, em parte pela indignação contra o estado de colónia a que Portugal estava reduzido. Essa conspiração foi afogada cruelmente pela morte de Gomes Freire de Andrade e das vítimas do Campo de Sant'Ana. No Brasil também fermentavam nalgumas províncias as ideias republicanas e as de autonomia americana. A revolução que rebentou em Pernambuco, em 1817, foi prontamente sufocada. Em 24 de Agosto de 1820 deu-se uma revolução no Porto, com o fim de dar ao país um governo constitucional, e em 15 de Setembro formou-se um governo provisório, mas apenas se reuniram as cortes gerais constituintes, foi substituído por um governo executivo, com o titulo de Regência, durante a ausência de el-rei. 0 congresso encarregou uma comissão escolhida, entre os seus membros, de estabelecer as bases da Constituição. 0 conde de Palmela, D. Pedro de Sousa Holstein, mais tarde marquês e duque do mesmo título, era ministro dos estrangeiros, para que fora nomeado em 1817; vindo a Lisboa, onde teve de se demorar por causa dos seus negócios domésticos, assistiu à revolução de 1820. Julgara o ilustre diplomata poder encaminhar o movimento do Porto, por forma a produzir em Portugal um governo constitucional, à imitação do de Inglaterra. Era, porém, tarde, e o movimento iniciado no Porto, desenvolvendo-se com rapidez, não permitiu que fossem postos em prática os seus planos prudentes e patrióticos. Partiu então para o Rio de Janeiro em Outubro de 1820, com o intuito firme de persuadir D. João VI a que aceitasse o regime constitucional e evitasse por esta forma as gravíssimas dificuldades que se apresentavam a todo o observador sincero e esclarecido. No Rio de Janeiro encontrou mais contradições do que esperava. A corte não acreditava na gravidade das circunstâncias, nem se mostrava receosa da opinião pública no Brasil, mas depressa se desenganou com as notícias chegadas de Portugal e a sublevação da Baía. Só então é que D. João VI, aceitando os conselhos de Palmela, se determinou a mandar a Portugal o príncipe D. Pedro, para outorgar a base duma constituição, e a convocar no Rio de Janeiro uma assembleia de notáveis, de todas as províncias, para se assentar na forma de governo, que se havia de dar ao Brasil. 0 príncipe, porém, recusou-se a partir, por conselho de maus conselheiros, e por andar secretamente conivente nas intrigas que se armavam para se conseguir a independência do Brasil. Nestas circunstâncias, D. João VI foi forçado a regressar a Portugal. Deixou no Brasil como seu lugar-tenente o príncipe D. Pedro, e embarcando com o resto da família real para a Europa, entrou no Tejo a 3 de Julho de 1821. Feita a Constituição, foi jurada pelo soberano no dia 1.º de Outubro de 1822. No Brasil, no dia 7 de Setembro do mesmo ano de 1822, D. Pedro, no conflito que se erguera entre o Brasil e as cortes portuguesas onde os deputados brasileiros tinham sido até ali acolhidos dum modo hostil, optava pelo Brasil, e a independência brasileira ficou de facto proclamada, tomando o príncipe real D. Pedro o título de imperador. Assim ficou constituído o império do Brasil. 0 monarca reconheceu com bastante mágoa aquela independência, pelo decreto de 29 de Agosto de 1825, reservando para si o tratamento de imperador titular do Brasil, e desde então, todos os diplomas se passavam em nome Sua Majestade o Imperador e Rei. D. João VI exercia as suas funções de rei constitucional, ao passo que a rainha D. Carlota Joaquina continuava a levantar-lhe obstáculos, manifestando um ódio entranhado ás instituições constitucionais, contra as quais conspirou. Esta forma de governo prevaleceu até ao ano de 1823, em que se formou uma insurreição, tendo à frente o infante D. Miguel, filho predilecto da rainha. A contra-revolução rebentou em Lisboa no dia 27 de Maio; o infante D. Miguel foi para Vila Franca, e ali se lhe reuniu o regimento de infantaria n.º 23, e aclamou-se em Vila Franca o absolutismo. Esta contra-revolução ficou conhecida pelo nome de Vilafrancada (V. este nome). 0 infante e a rainha queriam ir mais adiante e alcançar a abdicação do rei, que, fiel ao seu juramento, queria manter a Constituição, apesar das numerosas adesões que a causa do absolutismo continuava a receber em ViIa Franca, mas a revolta do regimento de infantaria n.º 18, que, reunido com magotes de povo, foi ao paço da Bemposta aclamar o rei absoluto, decidiu D. João VI a tomar a direcção de movimento absolutista, e partindo para Vila Franca, voltou dali em triunfo a Lisboa, acompanhado de muitos fidalgos entusiasmados pela reacção. As cortes dispersaram-se, depois de protestarem contra quaisquer alterações que se fizessem na Constituição, o regime absoluto ficou restabelecido novamente em Portugal. No entretanto D. Carlota Joaquina e o infante D. Miguel continuavam nas suas intrigas. Nos fins do ano de 1823 a polícia descobriu uma conspiração planeada pela rainha e o infante seu filho, que fora nomeado comandante em chefe do exército, para forçar D. João VI a uma abdicação. Prevenidas a tempo as autoridades, ficou malograda a conspiração, que poucos meses depois de novo se animou. Os motivos de queixa alegados pelos partidários da rainha contra o rei era a demasiada benevolência que ele mostrava com os liberais, e a promessa que lhes fizera, e parecia desejar cumprir, de outorgar uma constituição no reino. A 28 do Fevereiro de 1824 foi assassinado o marquês de Loulé em Salvaterra, crime que a voz publica atribuiu ao infante D. Miguel ou aos seus apaniguados, e que veio revelar como o partido miguelista se queria livrar dos homens mais afectos ao rei, e que poderiam aconselhá-lo bem ou defende-lo em críticas circunstâncias. A 30 de Abril de 1824, D. Miguel, como comandante em chefe do exército, chamava as tropas às armas, prendia diversos ministros e personagens importantes, conservava seu pai guardado à vista e incomunicável no paço da Bemposta, e proclamava ao povo, dizendo-lhe que uma conspiração de pedreiros livres tramava o assassínio do rei, e que ele infante se erguera para o proteger; o que ele tentava, porém, era obrigar seu pai a abdicar, quando o corpo diplomático, tendo à sua frente o ministro de França Hyde de Neuville, entrou no Paço, obrigando as sentinelas que tinham ordens em contrário a deixarem-no passar, protestando todos os ministros contra qualquer violação à, autoridade real. Isto obrigou a rainha e o infante a serem mais moderados. Ficou conhecida esta revolta pela designação de Abrilada (V. este nome). El-rei, no dia 9 de Maio, por conselho dos embaixadores da França e da Inglaterra, simulou um passeio a Caxias, e foi recolher-se a bordo da nau Windsor Castle. Mandou então chamar o filho, repreendeu-o asperamente, demitiu-o do seu cargo de comandante em chefe do exército, e exilou-o para o estrangeiro. No dia 14 do referido mês voltou para o paço da Bemposta, restabeleceu o ministério, mostrando-se muito benevolente para com os revoltosos da Abrilada. A polícia descobriu nova conspiração, que devia rebentar no dia 26 de Outubro do mesmo ano de 1824. Tomaram-se então algumas medidas enérgicas, e D. Carlota Joaquina foi presa para Queluz. Todos estes desgostos, e o pesar que lhe causou o ver-se obrigado a reconhecer a independência do Brasil, lhe alteraram a saúde, abreviando-lhe a morte. Antes de falecer, nomeou uma Junta de Regência, pelo decreto de 6 de Março de 1826, a qual seria presidida por sua filha, a infanta D. Isabel Maria, e composta do cardeal patriarca, duque de Cadaval, marquês de Valada, conde dos Arcos e 6 ministros de Estado. D. João VI animou as letras, as artes, o comércio e a agricultura; fundou alguns estabelecimentos, em que se conta o Instituto dos Surdos¬-Mudos e Cegos. Do seu matrimónio, houve os seguintes filhos: D. Maria Teresa, casada em primeiras núpcias com o infante de Espanha D. Pedro Carlos de Bourbon, e pela segunda vez com D. Carlos Maria Isidoro, também infante de Espanha e seu cunhado; D. António, príncipe da Beira, que faleceu com 6 anos, em 1801; D. Maria Isabel, que casou com o rei de Espanha, Fernando VII; D. Pedro IV; D. Maria Francisca de Assis, casada com o príncipe de Espanha, já citado, D. Carlos Maria Isidoro, o qual por morte desta sua primeira mulher, passou a segundas núpcias com sua cunhada, a infanta D. Maria Teresa; D. Isabel Maria, que se conservou solteira, e foi regente do reino; o infante D. Miguel; D. Maria da Assunção, que também faleceu solteira; D. Ana de Jesus Maria, que casou com o marquês de Loulé, Nuno José de Mendonça Barreto. D. João VI foi o 8.º príncipe da Beira e do Brasil, o 21.º duque de Bragança, 18.º de Guimarães, 16.º de Barcelos, 20.º marquês de Vila Viçosa, 24.º conde de Arraiolos; 22.º conde de Ourém e de Barcelos, de Faria e de Neiva; grão prior do Crato e senhor da Casa do Infantado; grão-mestre das ordens militares de Cristo, Avis, S. Tiago da Espada, da Torre e Espada, restaurada em Maio de 1808, à qual deu nova forma e regulamento pela lei de 29 de Novembro do mesmo ano, ampliado pelo alvará de 5 de Julho de 1809; da ordem de S. João de Jerusalém, e grão prior em Portugal; grã-cruz da ordem de N. Sr.ª da Conceição, que ele instituiu a 6 de Fevereiro de 1818; cavaleiro da ordem do Tosão de Ouro, e grã-cruz das ordens de Carlos III, S. Fernando e Isabel a Católica, em Espanha; do Santo Espírito, S. Luís, S. Miguel e da Legião de Honra, em França; de Leopoldo da Áustria, e de Santo Estêvão da Hungria, da Coroa de Ferro, de Itália; das de S. André, S. Alexandre Nevsky e de Sant’Ana da Rússia, cavaleiro da ordem da Jarreteira em Inglaterra; grã-cruz da do Elefante, de Dinamarca; do Leão Neerlandês, dos Países Baixos; da Águia Negra, na Prússia. Serviu de condestável no acto da aclamação de sua mãe, a rainha D. Maria I. Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico, Volume III, págs. 1051-1055. D. Carlota Joaquina de Bourbon - Princesa espanhola e rainha de Portugal. Nasceu em Aranjuez a 25 de Abril de 1775; faleceu em Queluz a 7 de Janeiro de 1830. Era filha primogénita do rei Carlos IV de Espanha e da rainha sua mulher; D. Maria Luísa Teresa de Bourbon. Tendo apenas 10 anos de idade, casou em 8 de Maio de 1785 com o príncipe D. João, filho de D. Maria I, o qual, em 1788, por morte de seu irmão primogénito D. José, foi declarado príncipe herdeiro, sendo mais tarde regente do reino, pela interdição de sua mãe, e finalmente rei de Portugal, com o nome de D. João VI. D. Carlota Joaquina passava geralmente por ser de ânimo perspicaz e de dotes elevados de espírito, porém, as suas qualidades morais não mereceram igual apreço. Ambiciosa, violenta, pretendeu logo dominar a vontade de seu marido, e dirigi-lo nos negócios internos e nos do Estado. Não se submetendo o regente, começou D. Carlota a olhá-lo com desprezo e desdém, convertendo o lar doméstico em continua luta, cujos menores incidentes eram discutidos e comentados nas praças públicas. D. Carlota dispôs as coisas de forma, que criou um partido seu, e em 1805 divulgou-se que o regente descobrira uma conspiração tramada contra ele por sua própria esposa. Dizia-se que ela, tendo a seu lado vários nobres e eclesiásticos, projectava tirar o governo a seu marido, e prende-lo, declarando-o incapaz de gerir os negócios públicos. O conde de Vila Verde dispunha-se a abrir uma devassa e castigar os criminosos, porém o regente, desejando evitar maior escândalo, não consentiu, limitando-se a separar-se de sua mulher, dando-lhe para residência o palácio de Queluz, onde antes viviam juntos, passando ele a residir em Mafra, e a exilar alguns fidalgos que mais se manifestavam afectos à princesa. A desgraçada situação a que chegou Portugal, em 1807, fez com que os dois esposos se reunissem por algum tempo, e a esquadra, que em Novembro deste ano conduziu o príncipe regente e D. Maria I ao Brasil, levava também a seu bordo a astuciosa princesa. No Rio de Janeiro continuaram vivendo separados, cada um em seu palácio, reunindo-se apenas, quando eram obrigados a comparecer nalguma solenidade pública. D. Carlota Joaquina é que se não resignava à inacção política a que se via condenada, decidida, como estava, a dominar como soberana; e começando a lavrar no Rio da Prata os primeiros sintomas de emancipação, concebeu o projecto de levantar para si um trono nas províncias espanholas da América, ou pelo menos, de governar como regente em nome de seu irmão Fernando VII. Auxiliada pelo vice-almirante inglês Sydney Smith, e não encontrando oposição em seu marido, foram enviados agentes ao Rio da Prata, onde formaram um grande partido. As intrigas principiaram então a desenvolver-se mais cruéis e enredadoras. O ministro inglês, lorde Strangford, insinuou a D. João que o vice-almirante lhe desonrava o tálamo conjugal. D. João pediu logo para Londres transferência do vice-almirante. Satisfeito o seu pedido, Sydney Smith retirou-se, vindo substitui-lo o almirante de Courcy. No entretanto, as divergências eram enormes. No próprio governo havia correntes muito opostas. D. João, cada vez mais abatido e com medo da mulher, pedia que não a contrariassem sempre que as suas exigências não fossem impossíveis de satisfazer. Anulados afinal os planos da rainha, nem assim ela esmoreceu. Procurou ser agradável aos castelhanos, e conseguir, na falta de seu pai e irmão, prisioneiros em Franca, ser nomeada regente de Espanha, e vir talvez a ser a herdeira de Carlos IV, abolindo-se a lei sálica que vigorava na monarquia. Para realizar o seu projecto, teve de sustentar uma acerba luta com o embaixador inglês, tendo a astúcia de alcançar que o governo da regência lhe permitisse enviar secretamente ao general Elio, que estava em Montevideu, víveres e dinheiro, para o que não hesitou em vender as suas próprias jóias. Afinal, e visto não ser possível narrar detidamente as variadas peripécias desta luta de orgulhos e de ambições, o sonho que tanto seduzira D. Carlota Joaquina dissipou-se. Viveu alguns anos afastada da política, sempre separada de seu marido, que então, já havia sido aclamado rei, por ter falecido D. Maria I em 1816, até que a revolução do Porto em 1820, que trouxe para a Europa a família real, pôs novamente em evidência a rainha, reunindo algum tempo os dois esposos. Aliada aos frades, aos nobres, aos que se mostravam pouco simpáticos ao novo regime, urdia a conspiração chamada da rua Formosa, destinada a obrigar o rei a abdicar e a destruir a Constituição. Falhando esse plano, as cortes de 15 de Maio de 1822 decidiram deportar a rainha para o palácio do Ramalhão, por ela se recusar a jurar a Constituição, alvitre que ela aceitou com júbilo, pois lhe permitia continuar a sua obra perturbadora. Neste retiro tramou ainda a queda da Constituição; e servindo-se do infante D. Miguel, que ela educara, e com quem vivia intimamente, conseguiu realizar o movimento conhecido por Vilafrancada (V. este nome) em 26 do referido mês de Maio. Derrubada a Constituição e dissolvidas as cortes, foi levantado o desterro da rainha, e o próprio D. João VI a foi buscar à quinta do Ramalhão, conduzindo-a ao paço da Bemposta. Pouco tempo, porém, durou a harmonia entre os dois esposos, porque a rainha mudou a sua residência para Queluz, e tornou-se cabeça do partido absolutista que dentro em pouco promoveu a Abrilada (V. este nome) a 30 de Abril de 1824. Tendo a rainha tomado parte activa e manifesta nesse movimento, quando D. João VI, apoiado nos embaixadores francês e inglês, se decidiu a mandar sair do reino o infante D. Miguel, ordenou que sua mulher se recolhesse ao paço de Queluz, e nunca mais aparecesse na corte. A 10 de Março de 18211 faleceu D. João VI, tendo previamente nomeado uma regência presidida por sua filha, a infanta D. Isabel Maria, e composta do cardeal patriarca, duque de Cadaval, marquês de Valada, conde dos Arcos e os seus ministros de Estado. D. Carlota Joaquina durante o governo de D. Miguel, que se seguiu, auxiliou-o quanto pôde, vindo a falecer pouco tempo depois. Instituiu uma ordem exclusivamente destinada às senhoras, com a autorização do príncipe regente, seu marido, por decreto de 4 de Novembro de 1801, com a designação de Ordem das Damas Nobres de Santa Isabel, cujos estatutos foram confirmados pelo alvará de 25 de Abril de 1804. Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico, Volume II, págs. 760 -761. Gomes Freire de Andrade O período que mediou entre as invasões francesas, a fuga da Casa Real e o estabelecimento da sede da monarquia no Brasil e a Revolução de 1820 tem sido bastante controverso do ponto de vista da análise histórica e das explicações para os acontecimentos. Oliveira Martins, por exemplo, escreve que Portugal se tinha tornado numa colónia do Brasil. A historiografia francesa, por sua vez, acentua a dependência de Portugal face à Inglaterra. Esta tese tem motivações simples. Após a rendição de Junot, Portugal era o único país da Europa continental fora do controlo francês. Parte da Europa continental estava sob o império de Napoleão e outra parte era aliada à força. Os franceses foram sistematicamente batidos pelas tropas anglo-lusas e atribuir uma derrota a um país pequeno é humilhante. Assim, o papel dos portugueses no exército de Welligton foi sempre desvalorizado pelos historiadores franceses, embora os protagonistas dos acontecimentos, como Marbot e Foy, dêem nas respectivas memórias bastante importância à acção dos portugueses. Em Portugal, a apreciação do papel dos ingleses no nosso país, naquele período, também tem variado, nomeadamente durante a primeira metade do século XX, ao sabor da luta entre germanófilos e anglófilos, em suporte das suas teses durante os conflitos mundiais. Um dos casos mais controversos é o do julgamento e execução de Gomes Freire de Andrade e dos restantes “Mártires da Pátria” e do papel dos ingleses nesse caso. É essa questão que abordarei em seguida. A política tem coisas estranhas. Foram partidários do liberalismo que promoveram a iniciação maçónica da viscondessa de Juromenha, iniciada na Maçonaria, loja Virtude, em 1814. O marido era secretário militar do Comandante em Chefe do exército português, o Marechal Beresford, Marquês de Campo Maior. Ela era amante de Beresford com a complacência do marido (a exemplo do que já sucedera com Junot e a Condessa de Ega, 7 anos antes). Era um ménage à trois que a todos aproveitava, nomeadamente ao marido, agraciado com o título de visconde e mais tarde promovido a general. O casal e a prole vivia, convenientemente, no Palácio Junqueira, residência de Beresford, onde anteriormente residira Junot. Interessantes, estes acontecimentos que se repetem na história… Com a iniciação da viscondessa, pretendiam os liberais averiguar os sentimentos de Beresford face à Regência, a Junta dos Governadores que governava o país em nome de D. João VI, e as possibilidades de o trazerem para o campo liberal. Por sua vez, Gomes Freire de Andrade havia feito um percurso sinuoso. Quando Junot tomou Lisboa e se tornou “rei” de Portugal, obteve o concurso de Gomes Freire de Andrade que, integrado na Legião Portuguesa, comandada pelo Marquês da Alorna, partiu ao serviço de Napoleão e da França. Um dos problemas que há com os heróis … é que ninguém é perfeito. Gomes Freire de Andrade serviu entre 1807 e 1814 o país que tinha ocupado o seu, que o invadira e invadiria por 3 vezes, que o saqueava e que lhe movia uma guerra de grande crueldade que se saldou por um terrível sacrifício e enorme mortandade da população portuguesa. Com a primeira abdicação de Napoleão, Gomes Freire de Andrade pediu autorização para regressar ao seu país. A autorização demorou e valeu-lhe então o seu primo direito, D. Miguel Forjaz, um dos secretários da Junta, que pelo seu talento era talvez o elemento mais poderoso da Junta. Sujeitou-se então a um processo de reabilitação que o declarou “livre de toda e qualquer mácula”. Aquele dificuldade era normal: objectivamente, Gomes Freire de Andrade podia ser considerado traidor à pátria, visto ter servido o país com que Portugal estivera em guerra, e durante o período em que essa guerra durou. Regressou em meados de 1815. Em Portugal levedava a revolta. Os liberais contra os absolutistas; Beresford contra a Regência; a oficialidade portuguesa contra a chefia de um inglês; a Casa de Cadaval contra a Casa de Bragança, acusada de deixar o país pelo Brasil. Um conjunto de oficiais movidos por diversos desígnios, desde o sentimento liberal, os atrasos de pagamentos do pré, atrasos de pagamentos de reformas, descontentamento pela ausência do Rei e o ódio ao comando inglês, integraram um movimento, para o qual conseguiram o patrocínio de Gomes Freire de Andrade, e que denominaram “Supremo Conselho Regenerador de Portugal, Brasil e Algarves”. Gomes Freire de Andrade tinha todas as características que concorrem para obter carisma popular: Impetuoso, de grande coragem, arrebatado, impulsivo, de grande frontalidade e franqueza, indisciplinado por vezes, mas justo. Má cabeça e bom coração, como alguns diziam. Gomes Freire de Andrade manteve-se como figura de referência dos conjurados, embora a sua participação, para além da eventual colaboração na redacção das proclamações, fosse pouco activa. Os conjurados pretendiam o seu nome de oficial distinto como figura de proa, para fortalecer o seu movimento. As proclamações daquele Conselho, divulgadas clandestinamente, parecem-nos hoje de uma retórica algo vazia. A leitura da “proclamação-manifesto” mostra que o principal acusado é o Rei, por nos “ter vendido aos nossos inimigos naturais, ao Rey de Hespanha”, nos pretender sujeitar “à tirania dos Hespanhois como dote da filha ou presente de escravatura”, “o Déspota que … nos chama ao açougue do precário Império” referindo-se ao recrutamento de tropas para os combates que se travavam, no sul do Brasil, pela posse de Montevideu e para combater a insurreição republicana no Pernambuco (*). A referência a Beresford é chamar-lhe o “ridículo aventureiro que em desabono nosso é Commandante em Cheffe do Exercito”. Esta proclamação enumerava uma série de motivos de agravo, disparava em todas as direcções: Rei, Regência, Beresford, Espanha, mas não propunha nada em concreto senão “vencer ou morrer pele plena satisfação da fé jurada”. Um movimento que pretende triunfar tem que escolher os alvos principais e poupar os secundários, ou mesmo estabelecer alianças com estes, senão tem todos contra ele (**). O teor desta proclamação mostrava a fragilidade e a falta de maturidade política do movimento. A viscondessa de Juromenha, ao contrário do que os liberais tinham pretendido, tornou-se a principal figura na liquidação da conspiração. Estava exacerbada pela raiva contra os pasquins que a insultavam. Quando o marido foi promovido a general, vieram a lume papéis que rezavam: De um corno fazer um tinteiro Isso faz qualquer estrangeiro Mas de um corno fazer general Isso só o Senhor Marechal O reduzido número dos conjurados, a ligeireza com que muitos se conduziram, a sua pouca implantação fora do exército e a incontinência de alguns deles, fizeram com que rapidamente se soubesse da trama. Na sua tentativa de aliciarem gente, os conjurados empolavam em muito a força do seu movimento. Haveria gente ligada à conjura por motivos diversos da causa liberal. Aliás, alguns dos conjurados eram agentes provocadores que mantinham informada D. Maria da Luz, a viscondessa de Juromenha e, por via desta, o Marechal Beresford, ou mesmo directamente este. O Marechal Beresford estava de partida para o Rio de Janeiro (D.João VI tinha acabado de ser aclamado rei) onde ia tentar conseguir apoio do rei na sua luta contra a Regência. Mas não queria partir deixando a conspiração a desenvolver-se na sua ausência. Os agentes provocadores foram incumbidos de agirem rapidamente e de fazerem uma lista exaustiva dos conjurados, graus e tipo de adesão e das suas intenções e desígnios. Beresford convocou algumas personalidades da sua confiança, entre elas o Visconde de Santarém, a quem foram apresentados os documentos que tinham sido coligidos relativos à conspiração. Esses documentos mostravam que estava em marcha um movimento, ainda incipiente, cuja primeira fase seria a criação de núcleos por todo o país. A decisão foi a de apresentar a documentação à Regência, o que ocorreu em 23 de Maio de 1817. A Regência imediatamente se assegurou da posição do exército e do apoio do General Paula Leite, encarregado do governo das Armas da Corte e província da Estremadura, elemento fundamental para a segurança da região de Lisboa, e emitiu ordens de prisão contra Gomes Freire e diversos oficiais e civis. A falta de coordenação entre os conjurados era tal que Gomes Freire de Andrade, ao notar a movimentação de tropas, o ruído das armas e das patas dos cavalos, pensou tratar-se da revolução em marcha, fardou-se, esmaltou o peito das condecorações e esperou. Esperou até que a sua porta foi arrombada, a casa invadida pela tropa e lhe foi dada ordem de prisão. A devassa que se seguiu foi típica de um processo num regime absoluto. Os agentes provocadores fizeram as suas deposições em segredo, alguns dos conjurados passaram a delatores e como o maior alvo era Gomes Freire de Andrade, os testemunhos foram orientados para avolumar a importância da conspiração e para o tornar o principal culpado. Aliás, nunca se soube qual foi o real envolvimento de Gomes Freire na conjura, como também não se conhecem exactamente os objectivos dos conspiradores, se é que havia um objectivo comum, ou se parte dos conjurados não teria sido manipulada para objectivos que desconheciam. A rapidez de actuação da Regência e a forma como o processo se desenrolou causou surpresa a Beresford e reforçou a ideia que este teria, de que havia gente ligada à regência metida na conspiração. Uma teoria refere que havia a tentativa de depor D, João VI, substituindo a Casa de Bragança pela Casa do Cadaval (aliás, um dos denunciados era o Duque do Cadaval). Uma outra teoria falava de que havia na regência traidor ou traidores favoráveis à anexação de Portugal pela Espanha, na sequência do conflito que então se travava no Uruguay e que haveria uma tentativa de encobrir esse facto. Essa teoria baseava-se na visita, 2 meses antes, do general Cabanes, enviado de Fernando VII, a Portugal por razões que nunca foram claras. Segundo esta teoria Gomes Freire, que privou com Cabanes durante a estada deste em Lisboa, e outros estariam a ser manipulados para um processo que lhes escaparia das mãos e cuja primeira fase seria a desorganização do exército português e a quebra da sua cadeia hierárquica, para deixar o país inerme face à Espanha. Gomes Freire foi condenado à morte “com baraço e pregão” e executado em S. Julião da Barra. Os restantes 11 sentenciados foram executados no então Campo Santana, hoje Campo dos Mártires da Pátria, a 18 de Outubro de 1817. A lentidão do suplício, e o ter-se prolongado pela noite, deu origem à frase macabra “felizmente há luar” de Miguel Pereira Forjaz. Este tinha mostrado, durante todo o processo e na execução, um surpreendente afã em se ver livre do incómodo primo direito. Espanta a severidade das sentenças, quando comparadas com as sentenças dos insurrectos de Pernambuco, o que reforça a ideia de que a regência se queria ver livre de forma definitiva dos conjurados. E surpreende igualmente que personalidades da nobreza denunciadas como fazendo parte da conjura, como o Duque do Cadaval, o Marquês de Ponte de Lima e outros, não tenham sido incomodados. Um dos conjurados, o Barão de Eben, prussiano e amigo pessoal do Duque de Sussex (de que também Gomes Freire era conhecido), irmão do Rei da Inglaterra, foi expulso do país. O facto do Barão de Eben aparecer ligado a esta conspiração como um dos principais conjurados foi extremamente embaraçoso para a família real inglesa. O papel da maçonaria não foi claro. Gomes Freire era Grão-Mestre da Loja Militar dos Cavaleiros da Cruz da Legião Portuguesa. Alguns membros desta loja foram denunciados, como o Marquês de Ponte de Lima, mas nenhum condenado. Mas havia mais lojas e não se conhece que alguma estivesse envolvida. A própria viscondessa de Juromenha era da maçonaria e um dos principais delatores era da mesma loja, a Virtude. Muitos oficiais ingleses estavam ligados a lojas maçónicas. Haveria maçons ligados à conjura e outros indiferentes, ou que se lhe opunham. Esta conspiração e o seu desfecho trágico é um dos episódios sangrentos da luta entre liberais e absolutistas. Para aliciarem o exército os liberais utilizaram, como uma das armas, a humilhação que consistia no Comandante em Chefe ser inglês e de continuarem a haver oficiais ingleses em situações consideradas imerecidas na hierarquia militar. É falso dizer que Portugal estava então ocupado pelos ingleses, embora fosse verdade que a política portuguesa estava bastante influenciada pela política inglesa. Mas continuaria a estar quer houvesse ou não Beresford, como se verificou posteriormente. Beresford não representava a Inglaterra, mas sim a ele próprio. Aliás, a proclamação do “Supremo Conselho Regenerador” refere-o como um “ridículo aventureiro que em desabono nosso é Commandante em Cheffe do Exercito” e não como o procônsul britânico em Portugal, como bastante mais tarde alguns o designaram. Beresford agiu sempre por conta própria e chegou a pensar-se, no tempo da regência de D. Isabel Maria, na sua reintegração no cargo de Comandante em Chefe do exército português, que não foi avante por motivos óbvios: apesar de militar capaz e disciplinador, o facto de ser estrangeiro iria torná-lo um alvo desnecessário e enfraquecer politicamente a posição da regente, em vez de a reforçar. A fragilidade desta conspiração, e a confusão que paira sobre os seus reais objectivos e o grau de envolvimento dos conjurados, mostrou que o exército ainda não estava maduro para a insurreição. Mas a execução de um oficial cheio de prestígio, e a forma bárbara como foram supliciados os conjurados ajudaram ao levedar da insurreição que iria eclodir menos de 3 anos depois. No início do ano seguinte, 3 meses após as execuções, instalava-se no Porto o denominado Synhedrio (Sinédrio), por iniciativa de Manuel Fernandes Thomaz e Ferreira Borges. O movimento liberal adquiriu maior consistência e coerência. Em face da degradação da situação, Beresford foi ao Rio de Janeiro reclamar maior latitude de poderes. D. João VI concedeu-lhos por Carta Patente de 29 de Julho de 1820, quase em simultâneo com o ofício que a regência (Junta dos Governadores) enviava ao rei, deplorando o estado das finanças públicas e as exorbitantes despesas militares e a ”considerável soma a que montam o soldo, gratificações a ajuda de custo, que recebe o Marechal-General, Marquês de Campo Maior (Beresford)”. Regressou a Portugal, mas já não pôde desembarcar. Tinha havido o pronunciamento de 24 de Agosto de 1820 e a Junta Provisional de Lisboa, que entretanto substituíra a Junta dos Governadores, não lhe permitiu que desembarcasse. Regressou em 1826, com as tropas do General Clinton, a pedido da Regente D. Isabel Maria, para proteger o cambaleante regime liberal, mas o seu protagonismo na política portuguesa acabara. O facto do exército ser chefiado por um estrangeiro, que teve, perante a opinião pública, um papel importante na liquidação na alegada conjura de Gomes Freire de Andrade, foi um elemento decisivo de fermentação da revolta. Foi por isso que o papel dos ingleses quer no exército português, quer na política portuguesa da época foi bastante empolado. Esse empolamento servia então os interesses do partido liberal no sentido de ampliar a sua base de apoio dentro do exército e na burguesia urbana. Foi também um elemento que uniu, inicialmente, os vintistas aos conservadores. Gomes Freire tornou-se um herói nacional porque "queria correr com os ingleses", tornou-se um "Mártir da Pátria". Todavia, após a revolução de 1820, a Inglaterra teve uma influência muito positiva, contrariando as intenções da Santa Aliança e de Metternich de intervirem em Portugal para derrubar o regime liberal. E com a contra-revolução e a subida ao poder de D. Miguel, foi em Inglaterra que os liberais encontraram abrigo e se reorganizaram. É bom que não se esqueça isso. (*) Aliás, Beresford estava igualmente contra a partida de tropas para a guerra no Uruguay, por questões de perda de poder pessoal, pois diminuiriam as forças sob o seu comando, mas também em virtude do reforço dos efectivos espanhóis junto às fronteiras portuguesas, e pretendia o regresso do Rei, porque estava em permanente conflito com a Regência e sabia que tinha a confiança de D. João VI. A ameaça espanhola não era despicienda. Havia um conflito entre os dois países por causa da colónia do Sacramento (actual Uruguay) e se não fosse a existência então de um exército disciplinado e eficiente, adestrado nas campanhas contra os franceses, e considerado de valor militar incomparavelmente superior às forças espanholas, era natural que as forças espanholas, muito mais numerosas, tentassem uma invasão. Nesse entendimento, qualquer acção espanhola teria que ser precedida da desorganização e enfraquecimento do exército português De notar que a Espanha se estribou então no conflito do Uruguay para não cumprir a decisão do Congresso de Viena da devolução de Olivença. (**) As proclamações de 24 de Agosto de 1820, que apelavam à criação de um governo provisório e à eleição das Côrtes, como o órgão da nação que preparasse uma constituição que assegurasse os direitos dos portugueses, continham um rasgado panegírico a D. João VI: “O nosso rei, o senhor D. João VI, como bom, como benigno e como amante de um povo que o idolatra, ha de abençoar nossas fadigas. Viva o nosso bom rei!”. Este “nosso bom rei” era o mesmo que tinha acabado de decretar o aumento de poderes de Beresford, justamente para combater o movimento liberal. Manter a religião, o trono e salvar a pátria e a independência nacional eram as aspirações que a Junta Provisional apresentava como suas, o que mostrava que esta soubera distinguir o alvo principal dos alvos secundários. Nota: Usei indiferentemente regência ou Junta dos Governadores, visto a Junta estar encarregada da regência na ausência de D. João VI. Era então presidida pelo Marquês de Borba. Miguel Pereira Forjaz estava encarregado da secretaria da guerra. Era hostil à presença de ingleses à frente do exército e o principal adversário de Beresford na junta. A Revolução de 1820 Revolução liberal do Porto A chamada Revolução do Porto foi um movimento liberal que acarretou consequências tanto na História de Portugal como na História do Brasil. Iniciado na cidade do Porto no dia 24 de Agosto de 1820, cuja burguesia mercantil se ressentia dos efeitos do Decreto de Abertura dos Portos às Nações Amigas (1808), que deslocara para o Brasil parte expressiva da vida econômica metropolitana, o movimento reivindicatório logo se espalhou, sem resistências, para outros centros urbanos de Portugal, consolidando-se com a adesão de Lisboa. Iniciado pela guarnição do Porto, irritada com a falta de pagamento, e por comerciantes descontentes daquela cidade, conseguiu o apoio de quase todas as camadas sociais: o Clero, a Nobreza e o Exército português. Entre as suas reivindicações, exigiu: o imediato retorno da Corte para o reino, visto como forma de restaurar a dignidade metropolitana; o estabelecimento, em Portugal, de uma Monarquia constitucional; e a restauração da exclusividade de comércio com o Brasil (reinstauração do Pacto Colonial). A junta governativa de Lord Beresford foi substituída por uma junta provisória, que convocou as Cortes Gerais Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa para elaborar uma Constituição para Portugal. Enquanto esta carta magna estava sendo redigida, entrou em vigor uma Constituição provisória, que seguia o modelo espanhol. O movimento, vitorioso, ficaria conhecido como Revolução do Porto ou Revolução Liberal do Porto. Como consequências, a Corte, à exceção de Dom Pedro I que aqui permaneceu na condição de Príncipe Regente, retornou a Portugal no ano de 1821 e, diante do progressivo aumento da pressão para a recolonização do Brasil, este proclamou a sua independência em 1822. A 27 de Maio de 1823, com o país mergulhado em clima de instabilidade e de confronto entre os sectores liberais e absolutistas, D. Miguel revolta-se em Vila Franca de Xira à frente de um regimento de infantaria, pretendendo a reposição do absolutismo. As Cortes tentam dominar a situação mas a 29 de Maio, todas as unidades militares da capital, com excepção de uma que permanece de guarda ao rei, partem também para Vila Franca, onde o próprio rei chega no dia seguinte. Procurando uma solução para a situação, D. Miguel é nomeado comandante-chefe do Exército e é constituído um governo de liberais moderados, sendo ainda prometida à Nação uma nova Carta Constitucional que todavia, não viria ser promulgada. Acentuavam-se os sinais de uma séria clivagem social e política que, a breve trecho, iria precipitar o país no caos e horrores da Guerra Civil. «A força dos males nacionais, já sem limites, não me deixou escolher: a honra não me permitiu ver por mais tempo em vergonhosa inércia a majestade real, ultrajada e feita ludíbrio dos facciosos, todas as classes da nação com diabólico estudo deprimidas, e todos nós o desprezo da Europa e do mundo, por um sofrimento que passaria a cobardia; e em lugar dos primitivos direitos nacionais que vos prometeram recobrar em 24 de Agosto de 1820, deram-vos a sua ruína, o rei reduzido a um mero fantasma; a magistratura diáriamente despojada e ultrajada; a nobreza, à qual se agregaram sucessivamente os cidadãos beneméritos e à qual deveis vossa glória nas terras de África e nos mares da Ásia, reduzida ao abatimento, despojada do lustre que outrora obtivera do reconhecimento real; a religião e seus ministros objecto de mofa e escárnio. Que é uma nação quando sofre ver-se assim aviltada? Eia, portugueses, uma mais longa prudência seria infâmia. Já os generosos transmontanos nos precederam na luta; vinde juntar-vos ao estandarte real que levo em minhas mãos; libertemos o rei e Sua Majestade livre dê uma Constituição a seus povos; fiemo-nos em seus paternais sentimentos; e ela será tão alheia do despotismo como da licença; assim reconciliará a nação consigo mesmo e com a Europa civilizada. Acho-me no meio de valentes e briosos portugueses, decididos como eu a morrer ou a restituir Sua Majestade à sua liberdade e autoridade, e a todas as classes seus direitos. Não hesiteis, eclesiásticos e cidadãos de todas as classes, vinde auxiliar a causa da religião, da realeza e de vós todos: e juremos não tornar a beijar a real mão senão depois de Sua Majestade estar restituído à sua autoridade. Não acrediteis que queremos restaurar o despotismo, operar reacções ou tomar vinganças; juremos pela religião e pela honra que só queremos a união de todos os portugueses e um total esquecimento das opiniões passadas.» Fonte: MARQUES, A. H. Oliveira, "História de Portugal", Palas Editores, Lisboa 1986. A Abrilada A 30 de Abril de 1824, menos de um ano após a Vilafrancada, D. Miguel revolta-se mais uma vez, fazendo reunir as tropas de Lisboa, no Rossio. Na proclamação que então foi lida às tropas, e que apresentamos transcrita na sua grafia original, referiam-se tentativas de assassínio da família real por parte dos liberais e a necessidade de os destruir para conseguir a pacificação do reino. Embora com dificuldade, D. João VI, conseguiria, retomar o controle da situação, exonerando D. Miguel do cargo de comandante-chefe do Exército e afastando-o para o exílio em Viena, para onde partiu a 13 de Maio desse mesmo ano. «Soldados! se o dia 27 de Maio de 1823 raiou sobremaneira maravilhoso, não será menos o de 30 de Abril de 1824; antes hum e outro irão tomar distincto lugar nas paginas da história Lusitana; naquelle deixei a Capital para derribar huma Facção desorganizadora, salvando o Throno, e o Excelso Rei, a Real Família, e a Nação inteira, dando mais hum exemplo de virtude á Sagrada Religião, que professamos, como verdadeiro sustentáculo da Realeza, e da Justiça; e neste farei triumfar a grande obra começada, dando-lhe segura estabilidade, esmagando de huma vez a pestilente cáfila dos Pedreiros Livres, que aleivosamente projectava alçar a mortifera fouce para àcabar, e de todo extinguir a Reinante Casa de Bragança. Soldados! foi para este fim que vos chamei ás armas, plenamente convencido da firmeza do vosso carácter, da vossa lealdade, e do decidido amor pela Causa do Rei. Soldados! sejais dignos de Mim, que o Infante D. Miguel, Vosso Commandante em Chefe, o será de vós. Viva ElRrei Nosso Senhor, Viva a Religião Catholica Romana, Viva a Rainha Fidelíssima, Viva a Real Família, Viva o Briozo Exercito Portuguez, Viva a Nação, Morram os malvados Pedreiros Livres. Palácio da Bemposta 30 de Abril de 1824.

D. Pedro IV - O Libertador - 28º Rei de Portugal 1798-1834 Reinou 2 anos

D. Pedro, Imperador do Brasil, foi reconhecido pelo Conselho de Regência, sucessor de D. João VI, e por isso, rei de Portugal com o nome de D. Pedro IV. A Carta Constitucional foi outorgada por D. Pedro IV em 1826, substituindo a Constituição de 1822, embora nela se baseasse. “A Carta Constitucional representou um compromisso entre a doutrina da soberania nacional, adoptada sem restrições pela Constituição de 1822, e o desejo de preservar os direitos régios, o que descontentou os vintistas, que eram mais radicais, e os absolutistas, bastante mais conservadores. Acabou, todavia, por ser jurada por todos, incluindo D. Miguel. Vigência A Carta vigorou durante três períodos: - o primeiro entre Julho de 1826 e Maio de 1828, data em que D. Miguel convocou os três Estados do Reino, que o aclamaram rei e decretaram nula a Carta Constitucional; - o segundo iniciou-se em Agosto de 1834, com a vitória do Partido Liberal na Guerra Civil e a saída do País de D. Miguel, e termina com a revolução de Setembro de 1836, que proclama de novo a Constituição de 1822 até se elaborar nova Constituição, o que sucedeu em 1838; - o terceiro período começa com o golpe de Estado de Costa Cabral, em Janeiro de 1842, e só termina em 1910, com a República. Durante este último período sofreu três revisões profundas, em 1852, 1885 e 1896. Influências Não se sabe ao certo quem foi o seu autor, presumindo-se que tenha sido José Joaquim Carneiro de Campos. Quem quer que fosse utilizou como fontes a Constituição do Império do Brasil, a Constituição de 1822 e a Carta Constitucional outorgada por Luís XVIII de França em 1814. Tiveram ainda influência doutrinal as ideias de Benjamin Constant. Características As suas características mais importantes são as seguintes: 1) A carta é uma concessão régia, que não só não afirma, ao contrário da Constituição de 1822, o princípio da soberania popular, como concede ao rei um importante papel na ordenação constitucional; 2) estipula o princípio da separação de poderes que, além dos clássicos três, legislativo, executivo e judicial, passa a ter mais um, o moderador. O poder legislativo pertence às Cortes com a sanção do rei e é exercido por duas câmaras: a dos Deputados, electiva e temporária e a dos Pares, com membros vitalícios, nomeados pelo rei e sem número fixo, sendo os lugares hereditários. O poder moderador, o mais importante, pertence exclusivamente ao rei, que vela pela harmonia dos outros três poderes e não está sujeito a responsabilidade alguma. O poder executivo também pertence ao rei, que o exercita através dos seus ministros. O poder judicial é independente e assenta no sistema de juízes e jurados; 3) a Carta enumera ainda os direitos dos cidadãos, de que os mais importantes são o direito de liberdade de expressão, oral e escrita, o direito de segurança pelo qual ninguém pode ser preso sem culpa formada, e o direito de propriedade. Mas não indica quaisquer deveres, o que é bastante significativo. Embora liberal, ficou longe do espírito democrático da Constituição de 1822”. Como Imperador do Brasil, D. Pedro IV não devia nem podia ser ao mesmo tempo rei de Portugal. Por isso, abdicou em 1826, em sua filha, D. Maria da Glória, o direito ao trono de Portugal. Porém, nesta abdicação só se tornaria efectiva quando D. Maria da Glória, que contava apenas 7 anos, atingisse a maioridade: - Que ela deveria casar com seu tio D. Miguel; - Que devia este jurar a Carta Constitucional; - Que, entretanto, ficaria como regente seu irmão, o mesmo D. Miguel. D. Miguel encontrava-se em Viena de Áustria. Regressando a Portugal, jurou a Carta e assumiu a regência do Reino, em Fevereiro de 1822. Vigésimo oitavo rei de Portugal e 1º Imperador do Brasil. Nasceu em Lisboa em 1798. Filho de D. João Vl e de D. Carlota Joaquina. Em 1807, ainda criança, acompanhou a Família Real na sua fuga para o Brasil. Casou em 1816 com D. Maria Leopoldina, arquiduquesa de Áustria. Quando em 1812, D. João Vl regressou a Portugal, ficou D. Pedro regente do Brasil, já então levado a Reino. Logo começou neste país a agitação revolucionária, no sentido da sua independência. As medidas reaccionárias e violentas das "Cortes" de Lisboa, ainda mais excitaram os espíritos e a exaltação chegou ao cúmulo quando as "Cortes" chamaram a Portugal o príncipe regente, determinando que o Governo do Rio de Janeiro passasse para uma junta governativa. Cedendo aos desejos da nação brasileira, D. Pedro desobedeceu às "Cortes" portuguesa (*1). Começaram então as contra – revoluções: na Bahia travaram-se conflitos entre as tropas que obedeciam ao Governo da metrópole, e as que já reconheciam a autoridade do príncipe regente. Este foi aclamado "DEFENSOR PERPÉTUO DO BRASIL", e daí a poucas semanas, a 7 de Setembro de 1822, proclamou nas margens do Ipiranga (*2) a independência do ESTADO DO BRASIL, sendo coroado em 1 de Dezembro do ano seguinte, Imperador do Brasil. Seguiu-se uma curta campanha militar (*3) que terminou com a retirada das tropas portuguesas para a metrópole. Em Abril de 1823, reuniu-se a Assembleia Constituinte, em que o Imperador, em Outubro seguinte, encarregou uma comissão de 10 membros para redigir uma constituição que foi aclamada e jurada em Março de 1824. As tropas fieis ao Imperador, saíram vitoriosas da revolução do Pernambuco (*4); seguindo-se depois uma guerra com a Argentina, que terminou em 1827. Entretanto, falecera em Lisboa D. João Vl, e, D. Pedro depois de outorgar ao Reino uma Carta Constitucional, idêntica à do Brasil, abdicou da coroa de Portugal em favor de sua filha, D. Maria da Glória, princesa do Grão Pará. As lutas entre partidos políticos portugueses tornaram-se violentas e, em 1831, desgostoso de os não poder conciliar, o Imperador abdicou da coroa do Brasil em seu filho, o príncipe D. Pedro de Alcântara, que então contava cinco anos e poucos meses. Passou o Governo brasileiro para uma regência provisória e o Imperador embarcou para Portugal. Ao chegar a Portugal, tomou o título de Duque de Bragança e tratou logo de reconquistar o trono português para sua filha, de que o infante D. Miguel (seu irmão) se tinha apoderado. Organizou, em Belle Isle (Paris – França), uma expedição de emigrantes portugueses e oficiais estrangeiros, desembarcando em 8 de Julho de 1832, no Mindelo. Tempos depois entrou na cidade do Porto e ali sustentou um cerco de mais de um ano, repelindo vitoriosamente todos os ataques das tropas miguelistas. Entretanto, o Duque da Terceira tomou Lisboa, e, quando D. Pedro chegou à capital de Portugal, foi delirantemente aclamado pelo povo. A convenção de Évora Monte confirmou a causa liberal, mas, D. Pedro poucos meses sobreviveu ao seu triunfo, vindo a falecer em 1834, com grande consternação de todos os portugueses. (*1) F I C O !!!: Foi a resposta dada pelo príncipe regente, D. Pedro, em 9 de Janeiro de 1822, a José Clemente Pereira, presidente do Senado da Câmara do Rio de Janeiro, quando este lhe entregou uma petição popular de oito mil assinaturas, pedindo ao príncipe que não partisse para Portugal, como lhe havia ordenado as "Cortes" portuguesas. A sua resposta textual, foi esta: "... como é para bem de todos e felicidade geral para a nação, diga ao povo que F I C O !!!". A História reteve esta última parte da frase, que talvez se possa considerar como a primeira palavra da Declaração da Independência do Brasil. (*2) IPIRANGA: Rio do Estado de São Paulo, afluente do Juguiá. Foi nas suas margens que em 7 de Setembro de 1822, quando regressava de São Paulo ao Rio de Janeiro, o príncipe regente, D. Pedro, ao receber o despacho de Lisboa, noticiando a decisão tomada pelas "Cortes" portuguesa, soltou um brado que ficou célebre: "Independência ou Morte !". Ficou conhecida pelo grito do Ipiranga. (*3) GUERRA DA INDEPENDÊNCIA: Nome dado ao conjunto de operações militares que se seguiram à aclamação e coroação do príncipe D. Pedro, como primeiro Imperador do Brasil, e, que deram como resultado a evacuação das tropas portuguesas, entre 1822 e 1823. cerco da cidade da Bahia, defendida pelo brigadeiro português, Madeira de Melo, os combates em volta dessa praça e finalmente a retirada do exército português, a bordo de uma esquadra, foram os episódios principais dessa luta. Recordamos as palavras de Madeira de Melo ao embarcar para o regresso:"... Portugal tem uma cabeça demasiadamente grande para um corpo tão pequeno !". Queria ele dizer que Portugal, país tão pequeno e com tão pouca gente, como podia ter e aguentar o enorme Império Colonial que chegou a ter. (*4) EQUADOR: Em 1834, rebentou em Pernambuco um movimento revolucionário, proclamando a união de todas as províncias do norte do Brasil, sob o nome "Confederação do Equador". Esse movimento, que se alastrava às províncias do Rio Grande do Norte, Ceará e Paraíba, foi rapidamente anulado pelas tropas governamentais. Doze dos rebeldes, entre os quais João Guilherme Ratcliff e frei Joaquim do Amor Divino Caneca, foram executados; Pais de Almeida, o cabecilha principal da revolta, conseguiu fugir na altura, para mais tarde ser senador do Império. D. Pedro IV Segundo filho varão de D. João VI e de D. Carlota Joaquina, a morte de seu irmão primogénito, D. António, encaminhou-o para a herança da coroa de Portugal. A sua infância decorreria em ambiente carregado, entre o instável ambiente familiar e os acontecimentos sociais e políticos, desde os ecos da Revolução Francesa, às ameaças napoleónicas, culminando pela fuga da corte para o Brasil perante as invasões francesas (1807). Contava então 9 anos de idade e a sua educação decorreu à rédea solta, sem estudos sistemáticos. Sofria de epilepsia, elemento de grande importância a considerar na compreensão da sua personalidade. Educado sem «luzes excessivas», os anos depressa lhe atribuem funções cada vez mais elevadas. No Brasil casou com a arquiduquesa Leopoldina de Áustria, de quem teve dois filhos: D. Maria da Glória (1819) e D. Pedro (1825). A partir da revolução liberal portuguesa de 1820, os acontecimentos, quer no Brasil quer em Portugal, atropelam-se em ritmo acelerante para o feitio de D. João VI; por intimativas de Lisboa, nomeia regente do Brasil seu filho D. Pedro (devido à agitação popular no Rio, Pará e na Baía, de inspiração liberal) e volta a Portugal. Aqui, as Cortes Gerais, preocupadas com os acontecimentos brasileiros e a ascendência a reino da antiga colónia, pensam mandar o infante D. Pedro em viagem pela Europa. Mas antes que o regente do Brasil tomasse conhecimento, escreve ele a seu pai acerca das ideias de independência que alastravam no Brasil, e das quais D. Pedro viria a ser uma pedra fundamental: com efeito, a independência cobrir-se-ia com D. Pedro que, a dada altura, se teria convencido que em vez de movido, era o motor dos acontecimentos. Em 7 de Setembro de 1822, o regente proclamava formalmente a independência brasileira, junto ao lpiranga (estado de São Paulo), sendo, mais tarde, proclamado imperador do Brasil. Quando em 1826, D. João VI morre imprevistamente, e se abre o problema da sucessão, o imperador brasileiro passa a ser uma das personagens fundamentais do drama nacional, que principiou a desenrolar-se e que termina em 1834 com a vitória dos liberais. D. Pedro foi proclamado rei de Portugal, conforme as determinações paternais. No decurso do seu breve e longínquo reinado, confirma D. Isabel Maria na regência, e outorga aos seus súbditos uma Carta Constitucional e abdica, condicionalmente, em sua filha D. Maria da Glória, com a condição do casamento desta com seu tio D. Miguel, ausente em Viena de Áustria, e que devia jurar a Carta. Após a doação da Carta os acontecimentos precipitaram-se: em Portugal, D. Miguel começa a governar como rei absoluto (1827), os liberais expatriados, presos ou a espernearem nas forcas; no Brasil, o choque, cada vez mais patente entre os sopros dos ventos liberais, e o autoritarismo do imperador, arrasta-o à gradual perda de prestígio e à dramática abdicação em seu filho D. Pedro II (7-4-1831). Tendo abdicado duas coroas, o ex-imperador do Brasil e ex-rei de Portugal, reduzido ao título de duque de Bragança, abandona o Brasil e dirige-se para a Europa com a filha D. Maria II, rainha de nome, por cujo trono se batiam os liberais portugueses espalhados pela Europa, ou reunidos na ilha Terceira. O duque de Bragança decide empenhar-se pessoalmente na solução do pleito e a 3 de Março de 1832 assume a regência e nomeia um ministério do qual faz parte Mouzinho da Silveira. Data de então a fase decisiva da luta entre liberais e absolutistas, caracterizada, fundamentalmente, pela revolucionária legislação de Mouzinho e pelo entusiasmo e abnegação de D. Pedro, na preparação da expedição militar que, dos Açores, chegará às costas portuguesas (no Norte, próximo de Mindelo), para sentar no trono a jovem soberana e impor a Carta. E nos longos meses do cerco do Porto que o regente, não obstante os defeitos de carácter e de educação, dá a plena medida da pertinácia e dedicação pela causa que encabeçava. A convenção de Évora Monte põe fim a esta cruel guerra civil, e exila o rei absoluto. Pouco mais viveria D. Pedro: só o tempo suficiente para ver as Cortes reunidas de acordo com a carta, tendo falecido 4 dias após o começo do reinado de D. Maria II; apenas com 36 anos. Apaixonado, incoerente e corajoso, o nome e a actuação de D. Pedro são indissociáveis da experiência liberal portuguesa, que assinala o início do Portugal contemporâneo: mal ou bem, melhor ou pior, o possível Portugal contemporâneo e europeu principiou aí. Ficha genealógica: D. Pedro IV nasceu no Palácio de Queluz a 12 de Outubro de 1798, recebendo o nome de Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Serafim de Bragança e Bourbon, tendo falecido no mesmo palácio, a 24 de Setembro de 1834, foi sepultado no Panteão de S. Vicente de Fora, sendo transladado para o Brasil em 1972. Foi o 1.º imperador do Brasil, de 1822 a 1831, abdicando do trono para vir à Europa defender os direitos de sua filha D. Maria da Glória ao trono português. Guardou então para si o título de duque de Bragança. Casou em 1817 com D. Maria Leopoldina Josefa Carolina, que nasceu a 22 de Janeiro de 1797, e faleceu no Rio de Janeiro, a 11 de Dezembro de 1826, filha de Francisco I e de D. Maria Teresa, últimos imperadores do Sacro Império Romano Germânico , e primeiros da Áustria. Do casamento nasceram: 1. D. Maria da Glória, que sucedeu no trono; 2. D. Miguel. Nasceu e faleceu no Rio de Janeiro, a 24 de Abril de 1820; 3. D. João Carlos. Nasceu no Rio de Janeiro a 6 de Março de 1821, e faleceu na mesma cidade a 4 de Fevereiro de 1822; 4. D. Januária Maria. Nasceu no Rio de Janeiro, a 11 de Março de 1822, e faleceu em Nice, França, em 13 de Março de 1901. Casou em 1844 com Luís Carlos Maria José de Bourbon, nascido em Nápoles, a 19 de Julho de 1824, e morreu em Paris, a 5 de Março de 1897, filho de Francisco I, rei das Duas Sicílias; 5. D. Paula Mariana. Nasceu no Rio de Janeiro, a 17 de Fevereiro de 1823, e faleceu na mesma cidade, em 16 de Janeiro de 1833; 6. D. Francisca Carolina. Nasceu a 2 de Agosto de 1824, no Rio de Janeiro, e morreu em Paris, a 27 de Março de 1898. Casou em 1843 com Francisco Armando Filipe Luís Maria de Orléans (1818-1900), filho de Luís Filipe e de D. Maria Amélia, reis dos Franceses, e príncipe de Joinville e duque de Pentièvre; 7. D. Pedro. Nasceu no paço de São Cristóvão do Rio de Janeiro, a 2 de Dezembro de 1825, tendo recebido o nome de Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bebiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Rafael Gonzaga, tendo falecido em Paris a 5 de Dezembro de 1891. Foi sepultado no Panteão de S. Vicente de Fora, tendo sido transladado para o Brasil, estando sepultado na catedral de Petrópolis. Ascendeu ao trono do Brasil, por abdicação de seu pai, em 7 de Abril de 1831. Casou em 1843 com D. Teresa Cristina de Bourbon, nascida em Nápoles no dia 14 de Março de 1822, tendo falecido no Porto em 28 de Dezembro de 1889, filha de Francisco I, rei das Duas Sicílias, e de D. Maria Isabel de Bourbon, com geração. D. Pedro IV casou em segundas núpcias, em 1829, com D. Amélia de Beauharnais, nascida em Milão em 31 de Julho de 1812, e falecida em Lisboa, no Palácio das Janelas Verdes, em 26 de Janeiro de 1873, filha de Eugénio de Beauharnais, então vice-rei de Itália, filho do primeiro casamento de Josefina, Imperatriz dos Franceses, e da princesa Augusta Amélia, filha de Maximiano José I, rei da Baviera. Do casamento nasceram: 8. D. Maria Amélia. nasceu em paris, a 1 de Dezembro de 1831, e morreu no Funchal, a 4 de Fevereiro de 1853, sendo sepultada na quinta do Lambert e mais tarde transladada para o Panteão de S. Vicente de Fora. Morreu solteira; 9. Vários filhos de outras ligações. Fontes: Joel Serrão - Pequeno Dicionário de História de Portugal - Lisboa, Iniciativas Editoriais, 1976 Joaquim Veríssimo Serrão - História de Portugal, Volume VII: A Instauração do Liberalismo (1807-1832), e História de Portugal, Volume VIII: Do Mindelo à Regeneração (1832-1851) Lisboa, Verbo, 1984 e 1986 Nobreza de Portugal, vol. I - Lisboa, Editorial Enciclopédica. D. Pedro IV de Portugal e 1ª do Brasil Dom Pedro I - Imperador do Brasil e Rei de Portugal - nasceu em Lisboa no dia 12 de Outubro de 1798. Herdeiro da coroa portuguesa em 1801, era filho de D. João VI e de D. Carlota Joaquina. Veio para o Brasil quando contava apenas com 9 anos de idade. Isso ocorreu em 1808, quando houve a invasão de Portugal pelos franceses, e a família real veio para o Rio de Janeiro. Em março de 1816, com a elevação de seu pai a rei de Portugal, recebeu o título de príncipe real e herdeiro do trono em virtude da morte do irmão mais velho, Antônio. No mesmo ano casou-se com Carolina Josefa Leopoldina, arquiduquesa da Áustria. A família real retornou à Europa em 26 de abril de 1821, ficando D. Pedro como Príncipe Regente do Brasil. A corte de Lisboa despachou então um decreto exigindo que o Príncipe retornasse a Portugal. Essa decisão provocou um grande desagrado popular e D. Pedro resolveu permanecer no Brasil. Isso desagradou às Cortes Portuguesas, que em vingança suspenderam o pagamento de seus rendimentos. Mesmo assim resistiu, naquele que ficou conhecido como o "Dia do Fico" (09/01/1822). Com a popularidade cada vez mais em alta, quando ia de Santos para a capital paulista, recebeu uma correspondência de Portugal, comunicando que fora rebaixado da condição de regente a mero delegado das cortes de Lisboa. Revoltado, ali mesmo,em 7 de setembro de 1822, junto ao riacho do Ipiranga, o herdeiro de D. João VI resolveu romper definitivamente contra a autoridade paterna e declarou a independência do Império do Brasil, rompendo os últimos vínculos entre Brasil e Portugal. De volta ao Rio de Janeiro, foi proclamado, sagrado e coroado imperador e defensor perpétuo do Brasil. Impulsivo e contraditório, logo abandonou as próprias idéias liberais, dissolveu a Assembléia Constituinte, demitiu José Bonifácio e criou o Conselho de Estado que elaborou a constituição (1824). Em meio a dificuldades financeiras e várias e desgastantes rebeliões localizadas, instalou a Câmara e o Senado vitalício (1826). Porém, um fato provocou desconforto geral e o seu declínio político no Brasil. Com a morte de D. João VI, decidiu contrariar as restrições da constituição brasileira, que ele próprio aprovara, e assumir como herdeiro do trono português, o poder em Lisboa como Pedro IV, 27º rei de Portugal. Foi a Portugal e, constitucionalmente não podendo ficar com as duas coroas, instalou no trono a filha primogênita, Maria da Glória - então com sete anos - como Maria II, e nomeou regente seu irmão, Dom Miguel. Contudo, sua indecisão entre o Brasil e Portugal contribuiu para minar a popularidade e, somando-se a isto o fracasso militar na Guerra da Cisplatina (1825-1827), os constantes atritos com a assembléia, o seu relacionamento extraconjugal (1822-1829) com Domitila de Castro Canto e Melo - a quem fez viscondessa e depois marquesa de Santos (*) - o constante declínio de seu prestígio e a crise provocada pela dissolução do gabinete, após quase nove anos como Imperador do Brasil, abdicou do trono em favor de seu filho Pedro (1830) então com cinco anos de idade. (*) Duquesa de Santos- O caso de amor com D. Pedro I Em 1822, Domitília conheceu Dom Pedro de Alcântara (1798–1834) dias antes da proclamação da Independência do Brasil, em 29 de agosto de 1822. O Príncipe-Regente estaria voltando de uma visita à Santos , quando recebeu, às margens do rio Ipiranga, em São Paulo, duas correspondências (duas missivas da imperatriz Leolpoldina e uma de José Bonifácio) que o informava sobre as decisões da corte portuguesa, em que Pedro deixava de ser Regente para apenas receber e acatar as ordens vindas de Lisboa. Indignado por essa "ingerência sobre seus atos como governante", e influenciado por auxiliares que defendiam a ruptura com as Cortes, especialmente por José Bonifácio de Andrada e Silva, decidiu pela separação do reino de Portugal e Algarves. Pedro era conhecido como «mulherengo». Em 9 de maio de 1826 seriam legitimados passaportes para a Europa de uma francesa, Adèle Bonpland, em companhia de uma filha e de um criado índio: fora amante do Príncipe. Outra francesa foi Mme (Clemence) Saisset, cujo marido tinha loja na Rua do Ouvidor. A Baronesa de Sorocaba, irmã de Domitila, pertenceria à lista. Em 1823 o imperador a instalou na Rua Brão de Úba, hoje bairro do Estácio, que foi a primeira residência de Domitila no Rio de Janeiro. Posteriormente em 1826 recebeu de presente a "Casa Amarela", como ficou conhecida sua mansão, no número 293 da atual avenida D. Pedro II, perto da Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão - local hoje desconsolado e feio. Comprou a casa do Dr. Teodoro Ferreira de Aguiar e mandou contratar uma reforma em estilo neoclássico com o arquiteto Pedro José Pézerat. As pinturas murais internas são obra de Francisco Pedro do Amaral, os baixos-relevos internos e externos por Marc Ferrez e Zephérine Ferrez. Mais tarde a casa foi comprada pelo barão de Mauá, e por volta de 1900 pelo médico Abel Parente, protagonista de um dos maiores escândalos do Rio, em 1910. Passou a ser museu do Primeiro Reinado no final dos anos 1980. Domitila mudou-se em 1826 e ali viveu até 1829. Domitila foi em 12 de outubro de 1825 feita Viscondessa de Santos, em 12 de outubro de 1826 elevada a primeira Marquesa de Santos. Seus pais foram agraciados com benesses imperiais, seu irmão Francisco feito ajudante de campo do Imperador. Constava que seus ciúmes tinham encurtado a vida da Imperatriz Leopoldina, que sua ambição era ver o Imperador legitimar seus filhos, tornando-os príncipes de sangue e assim em pé de igualdade com os filhos legitimos. Dom Pedro e Domitília romperam em 1829, quando segundo o comentário da época (pois nada se comprovou) ela tentou balear a sua própria irmã Maria Benedita (baronesa de Sorocaba), ao descobrir seu relacionamento com o Imperador - que teve como fruto: Rodrigo Delfim. Porém, o maior motivo para a separação foi devido as segundas núpcias de D.Pedro com Amélia de Lechtenberg. Ele procurava desde 1827 uma noiva nobre de sangue e seu relacionamento com Domitila e os sofrimentos causados a Leopoldina por este, eram vistos com horror pelas cortes européias e várias princesas recusaram-se a casar-se com Pedro. Uma das cláusulas do contrato nupcial de Amélia e Pedro dizia que ele deveria afastar-se para sempre de Domitila e baní-la do império. Voltando a Portugal, com o título de duque de Bragança, assumiu a liderança da luta para restituir à filha Maria da Glória o trono português, que havia sido usurpado pelo irmão, Dom Miguel, travando uma guerra civil que durou mais de dois anos. Inicialmente criou uma força expedicionária nos Açores (1832), invadiu Portugal, derrotou o irmão usurpador e restaurou o absolutismo. No entanto, voltara tuberculoso da campanha e morreu no palácio de Queluz, na mesma sala onde nascera, com apenas 36 anos de idade, em 24 de setembro de 1834. Foi sepultado no panteão de São Vicente de Fora como simples general, e não como rei. No sesquicentenário da Independência do Brasil (1972), seus restos mortais foram trazidos para a cripta do monumento do Ipiranga, em São Paulo.

D.Miguel - O Rei Absoluto - 29º rei de Portugal 1802-1866

Senhor do poder, uma das primeiras medidas de D. Miguel foi dissolver o Parlamento, em Março de 1828.Em 3 de Maio, convocou as Cortes, segundo os velhos costumes. Estas, apoiadas por um grande partido, restauraram então o regime tradicionalista, isto é, proclamaram D. Miguel rei absoluto. A resolução tomada pelos Cortes desagradou aos liberais (constitucionais). Começou por isso, uma guerra civil. Em várias terras do País, levantaram-se motins contra D. Miguel, logo prontamente sufocados. No Porto, revoltou-se a guarnição militar, que foi dominada também pelas forças miguelistas (absolutistas ou realistas do general Povoas). As tropas liberais e grande parte dos seus partidários fugiram para Espanha, de onde passaram para a França e Inglaterra. Com a vitória dos realistas ficou D. Miguel a dominar em todo o território português, com excepção da Ilha Terceira (Açores), que se conservava fiel à rainha D. Maria da Glória. Reuniram-se nesta ilha muitos liberais fugitivos que se encontravam na França e na Inglaterra, entre eles figurava o Conde de Vila Flor, que assumiu o comando das tropas e o governo da ilha, em 1829. D. Miguel, com o fim de submeter os revoltosos, mandou ali uma esquadra que foi derrotada no combate de Vila da Praia. D. Pedro, ainda no Brasil, informado dos acontecimentos que se desenrolavam em Portugal, tratou sem demora de abdicar a Coroa do Brasil em seu filho D. Pedro de Alcântara, em 1831. Em seguida e a fim de retomar o trono para sua filha, D. Maria da Glória, partiu para França e Inglaterra, onde, com portugueses e estrangeiros, conseguiu organizar um exército com que foi juntar-se aos seus partidários da Ilha Terceira, em 1833. Em Junho do mesmo ano, partiu D. Pedro da ilha de São Miguel (Açores) para a metrópole, à frente de uma expedição de 7.500 homens. Desembarcou no Mindelo – próximo de Leixões – e a 8 de Julho e entrou no dia seguinte no Porto, que as tropas de D. Miguel vieram sitiar depois, tendo a cidade sofrido, durante mais de um ano, um cerco terrível. Os sitiantes do Porto, apesar da resistência dos liberais, não desistiam de tomar aquela cidade, e continuavam os seus ataques. Tornava-se urgente, pois, acudir àqueles resistentes que já lutavam com falta de alimentos. Então, o Duque da Terceira (antes Conde de Vila Flor), conseguindo sair do Porto, por mar, em 1833, com uma expedição de 1.500 homens, dirigiu-se às costas do Algarve, onde desembarcou. Depois de tomar várias terras do sul e de ser derrotada, perto do Cabo de São Vicente, a esquadra realista que ali se encontrava, pode facilmente caminhar até Lisboa, onde entrou no dia 24 de Julho, pondo em debandada as tropas miguelistas comandadas pelo general Teles Jordão. Notando os miguelistas o perigo que estava correndo no sul a sua causa, resolveram levantar o cerco do Porto e seguir a tentar salvar Lisboa para a sua causa. Logo após, marcharam também em sua perseguição as tropas que tinham estado sitiadas naquela cidade. Passado tempo, os dois exércitos encontraram-se: mas o Marechal Saldanha, a favor dos liberais, ganhou a batalha de Almoster, em Fevereiro de 1834. Em Maio do mesmo ano, foram os miguelistas igualmente derrotados pelo Duque da Terceira no recontro decisivo de Asseiceira. Como a sorte desta guerra foi desfavorável à causa que D. Miguel defendia, e reconhecendo-se vencido, assinou em 26 de Maio de 1834 a Convenção de Évora-Monte, pela qual era obrigado a depor armas e a retirar-se para fora de Portugal e seus domínios, no prazo de 15 dias. Foi viver para Viena de Áustria, onde morreu, sem nunca mais ter podido regressar a Portugal. Depois de firmada a paz com a convenção de Évora-Monte, D. Pedro estabeleceu a Carta Constitucional e proclamou rainha sua filha D. Maria da Glória, com o nome de D. Maria II, Até à sua maioridade, ficou D. Pedro como regente do Reino. Durante a regência de D. Pedro, e por decreto assinado pelo ministro Joaquim António de Aguiar, foram extintas as Ordens Religiosas existentes em todo o Império Português. D. Miguel Terceiro filho de D. João VI e de D. Carlota Joaquina. Regressou à Metrópole com a corte vindos do Brasil no momento em que se ensaiava no País a primeira experiência liberal à qual a rainha e os seus apoiantes reagiram vivamente por manejos anti-revolucionários. D. Miguel tomou o partido da mãe e hostilizou o pai assumindo atitudes políticas cada vez mais definidas, tendo encabeçado o Partido tradicionalista. Foi o executor dos movimentos da Vila-Francada e da Abrilada. O primeiro constituiu um espectacular triunfo político que o elevou a comandante-chefe do exército português. Após o segundo o rei demite o filho do alto posto ocupado e ordena o seu exílio. Vive quatro anos em Viena de Áustria. D. Pedro IV, após a morte de D. João VI, herdeiro do trono e já imperador do Brasil, outorga a Carta Constitucional e abdica em sua filha D. Maria da Glória que casaria, uma vez chegada à maior idade, com D. Miguel seu tio. O país era governado por uma regência da presidência da infanta D. Isabel Maria. D. Miguel aceitou tudo quanto lhe foi proposto: jurou a Carta, celebrou esponsais com a sobrinha, protestou respeito e obediência a D. Pedro e à regente – e esperou. Malogrado o projecto de deslocar D. Miguel para o Brasil D. Pedro IV nomeia-o seu lugar-tenente em Portugal. Chegado a Lisboa jura de novo a Carta, assume a regência e nomeia novo ministério. Dias depois dissolve as Câmaras. Da reunião das Cortes, para isso especialmente convocadas, resulta a aclamação de D. Miguel como rei absoluto. Após a assinatura da Convenção de Évora-Monte, que pós termo à guerra civil derimida a favor de D. Pedro e dos liberais, D. Miguel terminou o breve e contestado reinado regressando ao exílio donde não mais voltou. Ficha genealógica: D. Miguel nasceu no Palácio de Queluz, a 26 de Maio de 1802, recebendo o nome de Miguel Maria do Patrocínio João Carlos Francisco de Assis Xavier de Paula Pedro de Alcântara António Rafael Gabriel Joaquim José Gonzaga Evaristo, e faleceu em Carlsruhe, na Alemanha, a 14 de Novembro de 1866. Está sepultado no Convento dos Franciscanos de Engelberg. Casou em 1851 com a princesa Adelaide de Loewenstein-Wertheim-Rosenberg, nasceu em Kleinhenbach, a 3 de Abril de 1831; faleceu em Cowes, Inglaterra, a 16 de Dezembro de 1909, filha do príncipe Constantino José e de sua mulher Maria Luísa Henriqueta, princesa de Hohenlohe-Langenburgo. Do casamento nasceram: 1. D. Maria das Neves. Nasceu no Castelo de Heubach, a 5 de Agosto de 1852; faleceu em Viena de Áustria, a 15 de Fevereiro de 1941. Casou a 26 de Abril de 1871 com o príncipe D. Afonso Carlos de Bourbon, que nasceu em Londres, a 12 de Setembro de 1849, e faleceu em Viena, a 29 de Setembro de 1936, pretendente carlista à coroa de Espanha; 2. D. Miguel, herdeiro legitimista à coroa de Portugal, com o título de D. Miguel II. Nasceu em Kleinenbach, a 19 de Setembro de 1853; faleceu em Seebenstein, na Áustria, a 11 de Outubro de 1927). Casou em 1877 com a princesa Isabel de Thurn e Taxis (n. em 28 de Maio de 1860; f. a 7 de Fevereiro de 1881), filha do príncipe Maximiliano de Thurn e Taxis e de sua mulher, a princesa Helena, duquesa na Baviera. Casou em segundas núpcias, a 7 de Novembro de 1893, com a princesa Maria Teresa Sofia Pia Ana Melchiora (n. em Roma, a 4 de Janeiro de 1870; f. em Viena, a 16 de Janeiro de 1935), filha do príncipe Carlos de Loewenstein-Wertheim-Roserrberg e da princesa Sofia de Liechstein. Com descendência dos dois casamentos. 3. A infanta D. Maria Teresa. Nasceu em Kleinheubach, a 24 de Agosto de 1855; faleceu em Viena, a 12 de Fevereiro de 1944). Casou a 23 de Julho de 1873 com Carlos Luís de Habsburgo (n. em Schoenbrunn, a 30 de Julho de 1833; f. em Viena, a 19 de Maio de 1896), arquiduque de Áustria e príncipe real da Hungria, irmão do imperador Francisco José. Com descendência. 4. A infanta D. Maria José. Nasceu em Bronnbach, a 19 de Março de 1857; faleceu em Viena, a 11 de Março de 1943). Casou a 29 de Abril de 1874 com Carlos Teodoro, duque da Baviera (n. em Possenhofen, a 9 de Agosto de 1839; £ em Kreuth, a 30 de Novembro de 1909), filho do duque Maximiliano e da duquesa Luísa, princesa real da Baviera. Com descendência. 5. A infanta D. Aldegundes. Nasceu. em Bronnbach, a 10 de Novembro de 1858; faleceu em Gunten, na Suíça, a 15 de Abril de 1946). Casou em 15 de Outubro de 1876 com Henrique de Bourbon-Parma (n. em Parma, a 12 de Fevereiro de 1851; f. em Menthon, a 14 de Abril de 1905 ), conde de Bardi e filho de Carlos III, duque de Parma, e de sua mulher a duquesa Luísa de Bourbon-Artois. Sem descendência. 6. A infanta D. Maria Ana. Nasceu em Bronnbach, a 13 de julho de 1861; faleceu. em Nova Iorque, a 31 de Julho de 1942). Casou em 21 de Abril de 1893 com Guilherme Alexandre (n. Biebrich, a 22 de Abril de 1852; f. em Berg, a 25 de Fevereiro de 1912), filha do grão-duque Adolfo e de sua mulher Adelaide, grã-duquesa do Luxemburgo. Com descendência. 7. A infanta D. Maria Antónia. Nasceu em Bronnbach, a 28 de Novembro de 1862; faleceu em Berg, no Luxemburgo, a 14 de Maio de 1959). Casou em 15 de Outubro de 1884 com Roberto de Bourbon (n. em Florença, a 9 de Julho de 1848; f. em Pianore, a 16 de Novembro de 1907), filho de Carlos III e de Luísa, duques de Parma. Com descendência. Fontes: Joel Serrão - Pequeno Dicionário de História de Portugal, Lisboa, Iniciativas Editoriais, 1976 Joaquim Veríssimo Serrão - História de Portugal, Volume VII: A Instauração do Liberalismo (1807-1832), História de Portugal, Volume VIII: Do Mindelo à Regeneração (1832-1851) e História de Portugal, Volume IX: O Terceiro Liberalismo (1851-1890) Lisboa, Verbo, 1984, 1986. Cerco do Porto Do lado absolutista, dá-se a junção das forças do general Álvaro Xavier Coutinho e Póvoas com as do visconde de Santa Marta, dispondo depois os dois generais os seus exércitos de forma a rodear a cidade. D. Pedro mandou uma coluna atacar Valongo, a qual caiu numa emboscada inimiga junto de Ponte de Ferreira, o que a fez recuar até Rio Tinto, derrota que alarmou a cidade. Entretanto a Serra do Pilar era fortificada pelo major Sá Nogueira, e D. Pedro, que via a impossibilidade de ocupar o Norte do País, como inicialmente supusera, procedeu à reorganização do Exército, criando o Estado-Maior e despachando Pedro de Sousa Holstein, à época marquês de Palmela, para Londres, com o encargo de obter apoio financeiro à causa e contratar oficiais e soldados. No dia 27 travou-se violento combate ao sul de Grijó, onde Póvoas desbaratou as forças do conde de Vila Flor, que recuaram em debandada até ao Alto da Bandeira. Entretanto, as tropas realistas, devido à rivalidade entre os generais Póvoas e Santa Marta, passaram a ser superiormente comandadas pelo general Gaspar Teixeira, visconde de Peso da Régua, e iniciou-se o cerco à cidade, que ficou envolvida por uma série de fortes redutos, que começavam na Quinta da China, junto ao Rio Douro, em Campanhã, terminando nas proximidades da Senhora da Luz, à Foz do Douro, junto ao mar, toda esta linha situada ao norte do rio. Ao sul começavam as linhas no Cabedelo, em Canidelo, frente à Foz do Douro, e iam acabar à Pedra Salgada, fronteira ao monte do Seminário, postando nesse espaço quinze baterias. Ilha Terceira (acção do Conde de Vila Flor) Aquando da chegada do conde de Vila Flor à ilha Terceira, a Capitania Geral dos Açores encontrava-se dividida, com todas as restantes ilhas solidamente sob domínio miguelista, obedecendo ao general Henrique da Fonseca de Sousa Prego, nomeado por D. Miguel governador e capitão-general, que, na impossibilidade de desembarcar em Angra, se tinha instalado em Ponta Delgada, na ilha de São Miguel. Estava assim a Terceira completamente isolada do resto do arquipélago, com a agravante de estar sujeita a um bloqueio naval imposto por forças britânicas. Mas, pior que o isolamento da Terceira, eram as divisões intestinas que ameaçavam destruir o domínio liberal na ilha, com as forças constitucionais constantemente acossadas por uma incessante guerrilha miguelista, apoiada pelas populações rurais da ilha e muito conhecedora do território. Neste contexto muito desfavorável, a chegada do conde de Vila Flor foi essencial para a sobrevivência do domínio liberal. Em breve desapareceram as quezílias entre os exilados e as forças militares liberais ganharam outra disciplina e energia. Diante da autoridade e do prestígio do conde de Vila Flor, cessaram todas as discórdias que havia na ilha e que impediam o regular funcionamento do governo. Por outro lado, os oficiais que chegaram com Vila Flor, e ele mesmo, organizaram a resistência à expedição que D. Miguel preparava contra a ilha, fortificando-a e estabelecendo um plano de defesa das costas, vigilância e comunicações. O conde de Vila Flor cercou-se de uma boa equipa dirigente, nomeando José Xavier Mouzinho da Silveira seu secretário militar e José Baptista da Silva Lopes, que foi depois o 1.º barão de Monte Pedral, para chefe do seu estado-maior, em lugar de Sá Nogueira. Para chefiar os serviços, foram nomeados Manuel José Mendes, depois 1.º barão do Candal, e Baltazar de Almeida Pimentel, depois 1.º conde de Campanhã. Lutando com grande falta de meios financeiros, os liberais apenas conseguiram pagar às tropas graças à cunhagem de moeda na ilha, produzindo os malucos com o bronze dos sinos das igrejas, e ao apoio financeiro de algumas das mais importantes famílias locais, com destaque para Teotónio de Ornelas Bruges Paim da Câmara, depois 1.º conde da Praia, e para o negociante e capitalista George Philip Dart. Outra difícil tarefa era a ultrapassagem das dificuldades políticas resultantes da Regência tardar em consolidar-se, já que esta só viria a instalar-se a 15 de Março de 1830. Neste difícil contexto, o papel de Vila Flor ao longo do Verão de 1829 foi crucial para o sucesso da causa liberal. Quando, a 11 de Agosto de 1829, as forças miguelistas tentaram o esperado desembarque, comandadas pelo coronel José António de Azevedo e Lemos e transportadas e apoiadas por uma poderosa esquadra sob o comando de José Joaquim da Rosa Coelho, a boa preparação defensiva surtiu efeito. Na batalha da Praia da Vitória as forças do conde de Vila Flor levaram a melhor, impedindo o desembarque e causando pesadas baixas entre as forças expedicionárias. Essa foi a primeira vitória das forças liberais e, em consequência, o nome de Vila Flor adquiriu grande prestígio. Abdicação de D. Pedro IV ao trono do Brasil. Em 1831, D. Pedro I abdicou em 7 de abril a coroa do Brasil em seu filho D. Pedro II, irmão de D. Maria II, e veio para a Europa com a filha e a segunda mulher, sustentar os direitos da filha à coroa de Portugal. Tomou o título de Duque de Bragança, e de Regente em seu nome. Quase ao mesmo tempo a regência da ilha Terceira, nomeada por D. Pedro e composta do Marquês de Palmela, do Conde de Vila Flor e de José António Guerreiro, pode preparar uma expedição que em pouco tempo se apossou dos Açores. Enquanto se ampliava assim o território constitucional, D. Pedro desembarcava em França, sendo acolhido com simpatia pelo novo governo e por Luís Filipe I. O governo de D. Miguel desacatara as imunidades dos súbditos franceses, não satisfizera de pronto as reclamações do governo francês, que mandara uma esquadra comandava pelo almirante Roussin forçar a barra de Lisboa e impor humilhantes condições de paz. D. Pedro deixou a filha em Paris acabar a sua educação, entregue à madrasta, com bons mestres, e partiu para os Açores à frente duma expedição organizada na ilha de Belle-Isle, reunindo seus partidários. Chegando aos Açores a 3 de março de 1832, formou novo ministério, juntou pequeno exército, cujo comando entregou ao Conde de Vila Flor, meteu-o a bordo duma esquadra que entregou ao oficial inglês Sartorius, e partiu para Portugal, desembarcando a 8 de julho no Mindelo. Seguiu-se o cerco do Porto e uma série de combates, até que a 24 de julho de 1833 o Duque da Terceira entrou vitorioso em Lisboa, depois de ter ganho, na véspera, a batalha da Cova da Piedade. Porto e Lisboa, as principais cidades, estavam no poder dos liberais. D. Pedro veio para Lisboa, e mandou vir sua filha de Paris. Desembarque no Mindelo PELA linha extensa da costa, o país precisava de uma esquadra para se defender e pôde equipar quinze naus de guerra quando D. Pedro lutava com embaraços quase invencíveis para dispor de alguns barcos necessários à sua empresa. Mas sucedeu que o governo miguelista, tendo ofendido o governo francês, se recusou, teimosamente a explicações, que, apesar de exorbitantes e ultrajantes, facilmente iludiria com promessas nunca efectuadas. Deu assim a um inimigo poderoso, pretexto para se apoderar da esquadra portuguesa. À injusta conduta do governo francês responderam ministros de D. Miguel, políticos de curta vista, recusando anuir ás reclamações da França, na esperança de excitarem a Inglaterra contra a velha inimiga hereditária. Mas a Inglaterra sabia que não havia em França segundas vistas sobre Portugal, e o gabinete britânico tacitamente auxiliou a causa de D. Maria II permitindo a violência. Ficaram algumas velhas naus ao abandono – e o governo cruzou os braços ... Que se podiam concertar provou-se claramente, quando já não tinham de todo serventia. Se os ministros de D. Miguel preparam outra esquadra com os sete navios que apodreciam no Tejo, D. Pedro não conseguiria facilmente aproximar-se da costa com meia dúzia de barcos. E dado o caso de não impedirem o desembarque do exercito libertador nas praias do Mindelo, dispersariam facilmente os transportes carregados de mantimentos e de munições de guerra, não lhes consentindo descarregar na costa e muito menos o livre acesso à dificultosa barra do Douro. Os miguelistas, explicou-se, deixaram desembarcar o exército, tencionando destruí-lo depois. Bom método na verdade, desde que se pudesse despender muito talento, muito dinheiro e muito sangue, o que era problemático e incerto com um exército de sentimentos duvidosos. A 7 de Julho de 1832 ao cair do dia, os soldados estacionados nos telégrafos perto de Vilar do Paraíso descobriram a esquadra de D. Pedro fazendo-se de vela para o norte do Porto. Pelas nove da noite os tambores rufando nas ruas tortuosas da cidade anunciavam aos de dentro e de fora que tudo estava alerta e a postos. D. Pedro continuou na derrota até Vila do Conde e Viana, e na manhã seguinte, aproximando-se da costa, mandou Sá Nogueira à terra citar o comandante a que abaixasse as armas e se unisse à causa da rainha. Mas o brigadeiro general Cardoso, no extremo direito da linha realista, oficial respeitado pelo carácter integro, e em quem o governo miguelista descansava, nunca desde 1820 mudara de opinião. Respondeu insolentemente ao Sá Nogueira, dizendo-lhe que não conhecia D. Pedro senão como chefe de um bando de aventureiros, e que, se insistisse em semelhantes recados, fuzilava o portador. A esquadra retrogradou e ancorou no dia 8 na praia do Mindelo, a distancia de duas léguas do Porto, e pouco depois do meio dia começou o desembarque com a maior regularidade, na presença das tropas de Santa Marta, que mostrava pouca ou nenhuma vontade de molestar os novos hospedes. No instante em que a não de D. Pedro içou a bandeira real no mastro grande, a fragata Stag de Sua Majestade Britânica virou de bordo e deu uma salva de vinte e um tiros, a que D. Pedro correspondeu. Muitas pessoas que vigiavam da Senhora da Luz o sucesso do dia, recolheram à cidade, começando a trabalhar pela sua causa; outras, porém, apreensivas, cogitaram em planos de nova vida ... A tropa formou na praia, tomando logo a melhor posição que o terreno oferecia. Trocaram-se alguns tiros – poucos. Já ninguém ignorava que o exército libertador contava menos de nove mil homens. E não acabava o susto e o pasmo dos liberais ao saberem que com tão pequena força vinha D. Pedro salvar a pátria da tirania e a eles e ás famílias da opressão. Lembravam-se das desgraças, da incompetência e da retirada de 1828, e olhavam uns para os outros em silêncio, e tristes como a noite. Por seu lado os absolutistas, extremamente assustados, apressavam-se a sair da cidade, fugindo de D. Pedro e da mortandade que julgavam certa, mas, fiados nos numerosos partidários e no exercito de D. Miguel, protestavam em altas vozes voltar brevemente em triunfo. Nem outra coisa era de esperar. Menos de nove mil homens para abrir caminho até Lisboa, com mais de oitenta mil na frente – e tropa regularmente fardada e armada! Não obstante a desigualdade do número, sabida por toda a gente, a confusão dos absolutistas chegara ao auge: - Viram o estandarte real de D. Pedro? -perguntavam, chegando-se aos grupos embiucados no jozésinho. - Lá está tremulando no mastro grande... - E nesse único facto muitos leram a solução do conflito. - Nunca o exercito se baterá contra ele. - E apressavam a partida. - Ele é Pedro e basta! ... - E davam ordens para a carruagem, cavalos, machos e barcos. - Os malhados, e os pedreiros livres vêem com ele, e hão-de querer vingar-se dós zelosos serviços dos nossos imprudentes realistas. - E deixavam as casas, abandonando tudo. Os vizinhos liberais eram agora os seus melhores amigos: Vossa mercê sabe muito bem senhor Fulano, que eu nunca persegui ninguém; vivi sempre retirado. Não quero senão paz e sossego, e que possamos viver como bons irmãos. Que me importa a mim quem governa o país? -Estes e semelhantes ditos só excitavam compaixão, desprezo e riso. Como tinham mudado tão depressa da arrogância para a humildade; das paixões sanguinárias, da perseguição e da vingança, para sentimentos benignos de amor fraterno! A classe média dos liberais, duvidosa da fortuna, parecia estupefacta: os que tinham a perder, tremiam ao lembrar-se da ameaça, tão repetida pelos miguelistas, de que a cidade seria saqueada se os obrigassem a retirar. Esconderam-se cuidadosamente em casa. Alguns mais atrevidos mal deitavam o nariz fora das janelas; outros, os indignos, que lisonjeiam todos os partidos sem se declarar por nenhum, corriam de porta em porta espalhando boatos favoráveis, e tentando por excessivas demonstrações de alegria e por extravagantes expressões de parabéns, abrir caminho à protecção futura: - Santa Marta – diziam – está em retirada através do Douro ... - Num instante mãos desconhecidas estilhaçaram as forcas da Praça Nova. Medida prudente, porque num momento de excitação, na entrada do exercito, não seria improvável que fossem novamente guarnecidas de vitimas . . . Era esta pelo menos a opinião dós miguelistas, e não oferece dúvida que foram eles próprios que tomaram rapidamente a precaução de as remover... A populaça correu à cadeia para livrar todos os presos tanto criminosos como políticos. Alguns embuçados vigiavam pela calada a entrada do edifício: - Ele lá vem – bichanaram uns para os outros. - E logo as clavinas, tiradas para fora dos capotes, estenderam morto o carrasco, o despiedoso e sanguinário sabujo João Branco. Uma vez executada com tanto sangue frio essa acção de há muito concebida, os seus autores retiraram apressadamente e não consta de mais mortes. Presos de quatro anos encontraram-se enfim em liberdade. O exército, aparecendo no dia 9 com D. Pedro à frente, livrou-os da miséria e da fome, e à cidade da opressão e do terror. Mas que quadro triste o da entrada dos libertadores, para todos aqueles cujas cabeças não estavam enfumadas com o entusiasmo do momento! Sete mil e duzentas baionetas na fileira; artilharia – três peças ligeiras puxadas por homens; nem um cavalo para uso dos oficiais de estado-maior! O próprio D. Pedro montava num garrano que lhe tinham oferecido nesse mesmo dia. Fosse por não estarem habituados a marchar, fosse pelo peso das mochilas ou por qualquer outra razão, a tropa parecia esgotada de cansaço, principalmente os ilhéus, que se distinguiam pela cor queimada do rosto. O abatimento foi grande na gente capaz de reflexão, habituada a revistas de numerosos batalhões, de um exército que se sabia contar mais de oitenta mil homens. Desanimo ... Nem os presos políticos e os escondidos se apressavam, depois de tantos anos de prisão e privações, a pegar em armas em defesa da causa pela qual tanta miséria tinham sofrido. Muitos abandonaram-na de vez retirando-se. Outros requereram pedindo indemnizações, e receberam esta resposta: «pegue em armas e depois requeira»-golpe mortal nas esperanças dos que cuidavam apossar-se dos ricos benefícios e empregos dos ausentes, já chamados rebeldes. Alguns, achando-se logrados e julgando que os negócios não corriam bem, embarcaram para o estrangeiro à espera do resultado da contenda. Santa Marta retirou do Douro, estabeleceu atiradores na margem do rio, e coroou as alturas com tropa. Os liberais picavam-se de desprezar essa gente, e dando armas e munições à canalha, começou um tiroteio de parte a parte tão inútil como continuado. E assim, se passaram dois dias, de confusão e desalento. Parecia que os recém-chegados estavam possuídos do mesmo espírito tão prejudicial à causa em 1828. Foi pelo receio de se comprometerem que não forçaram a passagem do Douro nessa mesma tarde ou pelo menos na madrugada do dia seguinte? Já a gente de Vila Nova, alguns milhares de partidários, se queixava amargamente dessa inacção. No terceiro dia enfim, a divisão ligeira sob o comando de Schwalbach atravessou o rio e calou o vergonhoso tiroteio, limpando o terreno por mais de uma legou na estrada de Lisboa. Depois voltou e ocupou Vila Nova durante alguns dias. Sejamos justos notando a rigorosa disciplina e a moderação do exército liberal. Cria-se que vinham como tigres, matando todos os que resistissem, e vingando-se nos outros dos males infligidos ás famílias. Nas mesmas circunstancias nunca outro exercito se portou assim. Um batalhão. de oficiais supranumerários, imprimiu-lhe carácter e grandeza. Muitos deles, oficiais de cavalaria que tinham servido na guerra peninsular, marchavam na fileira de espingarda ao ombro. Quando foi necessário dispersa-los pelos corpos, o exército sentiu a falta de esse exemplo vivo. Perceberam-se desde logo no pequeno exército as divergências de opinião que actuaram até ao último tiro dado no Porto. Na noite da chegada desertaram sete ilhéus, levantando o espírito acabrunhado dos oficiais e soldados miguelistas. Mas houvesse o que houvesse a pólvora falara, já os dois exercites se tinham batido, cortara-se o fio, o exército miguelista comprometera-se contra D. Pedro, e a guerra civil começava para só findar pelo total aniquilamento de um dos combatentes ... Fonte: Hugh Owen, O Cerco do Porto contado por uma Testemunha - o Coronel Owen, Porto, Renascença Portuguesa («Biblioteca Histórica, I»), 1915 pp.147-160. Batalha de Asseiceira Em 18 de Fevereiro as cerca de 4000 tropas do general Póvoas marcharam sobre Ponte de Asseca enquanto Lemos com cerca de 4500 homens avança pelo norte em direcção a Almoster e Santa Maria. O terreno era extremamente difícil, pois formava um desfiladeiro estreito, entre colinas cobertas de mato denso. Mas Saldanha, compreendendo os intuitos de Lemos, havia-se preparado para lhe fazer frente. Deixando avançar os miguelistas sem lhes opor resistência, conseguiu que eles, confiantes e supondo-se já senhores da situação, entrassem no desfiladeiro que constituía uma autêntica ratoeira. Com os batalhões de caçadores nº2 e nº12, o coronel Queirós cortou a retirada dos miguelistas para a ponte de Santa Maria, ao passo que com os regimentos de infantaria nº3 e nº6, ficando o nº1 de reserva, o brigadeiro Brito lançava uma impetuosa carga à baioneta. Saldanha comandava pessoalmente Infantaria nº1 — o mesmo regimento que comandara na célebre carga do Buçaco — e esperava a ocasião de intervir. Só nessa altura os soldados de D. Miguel compreenderam a terrível situação em que se encontravam. A derrota foi total, e as perdas dos absolutistas excederam um milhar de homens. Convenção de Évora-Monte ( ou A Concessão de Évora Monte) No dia 26 de Maio de 1834, apuseram as suas assinaturas no texto da concessão os generais Lemos (pelos absolutistas) e Saldanha e Terceira (pelos liberais), a qual estipulava as condições sine qua non seria possível o término da guerra civil que opusera ambas as facções ao longo dos dois anos precedentes: a imediata e incondicional rendição de D. Miguel e de todas as suas forças, com a deposição e entrega das suas armas aos liberais; amnistia geral para todos os crimes políticos cometidos desde 1 de Agosto de 1826; licença para que os amnistiados pudessem sair livremente do Reino e dispor dos seus bens, mediante o compromisso de não mais intervirem nos negócios públicos do Reino de Portugal; a promessa, da parte dos liberais, da não perseguição dos apoiantes de D. Miguel; o pagamento anual ao infante D. Miguel de uma pensão vitalícia no valor de 60 contos de réis, podendo o princípe dispor livremente de todos os seus bens particulares; D. Miguel deveria porém abandonar a Península Ibérica ad æternum dentro do período de quinze dias subsequente à assinatura da convenção, a bordo de um navio estrangeiro, devendo ainda assinar uma declaração pela qual se comprometia a jamais regressar a território português, metropolitano ou colonial, nem a intervir nos negócios políticos do Reino ou, de qualquer outra forma, contribuir para destabilizar o País. [editar] Consequências Embora o conflito armado, verdadeira guerra fratricida, tenha acabado com a assinatura da concessão, os velhos ódios permaneceram ainda durante muitos anos (o que explica as constantes revoltas ao longo dos anos subsequentes, e certos fenómenos de banditismo, como por exemplo do salteador José do Telhado ou o Remexido); a juntar-se a isso, o esforço de reconstrução de um país destruído e depauperado pelas guerras havia mais de 30 anos (Guerra das Laranjas, Guerra Peninsular, Guerras Liberais). D. Miguel, cujo amor pelo país era apesar de tudo genuíno, e de cuja integridade pessoal nunca ninguém duvidou, entregou as jóias da Coroa para poder pagar parte da dívida de guerra, antes de embarcar no Porto de Sines no dia 1 de Junho de 1834 em direcção a Génova, no Piemonte, daí partindo para Roma, após ter sido negociada a sua instalação na sede papal, com honras de soberano ainda reconhecido pela Santa Sé. Ao chegar à cidade piemontesa, porém, lavrara um manifesto no qual tornou público o seu protesto contra as condições que lhe foram impostas, afirmando que a capitulação de Évora-Monte deveria ser considerada «nula e de nenhum efeito», perdendo assim os direitos e prerogativas de Infante de Portugal, que lhe eram reconhecidos pelos liberais. Semelhante atitude levou igualmente à suspensão da pensão projectada pelo Governo Português, passando o ex-rei a viver da boa vontade do Santo Padre, entre outros amigos e apoiantes; dois anos volvidos, a rainha sua sobrinha declarou proscritos de Portugal para sempre D. Miguel e os seus descendentes, sob pena de morte (a chamada Lei do Banimento, revogada apenas em 1950). D. Miguel viria depois a partir para a Áustria, onde casou com Adelaide de Löwenstein-Wertheim-Rosenberg e viria a falecer, em 1866. Em suma, como consequência da concessão de Évora Monte reinstaurou-se em Portugal, definitivamente, um regime liberal e constitucional, tendo sido restaurada a Carta Constitucional de 1826; D. Pedro, já condenado à morte breve pela tuberculose, apesar de pouco mais ter que trinta anos, abdicou da regência do Reino, e as Cortes da Nação Portuguesa, solenemente reunidas, declaram maior a rainha D. Maria da Glória, então com 15 anos apenas, sob o nome de D. Maria II. No entanto, no Algarve, os Realistas e outros simpatizantes de D. Miguel, espoliados e perseguidos por represália, abrigaram-se na serra, onde, liderados por José Reis, o famoso Remexido, continuaram a guerra civil, com assaltos e ataques a povoações, intercepção de correios e malapostas, por mais 4 anos, culminando com o fuzilamento do Remexido, em Faro, a 2 de Agosto de 1838. Extinção das Ordens Religiosas (decreto assinado por Joaquim António de Aguiar) (...) que promulgou a célebre lei de 30 de Maio de 1834, pela qual declarava extintos «todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios, e quaisquer outras casas das ordens religiosas regulares», sendo os seus bens secularizados e incorporados na Fazenda Nacional - lei essa que, pelo seu espírito antieclesiástico, lhe valeu a alcunha de O Mata-Frades.

D.Maria II - 30ª Rainha de Portugal 1819-1835 Reinou 19 anos

A D. Pedro, sucedeu sua filha primogénita, D. Maria II. D. Maria II Dona Maria II , nasceu no Rio de Janeiro, a 4 de Abril de 1819 e faleceu em Lisboa, 15 de Novembro de 1853. Foi baptizada com o nome de Maria da Glória Joana Carlota Leopoldina da Cruz Francisca Xavier de Paula Isidora Miguela Gabriela Rafaela Luísa Gonzaga de Bragança e Áustria. Alguns dias antes de seu pai falecer (24 de Setembro de 1834), foi julgada maior pelas Cortes, principiando a governar segundo o regime constitucional. Este reinado foi de contínuas lutas fratricidas. A Revolução de Setembro, fez restaurar a Constituição de 1822. O ministério foi derrubado, tendo-se constituído outro em que figuravam Manuel da Silva Passos e o Visconde de Sá da Bandeira, em 1837. Os Duques da Terceira e de Saldanha fazem um movimento (Revolta dos Marechais) para restaurar a Carta Constitucional, mas são mal sucedidos. As Cortes, que já se encontravam reunidas quando a revolta estalou, concluem por decretar a Constituição de 1838. Costa Cabral, promoveu no Porto uma sublevação a favor da Carta Constitucional, que foi restaurada em 1842. A Revolta da Maria da Fonte, foi um movimento popular que teve origem na Póvoa do Lanhoso (Minho), em 1846, e que se estendeu depois a todo o País. Foi motivado pelo agravamento dos impostos e por um decreto de Costa Cabral que proibia o enterramento nas igrejas, como era costume nesse tempo. Este movimento terminou por uma intervenção estrangeira (Convenção de Gramido), solicitada pela rainha D. Maria II, à Espanha, França e Inglaterra. Em virtude de uma nova revolta chefiada por Saldanha, foi demitido o ministério de Costa Cabral, em 1851. Saldanha foi depois chamado pela rainha para tomar conta do governo. No ano seguinte, foram convocadas as cortes, que alteraram a Carta Constitucional, votando-se um Acto Adicional, em que aboliu em Portugal, a pena de morte para os crimes políticos. Com este último movimento terminou a série de revoluções que houve durante o reinado de D. Maria II. Devem-se a esta rainha, bastantes reformas e melhoramentos respeitantes à instrução pública, como: - Criação de Liceus e Escolcas Primárias; - Fundação das Escolas Médicas, de Lisboa e do Porto; - Escola Politécnica de Lisboa; - Academia Politécnica do Porto; - Instituto agrícola; - Conservatório de Música. Neste reinado foi introduzido em Portugal as estampilhas (selos) postais. D. Maria II Contava apenas 7 anos, quando seu pai, D. Pedro IV, abdicou do trono de Portugal em seu favor, em Abril de 1826. Devia casar, logo que tivesse idade, com o tio, D. Miguel, nomeado regente e lugar-tenente do reino, o que foi aceite pelo Infante, em Julho de 1826, assumindo a regência, ao chegar a Lisboa, em Janeiro de 1828, após ter jurado fidelidade à rainha e à Carta Constitucional. D. Maria foi enviada para a Europa em Julho de 1828, para defender os seus direitos ao trono, tendo ficado a residir em Londres, e a partir de 1831 em França. Só em 24 de Setembro de 1834, com o fim da Guerra Civil, tendo quinze anos de idade, assumiu o governo do País. Casou em 1835 com Augusto de Leuchtenberg, filho de Eugénio de Beauharnais, e neto da Imperatriz Josefina, primeira mulher de Napoleão Bonaparte, irmão mais velho da segunda mulher de D. Pedro IV, mas que morreu logo em Março desse ano. Neste ano pôs-se à venda todos os bens de raiz nacionais, pertencentes à Igreja Patriarcal, às Casas das Rainhas e do Infantado, das corporações religiosas já extintas e das capelas reais. D. Maria casou segunda vez com Fernando de Saxe-Coburgo-Gotha, irmão do rei dos Belgas, Leopoldo I, e primo do marido da rainha Vitória da Inglaterra, o príncipe Alberto. O casamento realizou-se em 9 de Abril de 1836. Durante o seu curto reinado, passado num dos mais conturbados períodos da nossa história, o das lutas entre liberais e absolutistas, vários acontecimentos históricos se passaram: a Guerra Civil, a revolução de Setembro, a Belenzada, Revolta dos Marechais, a Maria da Fonte, a Patuleia. Sucedeu-lhe o seu filho mais velho, D. Pedro V. Ficha genealógica: D. Maria II nasceu no Rio de Janeiro, no Palácio de S. Cristóvão, a 4 de Abril de 1819, recebendo o nome de Maria da Glória Joana Carlota Leopoldina da Cruz Francisca Xavier de Paula Isidora Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga. Morreu no Palácio das Necessidades, a 15 de Novembro de 1853, em consequência de parto. Casou em primeiras núpcias com D. Augusto de Leuchtenberg, nascido em Munique a 9 de Dezembro de 1810, tendo morrido em Lisboa a 28 de Março de 1835, duque e príncipe de Leuchtenberg e de Santa Cruz, filho de Eugénio de Beauharnais, então vice-rei de Itália, e da princesa Augusta Amélia, filha de Maximiliano José I da Baviera. Não tendo havido descendência. Voltou a casar em Lisboa, a 9 de Abril de 1836, com D. Fernando Augusto, nascido em Coburgo a 29 de Outubro de 1816, e falecido em Lisboa, a 15 de Dezembro de 1885, filho de Fernando Augusto, príncipe e duque de Saxe Coburgo Gotha e de sua mulher Maria Antonieta Gabriela, princesa de Koari. D. Fernando II Duque de Saxe-Coburgo-Gotha; rei de Portugal pelo seu casamento com a rainha D. Maria II. 0 seu nome completo era Fernando Augusto Francisco António. N. em Coburgo a 29 de Outubro de 1816, fal. em Lisboa, no paço das Necessidades, a 15 de Dezembro de 1885. Era filho do príncipe Fernando Jorge Augusto o duque de Saxe-Coburgo-Gotha, e de sua mulher, a princesa de Kohary, D. Maria Antónia Gabriela, filha e herdeira de Francisco José, príncipe de Koharv, senhor de Casabrag e doutras terras da Hungria. Recebeu uma excelente educação, revelando logo o seu aprimorado talento artístico. Tendo D. Maria II enviuvado aos 16 anos, do seu primeiro marido, o príncipe Augusto de Leuchtemberg, foi D. Fernando o escolhido para novo esposo da soberana. 0 conde de Lavradio, D. Francisco de Almeida Portugal, dirigiu as negociações deste casamento, e teve o encargo de assinar o contrato matrimonial, assinatura que se realizou em 1 de Dezembro de 1835, representando o conde de Lavradio a rainha, o barão de Carlowit o duque reinante de Saxe-Coburgo, e o barão de Stockmar o príncipe Fernando, seu pai. Neste contrato estipulava-se que o casamento seria em Lisboa, segundo o rito da religião católica, que logo depois do casamento receberia o príncipe uma pensão anual de reis 50.000$0000, que se lhe conservaria por morte da rainha, no caso de ficar em Portugal, tendo então direito a um palácio para sua habitação, e 25.000$000 de reis se se retirasse para o estrangeiro; teria sempre a livre disposição dos seus bens, e os príncipes que nascessem deste casamento não poderiam sair do reino sem autorização das cortes, nem poderiam casar sem autorização da rainha ou do príncipe reinante. Nesse mesmo dia assinaram os mesmos plenipotenciários um novo convénio, pelo qual o príncipe D. Fernando renunciou a parte que lhe coubesse da herança de sua mãe em terras da Hungria, em que se estipulava que a dotação do príncipe fosse para as suas despesas pessoais, continuando as despesas da Casa Real por conta da rainha, que essa dotação se elevaria de 50 a 100.000$000 de reis, em consequência da sua renuncia à herança materna„ logo que nascesse um príncipe herdeiro da Coroa, e que então receberia o título de rei; enfim que a rainha poderia conservar secretos estes artigos adicionais, enquanto se não desse o caso do nascimento do príncipe. D. Maria II casou por procuração em 1 de Janeiro de 1836, e logo no dia seguinte assinou o decreto nomeando D. Fernando marechal general do exército, e coronel honorário do batalhão de caçadores n.º 5. A 29 de Março foram nomeados para servir ás ordens os seguintes oficiais: Ferreira Sarmento, Vaz Parreira, Carlos Maria de Caula, António, Francisco e Luís de Melo Breyner, D. Manuel de Sousa Coutinho, e o conde de Saint-Léger da Bemposta. D. Fernando saiu de Coburgo, e atravessando a Bélgica, embarcou em Ostende, vindo a bordo do vapor inglês Manchester para Lisboa, onde chegou a 8 de Abril, celebrando-se a cerimónia do casamento no dia seguinte, assistindo já D. Fernando em 10, à cerimónia do encerramento das Cortes. A sua nomeação de marechal general foi pouco simpática aos liberais, e ocasionou grandes discussões, mas o governo estava comprometido com a rainha, porque o príncipe D. Augusto já tivera essa dignidade, portanto não podia deixar de ser concedida a D. Fernando. No entretanto, o governo sempre receoso, conservou secretamente a nomeação até que o duque da Terceira, assumindo a responsabilidade, publicou o respectivo decreto em 4 de Maio. No dia seguinte organizou-se a casa militar do novo comandante em chefe, sendo nomeado seu primeiro ajudante de campo o marechal Saldanha, e simples ajudantes de campo Gil Queiroz, Calça e Pina, Silva e Bastos. Em 4 de Maio foi também D. Fernando eleito presidente da Academia Real das Ciências 0 partido radical passou a manifestar-se dum modo decididamente hostil ao ministério, a agitação aumentava por toda a parte, de forma que a viagem de D. Fernando ao Porto e ás províncias passou completamente despercebida . Deu-se então o movimento conhecido pela Belenzada (V. este nome), e sendo depois extinto o comando em chefe do exército, ficou reduzida a casa militar de D. Fernando a Saint-Léger, Calça e Pina, Ferreira Sarmento e o barão de Campanhã. 0 jovem monarca começou desde então a mostrar-se desvelado protector das belas artes. A Academia das Belas Artes de Lisboa foi fundada a 25 de Outubro de 1836, e a rainha e D. Fernando declararam-se seus protectores. Por essa ocasião prestou o monarca um bom serviço ás artes portuguesas, salvando dum inevitável vandalismo o convento da Batalha, que visitara, e conseguindo que no orçamento das obras públicas se destinassem algumas verbas para a sua reparação e manutenção. Com o nascimento do príncipe real D. Pedro, em 16 de Setembro de 1837, recebeu pela primeira vez o título de rei. Sendo eleito presidente do Conservatório Real de Lisboa, mostrou logo quanto se interessava pelo desenvolvimento das artes cénicas em Portugal. D. Fernando era um artista distintíssimo, e bem mereceu o cognome de Rei-Artista, posto por António Feliciano de Castilho, depois visconde de Castilho, num artigo que na Revista Universal publicou. Eram as artes o que mais preocupava o seu fino espírito. Desenhava admiravelmente, tinha uma bela voz de barítono, de que sabia usar com mestria. Viam-no coleccionar obras de arte, animar os artistas portugueses comprando-lhes quadros, auxiliando os estudos com o estímulo do seu aplauso e com os recursos da sua bolsa. Aparecia em todas as festas que representavam um progresso artístico. Evitava a política quanto possível; caiu a constituição de 1838, restaurou-se a Carta, e D. Fernando tratava sobretudo das suas artes tão queridas, esforçava-se por salvar do abandono e do vandalismo os grandes monumentos portugueses, Batalha, Mafra, Tomar e Jerónimos; comprava o convento da Pena, em Cintra, que tornou numa principesca residência artística. Em 1843 fez uma digressão com a rainha pelas províncias do Alentejo e Estremadura; em 1845 fizeram nova excursão demorando-se alguns dias em Tomar, em casa do ministro do reino Costa Cabral, que nessa ocasião recebeu o título de conde de Tomar. Seguiu-se a revolução no Minho, chamada da Maria da Fonte, que deu origem à queda do ministério. Restabeleceu-se o antigo comando em chefe, e D. Fernando foi chamado para exercer esse cargo. 0 monarca nomeou para chefe do Estado-maior-general o duque de Saldanha, que ao mesmo tempo era também nomeado comandante em chefe do exército de operações. Seguiram-se graves acontecimentos, sucederam-se mudanças políticas à vitória cartista, em 1851, o conde de Tomar malquistando-se com o duque de Saldanha, tratou-o violentamente, demitiu-o do seu cargo de mordomo-mor, o que deu lugar a que o duque se pronunciasse, saindo de Lisboa à frente duma escolta de lanceiros, e indo sublevar os batalhões de caçadores n.os 1 e 5; vendo o resto do exército um pouco hesitante, já imaginava a sua causa perdida, mas a conselho de José Estêvão foi ao Porto e encontrou a guarnição daquela cidade insurreccionada em seu favor. A situação melhorava para o marechal dum modo sensível, e o governo de Lisboa viu a necessidade de entrar em campanha. D. Fernando reassumiu o comando em chefe do exército, e marchou para Coimbra à frente duma divisão. Foi essa, contudo, a hora mais amarga da sua vida. As tropas que o acompanhavam, estavam todas de coração com o marechal, os estudantes de Coimbra e as populações sentiam o mesmo entusiasmo. Foi recebido em Coimbra quase insultuosamente, e uma manhã viu-se desamparado por quase toda a sua divisão. Regressou a Lisboa tristemente com o pequeno grupo de soldados que não o quiseram abandonar; o resto fugira para o Porto. A rainha viu-se obrigada a ceder, a demitir o conde Tomar e a encarregar o duque de Saldanha de organizar ministério, entregando-lhe também o comando em chefe do exército, que se viu obrigada, para maior humilhação, a retirar a seu marido. Com a regeneração ficou o país mais sossegado, e D. Fernando voltou à sua vida tranquila e aprazível, ás suas ocupações predilectas; aos serões musicais em que a sua bela voz de barítono lhe dava sempre um dos primeiros lugares, à contemplação do seu fantástico palácio da Pena, em Sintra; à compra de objectos de arte, e à execução de encantadores trabalhos artísticos; entregando-se também um pouco a cortejar as damas, entretendo amores menos platónicos, que não eram muito do agrado da rainha. Dos seus trabalhos de gravura, apresenta-nos o conde. A Raczynski uma longa relação, no seu Dictionnaire historico-artistique du Portugal, de pág. 86 a 90. Esta relação, julga este escritor prussiano, que é pouco mais ou menos, a mais completa das suas gravuras, exceptuando os primeiros ensaios, sendo algumas excelentes, tendo todas um irrecusável testemunho do seu talento A. relação está ordenada por anos, a começar em 1837 e terminando em 1845, tendo todas a descrição e uma apreciação muito lisonjeira. Em Agosto de 1851 morreu o pai d'el-rei D. Fernando, e depois de tomar luto por seis meses, deliberou a rainha fazer uma viagem pelo reino. A 15 de Abril de 1852 saíram de Lisboa a rainha, D. Fernando, o príncipe real e o infante D. Luís, e percorreram Vila Franca de Xira, Alcobaça, Leiria, Pombal, Coimbra e Porto, sendo por toda a parte recebidos com o maior entusiasmo, principalmente em Coimbra e no Porto. Desta última cidade passaram a Braga, Barcelos, onde pernoitaram na noite de 6 de Maio, ardendo nessa mesma noite o palácio em que se alojaram, o que pôs em sério perigo a vida da família real; seguiram a Viana do Castelo, voltando depois ao Porto e Coimbra, indo também a Montemor-o-Velho, à Figueira da Foz, à Marinha Grande, regressando finalmente a Lisboa. Um golpe terrível veio ferir o rei artista no ano de 1853, foi a 15 de Novembro a morte da rainha D. Maria II, que apenas contava 34 anos de idade, deixando o príncipe real ainda menor, com 16 anos. 0 conselho de Estado reunido no paço das Necessidades, recebeu esta notícia, e foi logo em seguida cumprimentar el-rei D. Fernando, como regente, que declarou assumir a regência em virtude da lei de 7 de Abril de 1846, prestando o juramento legal. D. Maria II teve 11 filhos, 7 dos quais sobreviveram à mãe: D. Pedro, D. Luís, D. Maria Ana, D. João, D. Antónia, D. .Fernando e D. Augusto; só 3 sobreviveram ao pai: D. Luís, D. Antónia e D. Augusto, e actualmente existe apenas a infanta D. Antónia, duquesa de Saxe¬Coburgo-Gotha. D. Fernando confirmou o ministério que estava no poder quando a rainha morreu, e com ele governou os dois anos que durou a sua regência. Este ministério era presidido pelo duque de Saldanha, que tinha a pasta da guerra, Rodrigo da Fonseca Magalhães a do reino, Frederico Guilherme da Silva Pereira a da justiça, Fontes Pereira de Mello a da fazenda e a das obras publicas, e o visconde de Atouguia a da marinha e a dos negócios estrangeiros. A regeneração prosseguiu na obra reformadora, que tinha iniciado. Estabeleceram-se os telégrafos eléctricos, a cidade do Porto teve iluminação a gás, continuou-se o caminho-de-ferro do Norte e do Sul, reformou-se a circunscrição administrativa, criou-se o recrutamento militar; concorreu Portugal à exposição industrial de Paris. D. Pedro V e o infante D. Luís fizeram duas viagens ao estrangeiro, uma em 1854, outra em 1855, e a 16 de Setembro deste último ano, tendo chegado D. Pedro V à maioridade de 18 anos seu pai entregou-lhe o governo do país. D. Fernando, livre da regência, resolveu fazer também uma viagem, e a 14 de Abril de 1856 partiu no vapor Mindelo para Cádis, seguindo depois a Sevilha, Gibraltar, Tânger e Granada, regressando a Lisboa a 6 de Junho. Em 1857 assaltou o reino a epidemia da febre-amarela, e D. Fernando concorreu com toda a generosidade para a caritativa instituição da sopa económica. Em Maio de 1858 casou seu filho D. Pedro V com a rainha D. Estefânia; em 1861 casou sua filha, a infanta. D. Antónia, e neste anuo a morte veio enlutar os paços reais: em 6 de Novembro faleceu o infante D. Fernando, e no dia 11 o rei D. Pedro V, cuja perda causou a maior consternação em todo o país. Os infantes D. Luís e D. João estavam em viagem fora de Portugal, e tendo D. Luís de ser sucessor à coroa, D. Fernando novamente assumiu a regência, apesar de não estar prevenida esta hipótese na referida lei de 7 de Abril de 1846. A regência durou só 3 dias, porque a 14 de Novembro chegaram ao Tejo os dois infantes. D. Luís foi aclamado rei, e D. João teve de ser vitima também como seus irmãos da singular doença que atacara o paço das Necessidades; falecendo a 27 de Dezembro do mesmo ano de 1861. D. Luís promulgou a nova lei de 12 de Fevereiro de 1862, que dava a el-rei D. Fernando a regência no caso da ausência do reinante. A 6 de Outubro de 1862 casou el-rei D. Luís com Sua Majestade a rainha senhora D. Maria Pia. Tendo-se dado neste mesmo ano uma revolta na Grécia contra o rei Otão, o qual se refugiara com sua mulher a bordo duma fragata inglesa, foi oferecido a D. Fernando o trono da Grécia, que ele rejeitou, dizendo que se considerava português, e não queria sair de Portugal, mesmo a troco duma coroa real. A 2 de Maio de 1863 empreendeu nova viagem ao estrangeiro; foi a Cádis, atravessou a Espanha, demorando-se a visitar as cidades mais notáveis, principalmente as que encerravam curiosidades artísticas, e em 1 de Outubro regressou a Lisboa, a tempo de ser padrinho do príncipe real, seu neto, o actual rei senhor D. Carlos, que se baptizou a 19 do referido mês. A 2 de Outubro de 1865, saiu de Portugal el-rei D. Luís, com a rainha e seu filho D. Carlos, a visitar o rei de Itália, e novamente D. Fernando assumiu a regência, desde 1 de Outubro até 30 de Dezembro do mesmo ano de 1865, dia em que os reais viajantes regressaram a Portugal. No dia 19 de Outubro de 1866, em que D. Fernando completava 50 anos, inaugurou-se a sua estátua na sala da Associação dos Artistas de Coimbra, tendo nas cinco faces do pedestal os bustos do poeta Sá de Miranda, do pintor Domingos António de Sequeira, do escultor Machado de Castro, do músico José Maurício, e do arquitecto Afonso Domingues. O trabalho da estátua era de Frederico da Silva Alves Brandão. Em 1867 assumiu a regência pela quarta vez, por terem D. Luís e D. Maria Pia ido assistir a exposição de Paris. Foi a ultima vez que exerceu a regência, a qual durou mês e meio. Em 1868 rebentou uma grande revolução em Espanha, sendo a rainha Isabel expulsa do reino juntamente com todos os membros da família real. O governo provisório não quis de forma alguma que se estabelecesse a republica; lembraram-se de D. Fernando para seu rei, na esperança também de que no futuro se pudesse realizar a união ibérica por muitos desejada. D. Fernando, porém, fez constar oficialmente que não aceitaria nunca a coroa de Espanha, se lha oferecessem. Em 1869 com o casamento morganático de D. Fernando com a condessa de Edla, Elisa Hensler, realizado em 10 de Junho em Benfica na capela do palácio de S. Domingos, residência da infanta D. Isabel Maria, renovou-se a questão acerca do trono de Espanha, chegando a vir para Lisboa um novo ministro espanhol, D. Angel de los Rios, para tratar especialmente desse assunto. Houve as propostas mais vantajosas para D. Fernando, que por fim se decidia a aceitar, impondo além doutras condições, que nunca as duas coroas pudessem reunir-se numa só cabeça. Como a união ibérica era o fim principal desta insistência ficou terminada a questão, desistindo a Espanha do seu intento. F. J. Pinto Coelho, na biografia d'el-rei D. Fernando, que escreveu, narra largamente este episódio. Em 1873 foi nomeado presidente da comissão que devia preparar a colaboração de Portugal na exposição de Viena de Áustria, e teve sempre depois comissões idênticas. Foi ele também em 1881, que presidiu à, comissão organizadora da exposição da arte ornamental, e à sua iniciativa e à da condessa sua mulher, é que aquela exposição deveu o seu maior brilho. Havia uma sala exclusivamente adornada com objectos de que D. Fernando era expositor, e essa sala fora arranjada pela condessa de Edla com o mais fino gosto. Em 1877 foi com sua mulher e o infante D. Augusto visitar a exposição de Paris e a Suiça, e com a condessa voltou frequentes vezes ao estrangeiro, a fazer uso das águas de Royat. D. Fernando começou pouco depois a sofrer a dolorosa enfermidade a que sucumbiu. A sua morte foi muito sentida. O seu testamento é que causou uma deplorável impressão. Ele que fora sempre um desvelado protector de todas as instituições benéficas e artísticas, que socorria artistas pobres, viúvas e órfãos, nada deixava para as obras de beneficência nem para obras de arte. A afeição que votava à condessa de Edla fora superior a qualquer outro sentimento. Deixou-lhe tudo de que a lei lhe deixava dispor, inclusivamente o castelo da Pena, que o público se costumava a chamar monumento nacional, que D. Fernando retinha no seu poder, mas que generosamente doaria por sua morte à terra que ele dizia ter amado tanto, ou pelo menos incorporaria nos bens da Coroa, legando-o a seu filho, rei de Portugal. A este respeito, o jornal As Novidades levantou uma violenta campanha, chegando a dizer que a parte referente ao castelo da Pena não devia ser cumprida, pelas razões que expunha. Efectivamente a opinião pública começou a apaixonar-se por esse assunto, que se liquidou dum modo satisfatório. D. Luís encarregou o governo de tratar com a condessa de Edla a cedência do castelo da Pena, e no fim de algumas conferências, a condessa aceitou a proposta que lhe fora apresentada, cedendo por 300.000$00 reis, pagos em títulos segundo a cotação do dia, reservando, como usufruto, enquanto vivesse, uma parte que foi devidamente separada por um muro. A propriedade real da Pena continuou assim na posse da Coroa. D. Fernando tinha as seguintes honras: grã-cruz das ordens militares portuguesas, de Cristo, de Avis e de S. Tiago, de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa e da Torre e Espada; a medalha militar de ouro por bons serviços; cavaleiro da ordem do Tosão de Ouro, de Espanha e da Santíssima Anunciada, da Sardenha; grã-cruz da ordem de Ernesto Pio, de Saxe-Coburgo-Gotha; de Santo Estêvão, da Áustria; do Cruzeiro do Sul, de D. Pedro I, e da Reza do Brasil; de Leopoldo, da Bélgica; das ordens da Coroa e do rei Frederico Augusto, de Saxónia; da Águia Negra e da Águia Vermelha, da Prússia; de Santo Alexandre Nevsky, de Santo André, de Santa Ana, e da Águia Branca, da Rússia; da Legião de Honra, de França; do Elefante, da Dinamarca; do Leão Neerlandês, dos Países Baixos; dos Serafins, da Suécia; de S. Fernando, de Nápoles. Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico, Volume III, págs. 379-382”. Do casamento nasceram: 1. D. Pedro V , que sucedeu no trono; 2. D. Luís, duque do Porto, que em 1861 sucedeu a seu irmão; 3. D. Maria. Nasceu em Lisboa, no Palácio das Necessidades, a 4 de Outubro de 1840, tendo falecido no mesmo dia; 4. D. João. Nasceu em Lisboa, no Palácio das Necessidades, a 16 de Março de 1842, e faleceu no Palácio de Belém em 27 de Dezembro de 1861. Era Duque de Beja e de Saxe Coburgo Gotha; 5. D. Maria Ana. Nasceu no Palácio das Necessidades, a 21 de Agosto de 1843, e faleceu em Dresda, a 5 de Fevereiro de 1884. Casou em Lisboa, a 11 de Maio de 1859, com Frederico Augusto (1832-1904) que foi rei da Saxónia, com o nome de Jorge III. Com descendência; 6. D. Antónia. Nasceu em Lisboa, no Palácio das Necessidades, a 17 de Fevereiro de 1845, e morreu em Sigmarinen, a 27 de Dezembro de 1913. Casou em Lisboa, a 12 de Setembro de 1861, com Leopoldo Estevão Carlos (1835-1905), príincipe de Hohenzollern. Com descendência; 7. D. Fernando. Nasceu em Lisboa, no Palácio de Belém, em 23 de Julho de 1846, e faleceu no Palácio das Necessidades, a 6 de Novembro de 1861, estando sepultado no Panteão Real de S. Vicente de Fora. 8. D. Augusto. Nasceu em Lisboa, no Palácio das Necessidades, a 4 de Novembro de 1847, e faleceu no mesmo local a 26 de Setembro de 1889.Está sepultado no Panteão Real de S. Vicente de Fora. Foi duque de Caminha e de Saxe Coburgo Gotha; 9. D. Leopoldo. Nasceu em Lisboa, no Palácio das Necessidades, a 7 de Maio de 1849, tendo falecido no mesmo dia; 10. D. Maria. Nasceu no Palácio das Necessidades, em 3 de Fevereiro de 1851, e morreu no mesmo dia. 11. D. Eugénio. Nasceu no palácio das Necessidades, a 15 de Novembro de 1853, e faleceu no mesmo dia. Fontes: Joel Serrão - Pequeno Dicionário de História de Portugal, Lisboa, Iniciativas Editoriais, 1976 Joaquim Veríssimo Serrão - História de Portugal, Volume VII: A Instauração do Liberalismo (1807-1832), e História de Portugal, Volume VIII: Do Mindelo à Regeneração (1832-1851) Lisboa, Verbo, 1984 e 1986. Revolta dos Marechais Revolta dos Marechais é designação dada na historiografia portuguesa à sublevação militar fracassada, de inspiração cartista contra o setembrismo, encabeçada pelos marechais António José Severim de Noronha, 1.º duque da Terceira, e João Carlos Oliveira e Daun, 1.º duque de Saldanha. A revolta desencadeou-se na vila da Barca a 12 de Julho de 1837 com a sublevação das forças sob o comando do coronel José de Vasconcelos Bandeira de Lemos, 1.º barão de Leiria, e apenas foi, a muito custo, sufocada a 18 de Setembro de 1837. A revolta termina oficialmente com a Convenção de Chaves, assinada a 20 de Setembro de 1837. A Convenção de Chaves É o acto oficial que marca, após os vários episódios bélicos no século XIX em Chaves e o combate de Ruivães, o fim da revolta cartista de 1837, mais conhecida por Revolta dos Marechais. A Convenção de Chaves foi celebrada a 20 de Setembro de 1837 e assinada a 7 de Outubro de 1837, ficando as tropas sublevadas à disposição do governo. Os oficiais revoltosos manteriam os seus postos, mas seriam pagos de acordo com a tarifa de 1719. Os chefes da revolta, marechal Saldanha, duque da Terceira, duque de Palmela, José da Silva Carvalho e Mouzinho de Albuquerque abandonam o país. Revolta popular Maria da Fonte Assim se chamou a revolução que rebentou no Minho em Maio de 1846 contra o governo de Costa Cabral, mais tarde conde e marquês de Tomar. A causa imediata da revolta foram umas questões de recrutamento, e a proibição dos enterramentos feitos dentro das igrejas, em que desempenhou um papel irrequieto e activo uma desembaraçada mulher das bandas da Póvoa de Lanhoso, conhecida pelo nome de Maria da Fonte. Os tumultos multiplicaram-se, tomando afinal as proporções sérias duma insurreição, que lavrou em grande parte do reino. A rainha D. Maria Il, assustada com esta insurreição verdadeiramente popular, viu-se obrigada a demitir o ministério cabralista, chamando ao poder o duque de Palmela e Mousinho de Albuquerque, mas, quando ,julgou que abrandara assim a revolução, e que o duque da Terceira, que nomeara seu lugar tenente nas províncias do norte do país, poderia reprimir as indignações do povo e estabelecer ali a paz, deu o golpe de Estado de 6 de Outubro de 1846, e sem nomear Costa Cabral, formou um ministério pronunciadamente cartista, presidido pelo marechal Saldanha. Esta notícia foi transmitida ao Porto pelo administrador de Vila Franca, e excitou a cólera dos portuenses. Rebentou então a revolta com espantosa energia, o duque da Terceira foi preso, e nomeou-se uma junta provisória, cuja presidência se deu ao conde das Antas e a vice-presidência a José da Silva Passos, que era a alma da revolta, e irmão do grande ministro progressista Manuel da Silva Passos. O visconde de Sá da Bandeira apareceu no Porto, aderindo à revolução. A Junta do Porto é verdade que legislava em nome da rainha, e fazia-lhe manifestações de dedicação, mas o espírito popular estava sendo nessa ocasião bem pouco simpático à soberana, que desta vez tomara a iniciativa da contra-revolução, dando o golpe de Estado de 6 de Outubro. O Espectro, jornal redigido por António Rodrigues Sampaio, e que se publicava em Lisboa, sem que a polícia conseguisse descobrir a imprensa que o imprimia nem os seus redactores, atacou pessoalmente a rainha pela sua intervenção nefasta na politica partidária. A Junta do Porto, apesar de dispor de vastíssimos recursos, não era feliz, por causa da imperícia dos seus generais. Sá da Bandeira era batido em Vale Passos pelo barão do Casal; o conde de Bonfim era completamente batido em Torres Vedras pelo marechal Saldanha, em Dezembro de 1846, batalha em que foi morto o general Mousinho de Albuquerque; Celestino era destroçado em Viana do Castelo pelo general Schwalbach, o barão de Casal tomara Braga, os marinheiros de Soares Franco tomaram Valença e Viana do Castelo. Ainda assim a insurreição era tão forte, que, para se lhe pôr termo, foi precisa a intervenção estrangeira. Uma esquadra inglesa aprisionou a esquadra da Junta com a divisão do conde das Antas que ia a bordo, e um exército espanhol, do comando de D. Manuel Concha, foi ocupar o Porto. Ao mesmo tempo as tropas da Junta, comandadas pelo visconde de Sá da Bandeira, eram batidas no Alto do Viso pelo general Vinhais. A convenção de Gramido. de 30 de Junho de 1847, pôs fim a essa terrível insurreição, que tanto assustara a rainha, que nem sempre mostrou com os vencidos a clemência que se poderia esperar da sua generosidade. A revolução da Maria da Fonte é um dos episódios mais importantes da nossa história politica do século passado. Foi nesse movimento que muito se salientaram homens, que se tornaram muito populares, como os dois irmãos Passos, Rodrigo da Fonseca Magalhães, José Estêvão Coelho de Magalhães, Manuel de Jesus Coelho, etc. 0 maestro Ângelo Frondoni compôs por essa ocasião um hino popular, que ficou conhecido pelo nome de Maria da Fonte ou do Minho, que respirava um certo entusiasmo belicoso; e por muito tempo foi o canto de guerra do partido progressista em Portugal. Camilo Castelo Branco escreveu um livro com o título Maria da Fonte, que trata minuciosamente deste assunto. São também interessantes os Apontamentos para a historia da Revolução do Minho em 1846 ou da Maria da Fonte, pelo padre Casimiro. Na Biblioteca do Povo e das Escolas, o n.º 167 é a história da Revolução da Maria da Fonte, pelo Sr. João Augusto Marques Gomes. Um dos primeiros trabalhos do romancista Sr. Rocha Martins intitula-se Maria da Fonte. Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico, Volume IV, pág. 835. Convenção de Gramido A Convenção de Gramido, foi um acordo assinada a 29 de Junho de 1847, na Casa Branca do lugar de Gramido, em Valbom, Gondomar, com o objectivo de pôr fim à insurreição da Patuleia. A Convenção foi assinada entre os comandantes das forças militares espanholas e britânicas que tinham entrado em Portugal ao abrigo da Quádrupla Aliança e os representantes da Junta do Porto e selou a derrota dos setembristas frente aos cartistas na guerra civil que tinha assolado Portugal em 1846-1847. O conteúdo da Convenção A Convenção do Gramido tem o seguinte articulado: Tenente General D. Manoel de la Concha, Conde de Cancellada, e o Coronel Buenaga como representantes da Espanha, o Coronel Wilde como representante da Grã-Bretanha, o Marquês de Loulé, par do reino, e o General César de Vasconcelos, como representantes da Junta Provisória, reunidos em Gramido com o fim de concertar as necessárias medidas para dar pacífico cumprimento às resoluções das Potências Aliadas, concordaram em que a cidade do Porto se submeteria à obediência do Governo de Sua Majestade Fidelíssima [a Rainha de Portugal] com as condições estabelecidas nos 8 artigos que vão escritos no fim da acta. (...) Artigo 1.º — O fiel, e exacto cumprimento dos 4 artigos da mediação incluídos no Protocolo de 21 de Maio deste ano é garantido pelos Governos Aliados. Artigo 2. º— As tropas de Sua Majestade Católica [a rainha de Espanha] exclusivamente ocuparão desde o dia 30 de Junho a cidade do Porto, Vila Nova de Gaia, e todos os fortes, e redutos de um e outro lado do rio enquanto a tranquilidade não estiver completamente estabelecida sem receio de que possa ser alterada pela sua ausência, ficando na Cidade do Porto uma forte guarnição das forças Aliadas enquanto estas se conservarem em Portugal. No mesmo tempo o Castelo da Foz será ocupado por forças inglesas, e no Douro estacionarão alguns vasos de Guerra das potências Aliadas. Artigo 3.º — A época da entrada das tropas Portuguesas na Cidade do Porto será marcada pelas potências Aliadas. Artigo 4.º — A propriedade e segurança dos habitantes da Cidade do Porto, e de todos os Portugueses em geral, ficam confiados à honra, protecção e garantia das potências Aliadas. Artigo 5.º — As forças do exército de Sua Majestade Católica receberão as armas dos corpos de linha e voluntários que obedecem à Junta entregando-se guia ou passaporte gratuito às pessoas que tiverem de sair do Porto para as terras da sua residência, e dando-se baixa aos soldados de linha que tiverem completado o tempo de serviço, e aos que se alistaram durante esta luta para servirem só até à sua conclusão. Artigo 6.º — O Exército da Junta será tratado com todas as honras da guerra sendo conservadas aos oficiais as espadas e cavalos de propriedade sua. Artigo 7.º — Conceder-se-ão passaportes a qualquer pessoa, que deseje sair do Reino podendo voltar a ele quando lhe convenha. Artigo 8.º — As três potências Aliadas empregarão os seus esforços para com o Governo de Sua Majestade Fidelíssima a fim de melhorar a condição dos oficiais do antigo exército realista — (...) — Gramido, 29 de Junho de 1847. As consequências A guerra civil, que tanto assustara a rainha D. Maria II, terminava assim e, apesar do discurso pacificador que manteve, a rainha ficou deveras ressentida com os vencidos, aos quais nem sempre mostrou a clemência que se poderia esperar, sendo nisso acompanhada pelos principais líderes vencedores. Em resultado dessa atitude, em breve resultaram perseguições sobre os vencidos, as quais criaram um novo clima de instabilidade que inevitavelmente conduziria a nova revolta, que estalaria em 1851, e que ficaria conhecida por Regeneração. A revolução da Maria da Fonte foi um dos episódios marcantes da história política de Portugal no século XIX. Foi nesse movimento que muito se salientaram homens, que depois se tornariam muito populares, como os dois irmãos Passos (José da Silva Passos e Manuel da Silva Passos), Rodrigo da Fonseca Magalhães, José Estêvão Coelho de Magalhães, Manuel de Jesus Coelho e outros. Tais figuras marcariam a política do quarto de século seguinte. Regeneração O movimento regenerador apresentava como ponto fulcral do seu programa político a renovação do sistema político e a criação das infra-estruturas básicas necessária ao desenvolvimento do país. O mntral estabelecer de forma definitiva o liberalismo em Portugal e para tal adoptou os princípios estabelecidos na Carta Constitucional de 1826, introduzindo-lhe as necessárias reformas pelo Acto Adicional de 1852. O programa político regenerador assentava num conjunto de reformas administrativas e económico-sociais, cuja aplicação tinha como objectivo fomentar o crescimento económico e ultrapassar os constrangimentos de natureza política e institucional que tinham impedido o país de se aproximar dos níveis de desenvolvimento da Europa. Atribuíam os bloqueios à má governança e ao tempo perdido com as múltiplas lutas político-ideológicas que até aí tinham assolado a vida política em Portugal. Para dar corpo a esses objectivos, a primeira acção foi de reforma institucional, fazendo aprovar o Acto Adicional de 1852 à Carta Constitucional de 1826 e desvalorizando, até ao limiar da falta de democraticidade, a actividade parlamentar e a disputa político-partidária. Tal traduziu-se na criação das condições de equilíbrio político que desembocariam no rotativismo de algumas décadas depois. O segundo vector da acção regeneradora foi o fomento do crescimento económico, centrado na construção de infra-estruturas de transportes e comunicações, numa primeira tentativa de quebrar o isolamento de vastas regiões do país, e de apoio ao desenvolvimento industrial e comercial. Foi com esses objectivos que se instituiu o Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria, que foi confiado a Fontes Pereira de Melo, um dos mais dinâmicos e capazes políticos da época. A preponderância do vector do fomento foi tão grande que o Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria, de Fontes Pereira de Melo, rapidamente assumiu o principal protagonismo na acção governativa, passando o seu titular a ter um grau de reconhecimento público que em muito ultrapassava o que era dispensado ao presidente do governo. É assim que surge o fontismo, que mais do que uma doutrina política era uma forma de acção. Na vertente desenvolvimentista das políticas regeneradoras foram encetadas algumas medidas, que apesar de nunca completamente concretizadas, contribuíram largamente para a evolução do país, entre as quais se destacam a construção ou renovação das redes rodoviárias e dos principais portos, a expansão acelerada da rede ferroviária e a instalação do telégrafo, o qual iria antecipar o aparecimento do telefone, surgido algumas décadas mais tarde. Este acentuado esforço de fomento e de procura incessante do progresso material está bem patente na seguine frase de Fontes Pereira de Melo: Acima do cavalo da diligência está o trâmuei, acima deste a locomotiva, e acima de tudo o progresso. Esta frase resume bem o estado de espírito que dominou a classe política portuguesa no início da Regeneração. O movimento regenerador apresentava como ponto fulcral do seu programa político a renovação do sistema político e a criação das infra-estruturas básicas necessária ao desenvolvimento do país. O movimento tinha como objectivo central estabelecer de forma definitiva o liberalismo em Portugal e para tal adoptou os princípios estabelecidos na Carta Constitucional de 1826, introduzindo-lhe as necessárias reformas pelo Acto Adicional de 1852. O programa político regenerador assentava num conjunto de reformas administrativas e económico-sociais, cuja aplicação tinha como objectivo fomentar o crescimento económico e ultrapassar os constrangimentos de natureza política e institucional que tinham impedido o país de se aproximar dos níveis de desenvolvimento da Europa. Atribuíam os bloqueios à má governança e ao tempo perdido com as múltiplas lutas político-ideológicas que até aí tinham assolado a vida política em Portugal. Para dar corpo a esses objectivos, a primeira acção foi de reforma institucional, fazendo aprovar o Acto Adicional de 1852 à Carta Constitucional de 1826 e desvalorizando, até ao limiar da falta de democraticidade, a actividade parlamentar e a disputa político-partidária. Tal traduziu-se na criação das condições de equilíbrio político que desembocariam no rotativismo de algumas décadas depois. O segundo vector da acção regeneradora foi o fomento do crescimento económico, centrado na construção de infra-estruturas de transportes e comunicações, numa primeira tentativa de quebrar o isolamento de vastas regiões do país, e de apoio ao desenvolvimento industrial e comercial. Foi com esses objectivos que se instituiu o Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria, que foi confiado a Fontes Pereira de Melo, um dos mais dinâmicos e capazes políticos da época. A preponderância do vector do fomento foi tão grande que o Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria, de Fontes Pereira de Melo, rapidamente assumiu o principal protagonismo na acção governativa, passando o seu titular a ter um grau de reconhecimento público que em muito ultrapassava o que era dispensado ao presidente do governo. É assim que surge o fontismo, que mais do que uma doutrina política era uma forma de acção. Na vertente desenvolvimentista das políticas regeneradoras foram encetadas algumas medidas, que apesar de nunca completamente concretizadas, contribuíram largamente para a evolução do país, entre as quais se destacam a construção ou renovação das redes rodoviárias e dos principais portos, a expansão acelerada da rede ferroviária e a instalação do telégrafo, o qual iria antecipar o aparecimento do telefone, surgido algumas décadas mais tarde. Este acentuado esforço de fomento e de procura incessante do progresso material está bem patente na seguinte frase de Fontes Pereira de Melo: Acima do cavalo da diligência está o trâmuei, acima deste a locomotiva, e acima de tudo o progresso. Esta frase resume bem o estado de espírito que dominou a classe política portuguesa no início da Regeneração.

D.Pedro V - O Muito Amado - 31º Rei de Portugal 1837-1861 Reinou 6 anos

D. Pedro V tinha apenas 15 anos, quando faleceu D. Maria II, sua mãe. Até 1955, data em que completou 18 anos, governou como Regente seus pai, D. Fernando (IIº). Assumido o poder, D. Pedro V revelou-se logo um monarca de raras e grandes qualidades. As virtudes e o seu interesse em bem servir Portugal tornam-no amado e respeitado de todos os portugueses. Ao começar o seu curto reinado, houve em Lisboa duas terríveis epidemias que tantas vítimas causaram: a cólera-mórbus em 1856 e a febre amarela em 1857. Enquanto muita gente, com medo do flagelo, abandonava a capital, ia D. Pedro V correndo os hospitais a visitar os doentes, a todos confortando e protegendo num belo exemplo de caridade e abnegação. Entretanto, junto à costa de Moçambique foi encontrado o navio francês Charles et George, que se empregava no tráfico indigno da escravatura. Pelas autoridades portuguesas foi ordenado o legal apresamento daquele navio e a detenção do seu respectivo comandante. Porém, a França exigiu a libertação não só do barco como do comandante, e ainda o pagamento de certa indemnização. O Governo Português, a fim de evitar um conflito armado, apresentou o seu protesto, e depois cedeu às exigências. D. Pedro V, foi também um grande protector da instrução pública. Criou muitas Escolas de Ensino Primário, algumas das quais eram mantidas à sua custa. Fundou o Curso Superior de Letras (Faculdade de Letras) e o Observatório Astronómico da Ajuda. Também foi neste reinado que se inaugurou a primeira via férrea, de Lisboa ao Carregado, e o telégrafo eléctrico para o estrangeiro, em 1856. D. Pedro V faleceu em Novembro de 1861, com 24 anos de idade e 6 de reinado. Era viúvo da rainha D. Estefânia . Não tendo deixado descendência, sucedeu-lhe seu irmão D. Luís. D. Pedro V - O Esperançoso. 30.º rei de Portugal. Nasceu em Lisboa no real Paço das Necessidades a 16 de Setembro de 1837, onde também faleceu a 11 de Novembro de 1861, sendo baptizado na capela do mesmo paço a 1 de Outubro seguinte pelo cardeal patriarca de Lisboa D. Fr. Patrício da Silva, capelão-mor da rainha D. Maria II. Era filho desta soberana, e de seu marido, el-rei D. Fernando. Chamava-se D. Pedro de Alcântara Maria Fernando Miguel Rafael Gonzaga Xavier João António Leopoldo Victor Francisco de Assis Júlio Amélio. Educado primorosamente, assim como seus irmãos, pelos melhores professores de Lisboa, e principalmente por sua mãe, que teve sempre a justíssima reputação de excelente educadora, revelou desde muito novo as brilhantes qualidades que o ornavam, a sua notável inteligência, a sua tendência para um perseverante estudo, e as mais nobres e mais elevadas qualidades de espírito e de coração. Foi jurado e reconhecido príncipe real e herdeiro da coroa pelas cortes gerais a 26 de Janeiro de 1838, tendo de idade pouco mais de 4 meses. Contava 16 anos quando faleceu sua mãe, a 15 de Novembro de 1853, a quem sucedeu no trono. Marcando-se aos 18 anos a maioridade dos reis de Portugal, D. Pedro V era ainda menor, e nesse mesmo dia foi convocado o conselho de Estado, que deliberou confiar a regência do reino, durante a menoridade do jovem monarca, a seu pai, el-rei D. Fernando, visto não haver disposição alguma a tal respeito na Carta Constitucional, deliberação que foi depois confirmada pelas cortes gerais, e de que prestou juramento na sessão de 19 de Dezembro de 1853. D. Pedro V e seu irmão D. Luís, que mais tarde lhe sucedeu no trono, empreenderam uma viagem de instrução e recreio pela Europa. Em Maio de 1854 saíram a barra de Lisboa a bordo do vapor Mindelo, indo directamente a Londres, passando de. pois à Bélgica, Holanda, Prússia, Áustria, França e Saxe-Coburgo-Gotha, voltando a Londres, donde regressaram a Lisboa. Em todas estas cortes granjearam os régios viajantes as maiores provas de consideração e de simpatia. No ano seguinte, 1855, empreenderam nova viajem, visitando outra vez algumas das terras já citadas, e também a Itália, Suiça, etc. No seu regresso, completando D. Pedro V, 18 anos a 16 de Setembro, foi nesse dia declarada a sua maioridade, e prestou juramento em sessão solene das cortes. Realizaram-se grandes e entusiásticas festas em Lisboa, para solenizar o novo rei que ia assumir o pesado e espinhoso cargo da governação do reino. Grandes infortúnios começaram desde logo a assinalar o seu reinado. Em 1856 desenvolveu se em Lisboa a cholera morbus, e em muitos outros pontos do país, fazendo consideráveis vítimas, e no ano seguinte, 1855, outro flagelo, que se tornou ainda mais devastador, a febre-amarela, veio assolar a capital. Foram dois anos de tristíssima memoria, que enlutaram milhares de famílias, extinguindo-se muitas delas completamente, deixando muitas crianças na orfandade. A cidade de Lisboa, principalmente em 1857, apresentava um aspecto tristíssimo. Com especialidade. na cidade baixa, viam-se encerrados numerosos estabelecimentos; uns, por seus proprietários terem falecido, outros por terem saído de Lisboa fugindo ao terrível contagio. O terror geral era indescritível; por ordem do governo foram os jornais proibidos de darem longas noticias sobre os falecimentos, e o número e nomes das vítimas, que chegavam a ocupar diariamente muitas colunas; os enterros passaram a fazer-se de noite, observando-se a maior simplicidade, não sendo permitidas as pompas fúnebres, apenas uma sege conduzindo o morto e o padre para o acompanhar. Não sendo suficientes os hospitais que existiam, para abrigarem o número enorme de atacados, organizaram-se alguns provisórios em certos pontos da cidade; numerosas procissões de penitência percorriam as ruas, e nas igrejas todos os dias se entoavam preces. Os teatros e outros divertimentos públicos fecharam. A consternação era geral; as ruas viam-se desertas, o terror via-se estampado em todas as fisionomias. Abandonaram a cidade, indo viver para os arredores e para outras terras distantes, altos funcionários e outros empregados públicos, capitalistas, negociantes, o próprio patriarca, e no meio desta pavorosa e angustiosa situação sobressaía a figura do jovem monarca que, apesar dos conselhos de quantos o rodeavam, não quis abandonar Lisboa, e qual outro apóstolo do bem e da resignação, se dirigia aos hospitais, sentando-se junto dos leitos dos enfermos, a quem dirigia palavras de conforto e de esperança. Quando os ajudantes que o acompanhavam nestas piedosas visitas lhe pediam que não se expusesse assim tão temerariamente ao terrível contágio, respondia secamente que se tinham medo o deixassem, que ele podia ali estar só. Este acto de abnegação e caridade causou a maior impressão em toda a gente e a admiração até dos estrangeiros. Um rapaz que apenas contava 20 anos de idade, dando um exemplo tão grandioso de amor pelos que sofriam, procurando suavizar-lhes o sofrimento, ao menos animando-os com a sua presença. D. Pedro V tornou-se muito popular; o povo adorava-o, e chamava-lhe o rei santo. A sorte protegia-o, porque expondo-se com tanta afoiteza, com tanta coragem ao perigo do tenebroso contágio, não teve o menor sinal de doença naqueles meses de Agosto, Setembro, Outubro e Novembro de 1857, em que mais se pronunciaram os efeitos da epidemia. Pouco a pouco foram rareando os casos, que até então eram numerosos todos os dias, e quando chegou o fim de Dezembro estava a febre amarela completamente debelada, restando os choros e os lamentos das pessoas que tinham perdido parentes queridos, e crianças órfãs, que se viam sós entregues à mais profunda tristeza e saudade. Chegou depois o ano de 1858, que trouxe para Portugal dias mais sossegados e mais felizes. Para suavizar as angústias dos dois anos anteriores, tratou-se do casamento do jovem monarca, que se tornara o ídolo do povo. Essa notícia foi recebida com o maior entusiasmo sendo a esposa escolhida a princesa de Hohenzollern-Sigmaringen, D. Estefânia Josefina Frederica Guilhermina Antónia, segunda filha do príncipe soberano do Hohenzollern-Sigmaringen, Carlos António Joaquim, e de sua mulher D. Josefina Frederica. O casamento realizou-se por procuração em Dresde a 29 de Abril de 1858, e em pessoa, em Lisboa, a 18 de Maio, na igreja de S. Domingos, um formoso dia de primavera, que parecia vir também saudar os régios noivos, reunindo-se ao entusiasmo que se notava por toda a parte, à alegria e satisfação que reflectia em todos os semblantes. As aclamações e os vivas, que o povo soltava durante o trânsito do Terreiro do Paço, onde a jovem rainha desembarcou, até à igreja de S. Domingos, chegaram ao delírio. A pessoa que escreve, estas linhas, bem criança então, ainda se recorda com saudade desse dia e dos seguintes em que se realizaram iluminações esplêndidas, parada, récita de gala no teatro de D. Maria II, jantares diplomáticos, etc. (V. Portugal, vol. III, págs. 211 e 212). A rainha D. Estefânia granjeou logo também as maiores simpatias; o seu carácter, por um acaso que poucas vezes se encontra nestas uniões monárquicas, estava em perfeita harmonia com o carácter de seu marido. Os régios esposos amaram-se extremosamente. Passaram em Sintra a lua-de-mel durante o Verão desse ano de 1858, e muitas vezes se encontravam passeando sozinhos de braço dado pelos caminhos mais solitários da serra, passeios que muitas vezes repetiam. em Lisboa, e que inspiravam ao povo a mais profunda simpatia, porque davam um exemplo não muito frequente de amor no casamento e de amor no trono, e o exemplo das virtudes domésticas mais elevadas com a pureza do seu viver, com o afecto que os unia, o qual se manifestava a cada instante. Foi nesse ano de 1858 que. D. Pedro V teve a nobre ideia de fundar em Lisboa os altos estudos literários que não existiam em Portugal, e que depois da morte dele pouco desenvolvimento tiveram. Cedeu uma parta da sua lista civil para se comprarem inscrições, que constituíssem a dotação de um novo estabelecimento de instrução superior, o Curso Superior de Letras, onde se criaram as cadeiras de história, de literatura antiga, de literatura moderna, de filosofia da história e de filosofia transcendente, cadeiras que foram regidas por Lopes de Mendonça, Rebelo da Silva, Jaime Moniz, etc. Era essa a fundação querida de D. Pedro V, e muitas vezes o estudioso monarca que amava as letras e a ciência, ia ouvir as lições dos professores, escutando de preferência a palavra inspirada e eloquente do grande Rebelo da Silva. Mas ainda não estavam completas as provações por que tinha de passar o infeliz rei, no seu tão curto reinado de 6 anos. Sucederam um ao outro dois factos que profundamente o feriram, um como rei, e o outro como esposo dedicado e carinhoso. Como rei, foi a questão com o governo imperial de França, em 1859, que por causa do apresamento da barca Charles et Georges, mandou uma esquadra às águas do Tejo tomar aquele navio e afrontar a bandeira portuguesa; como esposo, viu nesse mesmo ano, a 17 de Julho, sucumbir, vítima duma angina que em tão pouco tempo roubou a Portugal uma rainha bondosa e altamente simpática, deixando D. Pedro inconsolável com tão infausta perda. Ficou memorável a sentida carta que o monarca escreveu ao duque da Terceira, então presidente do conselho de ministros, carta repassada de tão profunda melancolia e escrita com eloquente singeleza. «Eu e os meus povos temos sido companheiros de infortúnio, diz-me a consciência que os não abandonei.» Assim era efectivamente, e o povo também o não desamparou nessa angústia suprema «Era um coração para a terra e um espírito para o céu» acrescentava D. Pedro V referindo-se à esposa que perdera. Essa carta é uma verdadeira obra-prima e não foram esses os únicos primores que D. Pedro V legou dispersos pelas folhas oficiais. D. Pedro V folgava de fazer as alocuções que tinha de proferir em cumprimento das suas funções majestáticas. Esses discursos eram sempre: cheios de ideias elevadas, e escritos num estilo nervoso de uma grande concisão, que ás vezes descaía em obscuridade. Os críticos acusavam esse estilo de sibilino, e diziam que el-rei, que sabia a fundo o alemão, se comprazia nos nevoeiros da filosofia germânica. A verdade é que ele procurava apenas consubstanciar no mais pequeno número de palavras possível o maior número possível de ideias. Não se limitava só a discursos a actividade intelectual do rei. Na Revista Contemporanea escreveu com o pseudónimo de Azonbolos um estudo acerca da tomada de Gaeta pelas tropas piemontesas. Muitos fragmentos de estudos filosóficos e morais ficaram misturados com os seus papéis depois da sua morte. A instrução popular foi sempre a sua grande preocupação. Fundou a Escola Real das Necessidades em 16 de Setembro de 1856, num edifício próximo do paço, e no paço de Mafra havia instalado uma escola, no ano anterior. Folgava em distribuir livros em prémios às crianças, encarregara o seu secretário Joaquim Pinheiro Chagas, pai do falecido estadista e distinto escritor Pinheiro Chagas, de traduzir e adaptar às escolas portuguesas a Clef de la science, do Dr. Brewer. Esta tradução ficou interrompida com a morte do tradutor, sucedida em 3 de Dezembro de 1859. Era com ele que D. Pedro V muitas vezes desabafava as suas dores mais íntimas e cruciantes. Fora o seu companheiro de vigília nas horas que se seguiram à, morte de D. Estefânia, em que o triste rei, depois de alguns minutos de sono agitado, acordava em grandes acessos de choro, e se abraçava ao seu secretario, que, tendo também visto morrer a mulher que amava extremosamente, sabia compreender e sabia consolar aquela dor sincera e profunda. A morte pois desse amigo fiel e dedicado foi para o rei mais um golpe profundo e inesperado, porque Joaquim Pinheiro Chagas morreu na força da vida contando apenas cinquenta anos de idade. Em 1860 o desastroso resultado da realização de uma ideia sua muito querida, o estabelecimento de um depósito de recrutas em Mafra, causou-lhe também impressão profunda e dolorosa. As más condições em que este deposito foi organizado produziram o desastre, mas D. Pedro V sentiu-o profundamente, não só porque podia atribuir-se-lhe em parte a responsabilidade da morte de tantos recrutas que foram ali expirar naquele matadouro, como por ver desfeito em fumo um dos projectos, de que ele julgava que resultariam os frutos mais profícuos. Em Outubro de 1861 uma viagem que el-rei empreendeu ao Alentejo com os seus irmãos, D. Augusto e D. Fernando, teve os mais funestos resultados. Contraíram nessa província umas febres paludosas, que em breve tomaram um carácter profundamente grave. O infante D. Fernando faleceu em 9 de Novembro, e dois dias depois, a 11, falecia também el-rei na florescente idade de 24 anos. Foi então que se conheceu quanto ele era profundamente estimado e querido. O povo apenas teve notícia da grave doença d'el¬-rei e de seus irmãos, agrupou-se aflitíssimo em torno do palácio. Primeiro houve só a angústia e ansiedade, depois começaram a brotar suspeitas de crime, e a morte do infante D. Fernando, o estado gravíssimo em que se achava o infante D. Augusto e o estado perfeitamente desesperado d'el-rei, mais confirmaram ainda as ideias de envenenamento. A morte d'el-rei veio redobrar a agitação da cidade. O enterro foi imensamente concorrido. Os dois irmãos d'el-rei, D. Luís e D. João, que andavam, viajando, regressaram apressadamente à pátria, e chegaram pouco depois da morte de D. Pedro V. Atacado por uma doença, com sintomas idênticos aos de seus irmãos, D. João também faleceu, no seguinte mês de Dezembro. Tudo isto deu origem aos tumultos do Natal, classificados por José Estevão na seguinte frase célebre: «É a anarquia da dor protestando contra o despotismo da morte.» O sentimento era geral e profundo em todo o país. D. Pedro V foi duque de Saxe-Coburgo-Gotha, grão-mestre das ordens militares de Cristo, S. Bento de Avis e S. Tiago da Espada; grã-cruz das da Torre e Espada e de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa; cavaleiro da ordem do Tosão de Ouro, de Espanha, e da ordem Suprema da Santíssima Anunciada, de Sardenha; cavaleiro de primeira classe, em brilhantes, da de Hohenzollern; grã-cruz das ordens do Cruzeiro do Sul, do Brasil; de Santo Estevão de Hungria, da Áustria; da Águia Negra, de Saxónia Real; do Leão Neerlandês, dos Países Baixos; do Falcão Branco, de Saxe-Weimar; da Legião de Honra, de França; de S. Fernando e Mérito, de Duas Sicílias. D. Pedro V respeitava os homens políticos importantes do seu tempo, e era grande respeitador de Alexandre Herculano, a quem visitava frequentes vezes, entretendo com o notável historiador discussões científicas; passava largas horas, quando estava em Mafra, a consultar crónicas e outros livros antigos daquela valiosa biblioteca. Dedicava-se à música, tocando excelentemente piano; era notável na esgrima, bom atirador, e desenhava com gosto e facilidade, possuindo o dom especial de caracterizar uma pessoa ao primeiro repente com três ou quatro traços, ficando do seu lápis muitas caricaturas notáveis pela graça e pela rapidez e firmeza do traço. A caça era um dos prazeres seus mais predilectos. Foi ele que aboliu por completo o beija-mão, etiqueta palaciana que era um dos restos legados pela soberania absoluta, e recusou-se a confirmar a pena de morte. Não queria ver os cidadãos, entre os quais era ele o primeiro, dobrarem o joelho na sua presença, porque essa vénia só pertence à Divindade como só a ela pertence tirar a vida aos homens. Entendia que a cerimónia do beija-mão era um acto de servilismo indigno de todo o homem que se preza, como entendia que à justiça humana unicamente compete corrigir os delinquentes, pela reclusão e pelo trabalho, para os restituir à sociedade, purificados e prestativos. Acerca do saudoso monarca publicaram-se muitos escritos: Reinado e ultimos momentos de D. Pedro V, por José Maria de Andrade Ferreira, Lisboa, 1861; Noticia da doença de que faleceu sua majestade el-rei o senhor D. Pedro V, por Bernardino António Gomes, Lisboa, 1862; Elogio historico de sua majestade el rei o senhor D. Pedro V, protector da Academia Real da Sciencias, proferido na sessão publica de 26 de abril de 1863 pelo socio efectivo Luiz Augusto Rebello da Silva, Lisboa, 1863; Memorias para a historia d'el rei fidelissimo o senhor D. Pedro V e seus augustos irmãos, etc., por Francisco António Martins Bastos, Lisboa, 1863; Tributo portuguez no transito do senhor D. Pedro V, poemeto por A. F. de Castilho; saiu na Revista Contemporanea, tomo V, pág. 399 a 411, e em separado; Palavras de D. Pedro V, Lisboa, 1859; foram coligidas e publicadas com introdução e notas, por J. J. Ferreira Lobo; contem todos os discursos e alocuções do monarca; D. Pedro V, por Henrique Freire; 5.ª edição, Lisboa, 1884; Oração funebre nas exequias do rei de Portugal o senhor D. Pedro V celebradas pela irmandade do Santissimo Sacramento da freguezia de S. Nicolau em 30 de janeiro de 1862, pelo padre Antonio Maria d'Almeida, Lisboa, 1862; Oração funebre nas exequias, que a camara da villa de Penella mandou celebrar para sufragar a alma do senhor D. Pedro V, Lisboa, 1862; Oração funebre nas exequias solemnes pelo eterno descanço de Sua Majestade D. Pedro V, celebradas na egreja cathedral do Salvador de Beja, pelo padre Alexandre Ramos. parocho de Santa Maria da Feira, da mesma cidade, Lisboa, 1863. Há outras orações recitadas nas solenidades fúnebres realizadas no Porto, Aveiro, e outras cidades de Portugal e Brasil. No estrangeiro também apareceram algumas obras a respeito do saudoso monarca.

D.Luis I - O Popular - 32º Rei de Portugal 1838-1889 Reinou 28anos

No reinado de D. Luís, realizaram-se grandes melhoramentos e reformas, que muito contribuíram, para o progresso do País: - Foi alargada a rede de estradas, de caminhos de ferro e de telegrafia eléctrica; - Construíram-se as pontes de ferro sobre o rio Douro; - O Palácio de Cristal, no Porto; - Aumentou-se a Marinha de Guerra; - Criaram-se escolas primárias, agrícolas e industriais e bancos de crédito; - Aboliu-se a pena de morte para os crimes civis, o que motivou uma carta de Victor Hugo, grande escritor francês, a felicitar o Governo; - Revogou-se as leis de trabalhos públicos na metrópole e a de escravidão em todos os domínios do Reino; - Aumentou-se a nossa legislação com a publicação do Código Civil, etc., etc. O governo de D. Luís distinguiu-se ainda pelas grandes explorações científicas que se efectuaram através do continente africano. O major de infantaria, Alexandre de Serpa Pinto, realizou a viagem de Luanda ao Natal, em 1879; e os oficiais de marinha Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, em 1885 exploraram todo o sertão de Moçâmedes a Quelimane, num percurso de 4.500 milhas. Estas viagens causaram a admiração na Europa e glorificaram o nome de Portugal. Em Maio de 1886, a França assinou com Portugal um tratado, pelo qual era assegurado o exercício da nossa influência e soberania no território descoberto por aqueles notáveis exploradores (Serpa Pinto, Capelo e Ivens) e que estabeleceu a ligação, por terra, entre as duas zonas de Angola e Moçambique. Esse território é conhecido pela designação de Mapa-cor-de-Rosa por ser essa a cor que o evidenciava num mapa que apareceu apenso àquele tratado. Em Dezembro do mesmo ano, assinava-se um novo tratado com a Alemanha em que esta potência também reconhecia os direitos que a França já nos tinha assegurado. Durante este reinado efectuaram-se na África Portuguesa diversas campanhas contra os indígenas rebeldes: - Em 1872, são os Dembos derrotados pelo tenente-coronel Gomes de Almeida e capitão Nunes da Mata; - Em 1874, foram submetidos os indígenas de Malange e Ambaca pelos majores Teixeira Beltrão e Nunes da Mata; No mesmo anos são subjugados os povos do Humbe pelo capitão Pedro Chaves; Em 1889 é aprisionado o régulo do Cubango pelo tenente Artur de Paiva; Em 1888 (em Moçambique) Augusto de Cstilho promove a campanha da Zambézia; Em 1889, João de Azevedo Coutinho submete os Macololos, em Moçambique. D. Luís faleceu no dia 19 de Outubro de 1889, tendo-lhe sucedido o filho D. Carlos, que era um príncipe muito culto e ilustrado. D. Luís Filho segundo de D. Maria II (1819-1853) e de D. Fernando III (1816-1885). Assumiu o governo a 14 de Outubro de 1861, tendo casado com D. Maria de Sabóia. Era primorosamente educado, com temperamento de literato e artista. Embora tivesse dominado a paz no reinado, houve um levantamento de tropas, em 1862 e em finais de 1867 o movimento da Janeirinha e em 19 de Maio de 1870, o duque de Saldanha impôs a demissão do governo, e passou a assumir a presidência do novo ministério. Em 1865-1866 a vida mental foi sacudida pela Questão Coimbrã e em 1871 surgiu a iniciativa das Conferências Democráticas do Casino. Realizam-se as viagens ao interior da África, o major Serpa Pinto de Benguela ao Bié, Zambeze e chegou às cataratas de Vitória. Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens exploraram o sertão de Benguela e atravessaram a África de Luanda a Tete. A partir de 1876 o Partido Progressista aspira a articular o Estado segundo a teoria liberal, propondo a reforma da Carta, a descentralização administrativa, a fidedignidade e ampliação do sufrágio eleitoral, a reorganização do poder judicial e da contabilidade pública. Em 1877 demitiu-se o ministério regenerador de Fontes Pereira de Melo e voltou a ser reintegrado. Posteriormente os progressistas atacaram o rei, acusando-o de patrocinar os regeneradores (Emídio Navarro, no Progresso, Joaquim Martins de Carvalho, no Conimbricense). O ministério regenerador caiu, em 1879, e D. Luís chamou os progressistas a formar governo. O republicanismo evoluíra também e em 1878 toma lugar na Câmara o primeiro deputado republicano, Rodrigues de Freitas, eleito pelo Porto. Em 1880 o Partido Republicano era uma realidade e uma força. O reinado de D. Luís assinalou-se materialmente pelo progresso, socialmente pela paz e pelos sentimentos de convivência e politicamente pelo respeito pelas liberdades públicas, intelectualmente por uma geração notável (Eça de Queiroz, Antero de Quental, etc.). Ficha genealógica: D. Luís I nasceu no Palácio das Necessidades, a 31 de Outubro de 1838, tendo recebido o nome de Luís Filipe Maria Fernando Pedro de Alcântara António Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis João Augusto Júlio Valfando, e morreu na Cidadela de Cascais, a 19 de Outubro de 1889, tendo sido sepultado no Panteão Real de S. Vicente de Fora). Casou em Lisboa a 6 de Outubro de 1862 com a princesa Maria Pia de Sabóia (n. em Turim, a 16 de Outubro de 1847; f. no Castelo de Stupinigi, no Piemonte, a 5 de Julho de 1911; sepultada na Basílica de Superga, na Itália), filha do rei Vítor Manuel II da Sardenha e de sua mulher a arquiduquesa Maria Adelaide. Do consórcio nasceram: 1. D. Carlos, que sucedeu no trono. 2. O infante D. Afonso Henriques (n. no Paço da Ajuda, a 31 de Julho de 1865; f. em Nápoles a 21 de Fevereiro de 1920). Casou morganaticamente em Roma, a 26 de Setembro de 1917, com Nevada Stoody Hayes, que passou a chamar-se Nevada de Bragança (n. em Ohio a 21 de Outubro de 1885; f. em Tampa, na Florida, a 11 de Janeiro de 1941). Fontes: Joel Serrão - Pequeno Dicionário de História de Portugal, Lisboa, Iniciativas Editoriais, 1976 Joaquim Veríssimo Serrão História de Portugal, Volume IX: O Terceiro Liberalismo (1851-1890) Lisboa, Verbo, 1986. Serpa Pinto Alexandre Alberto da Rocha de Serpa Pinto Alexandre Alberto da Rocha de Serpa Pinto (20 de Abril de 1846 - 28 de Dezembro de 1900) foi um explorador e administrador colonial português que percorreu África central e meridional para fazer o reconhecimento do território e efectuar o mapeamento do interior do continente. Ingressou no Colégio Militar com 10 anos e aos 17 tornou-se no seu primeiro Comandante de Batalhão aluno. Serpa Pinto viajou até à África Oriental em 1869 numa expedição ao rio Zambeze. Oito anos depois liderou uma expedição que partiu de Benguela, em Angola, e percorreu as bacias do rio Congo e do Zambeze. Roberto Ivens As explorações africanas Ao regressar a Lisboa, soube do plano governamental de exploração científica no interior africano, destinado a explorar os territórios entre as províncias de Angola e Moçambique e, especialmente, a efectuar um reconhecimento geográfico das bacias hidrográficas do Zaire e do Zambeze. Foi, de imediato, oferecer-se para nela tomar parte. Como, porém, a decisão demorasse, pediu para ir servir na estação naval de Angola. Aproveitou esta estadia para fazer vários reconhecimentos, principalmente no rio Zaire, levantando uma planta do rio entre Borud e Nóqui. Por Decreto de 11 de Maio de 1877 foi nomeado para dirigir a expedição aos territórios compreendidos entre as províncias de Angola e Moçambique e estudar as relações entre as bacias hidrográficas do Zaire e do Zambeze. Na mesma data foi promovido a primeiro tenente. De 1877 a 1880, ocupou-se com Hermenegildo Capelo e, em parte, com Serpa Pinto, na exploração científica de Benguela às Terras de Iaca. No regresso, recebe a Comenda da Ordem Militar de Santiago e é nomeado a 19 de Agosto de 1880 vogal da Comissão Central de Geografia. Por Decreto de 19 de Janeiro de 1882, foram-lhe concedidas honras de oficial às ordens e a 28 de Julho foi nomeado para proceder à organização da carta geográfica de Angola. Em 19 de Abril de 1883, é nomeado vogal da comissão encarregada de elaborar e publicar uma colecção de cartas das possessões ultramarinas portuguesas. Por portaria de 28 de Novembro do mesmo ano foi encarregado de proceder a reconhecimentos e explorações necessários para se reunirem os elementos e informações indispensáveis afim de se reconstruir a carta geográfica de Angola. Face às mais que previsíveis decisões da Conferência de Berlim era preciso demonstrar a presença portuguesa no interior da África austral, como forma de sustentar as reivindicações constantes do mapa cor-de-rosa entretanto produzido. Para realizar tão grande façanha, são nomeados Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens. Feitos os preparativos, a grande viagem inicia-se em Porto Pinda, no sul de Angola, em Março de 1884. Após uma incursão de Roberto Ivens pelo rio Curoca, a comitiva reúne-se, de novo, desta vez em Moçamedes para a partida definitiva a 29 de Abril daquele ano. Foram 14 meses de inferno no interior africano, durante os quais, a fome, o frio, a natureza agreste, os animais selvagens, a mosca tsé-tsé, puseram em permanente risco a vida dos exploradores e comitiva. As constantes deserções e a doença e morte de carregadores aumentavam o perigo e a incerteza. Só de uma vez, andaram perdidos 42 dias, por terrenos pantanosos, sob cndições meteorológicas difíceis, sem caminhos e sem gente por perto. Foram dados como mortos ou perdidos, pois durante quase um ano não houve notícias deles. Ao longo de toda a viagem, Roberto Ivens escreve, desenha, faz croquis, levanta cartas; Hermenegildo Capelo recolhe espécimes de plantas, rochas e animais. A 21 de Junho 1885, chega a finalmente expedição a Quelimane, em Moçambique, cumpridos todos os objectivos definidos pelo governo. Na viagem foram percorridas 4500 milhas geográficas (mais de 8300 km), 1.500 das quais por regiões ignotas, tendo-se feito numerosas determinações geográficas e observações magnéticas e meteorológicas. Estas expedições, para além de terem permitido fazer várias determinações geográficas, colheitas de fósseis, minerais e de várias colecções de história natural, tinham como objectivo essencial afirmar a presença portuguesa nos territórios explorados e reivindicar os respectivos direitos de soberania, já que os mesmos se incluíam no famoso mapa cor-de-rosa que delimitava as pretensões portuguesas na África meridional. [editar] Honra e glória Finda a viagem de exploração, Roberto Ivens e Hermenegildo Capelo foram recebidos como heróis em Lisboa, a 16 de Setembro de 1885. O próprio rei D. Luís dirigiu-se ao cais para os receber em pessoa e os condecorar à chegada. O rio Tejo regurgitava de embarcações. Nunca se havia visto tamanho cortejo fluvial. Acompanhados pelo rei foram conduzidos ao Arsenal da Marinha para as boas vindas, com Lisboa vestir-se das suas melhores galas para os receber. Foram oito dias de festas constantes, com colchas nas varandas, iluminação, fogos de artifício, recepções, almoços, jantares e discursos sobre a heróica viagem. Mais tarde, o Porto não quis ficar atrás, excedendo-se em manifestações de regozijo e recepções. E no estrangeiro, Madrid esmerou-se em festas, conferências, recepções e condecorações; em Paris é-lhes conferida a Grande Medalha de Honra. Em Ponta Delgada, por iniciativa de Ernesto do Canto sucederam-se as manifestações em honra do herói. O dia 6 de Dezembro de 1885 foi o escolhido para as solenidades. As ruas da cidade encheram-se de gente de todas as condições sociais. Cada profissão, cada instituição se incorporou no cortejo cívico com os seus pendões. Não faltaram as bandas de música e os discursos. Expressamente para esse dia foi composto o número único do jornal Ivens e Capelo e foi executado um Hino a Roberto Ivens, com letra de Manuel José Duarte e músico de Quintiliano Furtado. Roberto Ivens faleceu no Dafundo, Oeiras, em 28 de Janeiro de 1898, deixando viúva e três filhos que, por decreto de D. Carlos, continuariam a receber o subsídio que havia sido atribuído ao pai. O enterro, a 29 de Janeiro, foi uma grande manifestação de pesar nacional. A urna de mogno estava coberta com a bandeira nacional. O segundo tenente Ivens Ferraz conduzia o bicórnio e a espada do falecido, envolta em crepe. Sobre a urna, três coroas de flores. No largo do Cemitério de Carnaxide prestou as honras fúnebres uma força de 160 praças do corpo de marinheiros, com a respectiva charanga, e junto do jazigo, o Ministro da Marinha proferiu o elogio fúnebre. Por todo Portugal existem dezenas de ruas com o nome de Roberto Ivens. Ponta Delgada prestou-lhe também a devida homenagem, erguendo um busto inicialmente colocado no Relvão e transferido, por decisão camarária de 1950, para a "Avenida Roberto Ivens", que começou a ser aberta com a demolição do muro da cerca do Convento da Esperança em 7 de Abril de 1886. Em Ponta Delgada, bem próximo do lugar do seu nascimento, funciona a Escola Básica Integrada Roberto Ivens. Hermenegildo Capelo A 1ª Viagem - De Benguela às Terras de Iaca O Objectivo Brito Capello, quando da sua permanência em Angola fez o reconhecimento científico daquela zona, facto que o fez ser escolhido, por Decreto de 11 de Maio de 1877, para dirigir uma expedição científica à África Central da qual também faziam parte o oficial da marinha Roberto Ivens e o major do exército Serpa Pinto . Sob os auspícios da Sociedade de Geografia, esta expedição tinha por fim «...o estudo do rio Cuango nas suas relações com o Zaire e com os territóros portugueses da costa ocidental, assim como toda a região que compreende ao Sul e a sueste as origens dos rios Zambeze e Cunene e se prolonga ao Norte, até entrar pelas bacias hidrográficas do Cuanza e do Cuango...». A Viagem A 7 de Julho de 1877 Brito Capello, Roberto Ivens e Serpa Pinto iniciam a expedição. Feito o trajecto Benguela-Bié, divergências entre Serpa Pinto e Brito Capello levam a expedição a dividir-se, com Serpa Pinto, por sua iniciativa a tentar a travessia até Moçambique. Não o conseguiu como pretendia, mas chegou a Pretória, e posteriormente a Durban. Brito Capello e Roberto Ivens mantiveram-se fiéis ao projecto inicial concentrando as atenção na missão para que haviam sido nomeados, ou seja nas relações entre as bacias hidrográficas do Zaire e do Zambeze. Percorreram as regiões de Benguela até às terras de Iaca, tendo delimitado os cursos dos rios Cubango, Luando e Tohicapa. A 1 de Março de 1880 Lisboa recebe triunfalmente Brito Capello e Roberto Ivens, tendo o êxito da expedição ficado perpetuado no livro De Benguela às Terras de Iaca. A 2ª Viagem - De Angola à Contra-Costa Depois de concretizado o importante percurso entre o Bié e o Zambeze, e atingidas as cataratas Vitória, Capello e Ivens são estimulados a prosseguir com as suas expedições. O Objectivo Dada a necessidade de ser criado um atlas geral das colónias portuguesas, Manuel Joaquim Pinheiro Chagas, ao tempo Ministro da Marinha e do Ultramar, criou por decreto de 19 de Abril de 1883 a Comissão de Cartografia, para a qual nomeou como vogais os dois exploradores. Por outro lado, pretendendo a criação de um caminho comercial que ligasse Angola e Moçambique nomeou-os a 5 de Novembro do mesmo ano para procederem aos necessários reconhecimentos e explorações. A escolha de dois oficiais de Marinha para a concretização desta importante missão, prende-se com o facto de se tratarem de territórios desconhecidos, não cartografados, nos quais era necessário avançar, recorrendo aos princípios da navegação marítima, tão familiares a estes exploradores. A Viagem Entre 1884 e 1885, Capello e Ivens realizaram nova exploração em África, primeiro entre a costa e o planalto de Huila e depois através do interior até Quelimane, em Moçambique. Continuaram, então, os seus estudos hidrográficos, efectuando registos geográfico-naturais mas, também, de carácter etnográfico e linguístico. Estabelecem assim a tão desejada ligação por terra entre as costas de Angola e de Moçambique, explorando as vastas regiões do interior situadas entre estes dois territórios e descrevem-na no livro em dois volumes: de Angola à Contra-Costa. Tendo partido para essa missão a 6 de Janeiro de 1884 haveriam de regressar a 20 de Setembro de 1885 sendo recebidos triunfalmente pelo rei D. Luís. Mapa Cor-de-Rosa O chamado Mapa cor-de-rosa seria o documento representativo da pretensão de Portugal de soberania sobre os territórios sitos entre Angola e Moçambique, nos quais hoje se situam a Zâmbia, o Zimbabwe e o Malawi. A disputa com a Grã-Bretanha sobre estes territórios levou ao ultimato britânico de 1890, a que Portugal cedeu, causando sérios danos à imagem do governo monárquico português. Predominando em Portugal a visão colonial que assentava ainda nos direitos históricos, o governo português começou por reclamar áreas cada vez maiores do continente africano, entrando em colisão com as restantes potências europeias, o que levou a um agudizar de tensões, enquanto eram desenvolvidos esforços para uma ocupação efectiva do território. Nesse contexto, a Sociedade de Geografia de Lisboa, defendendo a necessidade de formar uma barreira às intenções expansionistas britânicas que pretendiam a soberania sobre um território que, do Sudão, se prolongasse até ao Cabo pelo interior da África, organizou uma subscrição permanente para manter estações civilizadoras na zona de influência portuguesa do interior do continente, definida num mapa como uma ampla faixa da costa à contra-costa, ligando Angola a Moçambique. Nascia assim, ainda sem sanção oficial, o chamado "Mapa Cor-de-Rosa". Em 1884 a aceitação unilateral pela Grã-Bretanha das reivindicações portuguesas ao controlo da foz do rio Congo levou ao agudizar dos conflitos com as potências europeias rivais. Convocada uma conferência internacional, a Conferência de Berlim (1884–1885), para dirimir os múltiplos conflitos existentes e fixar as zonas de influência de cada potência em África, assistiu-se a um entendimento entre a França e Alemanha, face a uma atitude conciliatória da Grã-Bretanha, que abandonou totalmente o seu anterior entendimento com Portugal. O resultado foi a partilha do continente entre as potências europeias e o estabelecimento de novas regras para a corrida à África. Portugal foi o grande derrotado da Conferência de Berlim pois, para além de assistir à recusa do direito histórico como critério de ocupação de território, foi ainda obrigado a aceitar o princípio da livre navegação dos rios internacionais (aplicando-se ao Congo, ao Zambeze e ao Rovuma em território tradicionalmente português), e perdeu o controlo da foz do Congo, ficando só com o pequeno enclave de Cabinda. Após o choque da Conferência de Berlim, em Portugal percebeu-se a urgência de delimitar as possessões em África. Logo em 1885, começaram negociações com a França e a Alemanha para delimitar as fronteiras dos territórios portugueses. O tratado com a França foi assinado em 1886. Nele foi incluído, como anexo, a primeira versão oficial do "mapa cor-de-rosa", apesar da França não ter interesses naquele território. No tratado com a Alemanha, concluído em 1887, o mapa "mapa cor-de-rosa" foi novamente apenso, sendo apresentado às Cortes como a versão oficial das pretensões territoriais portuguesas. Contudo, no tratado assinado, a Alemanha apenas garantiu que não tinha pretensões directas na zona. Informada desta pretensão portuguesa, a Grã-Bretanha reagiu de imediato informando a Portugal ser nulo o pretenso reconhecimento francês e alemão do "mapa cor-de-rosa", pois aquelas potências nunca tiveram interesses na zona. O governo português, que necessitava do acordo britânico (a Grã-Bretanha era a super-potência do tempo) para a delimitação de fronteiras, resolveu atrasar a negociação, fazendo saber que as suas pretensões eram efectivamente as do "mapa cor-de-rosa", que entretanto se tinha transformado num documento com ampla divulgação pública e objecto de arraigadas paixões patrióticas (a designação de "mapa cor-de-rosa" nasceu nesta altura dado o mapa enviado ao parlamento apresentar os territórios em disputa aguados com esta cor). Barros Gomes, o responsável pela política colonial da época, aparentemente apostou no atraso inglês no controlo efectivo das áreas disputadas e organizou expedições portuguesas que percorreram as zonas em disputa e assinaram dezenas de tratados de vassalagem com os povos autóctones. O plano era secreto mas a espionagem britânica estava a par dele desde o primeiro momento, graças a um informador que tinha no próprio gabinete de Barros Gomes. Após o desfecho do ultimato britânico de 1890 foi afirmado que o governo português em 1888 não assumia por completo as pretensões do "mapa cor-de-rosa", tendo-o utilizado apenas como base para negociações com Londres. Estaria então disposto a ceder à Grã-Bretanha o norte do Transvaal (o país dos Matabeles), retendo apenas o sul do lago Niassa e o planalto de Manica, por temer que a cedência daqueles territórios, para além de impedir a ligação costa a costa, conduzisse à livre navegação no rio Zambeze, podendo retalhar Moçambique. Procurando o apoio do Transvaal e da Alemanha, o governo português procurou convencer o chanceler Bismarck que era do interesse bóer e alemão entregar a zona central de África a um terceiro poder de modo criar uma comunidade de interesses que obrigasse a Inglaterra a cedências. Prosseguindo uma política de aproximação aos interesses bóer, o governo português retirou à Inglaterra o controlo do caminho-de-ferro de Lourenço Marques expropriando em meados de 1889 a companhia inglesa que o controlava. O Transvaal, em contrapartida, assinou pouco depois um acordo de tarifas aduaneiras e acedeu na fixação do traçado definitivo da fronteira com Moçambique. Considerando injusta e injustificável a expropriação do caminho-de-ferro, a Grã-Bretanha reclamou de imediato, com o apoio dos Estados Unidos da América, pedindo uma arbitragem internacional, que Portugal recusou. Iniciou-se uma grande campanha de imprensa contra Portugal, que criou as condições políticas para a ruptura. O resultado foi o ultimato britânico de 11 de Janeiro de 1890 sendo exigido a Portugal a retirada de toda a zona disputada sob pena de serem cortadas as relações diplomáticas. Isolado, Portugal protestou mas seguiu-se a inevitável cedência e recuo. E assim acabou o "mapa cor-de-rosa", mas não sem que antes tivesse deixado um legado de humilhação nacional e frustração (bem patente no Finis Patriae de Guerra Junqueiro) que haveria de marcar Portugal durante muitas décadas. Na sequência deste episódio, Alfredo Keil compôs a portuguesa (Hino Nacional Português). Ponte Maria Pia A primeira grande obra de Gustavo Eiffel é um arco biarticulado que suporta o tabuleiro ferroviário de via simples através de pilares em treliça. Iniciaram-se os trabalhos em 5 de Janeiro de 1876 e foram concluídos a 31 de Outubro do ano seguinte. A inauguração solene deu-se a 4 de Novembro de 1877 pelos Reis D. Luís e D. Maria Pia de quem tomou o nome. A ponte esteve em serviço durante 114 anos até à entrada em serviço da Ponte de S. João em 1991. Ponte Luís I Por proposta de Lei de 11/02/1879 o governo determina a abertura de concurso para a “construção de uma ponte metálica sobre o rio Douro, no local que se julgar mais conveniente em frente da cidade do Porto, para a substituição da actual ponte pênsil”. Foi vencedora a proposta da empresa belga Société de Willebroeck, com projecto do Engenheiro Teófilo Seyrig. Teófilo Seyrig que, já fora o autor da concepção e chefe da equipa de projecto da Ponte Maria Pia, enquanto sócio de Eiffel, assina como único responsável a nova e grandiosa Ponte Luís I. A construção iniciou-se em 1881 e foi inaugurada em 31 de Outubro de 1886. O arco mede 172 m de corda e tem 44,6 m de flecha.

D. Carlos I - O Diplomata- 33º Rei de Portugal 1863-1908 Reinou 19 anos

Estava o governo português executando a posse efectiva conhecida por mapa-cor-de-rosa. A Inglaterra, porém, declarando não reconhecer esses direitos, envia-nos a 11 de Janeiro de 1890, um ultimato no qual exigia a retirada imediata das nossas forças de ocupação e reclamava para si a posse daquela região. Portugal, perante a ameaça de uma guerra, donde podiam resultar ainda maiores dissabores, cedeu à imposição. Em 11 de Janeiro de 1890 o governo inglês envia um célebre "memorandum" ao governo português que não só faz deitar por terra o nosso sonho de constituir a África Meridional Portuguesa (assinalada no "Mapa Cor de Rosa", de 1886) como, pela demonstração de incapacidade política de resistir às pretensões da Inglaterra, anuncia o princípio de uma série de acontecimentos que vão ser nefastos para a continuidade do regime monárquico constitucional. Com efeito o Governo de S.M. exige nesse memorandum "que se enviem instruções telegráficas imediatas para que todas e quaisquer forças militares portuguesas actualmente no Chire e nos países dos Mokololos e Machonos se retirem" e ameaça ainda que, se uma resposta satisfatória não for dada pelo governo português nessa mesma tarde, a delegação inglesa em Lisboa, abandonará o nosso País. O rei D. Carlos reúne à pressa o Conselho de Estado e responde de imediato: "Na presença de uma ruptura iminente de relações com a Grã-Bretanha e de todas as consequências que dela poderiam talvez derivar, o Governo de S.M. resolveu ceder às exigências formuladas (...) e vai expedir para o Governo Geral de Moçambique as ordens exigidas pela Grã-Bretanha". Houve manifestação públicas de grande indignação e Basílio Teles escreveu mesmo que "este dia valeu séculos e anuncia um futuro perturbante", atribuindo a humilhação "à incapacidade e cobardia dos governos do regime". Sucedem-se em Lisboa as demonstrações de revolta pela afronta inglesa e os jornais invectivam o governo do partido Progressista que é obrigado a demitir-se, sendo de imediato substituído por um governo do partido Regenerador. Lança-se uma subscrição nacional para a compra de navios de guerra (que só chegou para a compra do "Adamastor") lança-se o boicote aos produtos ingleses e o espírito do momento é passado para a letra e música da "Portuguesa" que virá a ser o futuro hino nacional. Existia no interior de Moçambique, um poderoso régulo, chamado Gungunhana, chefe dos vátuas, que por vezes se revoltava contra a nossa soberania. Em 1894, ordenou o governo de Portugal operações militares para abaterem o poderio de tão irrequieto potentado, que é vencido em Marraquene, por Caldas Xavier; Magul, por Freire de Andrade; e Cooleta, por Eduardo Galhardo. Em 1895, organiza-se nova expedição, e os vátuas são definitivamente submetidos pelo capitão Mousinho de Albuquerque, que consegue, por último, aprisionar p célebre Gungunhana em Chaimite. Também em Angola: Em 1890. foi preso o soba do Bié por Artur de Paiva e Paiva Couceiro; em 1902 realiza-se a campanha do Bailundo, levada a efeito por Massano de Amorim; em 1904 efectua-se a 1ª campanha contra os cuamatas, chefiada por João Maria de Aguiar e Paiva Couceiro; e em 1907 é organizada a 2ª campanha contra os cuamatas, tendo sido estes definitivamente derrotados e submetidos pelo capitão Alves Roçadas. Entretanto, o País inteiro vibrava de indignação contra o ultimato inglês. O descontentamento era geral. Os republicanos, aproveitando a oportunidade, trataram de fazer uma grande propaganda contra o regime monárquico, a que atribuíram a causa do nosso fracasso político. Este ambiente serviu aos revolucionários para, com o fim de ser implantada a República, fazerem estalar no Porto, no dia 31 de Janeiro de 1891, uma revolução, que foi dominada no mesmo dia. A revolta de 31 de Janeiro de 1891 foi a primeira tentativa de implantação do regime republicano em Portugal. As novas ideias do republicanismo começam a proliferar no país. O Porto é uma cidade pujante, fortemente industrializada, nomeadamente nas áreas do vinho, metalomecânica, têxteis e calçado. São construídas as pontes D. Maria e D. Luíz I. É a cidade que elege o primeiro deputado republicano do país, Rodrigues de Freitas. Em 1886, são organizadas greves a que aderem milhares de portuenses. O ultimato inglês acentua o descontentamento generalizado e o sentimento patriótico dos portugueses. Com este sentimento surge o desejo de mudar de sistema político. A crise de governo que se viveu no período, exaltou os ânimos dos militares da guarnição do Porto, que com o apoio das Forças Armadas, a 31 de Janeiro, promoveram a primeira revolução republicana. Mas, sem o apoio das forças políticas, nem da generalidade dos militares, os revoltosos tiveram que capitular perante a superioridade das forças fiéis à monarquia. Os anos que se seguiram à revolta não foram favoráveis ao Porto. Os bancos perdem capacidade de emitir moeda e, em 1899, a cidade é invadida por uma peste bubónica. Mas a propaganda republicana continuava a fazer-se a todo o transe. Os partidos políticos da Monarquia, em vez de se unirem, guerreavam-se. Não havia ordem nem autoridade. Os governos não tinham estabilidade. D. Carlos, atendendo a esta confusão política e social, chamou ao poder o conselheiro João Franco que, dissolvendo o parlamento, começou a governar em ditadura. Os ódios e as intrigas aumentavam entre os inimigos do regime, que discordavam da nova orientação governativa. Deu-se então um crime monstruoso: o assassínio de D. Carlos e do Príncipe herdeiro, D. Luís Filipe , no Terreiro do Paço, quando no dia 1 de Fevereiro de 1908, regressavam de Vila Viçosa , com a Família Real. Em virtude deste lamentável e repugnante acontecimento, subiu ao trono o Infante D. Manuel, filho segundo de D. Carlos. Rainha D. Amélia D. Carlos I Penúltimo rei de Portugal, filho de Luís I e de D. Maria Pia de Sabóia. O seu reinado, que se iniciou em 1889, decorreu todo ele num ambiente efervescente e foi marcado por uma série de acontecimentos dramáticos: - Ultimato inglês, motivado pelo célebre mapa cor-de-rosa»; - revolução republicana de 31 de Janeiro; - recrudescimento das lutas políticas entre republicanos, que aumentavam continuamente, e monárquicos, numa posição cada vez mais fraca; - ditadura de João Franco; -revoltas por todo o ultramar, desde a Guiné a Timor, e consequente repressão a que estão ligados os nomes de Mouzinho de Albuquerque, em Moçambique, Alves Roçadas, em Angola, e infante D. Afonso, na Índia; - nova tentativa revolucionária gorada, em 21 de Janeiro de 1908; - e, finalmente, em Fevereiro desse mesmo ano, morte de D. Carlos e de seu filho D. Luís Filipe, no Terreiro do Paço, alvejados a tiro por revolucionários. Ficha genealógica: D. Carlos nasceu no Palácio da Ajuda, a 28 de Setembro de 1863, recebendo o nome de Carlos Fernando Luís Maria Vítor Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis José Simão e morreu assassinado em Lisboa, a 1 de Fevereiro de 1908, sendo sepultado no Panteão Real de S. Vicente de Fora. Casou em Maio de 1886 com a princesa Maria Amélia Luísa Helena (n. em Twickenham, na Inglaterra, a 28 de Setembro de 1865; f. em Versalhes, a 25 de Outubro de 1951), filha de Luís Filipe Alberto, conde de Paris e duque de Orleães, e de sua esposa, Maria Isabel Francisca de Assis, infanta de Espanha. Do casamento nasceram: 1. D. Luís Filipe (n. no Palácio de Belém, a 21 de Março de 1887; f. assassinado em Lisboa, a 1 de Fevereiro de 1908; sepultado no Panteão Real de S. Vicente de Fora). Chamava-se Luís Filipe Maria Carlos Amélio Francisco Vítor Manuel António Lourenço Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis Bento e usava os títulos reais de príncipe da Beira e duque de Bragança e da Saxónia. Foi jurado príncipe herdeiro do trono em Julho de 1901 e a partir de 13 de Abril de 1906 passou a fazer parte do Conselho de Estado. 2. D. Maria Ana (n. no Paço Ducal de Vila Viçosa, de parto prematuro, a 14 de Dezembro de 1887; morreu com poucas horas de vida; sepultada no Panteão Real de S. Vicente de Fora). 3. D. Manuel II, que sucedeu no trono. Fontes: Joel Serrão - Pequeno Dicionário de História de Portugal, Lisboa, Iniciativas Editoriais, 1976 Joaquim Veríssimo Serrão - História de Portugal, Volume X - Lisboa, Verbo, 1986 Regicídio de 1908 O Regicídio de 1 de Fevereiro de 1908, ocorrido na Praça do Comércio (mais conhecida por Terreiro do Paço), em Lisboa, marcou profundamente a História de Portugal, uma vez que dele resultou a morte do Rei D.Carlos e do seu filho e herdeiro, o Príncipe Real D.Luís Filipe. O atentado ficou-se a dever ao progressivo desgaste do sistema político português, vigente desde a Regeneração, em parte devido à erosão política originada pela alternância de dois partidos no Poder: o Progressista e o Regenerador. O Rei, como árbitro do sistema político, papel que lhe era atribuído pela constituição, havia designado João Franco para o lugar de Presidente do Conselho de Ministros (chefe do Governo). Este, dissidente do Partido Regenerador, solicitou ao Rei o encerramento do Parlamento para poder implementar uma série de medidas com vista à moralização da vida política. Com esta medida acirrou-se toda a oposição, não só a republicana (bastante activa em Lisboa), mas também a monárquica, liderada pelos políticos rivais de Franco. O Rei tornou-se então no alvo de todas as críticas, que acusavam Franco de governar em Ditadura. A questão dos Adiantamentos à Casa Real (regilarização das dívidas régias ao estado, sendo que a Lista Civil da Casa Real não era revista há mais de cinquenta anos), e a assinatura do Decreto de 30 de Janeiro de 1908, que previa a expulsão sumária para as colónias dos envolvidos numa intentona republicana ocorrida dois dias antes, precipitaram os acontecimentos. O Rei, a Rainha e o Príncipe Real encontravam-se então em Vila Viçosa, no Alentejo, onde costumavam passar uma temporada de caça no inverno. Os acontecimentos acima descritos levaram D.Carlos a antecipar o regresso a Lisboa, tomando o comboio, na estação de Vila Viçosa, na manhã do dia 1 de Fevereiro. A comitiva régia chegou ao Barreiro ao final da tarde, onde tomou o vapor D.Luís, com destino ao Terreiro do Paço, em Lisbou, onde desembarcaram, na Estação Fluvial Sul e Sueste, por volta das 17 horas da tarde. Apesar do clima de grande tensão, o rei optou por seguir em carruagem aberta, com uma reduzida escolta, para demonstrar normalidade. Enquanto saudavam a multidão presente na Praça, a carruagem foi atacada por vários disparos. Um tiro de carabina atravessou o pescoço do Rei, matando-o imediatamente. Seguiram-se vários disparos, sendo que o Príncipe Real conseguiu ainda alvejar um dos atacantes, sendo em seguida atingido na face por um outro disparo. A rainha, de pé, defende-se com o ramo de flores que lhe fora oferecido, fustigando um dos atacantes, que subira o estribo da carruagem. O infante D.Manuel é também atingido num braço. Dois dos regicidas, Manuel Buíça, professor primário expulso do Exército e Alfredo Costa, empregado do comércio e editor de obras de escândalo, são mortos no local. Outros fogem. A carruagem entra no Arsenal da Marinha, onde se verifica o óbito do Rei e o do Herdeiro do Trono, não se tendo praticado autópsias O infante sobrevivente, D.Manuel II, reinaria até 1910. Após o atentado, pediu a demissão o Governo de João Franco, que não impedira a morte do Rei. O Governo "de Acalmação" lançou um rigoroso inquérito, primeiro presidido pelos juízes Alves Ferreira e depois por José da Silva Monteiro e dr. Almeida e Azevedo que ao longo dos dois anos seguintes veio a apurar que o atentado, fora cometido por membros da Carbonária, que pretendia liquidar a Monarquia. O processo de investigação estava concluído nas vésperas do 5 de Outubro. Entretanto, tinham sido descobertos mais suspeitos do assassinato como Alberto Costa (Pad Zé), Aquilino Ribeiro, Virgílio de Sá, Domingos Fernandes e outros. Alguns dos elementos estavam refugiado no Brasil e em França, e dois pelo menos foram mortos pela Carbonária. O regicídio de 1908 acabou por abreviar a monarquia ao colocar no trono o jovem D.Manuel II e lançando os partidos monárquicos uns contra os outros, com gáudio dos republicanos. A Europa ficou revoltada com este atentado, uma vez que D.Carlos era estimado pelos restantes chefes de estado europeus. Logo a seguir à proclamação da República, o Juiz Almeida e Azevedo entregou o referido processo ao Dr. José Barbosa, membro do Governo provisório que o levou a Afonso Costa, Ministro da Justiça do Governo Provisório. Regicídio - (Do diário de D. Manuel II) «No dia 1 de Fevereiro regressavam suas Majestades EI-Rei D. Carlos I, a rainha, a Senhora Dona Amélia, e Sua Alteza o Príncipe Real, de Vila Viçosa onde ainda tinham ficado. Eu tinha vindo cedo (uns dias antes) por causa dos meus estudos de preparação para a Escola Naval. [...] Na capital estava tudo num estado de excitação extraordinária. [...] Depois do almoço estive a tocar piano muito contente porque naquele dia dava-se pela primeira vez o Tristão e Isolda de Wagner no teatro de S. Carlos. [...] Pouco depois recebi um telegrama da minha adorada Mãe dizendo-me que tinha havido um descarrilamento na Casa Branca, que não tinha acontecido nada, mas que vinham com três quartos de hora de atraso. [...] Dei graças a Deus, mas nem me passou pela mente, como bem se pode calcular, o que havia de acontecer. [...J «Um pouco depois das 4 horas sal do Paço das Necessidades num landau com o visconde de Asseca em direcção ao Terreiro do Paço. [...] Finalmente chegou o barco em que vinham meus pais e meu irmão. Abracei-os e viemos seguindo até à porta [...], entrámos para a carruagem os quatro. No fundo a minha adorada Mãe dando a esquerda ao meu pobre Pai. O meu chorado Irmão diante do meu Pai e eu diante da minha Mãe. O que agora vou escrever é o que me custa mais: ao pensar no momento horroroso que passei confundem-se-me as ideias. Que tarde e que noite mais atroz! Saímos da estação bastante devagar. Minha Mãe vinha-me a contar como se passou o descarrilamento na Casa Branca quando se ouviu o primeiro tiro no meio do Terreiro do Paço, mas que eu não ouvi. Era sem dúvida o sinal para começar aquela monstruosidade. [...] «Eu estava olhando para o lado da estátua de D. José e vi um homem de barba preta com um grande gabão. Vi esse homem abrir a capa e tirar uma carabina. Estava tão longe de pensar num horror destes que disse para mim mesmo: «Que má brincadeira.» O homem saiu do passeio e veio pôr-se atrás da carruagem e começou a fazer fogo. [...] Logo depois de o Buiça ter feito fogo (que eu não sei se acertou) começou uma perfeita fuzilada como numa batida às feras. [...] Saiu de baixo da arcada do Ministério um outro homem que desfechou uns poucos de tiros à queima-roupa sobre o meu pobre Pai. Uma das balas entrou pelas costas e outra pela nuca, o que o matou instantaneamente. [...] Depois disto não me lembro quase do resto: foi tão rápido! Lembro-me perfeitamente de ver minha adorada e heróica Mãe de pé na carruagem com um ramo de flores na mão gritando àqueles malvados animais: "Infames, infames." «A confusão era enorme. [...] Vi o meu Irmão em pé dentro da carruagem com uma pistola na mão. [...] «De repente, já na rua do Arsenal, olhei para o meu queridíssimo Irmão. Vi-o caído para o lado direito com uma ferida enorme na face esquerda, de onde o sangue jorrava como de uma fonte. Tirei um lenço da algibeira para ver se lhe estancava o sangue. Mas que podia eu fazer? O lenço ficou logo como uma esponja. [...] Eu também fui ferido num braço por uma bala. Faz o efeito de uma pancada e um pouco de uma chicotada. [...] «Agora que penso neste pavoroso dia e no medonho atentado parece-me e tenho quase a certeza (não quero afirmar porque nestes momentos angustiosos perde-se a noção das coisas) que eu escapei por ter feito um movimento instintivo para o lado esquerdo. [...]» O regicida Buiça O regicídio Na madrugada do dia 1 de Fevereiro de 1908, Manuel Buíça reúne-se com Alfredo Costa e outros carbonários na Quinta do Xexé, aos Olivais, onde planeiam o atentado. No mesmo dia pelas cinco horas da tarde: almoça com Alfredo Costa e mais três desconhecidos, numa mesa a um canto do Café Gelo, que fica perto da porta para a cozinha; saiem estes para dar lugar a um outro que se senta à mesma mesa, com quem os regicidas conversam baixo. Consta que durante esta conversa Buíça terá dito, em tom jocoso, a um outro freguês do mesmo café sentado numa mesa à parte, o seguinte dito muito banal na altura: “Estamos aqui, estamos em Timor...”, relacionado já com a empresa que ia tomar em mãos. Findo o diálogo, Buíça é o primeiro a se levantar, diz aos outros dois que vai buscar o varino e o resto, seria muito provavelmente a carabina winchester, modelo 1907, nº 2137, importada da Alemanha por Heitor Ferreira; com que alvejaria dali a algumas horas o rei Dom Carlos I e o princípe-herdeiro D.Luís Filipe. Pelas quatro horas da tarde, do mesmo dia, Manuel Buíça com: Domingos Ribeiro e José Maria Nunes, posiciona-se no Terreiro do Paço, perto da estátua de D. José, ficando o primeiro perto duma árvore, frente ao Ministério do Reino, junto a um quiosque. Alfredo Costa, Fabrício de Lemos e Ximenes assumem posições debaixo da arcada do mesmo ministério; os seis aguardam a chegada do monarca. Misturados com a população que espera o desembarque da família real, acompanham atentamente a atracagem do navio a vapor: D. Luís, onde seguia a mesma. Sensivelmente às cinco horas e vinte minutos, Manuel Buíça, avançando da placa central do Terreiro do Paço, a cinco ou oito metros de distância do landau régio, descobre a carabina, assenta um joelho em terra e abre fogo à retaguarda do mesmo: atinge o rei no pescoço, partindo-lhe a coluna vertebral, que o vitima instantaneamente; Buíça alveja o rei uma segunda vez, desta feita, no ombro esquerdo. No príncipe herdeiro também é desfechado um projéctil, que lhe atravessa a face esquerda, saindo-lhe pela nuca. Finalmente, o Tenente Figueira, que escoltava o landau real, abate Manuel Buíça com uma estocada, não sem antes ser ainda atingido por este numa coxa.

D. Manuel II -O Patriota - 34º e Ultimo Reide Portugal 1889-1932 Reinou 2 anos

D. Manuel II foi aclamado em Maio de 1908, mas seu reinado foi curto, pois durou pouco mais de 2 anos. Em 1910, foram completamente ocupados e submetidos por joão de Almeida os territórios dos Gambos, do Pocolo e Cuanhama. Em Moçambique, no mesmo ano, é levada a cabo a submissão de Angoche, por Massano de Amorim. Com o assassinato do rei D. Carlos e de seu filho D. Luís Filipe, a Monarquia ficou agonizante. Os partidários dinásticos continuavam a guerrear-se. Entretanto, o partido republicano ia fazendo a propaganda, engrossando as suas fileiras. No dia 4 de Outubro de 1910 rebentou em Lisboa uma revolução chefiada por Machado dos Santos, a qual, no dia seguinte, saía triunfante com a Proclamação da República. A Família Real embarcou na Ericeira (perto de Mafra / Sintra) e abandonou o País, tendo ido viver para as proximidades de Londres. Com esta nova forma de governo terminou a dinastia de Bragança e foi abolida a Monarquia. 5 de Outubro de 1910 Na noite de 4 para 5 de Outubro de 1910 eclodiu em Lisboa um movimento revolucionário, que culminaria com a proclamação da República em Portugal. O rei D. Manuel 2º, que nessa noite oferecera um banquete em honra do Presidente da República do Brasil (Dr. Afonso Pena), no Palácio das Necessidades (hoje Ministério dos Negócios Estrangeiros). Foi aí que o monarca português foi surpreendido pelo inesperado acontecimento. Enquanto o ilustre visitante, assustado com o tiroteio, corria a refugiar-se no seu navio São Paulo, o rei permaneceu no palácio, procurando entrar em contacto com o seu Governo. Foi então que soube que diversos regimentos, entre eles o de Artilharia 1, tinham aderido já ao movimento. No Regimento de Infantaria 16, havia também alguns aderentes que, abrindo as portas aos civis e matando o coronel Pedro Celestino da Costa e o capitão Barros, acabaram por sair para a rua, dando vivas à república, e dirigindo-se a Artilharia 1, onde o povo também entrara. Este regimento fora o centro da revolução, que se estendia agora ao Bairro de Alcântara. Um grupo de civis, dirigiu-se para o Quartel da Marinha, quase em frente do Palácio das Necessidades, onde os marinheiros aguardavam os civis, tendo o comandante do corpo de marinheiros sido ferido, ao tentar baldadamente evitar a rebelião. Entretanto, os membros da comissão revolucionária estavam reunidos em casa de Inocêncio Camacho. A revolução estalava por todos os lados, tanto nos regimentos como na rua. Muitos civis armados batiam-se corajosamente. Do lado do Governo, tudo era indecisões, não tomando medidas concretas. Apenas o capitão Paiva Couceiro, com os seus soldados, aparecia a dar combate aos revoltosos. O tiroteio continuava, cada vez mais vivo. O Governo, desorientado, pediu pelo telefone a D. Manuel 2º que retirasse para Mafra, onde se lhe juntou, no dia seguinte, a rainha-mãe, D. Amélia de Orleans e Bragança, que estava no Palácio da Pena, em Sintra. Às duas horas da tarde, chegou a Mafra a notícia da proclamação da República em Lisboa e a constituição do governo provisório, presidido pelo Dr. Teófilo Braga. A revolução republicana triunfara. A Família Real dirigiu-se para a Ericeira e embarcou para Gibraltar onde um barco de guerra inglês os transportou até ao exílio, em Inglaterra. A revolução correu todo o País e, dentro em pouco, sem grandes resistências, a República era proclamada em todas as capitais de distrito. D. Manuel II parte para o exilio Embarque da Família Real. O episódio da fuga de D. Manuel II para o exílio, da Praia dos Pescadores, na Ericeira, tornou-se num marco da história da vila no último século. Eram cerca das 15 horas do dia 5 de Outubro de 1910 quando D. Manuel II, então com 20 anos, acompanhado da mãe, a rainha D. Amélia, e da avó, a Rainha D.Maria Pia, vindos de Mafra, surgiram de automóvel na vila para embarcarem no Iate D. Amélia, fugidos da revolução republicana que estalara na véspera em Lisboa. Os pormenores do que se passou naquele dia na Ericeira são-nos relatados por Júlio Ivo, presidente da Câmara Municipal de Mafra no tempo de Sidónio Pais, e que em 1928 inquiriu a população da vila:"(...) os automóveis pararam e apeou-se a Família Real, seguindo da rua do Norte para a rua de Baixo, pela estreita travessa que liga as duas ruas, em frente quase da travessa da Estrela (...) Ao entrar na rua de Baixo, a Família Real ia na seguinte ordem: na frente El-Rei D. Manuel; a seguir, D. Maria Pia, depois, D. Amélia (...) El-Rei e quem os acompanhava subiram para a barca, valendo-se de caixotes e cestos de peixe (...) O sinaleiro fez sinal com o chapéu, e a primeira barca, Bomfim, levando a bandeira azul e branca na popa, entrou na água e seguiu a remos, conduzindo El-Rei (...) A afluência nas Ribas era imensa. Tudo silencioso, mas de muitos olhos corriam lágrimas (...) El-Rei ia muito pálido, D Amélia com ânimo, D. Maria Pia, acabrunhada (...) Ainda as barcas não tinham atracado ao iate, apareceu na vila, vindo do lado de Sintra, um automóvel com revolucionários civis, armados de carabinas e munidos de bombas, que disseram ser para atirar para a praia se tivessem chegado a tempo do embarque (...)". D. Manuel II Nasceu em Lisboa e morreu em Inglaterra. Foi o último monarca de Portugal tendo governado de 1908 a 1910. Filho de D. Carlos e de D. Amélia de Orleães. Devido ao regicídio e morte violenta do príncipe real D. Luís Filipe, começou a reinar (1-2-1908). Reunido o Conselho de Estado, nomeou-se um governo de concentração partidária, com excepção dos partidários do anterior ditador Franco. Na política interna, teve que enfrentar dois problemas, que puseram em descrédito a política governamental: a questão Hilton, provocada pelo súbdito inglês, residente na Madeira, que reclamava uma indemnização do Estado Português, em virtude de uma pretensa revogação do monopólio do açúcar e do álcool da ilha da Madeira, e também a do Crédito Predial, provocada pelo desfalque naquela instituição. D. Manuel II procurou ir ao encontro das reivindicações operárias, chamando Léon Poinsard para estudar as possibilidades duma reforma das condições económicas e sociais do país. Duplicou o número de deputados republicanos por Lisboa no ano de 1910. Com efeito nas eleições municipais de Lisboa de 1908, os Republicanos elegeram uma câmara municipal de 100% sua e nas eleições de 1910 os Republicanos ganharam em Lisboa e em vários círculos. D. Manuel constituiu assim um governo caracterizado pela transigência e brandura para os Republicanos. Em política externa procurou estabelecer boas relações com a Espanha e a Inglaterra. No dia 3 de Outubro de 1910 rebentou uma revolta republicana em Lisboa que triunfou em 5 de Outubro, e D. Manuel decide-se por Plymouth. No exílio manteve-se interessado pela política de Portugal, advogando a entrada do nosso país ao lado dos aliados na primeira guerra mundial. Por volta de 1914 os Monárquicos, aproveitando o governo mais tolerante de Bernardino Machado, formaram a causa Monárquica, que aspirava a estabelecer novamente o regime deposto. Gozava de toda a confiança e apoio do rei D. Manuel II, que nomeou um lugar-tenente (Azevedo Coutinho, Aires de Ornelas, etc.). Ficha genealógica: D. Manuel II nasceu. no Palácio de Belém, a 19 de Março de 1889; recebendo o nome de Manuel Maria Filipe Carlos Amélio Luís Miguel Rafael Gonzaga Xavier Francisco de Assis Eugénio, e morreu em Twickenham, Inglaterra, a 2 de Julho de 1932, tendo sido sepultado no Panteão Real de S. Vicente de Fora. Casou em 4 de Setembro de 1913 com a princesa Augusta Vitória (n. em Potsdam, a 19 de Julho de 1890; f. em data posterior a 1955), filha do príncipe Guilherme de Hohenzollern e de sua primeira mulher, Maria Teresa, princesa de Bourbon-Sicilias. O consórcio não teve descendência. Por morte de D. Manuel II, a viúva casou em segundas núpcias, no ano de 1939, com o nobre escocês Dr. Roberto Douglas, que faleceu em 25 de Agosto de 19552. Fontes: Joel Serrão - Pequeno Dicionário de História de Portugal, Lisboa, Iniciativas Editoriais, 1976 Joaquim Veríssimo Serrão - História de Portugal, Volume X - Lisboa, Verbo, 1986 Movimento revolucionário de 5 de Outubro de 1910 O movimento revolucionário de 5 de Outubro de 1910 deu-se em natural sequência da acção doutrinária e política que, desde a criação do Partido Republicano, em 1876, vinha sendo desenvolvida. Aumentando contraposição entre a República e a Monarquia, a propaganda republicana fora sabendo tirar partido de alguns factos históricos de repercussão popular: as comemorações do terceiro centenário da morte de Camões, em 1880, e o Ultimatum inglês, em 1890, fora aproveitados pelos defensores das doutrinas republicanas que se identificaram com os sentimentos nacionais e aspirações populares. Elias Garcia, Manuel Arriaga, Magalhães Lima, tal com o operário Agostinho da Silva (*), foram personagens importantes dos comícios de propaganda republicana, em 1880. O terceiro centenário da morte de Camões, foi comemorado com actos significativos — como o cortejo cívico que percorreu as ruas de Lisboa, no meio de grande entusiasmo popular e, também, a transladação dos restos mortais de Camões e Vasco da Gama para o Panteão Nacional. As luminárias e o ar de festa nacional que caracterizaram essas comemorações complementaram esse quadro de exaltação patriótica. Partira a ideia das comemorações camoneanas da Sociedade de Geografia de Lisboa, mas a execução coube a uma comissão de representantes da Imprensa de Lisboa, constituída pelo Visconde de Jorumenha, por Teófilo Braga, Ramalho Ortigão, Batalha Reis, Magalhães Lima e Pinheiro Chagas. E o Partido Republicano, ao qual pertenciam as figuras mais representativas da Comissão Executiva das comemorações do tricentenário camoneano, ganhou grande popularidade. A revolta Durante o breve reinado de D. Manuel II — que ascendeu ao trono logo após o atentado a D. Carlos, donde resultou também a morte do seu filho herdeiro Luís Filipe, Duque de Bragança —, o movimento republicano acentuou-se, chegando mesmo a ridicularizar a monarquia. A 3 de Outubro de 1910 estalou a revolta republicana que já se avizinhava no contexto da instabilidade política. Embora muitos envolvidos se tenham esquivado à participação — chegando mesmo a parecer que a revolta tinha falhado — foi também graças à incapacidade de resposta do Governo em reunir tropas que dominassem os cerca de duzentos revolucionários que resistiam de armas na mão. Comandava as forças monárquicas, em Lisboa, o General Manuel Rafael Gorjão Henriques, que se viu impotente para impedir a progressão das forças comandadas por Machado Santos. Com a adesão de alguns navios de guerra, o Governo rendia-se, os republicanos proclamavam a República, e D. Manuel II era exilado. (*) - George Agostinho Baptista da Silva nasceu no Porto em 1906, tendo-se ainda nesse ano mudado para Barca D'Alva (Figueira de Castelo Rodrigo), onde viveu até aos seus 6 anos. De 1924 a 1928, cursou Filologia Clássica na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Após concluir a licenciatura, começa a escrever para a revista Seara Nova, colaboração que manteve até 1938. Em 1931 parte como bolseiro para Paris, onde estuda na Sorbonne e no Collège de France. Após o seu regresso em 1933, leciona no ensino secundário em Aveiro até ao ano de 1935, altura em que é demitido do ensino oficial por se recusar a assinar a Lei Cabral, que obrigava todos os funcionários públicos a declararem por escrito que não participavam em organizações secretas (e como tal subversivas). Cria o Núcleo Pedagógico Antero de Quental em 1939, e em 1940 publica Iniciação: cadernos de informação cultural. É preso pela polícia política em 1943, abandonando o país no ano seguinte. Viveu no Brasil de 1947 a 1969, exilado no seguimento da sua oposição ao Estado Novo, na altura conduzido por Salazar. Em 1948, começa a trabalhar no Instituto Oswaldo Cruz do Rio de Janeiro, estudando entomologia, e ensina simultaneamente na Faculdade Fluminense de Filosofia. Colabora com Jaime Cortesão na pesquisa sobre Alexandre de Gusmão. De 1952 a 1954, ensina na Universidade Federal da Paraíba (em João Pessoa (Paraíba)) e também em Pernambuco. Em 1954, novamente com Jaime Cortesão, ajuda a organizar a Exposição do Quarto Centenário da Cidade de São Paulo. É um dos fundadores da Universidade de Santa Catarina, cria o Centro de Estudos Afro-Orientais, e ensina Filosofia do Teatro na Universidade Federal da Bahia, tornando-se em 1961 assessor para a política externa do presidente Jânio Quadros. Participou na criação da Universidade de Brasília e do seu Centro de Estudos Portugueses no ano de 1962 e, dois anos mais tarde, cria a Casa Paulo Dias Adorno em Cachoeira e idealiza o Museu do Atlântico Sul em Salvador. Regressa a Portugal em 1969, após a doença de Salazar e a sua substituição por Marcello Caetano, que deu origem a alguma abertura política e cultural do regime. Desde aí continuou a escrever e a leccionar em diversas universidades portuguesas, dirigido o Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade Técnica de Lisboa, e no papel de consultor do Instituto de Cultura e Língua Portuguesa (actual Instituto Camões). Em 1990, a RTP1 emitiu uma série de treze entrevistas com ele, denominadas Conversas Vadias. Morreu no Hospital de São Francisco Xavier, em Lisboa, no ano de 1994. Um documentário sobre ele, intitulado Agostinho da Silva: um pensamento vivo, foi realizado por João Rodrigues Mattos, e lançado pela Alfândega Filmes, in 2004. Existe uma entrevista, até ao momento não publicada, conduzida por António Escudeiro e chamada Agostinho por si próprio, na qual fala sobre a sua devoção ao Espírito Santo. É referenciado como um dos principais intelectuais portugueses do século XX. Entre outros livros publicados, constam uma biografia de Miguel Ângelo, Louis Pasteur e São Francisco de Assis. O seu livro mais influente será provavelmente Sete cartas a um jovem filósofo.